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Voltando a falar no folhetim, já citado no capítulo 1 deste trabalho, pode-se afirmar que a periodicidade foi importante na definição da forma e estilo narrativo do romance- folhetim.

A inauguração do espaço do rodapé para publicação de ficção em fatias foi com Lazarillo de Tormes, texto editado no século XVI e que começa a sair em pedaços diários no jornal La Presse, em 1836 (MEYER, 2005). No mesmo ano, Balzac publica La Vieille Fille neste jornal. Meyer aponta Lazarillo de Tormes como sendo o primeiro “romance publicado em pedaços”.

Claro que já havia revistas literárias, que hoje poderiam ser classificadas como livro, devido a seu formato, que publicavam partes ou trechos de obras. Balzac mesmo publicou, em 1835, o livro Le Lys dans la valléé e já vinha lançando obras desde 1830 desta maneira em La Revue de Paris (VINCENT, 2001:5).

Por serem publicados em capítulos – “continua no próximo número” – certamente esses textos de ficção acabaram por desenvolver características próprias que permitiram que eles se tornassem um novo gênero, o romance-folhetim, diferenciando-se do “romance publicado em pedaços”. Algumas delas são: adaptação à técnica do suspense, rápido e amplo ritmo folhetinesco – o jovem vingador, a moça pura, os terríveis homens do mal. Eugène Sue e Alexandre Dumas são os grandes representantes do feuilleton-roman, com ápice na década de 1840 na França.

63 Foi mesmo Alexandre Dumas quem lançou o gênero romance-folhetim com as características já adaptadas para o jornal diário: entre outras, os cortes precisos causando suspense e prendendo o leitor à leitura do dia seguinte. Experiência que ele adquiriu, certamente, de seu reconhecido trabalho como dramaturgo: “Dumas descobre o essencial da técnica de folhetim: mergulha o leitor in media res32, diálogos vivos, personagens tipificados, e tem senso do corte do capítulo” (MEYER, 2005: 60)33. Dumas também descobre uma

maneira de ampliar seus rendimentos com o romance publicado em jornal, já que a princípio, recebia por linha de texto. Depois, provavelmente tendo em vista seus diálogos curtos – que, para o leitor, dá a sensação de cena ao vivo – seus editores mudaram a regra de pagamento e passaram a remunerá-lo por linha cheia.

- Alors, donnez-moi le bras. - Bien volontiers. Et maintenant ? - Maintenant, conduisez-moi. - Où cela ?

- Où je vais.

- Mais où allez-vous ?

- Vous le verrez, puisque vous me laisserez à la porte. - Faudra-t-il vous attendre ?

- Ce sera inutile.

- Vous reviendrez donc seule ?

- Peut-être oui, peut-être non (DUMAS, 1995 : 208).

O romance publicado no jornal (seja o romance-folhetim ou o romance publicado em pedaços) certamente influenciou no desenvolvimento e teve reflexos positivos na venda de jornal na França e no Brasil, pois “o simples exame das modificações havidas no jornal leva a crer que, como na França, sua prosperidade esteve ligada diretamente ao sucesso e, portanto, à publicação do folhetim” (MEYER, 2005: 33).

O romance no jornal mudou este último, mas o jornal também mudou o romance e transformou seu formato, já que se tornaram comuns edições de romance em folhetos diários

32 Do latim, “no meio do acontecimento”

33 Já sem o mérito do ineditismo e da originalidade, o escritor norte-americano Dan Brown utiliza recursos de romance-folhetim em seu livro O Código da Vinci (Sextante, 2004). Além de intercalar enredos e personagens entre os capítulos, de maneira que a aventura iniciada em um capítulo não tenha prosseguimento no capítulo seguinte, cada um termina com certo suspense. O final do capítulo 4, por exemplo, termina com o seguinte parágrafo: “Vá com calma, Robert, pensou, desvencilhando-se e finalmente conseguindo passar. Quando ficou de pé, Langdon estava começando a desconfiar de que aquela ia ser uma noite bem longa”. O final do capítulo 5: “Chegou a hora de agir”.

64 vendidos em banca de jornal que, ao fim da coleção, eram encadernados pela própria editora. Esse tipo de publicação, cujo criador é desconhecido, surgiu na década de 1850, é chamado livraison e “pode ser considerada a antepassada do fascículo”, “preço barato... de oito a dezesseis páginas impressas em duas colunas em formato in-4º... posteriormente reunidas em volume” (Ibid.: 96).

Esse formato de livro também teve seu lugar no Brasil. Meyer cita o texto que encontrou em uma das edições em língua portuguesa da obra do francês Ponson du Terrail, que ficou conhecida como Rocambole.

