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Apel447, ao discutir explicação e compreensão, indica, no que chama de aporia na explicação lógico-semântica da explicação causal, que Peirce foi o primeiro a observar que coisas não podem ser explicadas suficientemente como em uma relação "se-então", no sentido de sua implicação material, isto é, no sentido de uma lógica da verdade funcional extensiva. Segundo Apel, usando-se a lógica normativa de Peirce das inferências sintéticas, é possível entender uma explicação causal como uma inferência abdutiva do explicável para o explicado e, mais, o ideal do caso no qual se descobre um explicado daquilo que se pode deduzir do explicável. Na interpretação de Apel, essa é uma espécie de inferência sintética, primeiro porque não é necessariamente apodítica, mas, ao contrário, hipotética e, em segundo, porque o conhecimento que ela gera tem de ser acrescido ou aumentado por afirmações adicionais em relação a um determinado fim.

Apel, fundado em Peirce, não aceita a conexão lógica do argumento reduzido ao entendimento da ação como explicação causal, assim adentrando a controvérsia entre explicação e compreensão448. Conforme Apel, em Peirce, a mera sequência de eventos, em si mesma, gera necessidade em harmonia com a perspectiva transcendental pragmática, de maneira que se pode concordar com Peirce que, no longo prazo, pode-se estar certo da validade metodológica de uma verificação indutiva das leis causais, isso se estiver aumentando a habilidade em lidar com a natureza de maneira prática e técnica, verificação implicada na estrutura pragmática transcendental da ação experimental, o que torna razoável a

447APEL. 1984. Op. Cit. p.47-51.

sua (de Apel) interpretação da pragmática transcendental aplicável após Kant449. Apel afirma450 que vê a teoria da realidade de Peirce, em suas premissas, como um realismo crítico do significado e como componente da transformação pragmática transcendental da filosofia de Kant, alterando o idealismo transcendental.

Apel indica, como princípio de cautela que pressupor um princípio normativo de racionalidade como pensamento, pela sua possível ação, feito como lei empírica válida universalmente, equivaleria ao imperativo categórico kantiano já que a intenção de explicação causal é exposta como uma antecipação contrafactual de uma lei ideal. Para isso, houve a requisição de um método pragmático transcendental, sem o qual o campo da cultura estaria oposto ao da natureza, e o mundo poderia ser percebido pelos seres humanos somente pela procura de leis universais e contingentes451.

Como remanesce o desafio de antecipar a validade de princípios de racionalidade e, então, usá-los como prognósticos relevantes, como forma de explicação causal do comportamento humano, Apel traz o conceito de comunidade de pensadores. Para Apel, na relação intrincada entre comunidade de comunicação ideal e real, enquanto distintos de seus objetos científicos e de ações explicáveis como eventos, cientistas podem ver uns aos outros como cossujeitos de uma ilimitada comunidade ideal na qual eles se projetam para um entendimento do significado e forma de consenso sobre a verdade. A base para tal consenso se compõe das leis naturais e daquelas quase-naturais as quais combinam compreensão e explicação e se relacionam às consequências da ação humana, bem como aos elementos de irracionalidade nas ações intencionais as quais, de um modo ou de outro, afetam a sua inteligibilidade. Essa combinação com a hermenêutica é que, ao final, desempenha a função heurística, juntando-se uma profunda autocompreensão das ações humanas pelo lado de dentro, ou o dizer sobre o entendimento da sua irracionalidade e estranhas determinações, as quais, primeiramente, só poderiam ser explicadas 452.

Apel julga que é possível não se enredar em diversos modelos metodológicos para o entendimento da capacidade de compreensão humana. Indica como chave, para deixar clara esta função, o relevante papel metodológico da autorreflexão, assim como o pensamento de Mead no sentido de criação da reciprocidade entre humanos como aprofundamento da autorreflexão e autotransposição interpretativa dentro da humanidade453. Apel e Habermas

449APEL. 1984. Op. Cit. 87 e 89. 450APEL. 1984. Op. Cit. 267. 451APEL. 1984.Op. Cit. p. 169 e 170.

