O fenômeno da fome nunca inquietou tanto o pensamento de um pesquisador brasileiro quanto o fez com Josué de Castro. Nascido em 05 de setembro de 1908, na cidade do Recife, Pernambuco, médico, nutricionista, mas, principalmente, cientista, Josué Apolônio de Castro dedicou considerável parte de sua vida aos estudos sobre o problema da fome e da pobreza, procurando evidenciar sua relação com o desenvolvimento e justificando sua dimensão política.
Tão importante é a sua obra que, ainda atualmente, seus livros continuam a ser reeditados e traduzidos para diversos idiomas32, de que é importante exemplo sua
Geografia da Fome, de 1946. Na obra, três aspectos fundamentais justificam sua qualidade e sua atualidade: a) a dimensão metodológica, ao mapear o problema da fome no Brasil; b) a dimensão distintiva, ao distribuir em categorias o problema da fome; e c) a dimensão analítica, ao colocar a fome dentro de um contexto social e ecológico, exigindo como solução o desenvolvimento de uma nova política alimentar, tanto do ponto de vista qualitativo quanto quantitativo.
Estruturado em dupla fonte (teórica e prática), o pensamento de Josué de Castro está amparado tanto em autores clássicos das ciências biológicas e sociais, quanto na observação de campo e na realização de pesquisas diretas, o que, em grande medida, o levou à intensa convivência com a população pobre e com seus problemas ligados à alimentação e ao desenvolvimento. A experiência também o conduziu à militância política pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), tendo sido eleito deputado federal por duas vezes, em 1954 e em 1958.
Para Andrade (2003),
Josué de Castro era ao mesmo tempo um homem da academia, um professor universitário, um homem que convivia com o povo e com os
32 Cf. lista disponível em ANDRADE et al. (2003), a bibliografia de Josué de Castro está presente,
além do Brasil, em países como Alemanha, Argentina, Chile, China, Colômbia, Cuba, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Hungria, Irã, Itália, Japão, México, Noruega, Peru, Polônia, Portugal, Reino Unido, República Tcheca, Romênia, Rússia, Suécia e Venezuela, traduzida para seus idiomas correspondentes.
fatos e acontecimentos, um pesquisador e um estudioso preocupado com as transformações da sociedade (p. 74).
A preocupação sobredita orientou não somente as inúmeras aulas, palestras, conferências e discursos que produziu ao longo de sua carreira, como também foi fundamental para destacá-lo como importante ator político a frente de órgãos nacionais e internacionais, em que o tema da fome era prioridade. No Brasil, além da prestigiosa carreira de professor em instituições como a Faculdade de Medicina do Recife (1932), a Universidade do Distrito Federal (1935-38), a Universidade do Brasil (1940-64), foi chefe da Comissão que realizou o inquérito sobre as Condições de Vida das Classes Operárias do Recife, primeiro desta natureza levado a efeito no país (1933); membro da Comissão de Inquérito para Estudo da Alimentação do Povo Brasileiro, realizado pelo Departamento Nacional de Saúde (1936); idealizador, organizador e diretor do Serviço Central de Alimentação, depois transformado no Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS), durante o Governo Vargas (1939-41); e presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação (1942-44). Seu nome também fora cogitado para o ocupar o cargo de Ministro da Agricultura do Governo João Goulart (1961-64); contudo, dado aos reacionarismos existentes em seu próprio partido (PTB), sua nomeação foi descartada.
A diretriz de seu pensamento o conduziu à análise do problema da fome, visto, inicialmente, em escala brasileira, e sua relação com as condições naturais, econômicas, sociais e políticas do Brasil, tornando necessária a reorientação das posições da ciência e da política brasileiras. Para tanto, identificou ser a educação a via de correção principal e a necessidade de novas estratégias de desenvolvimento, rejeitando a ideia corrente de ser o subdesenvolvimento uma etapa no caminho de países como o Brasil.
Ao partir para a dimensão internacional, elaborou, com base nesses argumentos, seu Geopolítica da fome (1951), onde propunha mudanças políticas e econômicas fundamentais para impedir o processo de espoliação do mundo subdesenvolvido e a propagação do problema da fome. O reconhecimento internacional viria com o prêmio da Fundação Franklin D. Roosevelt, da Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos, em 1952, por Geopolítica da fome, e com o Prêmio Internacional da Paz, em 1954.
Pela qualidade de seu trabalho, Josué de Castro foi convidado oficial de governos de inúmeros países para estudar os problemas de alimentação e de nutrição. Destacam-se, na lista, as visitas realizadas à Argentina (1942), aos Estados Unidos (1943), à República Dominicana (1945), ao México (1945) e à França (1947). Também foi delegado do Brasil na “Conferência de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas", convocado pela FAO, em agosto de 1947, e membro de seu Comitê Consultivo Permanente de Nutrição.
Os anos seguintes veriam o triunfo da personalidade e do engajamento político de Josué de Castro no plano internacional: de 1952 a 1956, foi eleito Presidente do Conselho da FAO; em 1960, foi eleito presidente do Comitê Governamental da Campanha de Luta contra a Fome, da ONU; e de 1962 a 1964, ocupou o posto de embaixador do Brasil na ONU, em Genebra.
Com o advento do golpe militar no Brasil, em 1964, teve seus direitos políticos cassados em 09 de abril do mesmo ano, restando-lhe a opção de exílio no exterior. Na França, onde se exilou, Josué de Castro tornou-se professor da Sorbonne e fundou o Centro Internacional para o Desenvolvimento (CID), sendo seu presidente de 1965 a 1973, ano de sua morte. Os anos de exílio levaram o homem, distanciado à força de sua pátria, a ser consumido pelo desejo permanente de retorno, a ponto de declarar que “não se morre apenas de enfarte ou de glomerulonefrite crônica, mas também de saudade”.
Vítima da dispersão das grandes figuras políticas e intelectuais do Brasil no período da ditadura civil-militar, a voz de Josué de Castro assumiu posições consideradas extremadas e provocativas, contrariando interesses e apontando causas e desafios; contudo, o geógrafo da fome, como ficou conhecido, tornou-se conhecido também pelas alternativas que propôs para acabar com o problema da fome no Brasil. A necessidade de realização de reformas no sistema agrário brasileiro e na educação e a necessidade de redução dos desníveis de desenvolvimento regional tanto no Brasil quanto entre os países estão, seguramente, entre os principais componentes do legado de Josué de Castro.
A atualidade de suas ideias não se justifica apenas pela engenharia teórica consistente que foi capaz de produzir ao longo de sua carreira; mas permanecem atuais porque, de maneira inequívoca, seu objeto de estudo maior, a fome, ainda é um problema global, constantemente debatido, mas com poucas vias de solução na fase globalizadora da economia capitalista mundial. É possível reconhecer no tratamento
dado pelo governo federal brasileiro nos últimos anos a inspiração advinda do discurso de Josué de Castro, que levou Lula da Silva a declarar, durante a cerimônia de comemoração dos 100 anos do nascimento do geógrafo:
Josué de Castro, valeu a pena você morrer pelo que você acreditou porque graças à sua coragem, à sua bravura e à sua determinação, você mexeu com mentes e consciências, permitiu que depois de tanto tempo (...) surgisse um Ministério de Combate à Fome33.
Assim, para além dos ensinamentos de Josué de Castro sobre o problema da fome no Brasil e no mundo, nesta pesquisa, o próximo passo será o de justificar, no contexto da cooperação internacional implementada pelo Brasil, o lugar dos programas e projetos de combate à fome e à pobreza para a promoção do desenvolvimento e da cooperação internacional.