O percurso histórico do microcrédito no mundo inicia-se na Alemanha do século XIX. Durante o ano de 1846, ocorreu rigoroso inverno que prejudicou a safra dos agricultores no sul daquele país. Em virtude do prejuízo, os agricultores recorreram a agiotas locais e terminaram bastante endividados (ALMEIDA, 2009, p. 49) e (RAPIS, 2007, p. 50).
Sensibilizado como a situação, o pastor chamado Raiffeinsen passou a ceder farinha de trigo para os agricultores. A partir da fabricação e comercialização de pães, os agricultores obtiveram capital de giro suficiente para saldar seus débitos e melhorar sua condição de vida (CASTAÑÓN, 2004, p. 60) e (SANTOS, 2006, p. 63).
A experiência de microcrédito alemã passou à história como a Associação do Pão, que acabou crescendo e transformando-se em cooperativa de crédito para a população carente (MONZONI NETO, 2006, p. 28).
O segundo antecedente histórico do microcrédito encontrado na literatura tem lugar no Canadá, mais precisamente em Quebec. No ano de 1900, um jornalista que trabalhava na Assembléia Legislativa daquela cidade resolveu juntar o montante de 26 dólares canadenses para emprestar aos mais pobres, para tanto, solicitou a ajuda de 12 colegas (SANTOS, 2006, p. 63).
A iniciativa canadense foi denominada de Caísses Populaires. O empreendimento cresceu e conta com cerca de 5.000.000 de pessoas associadas, espalhadas em 1.329 agências (MONZONI NETO, 2006, p. 29).
Outra experiência de microcrédito ocorre em 1953, nos Estados Unidos da América. Walter Krump, presidente de determinada metalúrgica de Chicago, resolve criar um caixa para socorrer os seus funcionários nos momentos de dificuldade. O caixa, denominado de fundo de ajuda, era colocado em cada departamento da fábrica e teria de ser suprido com a contribuição mensal de US$ 1 para cada participante (SANTOS, 2006, p. 64).
Os fundos de ajuda dos departamentos foram consolidados e transformaram-se na Liga de Crédito da metalúrgica. O modelo espalhou-se por várias fábricas, gerando várias Ligas de Crédito. Atualmente, há uma Federação das
Ligas de Crédito que opera nos Estados Unidos da América e em outros países (CASTAÑÓN, 2004, p. 61).
Apesar de todas essas iniciativas e, ainda, de outras que certamente devem ter ocorrido antes, durante e após os precedentes citados acima, a mais relevante experiência de microcrédito, mundialmente reconhecida como tal, ocorreu em Bangladesh, nos anos 70 do século passado.
O economista Muhammad Yunus iniciou projeto com a finalidade de emprestar pequenas quantias a pessoas muito pobres, utilizando seus recursos pessoais. O projeto foi ganhando corpo até a fundação da instituição financeira Grameen Bank. Na seção seguinte, abordar-se-á a experiência bengalesa com maiores detalhes. No momento, o importante é notar que foi a partir desse marco que o microcrédito despontou com força em vários países.
Entidades da sociedade civil organizada, agências governamentais e organismos internacionais promoveram e promovem serviços de microfinanças por todo o mundo, inspirados no Grameen Bank.
Na Indonésia, um antigo banco estatal, fundado na ilha de Java em 1895, modernizou-se após ingressar no setor das microfinanças. O Bank Rakyat Indonésia - BRI é atualmente a maior instituição de microfinanças do país e foi a pioneira na prestação de serviços financeiros às populações de baixa renda. No ano de 1984, o governo resolveu transformar esse banco rural burocrático e altamente deficitário, com 3.600 filiais, num banco de microcrédito eficiente. Algumas mudanças em sua estrutura o levaram a operar como dois bancos: um de desenvolvimento para concessão de empréstimos a grandes empresas, em sua grande maioria estatais; e outro como banco popular direcionado ao mercado de baixa renda, o BRI Mikro (MONZONI NETO, 2006, p. 39).
Entre os anos de 1994 e 1999, o Bank Rakyat Indonésia fez 7 milhões de empréstimos, o que, na média, significa 1.000 novos empréstimos por mês, desembolsando cerca de US$ 50.000.000,00. A média dos empréstimos é de US$ 430,00 e a taxa de inadimplência encontra-se em torno de 3,26% ao ano (SANTOS, 2006, p. 68).
Outra iniciativa governamental vem sendo promovida pela United States Agency for International Development - USAID (Agência dos Estados Unidos para o
Desenvolvimento Internacional)31. Em 4 de setembro de 1961, o Congresso
Americano aprovou o Foregin Assistance Act (Lei de Assistência Estrangeira), permitindo ao Presidente John F. Kennedy criar a USAID em 3 de novembro do mesmo ano. A USAID representou a convergência de vários programas americanos de assistência internacional, dentre os quais se destacava o Plano Marshall, plano de apoio reconstrução da Europa após a destruição decorrente da Segunda Guerra Mundial. A USAID atua em prol de populações necessitadas em vários países da América Latina e Caribe, África Subsaariana, Europa e Eurásia, Ásia e Oriente Médio. Suas ações dividem-se em três grandes ramos, a saber: crescimento econômico, agricultura e comércio; saúde humana; e democracia, prevenção de conflitos civis e assistência humanitária.
