5. Analyse og drøfting
5.2. Forskningsspørsmål 2
Arroyo (2012, p. 28) chama a nossa atenção quando afirma que “assumir a precarização do viver das crianças, sobretudo a precarização dos seus corpos, pode significar avançarmos na afirmação de outras teorias e de outra ética profissional”. Nesse sentido, seria necessário um ato de alteridade para entendê-las e, a partir de então, rompermos com as maneiras sutis ou visíveis de exercermos poder sobre elas. Para o autor, o caminho de ruptura estaria em outras práticas pedagógicas, em outra produção teórica, em admitir outras verdades ao próprio olhar, pensar e educar a infância (2012, p. 15).
As maneiras sutis de disciplinar os corpos na Turma B. se revelaram na observação da organização de espaços e tempos, e nas tentativas de desconsiderar o pensamento infantil nas aulas. O que se viu foram “corpos controlados, silenciados, mas que falavam até quando silenciados” (ARROYO, 2012, p. 24).
O controle corporal foi um aspecto de destaque na observação. Um caso que chamou atenção foi H., um menino de seis anos, diagnosticado com hiperatividade, conforme sua explicação:
Eu estava sentada no meio do recreio das crianças, anotando algumas brincadeiras. H., de seis anos, sentou-se ao meu lado e disse: “Como é seu nome? Sabia que eu sou hiperativo?”.
E eu, surpresa, perguntei a ele o que era ser hiperativo. H.: “Aquelas crianças que não param sentadas”.
Insisti: “E você é assim? Não para sentado?”. H.: “Sim, eu tenho muita energia!”.
Eu continuei escrevendo, agora sobre ele, e ele usou novamente sua estratégia de acesso:
H.: “Ei, sabia que minha mãe vai me levar no psicólogo?”. Eu: “Por quê?”.
H.: “Já falei, porque sou hiperativo!”.
Eu: “E você, como se sente sendo hiperativo?”.
H.: “Eu gosto, porque tenho muita energia! Não consigo ficar sentado.”. Uma menina passou por nós e entrou na conversa, fazendo um gesto com dedos rodando em volta do ouvido, e disse que H. era louco. (Diário de campo, maio, 2013).
Cresceu o número de crianças dependentes químicas do metilfenidato (Ritalina) para controlar o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). Entre 2002 e 2003, a produção de metilfenidato duplicou, e no período de 2002 a 2006, cresceu mais de 400% (SILVA, LUZIO & SANTOS, 2012, p. 44). Segundo esses autores:
[...] a sociedade hipercinética é marcada pelos excessos, nesse sentido, o TDAH extrapola essa lógica da aceleração, pois essa ressoa na infância, adiantando características da vida adulta. Tornando-os indivíduos extemporâneos, estigmatizados por sua “precocidade”. E por estarem escapando à regra, é necessário reinseri-los no seu suposto/imposto lugar, de uma maneira rápida e eficaz, bem usual da contemporaneidade, e a Ritalina vem suprir tal necessidade. (SILVA; LUZIO & SANTOS, 2012, p. 50).
Se o diagnóstico de H. é correto ou não, não é o foco desta pesquisa. No entanto, é válido refletir sobre os rótulos que uma criança como ele recebe na escola. Como sua colega de sala o vê, provavelmente, pode ter vindo em consequência de comentários escutados por ela. Durante as observações, H. demonstrou muita interação com os colegas, falante e participante das brincadeiras em grupo. Diante do crescimento do uso da Ritalina, seria oportuno refletir, ainda, se a escola sabe como lidar com a necessidade das crianças em movimentar-se e
falar. A escola saberia lidar com as diferenças, como o caso de H., na forma com que ela organiza seus espaços e tempos?
Outro elemento importante é que a participação infantil na Turma B. é ocultada pela atuação dos adultos professores. Nos dias de observação, não houve participação das crianças na organização do espaço e dos materiais. As carteiras são enfileiradas e os materiais organizados pela professora e o manuseio é feito por ela na entrega de materiais e depósito:
Já estou vindo à escola há dois meses. Observei que a maioria das tarefas de sala de aula é realizada pela professora. Decoração dos espaços, colar desenhos, entregar materiais e cadernos, apagar o quadro, escrever no quadro são exemplos da centralização do papel do adulto em sala de aula. Nos dias observados, a professora realizou muitas atividades pelas crianças, como entregar agendas, orientar filas por ordem de tamanho, entregar as colas e os materiais, inclusive o álcool em gel para limpar as mãos e o lanche, por fila. (Diário de campo, abril, 2013).
A sala de aula é decorada pela professora e não há sinais das produções infantis nas paredes, totalmente ocupadas por cartazes com fim didático. Na parede, há um relógio parado e cartazes (cardápio, ajudantes do dia, rótulos do alfabeto) que não foram utilizados pelas crianças nos dias observados. (Diário de campo, fevereiro, 2013).
As atividades do livro estão desconectadas das atividades do caderno, porque os livros apresentam atividades mais criativas com quadrinhos, textos, cruzadinhas etc., e os cadernos apresentam preponderantemente atividades de repetição, como cópias. (Diário de campo, março, 2013).
Em cinco aulas onde se propôs atividades com desenhos, estes foram dados prontos, fotocopiados pelas professoras. Algumas professoras orientavam sobre cores padrão para pintura, como este exemplo:
A professora de Ensino Religioso entregou um desenho pronto e colou nos cadernos. A cola não foi na mão das crianças. A professora disse quais seriam as cores a serem utilizadas para pintar os desenhos. Elogiou uma criança e mostrou a pintura dela como modelo. (Diário de campo, março, 2013).
