IDENTIDADE HUMANA.
Interiorizamos aquilo que os outros nos atribuem de tal forma que se torna algo nosso. A tendência é nós nos predicarmos coisas que os outros nos atribuem. Até certa fase esta relação é transparente e muito efetiva; depois de algum tempo, torna-se menos direta e visível; torna-se mais seletiva, mais velada (e mais complicada).
Antonio da Costa Ciampa1
Para bem caracterizar o que temos postulado como construção da personagem doente mental, articulando com o sintagma identidade-metamorfose-emancipação proposto por Ciampa, torna-se necessário que demonstremos empiricamente como esse fenômeno tem se apresentado e para quê ele tem sido utilizado. Sendo assim, será preciso ultrapassar o plano intelectual e compreender como as considerações trazidas até agora se organizam na vida cotidiana, como estruturam a construção das identidades em seu processo de metamorfose em busca de emancipação, como são impedidas ou barradas em seu percurso, ou seja, como o empírico materializa o que até agora havíamos trazido nos itinerários histórico e teórico. Acreditamos que somente assim a idéia defendida, que nos parece tão clara, tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexa e pouco discutida pela Psicologia Social (tal como assinalamos no itinerário histórico quando apresentamos a quantidade de teses de Psicologia que tomaram a saúde mental como tema de análise e crítica), poderá caracterizar-se como uma proposta teórica frente àquilo que identificamos como a persistência do discurso psiquiátrico no discurso da saúde mental.
A maneira que encontramos para fazer isso foi adiantada no início da tese, momento em que apresentamos nossa discussão acerca do objeto e método: dissemos que assim como foi proposto por Ciampa na análise da história de Severina, adotaríamos em nosso terceiro itinerário a narrativa de história de vida como instrumento para a apresentação empírica de nossas proposições. Reforçamos naquele
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instante que quando focalizamos um momento da história de vida de determinado indivíduo não significa que somente ali é que a metamorfose está se dando. Acreditamos que seja importante resgatar essa informação pois o mesmo pode ser dito quanto à escolha das personagens analisadas nas histórias de vida que virão a seguir, uma vez que por conta do recorte que fizemos em nossa tese as personagens que ficarão em evidência nas narrativas serão aquelas que foram produzidas pelo discurso da doença mental, as quais, como poderá ser verificado, aprisionaram os indivíduos na atuação da identidade pressuposta de doente mental. Temos clareza de que ao escolher esse recorte assumimos que outras personagens ficarão em segundo plano, ou ainda, poderão deixar de ser evidenciadas, um preço que pagaremos para não ficarmos aprisionados na discussão de outras personagens, que embora importantes, nos desviariam de nosso foco principal.
Frente a essa preocupação, adotamos uma maneira diferente daquela utilizada por Ciampa para contar a história da Severina2, ou ainda, da maneira como contamos a história de Lou-Lou em nossa dissertação de mestrado,3 uma vez que nessas duas pesquisas o interesse foi assinalar como as diferentes personagens foram sendo criadas e impedidas de se realizar, evidenciando as metamorfoses e o movimento de emancipação a partir da auto-determinação. Focaremos aqui como foi sendo construída a personagem doente mental em cada uma das histórias e o que essa personagem representa para os indivíduos. Isso inevitavelmente nos levará a discutir as condições de reconhecimento a que esses indivíduos estiveram/estão submetidos, uma vez que, como assinala Habermas, o indivíduo, enquanto singularidade histórica, “só pode ser acessado performativamente, a saber, pelo caminho de um reconhecimento da alteridade do outro, a ser obtido no decorrer de uma interação”4. Nesse momento, o conceito de anamorfose desenvolvido por Almeida, articulado ao sintagma apresentado por Ciampa, nesse sentido, mostrar-se-á de extrema valia em nossa empreitada, pois, como vimos no capítulo anterior, poderá nos ajudar a explicitar como formas de expressão identitárias presentes no mundo da vida, as personagens que são representadas pelos indivíduos, são administradas de forma a serem negadas e impedidas de apresentarem-se como contradições do próprio sistema.
