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Forskningsformål

In document FOR BUDSJETTERMINEN 2002 (sider 50-62)

Com a natação adaptada como contexto geral e o atleta David Grachat como centro de atenção, o filme documentário S9 – David Grachat (2011), do rea- lizador Felippe Gonçalves, apresenta uma narrativa de forte característica informacional que permite conhecer esse tipo de esporte. Os esportes adap- tados ganharam destaque nas últimas décadas, especialmente depois da criação das Paralimpíadas, em 1960, em Roma. Inicialmente os esportes vol- tados para pessoas com limitações físico-motoras estavam relacionados aos aspectos terapêuticos que proporcionavam, mas gradativamente ganharam contornos competitivos.

Logo no começo do filme há uma fala do entrevistado Jorge Vilela, vice- -presidente da Associação Nacional de Desporto para Deficientes Motores de Portugal, em que ele explica que, especialmente na natação, o trabalho com pessoas com limitações físico-motoras tende a começar muito cedo de- vido às possibilidades terapêuticas desse esporte. O efeito secundário é que muitos desses jovens acabam tornando-se atletas.

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Em termos esportivos, as limitações físico-motoras são classificadas em categorias e o título do documentário, S9 – David Grachat, indica, além do nome do atleta, a categoria na qual ele compete. A letra “S” vem da palavra em inglês swimming e o número 9 indica o grau de limitação físico-motora, sendo que a escala vai de S1 a S10 em sequência de limitações mais intensas para as menos intensas (Portal Brasil, 2016). Portanto, David Grachat é por- tador de um limitação físico-motora não muito severa, mas que ainda assim condiciona fundamentalmente sua vida.

Tal condição do protagonista é apresentada após vermos o título do filme, na cena em que David dirige pelas ruas de Lisboa, em direção ao seu local de treinamento, e quando ouvimos, em simultâneo, as palavras de Carlos Mota, treinador de David, que diz que o atleta começou a treinar com ele no ano 2000, quando tinha 13 anos de idade e ainda era um garoto indiscipli- nado. As imagens continuam acompanhando o deslocamento de David, que chega ao centro de treinamento, vai ao vestiário, arruma-se e dirige-se para a piscina. Enquanto isso o treinador dá o tom da evolução pessoal e atlética de David – que será o ponto de partida narrativo para o filme – pois afirma que, paulatinamente, o nadador tornou-se mais disciplinado, intensificou os treinos, teve apoio da família e chegou ao alto nível em que encontrava-se na época das filmagens.

S9 – David Grachat não é um filme de grande destaque formal ou estético, não busca na virtuose imagética ou sonora o seu caminho, mas encontra momentos especiais. Um deles é quando pela primeira vez vemos a destreza com que o atleta realiza ações cotidianas sem ter uma das mãos e parte de um antebraço. Há um plano no qual David está dentro da piscina colocando os óculos de natação, o enquadramento é limitado em baixo pelo chão e em cima pela plataforma de salto da piscina, criando um novo enquadramento, alongado. Essa imagem, bela e poderosa, é acompanhada pelo som da voz do treinador Carlos Mota que orienta David para que este nade 12 vezes 50 metros. Temos então o primeiro choque proporcionado por um filme muito direto, dado pela naturalidade da fala do técnico que aponta para um trei- namento exaustivo, em paralelo com a imagem que evidencia a limitação

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físico-motora de David, em um enquadramento com proporções de wides- creen e no qual o atleta está em primeiro plano, e ao fundo vemos a longa piscina que ele terá que percorrer 12 vezes.

Passamos então a saber, novamente pela voz do treinador, que “David treina onze ou doze quilômetros por dia.” Trata-se de um esportista de alto ren- dimento, que tem que enfrentar as dificuldades inerentes ao cotidiano de atletas – com limitações na vida social, restrições alimentares, pouco tempo livre – associadas às enormes dificuldades envoltas com o fato de possuir uma má formação congênita no braço esquerdo.

A estrutura narrativa do documentário trabalha, fundamentalmente, com as vozes daqueles que são entrevistados. Essas vozes são acompanhadas, em grande parte do tempo, por imagens que se relacionam com o que está sen- do dito. Em alguns momentos, notadamente nas passagens de um assunto para outro, temos sequências de planos que enfatizam ações e/ou descrições de ambientes, estas muitas vezes são acompanhadas por músicas. Assim S9 – David Grachat caracteriza-se como um documentário que centra seus esforços na carga informacional que leva ao público, por isso mesmo esse tipo de filme tende a ser chamado de documentário jornalístico, ainda que não necessariamente atendam as premissas gerais do jornalismo, exceto pela já citada ênfase na informação.

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Vale destacar que o caráter informacional aqui aludido é o que compreende-se como a capacidade que uma mensagem – seja ela escrita, visual, audiovi- sual, etc. – tem de eliminar dúvidas (Coelho Netto, 1980: 120). Portanto, se pensarmos em dois filmes documentários que tratem de limitações físico-motoras em atletas, por exemplo, e se apenas um deles oferece em sua narrativa condições de eliminar dúvidas sobre em que condições ocor- rem tais limitações, este terá mais informações do que o outro filme que não elimine tais dúvidas.