No trecho anterior, constata-se que o desenho foi feito pelo adulto, a cola foi usada pelo adulto e houve modelo para a pintura do desenho, impedindo a livre expressão e criação. Quando houve desenho livre, faltou a intervenção da professora na confecção e a socialização dos desenhos às outras crianças. As atividades artísticas eram realizadas no silêncio, individualmente.
Com exceção do uso da argila para modelar uma galinha, não se observou a utilização de outros materiais que não os escolares (papel, cola, lápis, borracha) ou uso de materiais tridimensionais, como maquetes, esculturas etc., contrariando o depoimento da Professora Aurora quando diz que “uma boa escola é aquela que tem profissionais capacitados, menos papel e mais ação”. Na Turma B. há muito papel (cadernos, livros e folhas de atividades) que ocupam todo o tempo das aulas.
Há controle rigoroso da disciplina e do corpo. A maioria das meninas fica calada durante a aula toda, numa posição de obediência aos comandos da professora. Não se ouviu muito a voz das meninas nas conversas paralelas, apenas nas dirigidas pela professora:
As meninas são silenciosas na sala de aula. De certa forma, elas protegem seu espaço com esta postura e são pouco solicitadas. Com referências à filiação da professora, não recebem chamadas de atenção por indisciplina. (Diário de campo, abril, 2013).
Numa tentativa de falar um pouco, uma menina foi repreendida pela professora, que a trocou de lugar. Percebi com este fato uma maior aceitação por parte da professora às atitudes dos meninos, porque eles fizeram mais barulho que a menina e nenhum precisou trocar de lugar. (Diário de campo, junho, 2013).
Observou-se que o constante controle corporal acalma os inquietos, mas reforça a apatia dos tímidos, que obedecem rapidamente:
A professora disse: “Fique quieto e beba seu leite”, e ele estava quieto, apenas disse que estava gostoso seu lanche. Há dias percebo um rigoroso controle corporal para não levantarem, conversarem ou olharem para os lados. Isso é tão automático para a professora, que mesmo quando o silêncio reina, ela fala “psiu”! (Diário de campo, maio, 2013).
Pareceu que os tímidos, principalmente as meninas, sentem-se confortáveis com essa regra, por não interagir com os demais. Um trecho do diário de campo demonstra essa dificuldade:
Pesquisadora: “Não consigo perceber participação espontânea nessa sala!” (Diário de campo, agosto, 2013).
Uma intervenção da professora aconteceu em uma das entrevistas, o que revelou o tanto que a criança imediatamente atende às suas ordens, mesmo fora de sala de aula:
Eu estava do lado de fora da sala entrevistando a criança que mora numa instituição de acolhimento. Ela estava mexendo em meu computador, sem me dar atenção, e eu deixei que ela mexesse, para me aproximar e tentar conversar com ela. A cada descoberta nos botões, ela olhava pra mim surpresa e sorrindo. Coloquei um vídeo pra ela assistir, com imagens de outra criança. Ela começou a se concentrar, depois voltou a mexer nos botões. A professora saiu de sala e, quando percebeu isso, chamou a atenção da criança, que imediatamente parou de mexer no computador e ficou imóvel me olhando. Até que ponto a rigorosidade sobre o controle das crianças faz com que expressões livres sejam tomadas como indisciplina no olhar da professora? (Diário de campo, abril de 2013).
Com a reação da criança respondendo prontamente ao comando de silêncio, percebe-se um ritual de obediência muito forte, exercido diariamente. A curiosidade da criança em explorar o novo, que naquele caso era o notebook, foi desconsiderada, sobreposta por um sistema de vigilância, segundo regras explícitas (FOUCAULT,1995, p. 244) que extrapolaram a sala de aula.
A referência à filiação com a professora Aurora é maior do que com as demais professoras, pelo fato de ser com quem se tem maior vínculo, conforme esse exemplo ocorrido na aula de ciências:
Quando entrei para assistir sua aula, ela disse às crianças: “Ela vai observar o comportamento de vocês, e vocês só vão falar com ela quando eu pedir”. Na aula, a professora seguiu o mesmo estilo da professora regente, utilizando livros e quadro, direcionando a atividade, com uma voz bem calma. As frases mais ditas na aula: “Psiu”; “Eu estou falando”; “Vira pra frente”; “Presta atenção”; “Fulano não entendeu as regras da sala? Vamos ter que conversar a parte”. A professora regente entrou na sala para pegar materiais, ela aproveitou e queixou-se de um aluno que, ao ver da professora, estaria atrapalhando a aula. A professora Aurora chamou a atenção dele, que permaneceu em silêncio o restante da aula. (Diário de campo, agosto, 2013).
Nesse caso, percebemos a repetição da postura de cobrança com as frases: “Psiu; Eu estou falando; vira pra frente; presta atenção; fulano não entendeu as regras da sala; Vamos ter que conversar a parte”. Percebemos também a autorização dada pela professora de ciências à Professora Aurora, para chamar a atenção de um aluno. Nesse caso, há um desafio para a criança entender qual o papel da professora de Ciências, se ela deve ser escutada, ou se quem deve ser escutada é a regente, mesmo sendo aula de Ciências.
A partir dos dados analisados, conclui-se que o rígido controle corporal e a forma com que se organiza o espaço são impeditivos para a participação infantil na
Turma B. e se sobrepõe aos conteúdos. Foucault (1991, p. 134) defende que esse modelo de escola “fez funcionar o espaço escolar como uma máquina de ensinar, mas também de vigiar, de hierarquizar, de recompensar”. Nesse sentido, é importante refletir em que medida o controle corporal contribui ou impede que a aprendizagem aconteça, e em nome de que o controle corporal se sobrepõe à participação da criança.