2 Cf. CIAMPA, Antonio da Costa. A estória do Severino e a História da Severina. Passim. 3
LIMA, Aluísio Ferreira de. A dependência de drogas como um problema de identidade: possibilidades de apresentação do Eu por meio da oficina terapêutica de teatro. p.158 et seq.
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Acreditamos que ficará evidente que a diferença de nossa apresentação das narrativas daquela realizada por Ciampa n’A estória do Severino e a História da
Severina, estará apenas no fato de que daremos maior ênfase de análise aos momentos
de indeterminação da identidade, na forma com que esses indivíduos se relacionaram com a personagem doente mental e na importância do outro que reconhece essa personagem (especialmente os especialistas: Psicólogo e Psiquiatra) nesse processo. Essa estratégia provavelmente fará com que muitos detalhes não fiquem evidenciados, todavia, faz parte de uma pesquisa dessa natureza lidar com o fato de que nunca conseguiríamos dar conta de todas as possibilidades de leitura e interpretação. De qualquer modo, as narrativas de história de vida aparecem aqui como uma vantagem: nelas é possível trazer à tona as contradições individuais e articulá-las com o universal dominante, ou utilizando palavras benjaminianas, com essas histórias será possível explicitar como a concepção de doença mental/saúde mental é mais uma das “exceções”, que fazem parte do fato de que todos somos “exceções” em um sistema capitalista tardio, cuja mensagem sustentada é a de que se fossem tomadas as medidas certas essas exceções poderiam ser eliminadas.
Sem querer adiantar as análises que virão a seguir, vale dizer que essas histórias de vida demonstrarão como a perspectiva habermasiana de colonização do mundo da vida pela lógica sistêmica não pode ser empregada de forma dualista, ou de forma binária como escreve Prado5, uma vez que nas narrativas poderemos observar que essa colonização instrumental se dá durante o processo de socialização e individualização das identidades e, como o próprio Habermas reconhece, depende de condições de reconhecimento (perverso) recíproco. Nas narrativas poderemos verificar como os discursos “tendem a naturalizar-se, a funcionar como verdades definitivas, até que outro discurso os questione e cobre ‘verdadeira’ visão dos estados de coisas.”6 Também vale anunciar que retomaremos as contribuições de Žižek, Aidar Prado e Safatle, que articulam a Psicanálise (lacaniana) com as ciências sociais e a filosofia e que se mostraram como referências valiosas para pensar a reatualização do sintagma identidade-metamorfose-emancipação.
Isto posto, resta pedir paciência ao leitor, pois as histórias de Ana, Gabriel e Francisco que traremos à cena não foram apenas difíceis de serem escritas, elas também
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PRADO, José Luiz Aidar. O lugar crítico do intelectual: do extrato comunicável ao ato impossível. p.89.
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são difíceis de serem lidas, não somente por sua riqueza e quantidade de matizes, mas principalmente, pelo insuportável que elas carregam.7 Ficará claro que a idéia de pesquisador como testemunha, proposta por Gagnebin8, mostrar-se-á extremamente pertinente, uma vez que ao buscarmos a forma mais apropriada para trabalhar com essas narrativas pessoais chegamos a uma espécie de intermediário entre a confissão, a denúncia e o grito silenciado de socorro frente às incontáveis (im)possibilidades de existência.