A ênfase na informação vai ao máximo quando o documentário apresenta o investigador em propulsão aquática, Daniel Marinho, que explica cienti- ficamente como uma deficiência física se transforma em limitação, não só no que se refere aos membros atingidos, mas também ao equilíbrio do cor- po como um todo e às demais complicações decorrentes da má formação. Segundo Marinho, as características do deslocamento humano na água e a dificuldade de David Grachat por não ter a mão esquerda e parte do antebra- ço exigem que ele tenha os gestos mais refinados ao nadar. Esse momento poderia ser um ponto negativo no filme, pois ao ser tão dedicado às informa- ções técnicas afasta-se da humanidade da vida de Grachat e aproxima-se de uma frieza científica. Porém, o realizador Felippe Gonçalves soube organi- zar o documentário em uma sequência narrativa que transita de uma fase inicial mais informacional, que sustenta a argumentação proposta, para uma fase final mais emocional, que traz destaque para aspectos da vida comum de Grachat.

A medida que o filme vai evoluindo, gradativamente passamos a tomar mais contato com a perspectiva de David Grachat sobre o que ele vive e como é viver dessa forma. Há um plano em uma piscina quando David chega até a borda nadando, pára, apoia-se na borda, pega nadadeiras e as coloca ten- do a movimentação do braço amputado em destaque, mostrando como ele consegue colocar as nadadeiras com a limitação que tem. Em princípio é semelhante à outras cenas, como a exemplificada com uma imagem acima, mas nesta a câmera está submersa e temos o som também passando do aspecto típico do que ouvimos quando estamos no interior da água, quando

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a câmera emerge, para uma “audição” exterior; posteriormente a câmera volta para o interior da água e também o som “mergulha” novamente. Trata- -se de uma proposta de som diegético que mostra a importância do sentido experiencial no filme, de sermos colocados muito próximos do que David vive, em uma clara transição do informacional objetivo para a vivência, de caráter mais subjetivo.

É nessa mescla, do alto grau informacional com um sentido experiencial da vida de David Grachat, que o filme encontra sua melhor forma, encontra um caminho que não fica preso a uma frieza excessiva que pode surgir da preo- cupação com a transmissão das informações, mas também não nos nega a possibilidade de conhecermos o universo que está sendo abordado, nos permitindo compreender o sentido lógico do que é vivido pelo personagem sem perder o sentido humano de tal experiência.

A partir da metade do filme, aproximadamente, passamos a ter a voz de David Grachat presente no documentário e, com essa escolha, o realizador demarca a transição para as experiências pessoais do atleta. David fala, por exemplo: “Não posso me dar ao luxo de ter uma vida como um jovem nor- mal”. Naturalmente pensamos que está se referindo ao fato de possuir uma deficiência físico-motora congênita, mas logo percebemos que está falando do fato de ser um esportista e de ter que se dedicar profundamente a isso.

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Quando o filme nos leva a acompanhar um estágio de treinamento de três semanas em Sierra Nevada, na Espanha, temos contato mais direto com o cotidiano de David e de seus amigos. Há uma cena de David almoçando descontraído ao lado dos colegas e em contato com pessoas de outros países. Em seguida, em um momento de grande destaque no documentário, David está jogando videogame com dois amigos e fica evidenciado que ele tem di- ficuldades para operar o controle do videogame pela falta da mão esquerda. Mas o colega de David, que o está desafiando no jogo de futebol eletrônico, também tem limitações, usa apenas a mão esquerda no controle pois tem limitação físico-motora no braço direito. O esporte que eles estão jogando é virtual e nesse caso os jogadores não têm limitações, mas as dificuldades de David e de seu colega são reais, já que os controles de videogames, assim como a maior parte das coisas com as quais eles lidam no cotidiano, não são feitos para pessoas com as limitações que eles têm, é preciso adaptação também nesses casos.

David Grachat participou das Paralimpíadas de Pequim em 2008, quando esteve nas finais em duas provas de natação, dos 100 e 200 metros livres, mas frustrou-se por não ir para a final dos 50 metros livres, prova na qual considerava ter mais possibilidades de ganhar uma medalha. David adaptou- -se a mais essa situação e buscou superar a condição inicial de frustração em uma jornada transformadora. Também o filme S9 – David Grachat nos mostra uma jornada transformadora, que parte da importante condição informacional no cinema documentário e alcança um elogio à vida e aos encontros que ela proporciona.

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Referências

Coelho Netto, J. Teixeira (1980). Semiótica, Informação e Comunicação: Diagrama da teoria dos signos. São Paulo: Perspectiva.

Portal Brasil. Paralimpíadas – natação. Disponível em: <http://www.bra- sil2016.gov.br/pt-br/paraolimpiadas/modalidades/natacao>. Acesso em: 23 de agosto de 2016.

ARPEGGIO

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