O empolgante e soberbo romance do célebre escritor francês Ponson du Terrail está sendo editado em fascículos diários a duzentos réis pela livraria João do Rio, rua Ledo, 72, cuja vendagem é nas bancas de jornais e na casa editora. [lista dos 12 fascículos] A Livraria João do Rio encarrega-se da encadernação dos fascículos que vai dando à publicidade no fim de cada parte da obra e como também de outros livros a preços módicos (Ibid.: 130).

Depois disso, o sucesso da venda em fascículos e em bancas de jornal só será registrado novamente nos anos 1960, por iniciativa da Editora Abril, via Abril Cultural. Em 1969, Roberto Civita, que assumiu a presidência da Editora após a morte de seu pai Victor Civita em 1990, explicou, em uma palestra, a fórmula do sucesso da venda de fascículos em banca.

Basicamente, trata-se de uma enciclopédia dividida em pedaços que são comprados nas bancas, semanalmente, colecionados e encadernados pelo leitor. Quais são as vantagens desta fórmula? Preço: comprada pronta custaria de 3 a 4 vezes mais. Acessibilidade de dois tipos: a) Física – 12.000 bancas versus 800 livrarias, b) De apresentação – linguagem, cores, recursos gráficos que somente as grandes tiragens tornam possíveis. Dosagem: o suficiente para ler cada semana versus um metro de livros a mais na prateleira... (PEREIRA, 2005).

De 1968 a 1982, quando a Abril Cultural deixa de existir, a Editora Abril “lançou mais de 200 fascículos, livros e discos... Foram vendidos mais de um bilhão de fascículos, 30 milhões de romances e 11 milhões de enciclopédias” (Idem).

Em 1971, foi criada a Edibolso, uma parceria entre Editora Abril (era a majoritária e tinha experiência na distribuição e venda em bancas de jornais), Bantham Books (americana, especializada em livros de bolso), Record (com o catálogo de ficção), Difel (catálogo de não- ficção) e Círculo do Livro (para divulgação). Seis anos depois já havia publicado uma centena de livros de bolso.

65 Entre 1975 e 1977, a Abril investiu muito do tempo de sua gráfica para os livros, portanto, os livros de bolso venderam mais que os fascículos. Essa realidade, no entanto, foi diferente em todos os demais anos. “E com tiragens oscilando (em 1978) entre cinqüenta mil e quinhentos mil exemplares, com a média de 320 mil – trinta vezes mais do que as de livros de bolso -, evidentemente atingia muito mais leitores” (HALLEWELL, 2005: 679). A Abril, no entanto, não foi a única a produzir e vender fascículos.

Nessa época, o livro ainda era símbolo de status. Por isso, o “insucesso do empreendimento” da Abril e seus parceiros com o formato bolso pode ser justificado porque o livro se desvaloriza, aos olhos do leitor, quando a capa e a lombada têm aspecto popular (PAIXÃO, 1998: 165).

A Abril havia vivenciado boas experiências com a venda de livros em formato luxuoso em banca de jornal. Em 1965, vendeu 150 mil exemplares de A Bíblia mais bela do mundo. Na década de 70, “vendeu mais de 18 milhões de livros, em 465 títulos distribuídos em oito coleções. A publicação de Os Pensadores foi a iniciativa mais curiosa: lançada em 1972 com 68 títulos, e relançada inúmeras vezes, a coleção já vendeu mais de 4 milhões de exemplares” (Ibid.). O leitor, portanto, ainda era apegado ao livro como objeto de promoção social e fazia questão do formato luxuoso.

Quem deu início à produção de livros de bolso no Brasil e, consequentemente a uma nova fase de popularização do objeto livro, foi a Editora Globo, na década de 1930. Alguns anos depois, foi a vez da Tecnoprint Gráfica S/A (que adotou o nome de Edições de Ouro em 1939). No final dos anos 1960, José Olympio e a Brasiliense também entraram nessa área. Em 1997, a L&PM lança a coleção Pocket e dez anos depois, a editora comemorou 8 milhões de livros de bolso vendidos. A Martin-Claret, com sua coleção de bolso A Obra-Prima de cada autor, no início dos anos 2000. Em 2005, a Companhia das Letras lançou o selo Companhia de Bolso, que relança em edição econômica os maiores sucessos da editora. E a Record, com a Edições Best Bolso, lançada em 2007, para títulos clássicos e literatura moderna de autores já consagrados do catálogo da Record.

Além do preço um pouco mais atrativo dos livros de bolso, sabe-se que, no Brasil, eles apresentam uma alternativa de rendimento às editoras, que perdem, em especial nas universidades, com fotocópias – embora estas tenham sido proibidas por lei federal nos campi universitários em 2007. Durante muito tempo, as cópias foram uma preocupação dos editores, entre eles Jorge Zahar. “Toda a minha experiência veio da edição de livros universitários. Acho que a causa da diminuição das vendas e das tiragens desses livros é basicamente o

66 Xerox... Outra questão é a ausência de uma política de aquisição de livros para as bibliotecas de todo o país” (ZAHAR, 2001:59).