Dentro do foco nas ações para o crescimento econômico, agricultura e comércio, a USAID criou divisão para apoiar as pequenas e microempresas, denominada Microenterprise Development Division (Divisão para o Desenvolvimento de Microempresas). Esse apoio dá-se através de desenvolvimento de sistemas, de métodos e de assistência técnica que beneficiem e atendam as necessidades dos micro e pequenos empresários. Além disso, a USAID participa ativamente na construção de ambiente e marco regulatórios nacionais, regionais ou locais que ampliem a produtividade, os ganhos e a competitividade das pequenas e microempresas. Nos últimos 20 anos, a USAID já comprometeu US$ 1.500.000.000,00 em assistência a mais de 3.700.000,00 microempreendedores (MONZONI NETO, 2006, p. 33).
Vale ressaltar, dentre as ações promovidas pela Divisão para o Desenvolvimento de Microempresas da USAID, a pesquisa que resultou num produto relevante para a avaliação de programas de microfinanças. Em parceria com Organização Não Governamental - ONG que associa de mais de 50 ONGs americanas e canadenses, a Small Enterprise Education and Promotion Network - SEEP (Rede de Promoção e Educação para Pequenas Empresas), a USAID desenvolveu o Assessing the Impact of Microenterprises Services - AIMS (Avaliação de Impacto em Serviços de Microfinanças).
31 Todos os dados sobre a United States Agency for International Development para os quais não foi indicada fonte diferente foram extraídos do sitio oficial da instituição. Disponível em: <http://www.usaid.gov>. Acesso em: 12 fev. 2010.
O AIMS consiste num conjunto de ferramentas práticas e de baixo custo para monitorar e avaliar impactos de programas de microfinanças. Essas ferramentas foram testadas em Honduras, Mali, Peru e Filipinas. Os resultados dessas experiências foram documentados no manual chamado Learning from Clients: Assessment Tools for Microfinance Practitioners (Aprendendo com Clientes: Ferramentas de Avaliação para praticantes em Microfinanças), referência fundamental para quem trabalha com avaliação de impactos em microfinanças. Esse manual apresenta, passo a passo, as instruções das ferramentas, desde o planejamento da pesquisa até a análise e avaliação dos dados (MONZONI NETO, 2006, p. 33).
Outra iniciativa de âmbito global é desempenhada pelo Grupo Banco Mundial, através de um de seus membros a International Finance Corporation - IFC (Corporação Financeira Internacional). A IFC foi criada em 1956 com o intuito de promover o investimento sustentável do setor privado dos países em desenvolvimento, ajudando a reduzir a pobreza e a melhorar a vida das pessoas, notadamente na África Subsaariana, Leste Asiático e Pacífico, Sul da Ásia, Europa e
Ásia Central, América Latina e Caribe, Oriente Médio e Norte da África 32.
Dentre suas ações, a IFC investe recursos, oferece apoio e consultoria para várias instituições de microfinanças. Em dezembro de 2003, as carteiras de clientes das instituições de microfinanças apoiadas pelo IFC excediam US$ 1.200.000.000,00 em produtos como empréstimos, poupança, seguro, crédito imobiliário para aquisição e melhorias habitacionais, entre outros serviços (MONZONI NETO, 2006, p. 30).
As ações em prol das microfinanças e, especificamente, em prol do microcrédito têm sido intensificadas nas últimas duas décadas.
Entre 2 e 4 de fevereiro de 1997, realizou-se, em Washington, a Primeira Cúpula Internacional do Microcrédito. O evento foi patrocinado pelo Banco Mundial e contou com a organização e participação de Muhammad Yunus. A Cúpula reuniu cerca de 3.000 pessoas, vindas de 137 países, representando organismos governamentais, agências de desenvolvimento, organizações não governamentais e instituições financeiras.
32 Todos os dados sobre a Internacional Finance Corporation para os quais não foi indicada fonte diferente foram extraídos do sitio oficial da instituição. Disponível em: <http://www.ifc.org>. Acesso em: 18 fev. 2010.
Ao final dos trabalhos, elaborou-se o Microcredit Summit Report (Relatório de Cúpula do Microcrédito), onde se constata que um futuro sustentável para as pessoas que vivem na pobreza absoluta é pré-requisito para a paz e o desenvolvimento global. A disponibilidade das microfinanças tem aumentado a esperança de milhões de pobres que têm se beneficiado destes serviços (ESTIGARA, 2008, p. 151).
O ano de 2005 foi declarado pela Organização das Nações Unidas - ONU como o Ano Internacional do Microcrédito. Essa atitude representou o reconhecimento do microcrédito como valioso instrumento para cumprimento das Metas de Desenvolvimento do Milênio:
O microcrédito vem mudando a vida das pessoas e revitalizando comunidades desde o início do comércio. Atualmente microempresários utilizam empréstimos tão pequenos quanto US$ 100,00 (cem dólares) para fazer crescer um próspero negócio e, por sua vez, prover suas famílias, conduzindo a uma forte e próspera economia local. O Ano do Microcrédito 2005 apela para a construção inclusiva dos setores financeiros e do fortalecimento do poderoso, mas frequentemente inadaptado, espírito empresarial existente nas comunidades ao redor do mundo. (tradução nossa) 33