452APEL. 1984. Op. Cit. p. 209, 210, 212 e 213. 453APEL. 1984. Op. Cit. p. 213.

estudaram o papel, na comunicação humana, do processo que Mead apontou como de "take rôle play", uma troca reversível de perspectivas, "I and Me", que, em múltiplos efeitos, pode trazer à consciência dos agentes a reação, como segundidade, da dor dos ofendidos, elemento na avaliação para a normatização ética.

Para Apel, a autorreflexão do discurso argumentativo está no interesse ou focado em uma comunidade ideal de comunicação, que é sempre pressuposta contrafactualmente, como possibilidade, no substrato empírico das espécies. Entretanto a legitimação dos sistemas sociais, ética e comunicativamente, não pode se determinada por um acordo pré-consensuado e por ações convencionadas para os seres humanos, condição em que a autocompreensão individual dos seres humanos sujeitos da ação é mera ilusão. A saída lógica, para Apel, é a crença em um quase-biológico desenvolvimento de delimitação e de autogeração de sistemas necessários para a vida, até sobre os níveis do espírito subjetivo e objetivo, no primeiro momento aparentando que a liberdade individual seria uma ilusão. Todavia a contrafactual antecipação racional e o historicamente sedimentado, o quase ou pseudo natural, são características da condição humana, mas não se deve ou se pode apelar a sistemas teológicos ou teleológicos e tampouco apelar meramente aos interesses para o conhecimento. Nesse último caso, haveria uma forte tendência em produzir e manter uma divisão suficiente entre sujeito e objeto454.

Apel pensa em algo que não seja um mero controle ambivalente do conhecimento, que é bom para a tecnologia social, mas deveria estar subordinado e acessível ao controle pelo consenso da comunidade comunicativa dos seres humanos sob metas, mesmo que não se anulem como sistemas de autogeração com os quais os seres humanos devem se identificar se eles desejam sobreviver. Por esse caminho, impõe-se uma tarefa de longo prazo, pois somente à luz da comunidade de compreensão dos seres humanos, é possível uma normatização ética universal, hipótese em que os sistemas de sobrevivência devem ser vistos como subsistemas de um sistema total, social-biológico dos seres humanos. Também é verdadeiro que, como decorrência dos sistemas sociais nos quais, no longo prazo, a sobrevivência dos humanos está garantida, é difícil descobrir, em abstrato, as necessidades legais e morais para legitimá-los, o que só é possível por meio de um resgate das demandas de validade normativa pressupostas na comunidade de entendimento455. Instala-se uma ética de responsabilidade.

Conforme Apel, há o envolvimento de mediação ainda relacionada para o desenvolvimento, no longo prazo, entre o sistema imperativo da realidade social, a biótica e o

454APEL. 1984. Op. Cit. p. 218 e 225-228. 455APEL. 1984. Op. Cit. p. 230 e 231.

imperativo para perceber o ideal da razão sempre já antecipado no processo indicativo para a compreensão ou entendimento. Dessa maneira, elucidada a abordagem da pragmática transcendental, ela é metodologicamente diferenciada da teoria da ciência. Ela vai além da lógica-semântica abstrata da explicação das "sistematizações científicas", realizando uma reflexão transcendental pragmática sobre as formas subjetivas de investigação e dos interesses na constituição do significado que permanecem por trás deles. Desse modo, as tentativas de clarificar as preconcepções categoriais dos atos do conhecimento sintético conectados à causalidade são teleologia objetiva e subjetiva, isto é, racionalidade dotada de um propósito e o significado, racionalmente situado, relacionado a metas ou objetivos456.

Julgando ter conciliado a teoria e a prática, a explicação e a compreensão, bem como criado uma nova fundação hermenêutica para as ciências sociais, mediante uma extensão das ideias de Peirce, Apel afirma que houve uma transformação transcendental da filosofia e, como se verá, a ética do discurso é uma das consequências naturais dessas assunções filosóficas. Nela, o sujeito não é o limite do mundo, mas Apel busca integrá-lo em um sistema lógico-semântico ou de interpretações ontossemânticas das "sistematizações científicas" em termos de reflexão transcendental pragmática nas condições subjetivas e intersubjetivas de possibilidade das realizações cognitivas válidas. E é por esse caminho que, segundo Apel, pode-se falar da distinção entre aparência e as coisas em si mesmas457.