1 – A história de Ana: quando assumir uma personagem insustentável de doente mental se mostra como a única possibilidade frente a uma outra personagem insuportável
Esses dias fico pensando e choro... penso que eu nunca vou ser o que quero e o que sempre quis ser... tanto tempo passou mas não tinha dinheiro pra isso... eu até que tentei, fiz o que pude, trabalhei mas logo parei de andar (por querer ser magra, apenas isso), hoje estou velha não vai dar tempo de nada mais, não vou andar... e as cicatrizes que tenho, o que faço? Tudo se perdeu, nunca deixou de ser um sonho, não quero mais sonhar porque só choro, só quero morrer, não tem mais lugar aqui pra mim, não tenho o que fazer, nunca vou ser o que quero ser ou o que um dia achei que poderia... tudo acabou pra mim, acho que não devia ter vindo pra esse mundo, que tudo não passou de um erro... Na verdade, queria muito que alguém me desse uma chance de eu mostrar que posso, que sempre foi isso o que quis, que vou dar tudo de mim, que nada importa a não ser o que quero... mas, deixa, acho que isso nunca vai acontecer, e vejo que logo morro.9
Nosso primeiro contato com Ana foi a partir de sua identidade literalmente virtual, marcada pela citação acima. Essa mensagem, que estava acompanhada de várias outras, era complementada por fotos onde pedaços de seu corpo estavam expostos. À primeira vista, a imagem apresentada de suas pernas, coxas e quadril, onde era possível ver os ossos sob a pele, dava-nos a impressão de que não existiam músculos em seu corpo, levavam a imaginar que o texto denunciava uma atitude suicida, uma auto- aniquilação de si mesma. Naquele instante estávamos frente ao monitor de um computador e havíamos acabado de ser adicionados em sua comunidade de amigos na
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Talvez fosse desnecessário dizer que os nomes e lugares que poderiam identificar nossos entrevistados foram todos alterados. Entretanto, alertamos para o fato de que caso exista alguma identificação do leitor com alguma das histórias apresentadas não será uma mera coincidência, mas sim, uma afirmação de que o problema ora apresentado é um problema de todos nós.
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GAGNEBIN, Jeanne Marie. Memória, História, Testemunho.
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Texto extraído do Blog da entrevistada, acessado a partir do acesso ao perfil da mesma em um site de relacionamentos na Internet.
Internet, estávamos diante de uma das muitas pessoas que pretendiamos entrevistar para a tese de doutorado10 e sentíamos o desconforto que todos nós sentimos frente a pessoas que se denominam anoréxicas, ou melhor dizendo, frente à imagem que as anoréxicas apresentam. Superado o desconforto inicial, possivelmente por conta do nosso interesse em saber como era viver naquela situação, passamos a manter contato. Após algumas semanas de conversas esporádicas, curtas e desconfiadas (Ana sempre dizia que não queria ser tratada por Psicólogo e que se eu tentasse curá-la cortaria o contato), finalmente conseguimos desenvolver um mínimo de confiança que fora indispensável para que pudesse me aproximar e escutar sua história.
Com seu consentimento nos dirigimos à sua casa, que ficava em uma das muitas periferias de São Paulo. Ana vivia em uma pequena casa de dois cômodos com a mãe e um cachorro, convivia com o barulho de uma fábrica que ficava ao lado de sua residência. Na ocasião da entrevista estava sozinha, sua mãe ainda não havia chegado do trabalho, por isso pediu que pulássemos o muro, pois não podia sair de casa. Até aquele momento não imaginávamos o que encontraríamos pela frente, uma vez que sabíamos ser comum os indivíduos construírem nicknames11, personagens fictícios na rede de computadores, e que nem sempre o indivíduo fora do mundo virtual correspondia com a personagem virtual. Somente sabíamos que abrir a porta de sua casa significava tomar contato com uma Ana diferente daquela que havíamos conhecido até então. E de fato, ao atravessar a porta nos deparamos com uma garota em condições extremamente vulneráveis, pouco peso, numa cadeira de rodas que sequer possibilitava que chegasse à porta, haja vista o pouco espaço de locomoção que tinha disponível no pequeno cômodo. Contrariando os textos e fotos deprimidas de seu Blog, que diziam querer se afastar de todas as pessoas, recebeu-nos com um sorriso e dizendo que nunca havia sido entrevistada, nunca havia imaginado que alguém se interessaria por sua vida.
Para contar-nos sua história, Ana faz um movimento que tenta justificar a personagem que acreditava ser de nosso interesse: a identidade pressuposta que estava sendo re-posta cotidianamente e que havia sido o elo de ligação entre nós. Acreditava
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Havia pensado como estratégia de levantamento dos possíveis participantes da pesquisa em participar de vários grupos que se auto-denominavam de alguma maneira como doentes mentais, pacientes, usuários de instituições de saúde mental, ou ainda, dependentes de droga, dependentes de sexo, bulímicos, anoréxicos, hiperativos etc., e de fato fui aceito em diversas comunidades e passei a conversar com vários candidatos potenciais, entretanto, sempre que o encontro pessoal era anunciado vivenciava o afastamento do possível entrevistado. Não compreendia muito bem o porquê desse fenômeno até ter contato com a história de Ana, que me recebeu em sua casa e contou-me sua história.
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que poderia nos mostrar como sempre foi anoréxica e como sua condição atual era algo inevitável. Pergunta-nos se poderia então começar a contar sua história de vida desde o início, que, semelhante ao relato de Severina trazido por Ciampa, também se mostrou uma narrativa de alguém que descreve a infância que não teve, ou melhor dizendo, de sua infância como criança humilhada pelos colegas de escola. Era filha do desejo apenas de uma mulher (sua mãe) e trazia consigo algo que entende hoje como sendo o prelúdio de sua história com a anorexia.
Mas não nos enganemos com essa primeira fala de Ana, que acredita que a personagem que nos interessa é a personagem que conhecemos na Internet, pois veremos que embora inicie seu relato falando da personagem anoréxica, o simples fato de nascer prematura, com pouco peso, não será garantia da pressuposição da personagem fetichizada, que luta ainda hoje para se manter reconhecida. Aliás, o sentido da proposição anoréxica, a qual normalmente é atribuída a restrição alimentar, já aparece na apresentação de Ana como uma proposição que explicaria à restrição não somente de alimentos, mas também dos elementos que são incorporados socialmente como necessários para o desenvolvimento normal de um indivíduo.
(...) quando eu nasci, a minha mãe falou que tava grávida pro meu pai, ele não quis. Então minha mãe falou, eu quero e ficou só comigo e se separou dele... nasci com problema, por causa de ser pequena, fiquei um monte de tempo lá na incubadora. Pra crescer... minha mãe fala que eu já nasci anoréxica.
Sendo assim, iniciar com o anúncio da personagem que representa atualmente serve para Ana encontrar um fio condutor para sua narrativa e, como ela mesma comenta: mostrar como sua vida sempre foi de restrições e privações. Ana, que nesse primeiro momento de sua vida representava uma criança prematura abandonada pelo
pai, conta-nos que sua infância é vivenciada em condições precárias, reconhecendo que
sua mãe foi a garantia mínima de conforto que pôde obter. Conforto que era conseguido com a solidão experienciada nos vários dias em que ficou em casa sozinha por conta do trabalho da mãe. Ana acredita, inclusive, que essa situação a fez aprender que a solidão era algo normal, somente sendo neutralizada nos momentos em que ficava com sua mãe, que compensava os momentos em que não estava ao lado de Ana com mimos, dentre eles uma alimentação cuidadosamente preparada.
Minha mãe cuidava muito bem de mim quando estava em casa, aí eu só comia as coisas que ela fazia pra mim... acho que ela me acostumou assim. Ela comprava coisa natural pra eu comer, porque eu não conseguia comer as outras coisas por causa de nojo. Era suco de laranja que minha mãe fazia na hora, era ovo caipira, arroz integral, feijão, açúcar mascavo, essas coisas. E, sempre foi assim. (...) salada, esse tipo de coisa (...) comia bastante porcaria, sabe... bastante sorvete, bastante chocolate, era uma criança normal...