Apel julga, partindo da semiótica, ter transformado a filosofia kantiana. Para Apel, o elemento da verdade pode ser e deve ser relacionado, indelevelmente, ou sob o provisório que decorre do falibilismo, no sentido da distinção peirciana do infinito cognoscível ou do que se pode efetivamente conhecer. Assim, a ideia de Apel do conhecimento possível deve estar relacionada às coisas reais, enquanto elas podem ser consideradas experienciáveis sob as condições subjetivas e intersubjetivas do ser no mundo. Extensivamente, Apel afirma que não se pode entender a possibilidade de categorização determinada da experiência dos objetos das ciências naturais, a menos que eles, simultaneamente, reflitam-se nas condições subjetivas e intersubjetivas da prática de estar no mundo e no processo linguístico de chegada para a compreensão do ser no mundo458.

Para a justificação de sua abordagem, Apel apela a insigths transcendentais pragmáticos, o caráter quase natural da constituição científica dos objetos nas chamadas "ciências do espírito" mediante o conceito de uma experiência comunicativa de signos. Esse

456APEL. 1984. Op. Cit. p.231. 457APEL. 1984. Op. Cit. p.232. 458APEL. 1984. Op. Cit. p.233.

conceito não pode ser reduzido à experiência de índex459, que é constitutivo do encontro com a Natureza, mas, ao contrário, funda-se na síntese específica de sensitividade, no sentido de empatia e entendimento dos símbolos intencionais ou convencionais.

Em complemento, para Apel, o conceito de experiência comunicativa corresponde à constituição da "realidade histórico-social" como uma realidade abrangente de sujeitos e objetos. Assim, entrelaçam-se a compreensão hermenêutica da realidade histórico-social com a possibilidade de objetificação da Natureza que, por seu lado, situa-se dentro da própria dimensão das condições subjetivas e intersubjetivas de objetificação da natureza, o que remete a própria construção de hipóteses científicas à forma de tema reflexivo460.

Essa nova dimensão implica não somente um conceito de teoria da ciência, mas também uma transformação do conceito do sujeito transcendental que Kant pressupôs como condição de possibilidade do conhecimento objetivo da natureza, pois esse sujeito é parte da sua comunidade comunicacional. Nessa transformação do sujeito transcendental, Apel observa que ele não pode ser fundado, por improvável, em algo pré-linguístico ou pré- comunicativo, em uma unidade sintética da consciência dos objetos e da autoconsciência. A unidade, coerência e prova dos dados para uma "consciência em geral", é improvável como função de condição suficiente da possibilidade da validade intersubjetiva do conhecimento461.

Por conseguinte, para Apel, o conceito de sujeito transcendental do conhecimento não pode ser concebido em termos de unidade da consciência em geral, como autossuficiente e finita, mas deve acomodar o pensamento de uma comunidade de comunicação como o sujeito do processo de chegada para a compreensão sobre o significado em geral, entretanto já pressupondo a possibilidade de formação de consenso sobre a verdade. É assim que os outros sujeitos não são meramente necessários como pedra de toque para a correção dos juízos, como queria Kant, e tampouco a validade objetiva pode ser assegurada por uma pré-comunicativa "consciência em geral".

Para Apel, a possibilidade de criação de consenso em uma irrestrita comunidade comunicativa deve, em princípio, ser incluída entre as condições de possibilidade da verdade. Por esse caminho, o sujeito definitivo da intersubjetividade do conhecimento válido é idêntico àquele da comunidade ideal de comunicação, a qual está sempre contrafactualmente

459Na tríade sígnica peirciana o index é mais amplo. Restringi-lo é enfraquecer a intersubjetividade dos sistemas morais. O Ícone é simétrico ao modo primeiro da experiência, o símbolo o é à racionalidade, no caso à linguagem, mas o index é o modo sígnico que sustenta a lógica das relações, o pensável e o presumível, por vagueza inicial, de qualquer alteridade passível de reação.Por exemplo, a dor dos ofendidos na interação humana, mesmo no sistema de empatia, é um index, um indicador de existência representável daquele sentimento. A restrição ao índice enfraquece ou anula a deontologia, até ao modo kantiano.