A Ana de hoje, que esforça-se em representar a Ana anoréxica, assinala que a Ana de ontem mantinha uma relação afetiva com a alimentação que, ao ser oferecida como algo individualizado, reforçava o amor de sua mãe, compensando de certa maneira a falta dessa. Ana assinala que durante esse período de sua vida não vive nenhum problema com a comida, nem com seu corpo. Aliás, o problema com a comida estava na dificuldade que encontrava em se alimentar por conta das dificuldades financeiras da mãe, que não podendo comprar lanches para Ana levar para a escola fazia com que esta última tivesse que lidar com a falta de alimento durante toda sua infância e adolescência. É importante destacar que a relação alimento x corpo, inclusive, somente será problema para a Ana de hoje, nesse momento, como ela mesma assinala, nem se “importava tanto [com a comida] e também não sabia que se não comesse eu ia emagrecer ou se eu comesse eu ia engordar”. Pelo contrário, ser magra, principalmente a partir do momento em que começa a ir para a escola, torna-se motivo de humilhação. Isso porque não era considerada um tipo ideal de indivíduo. Como ela mesma descreve:
Eu por ter o cabelo encaracolado, diferente das meninas que eram da minha rua, eu por ser magrela, me rebaixavam. Eles botavam apelidos, sabe... eu não gostava... me sentia mal. Então, eu queria ser diferente, não queria ser daquele jeito, eu queria ser sempre como... sei lá... como uma menina... não que eu não me achasse menina... eu queria ser como aquelas que eram amigas deles, esse tipo de coisa. Não queria ser a excluída ou a apelidada.
Eles me enchiam bastante o saco. E por minha mãe ter o cabelo curto, eles apelidavam ela e eu não gostava, sabe... desde criança. E pensando bem eu era meio retraída, quase nunca ficava de cabelo solto e eles me chamavam de leão. Parece até meio engraçado, mas eu odiava. E eles [os meninos] falavam que nunca ficariam comigo sabe... porque eu parecia um menino.
A representação de si-mesma era confrontada com um outro generalizado cruel que lhe apresentava um apavorante paradoxo: representava cotidianamente uma forma de existência que era rejeitada pelos outros, ao mesmo tempo em que era apresentada como única existência possível, uma vez que aquilo que era rejeitado era sua própria
identidade. Ana de repente percebe que a realidade é extremamente hostil, que para ser aceita deveria ser uma outra. Esse paradoxo nos leva a adiantar algumas questões: como criar novas personagens e vivenciar a alteridade quando não conseguia sequer o reconhecimento de sua existência? A humilhação nesse caso levaria Ana à impossibilidade de lutar por reconhecimento no futuro tal como Honneth postula em sua teoria?12 Vejamos como Ana vai lidar com essa problemática, ou ainda, como vai lidar com as contradições dessa condição objetiva.
A contradição interna que Ana vivenciaria corre o risco de ser vivida simplesmente como revolta, indivualizar-se, se transformar em “sina”, em vingança contra os humilhadores — tal como ocorreu com Severina no episódio em que representava a vingadora que “arquiteta planos para adquirir poder e ‘destruir toda aquela gente’13” —, e retroceder a patamares de adaptação ou identificação com os agressores. Isso porque a simples vivência de novas relações (na escola, na comunidade etc.) não parecem produzir uma contradição, pelo contrário, via de regra geralmente essas relações parecem corroborar com o fortalecimento e reprodução da humilhação. Afinal, as relações que constituem o universo simbólico, a intersubjetividade presente no ambiente escolar, são relações preestabelecidas. Nelas existem uma clara hierarquia de divisão de estruturas de poder nas quais aquele que sente uma forte necessidade somente pode realizá-la a partir de sua submissão às regras expressas por um outro (criança não pode falar alto com seus amigos, não pode brigar, não pode ir ao banheiro a toda hora, meninos devem brincar de bola, meninas de boneca etc.). O que deflagra