460 Observar que estas assunções de Apel o aproximam da heurística de Popper. 461APEL. 1984. Op. Cit. p.234, 237 e 238.

antecipada em toda comunidade e voltada para o entendimento sobre o significado e a verdade, a qual, em adição, está sempre para ser realizada, ou seja, em futuro. Apel diz que essa transformação da filosofia transcendental é a questão epistemológica mais decisiva nas reflexões sobre a pragmática transcendental, pois complementa a Natureza e a quase- Natureza, que agora podem ser explicadas objetivamente e, ao mesmo tempo, a dimensão social da intersubjetividade pode ser compreendida hermeneuticamente (reflexivamente), sendo, dessa maneira, uma idealização antecipatória462.

Apel, com a ideia do regulativo para a constituição do significado, afirma que a relação entre o antecipado e o prático se realiza, como transição entre as condições onticamente influenciadas, na prática das ciências sociais para a prática da ética da responsabilidade social em si mesma. Por isso, ele julga ter apontado, nessa transformação que indica um novo sujeito transcendental entrelaçado à comunidade ideal comunicativa, um novo paradigma para fundamentar a filosofia. Na visão de Apel, nessa semiótica transcendental que adota, integram-se as realizações metodológicas da filosofia da linguagem analítica, aquelas do pragmatismo semiótico da filosofia americana da "comunidade" de Peirce, Royce e Mead e a ideia de uma reflexão transcendental como paradigma da filosofia. Desse modo, a transformação que constata estaria apta a suprir, com uma estrutura fundamental como requerido pela teoria da ciência, uma teoria diferenciada envolvendo o ontossemântico e as linhas transcendentais pragmáticas463.

Reforçando suas teses finais, Apel afirma que ações propositivas (intencionais, portanto) abrem, a priori, um horizonte categorial para uma procura por mediação e, então, para uma análise causal da natureza e para a possibilidade do social quase natural. Por outro lado, distingue a racionalidade das ações estratégicas. Nestas, os propósitos racionais se referem àquilo que pode ser oposição às ações com "outro" a priori, e que por ele são mensuradas. Todavia, de forma geral, as regras e normas de comunicação, por não suportarem contradições, servem como condição de possibilidade das convenções e de acordo e são sempre já pressupostas como intersubjetivamente válidas464.

Apel diz que, em contraste com a científica e ou existencialista absolutização da racionalidade metodológica, pela qual o mundo se torna acessível para a teórica objetificação e para a explicação causal, é possível desenvolver um sistema de premissas que reflete quatro

462APEL. 1984. Op. Cit. 239. Tal posição, a do sujeito geral que surge da responsabilidade ética da comunidade é, por outra maneira, quase um retorno à filosofia do sujeito kantiana, agora produto de uma interação volitiva de todos os membros.

463APEL. 1984. Op. Cit. 242. 464APEL. 1984. p.244, 246 e 247.

formas diferentes e típicas de racionalidade: 1) a racionalidade científica, que a análise causal pressupõe; 2) a racionalidade tecnológica das ações propositivas racionais, que, por sua parte, está pressuposta; 3) a racionalidade hermenêutica da compreensão ou voltada a um entendimento nisto pressuposto; 4) a racionalidade ética. Com essa análise, a controvérsia explicação x compreensão está superada, mesmo no que se refere às suscetibilidades ideológicas. Mais ainda, pela maneira que propõe, Apel afirma que a extensão permitida pela racionalidade reconstrutiva da compreensão é o único caminho possível para continuar o Iluminismo e expandi-lo para além da sua orientação científica natural, mas para dentro do domínio sóciocultural, ao qual a ciência natural, ela mesma, enquanto atividade humana, pertence. Apel julga ter composto uma lógica de explicação de uma ciência unificada e o faz na posição de uma perspectiva transcendental pragmática, oferecendo uma alternativa ao argumento paradigmático da lógica da ciência465.

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