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3. ANALYSE

3.2 R OLLEFORDELING I FORHANDLINGSGRUPPER

3.2.2 Formelle roller

De acordo com Gimeno Reinoso (2005), o feminismo emergente no século XIX em alguns países mais industrializados ocidentais e a reivindicação das mulheres por novos espaços e oportunidades foi visibilizando as relações entre mulheres e tornando visível o que nem se imaginava no século XVII. Assim, as suspeitas de que a impossibilidade de duas mulheres cometerem um “ato imoral” entre elas fosse um equívoco passaram a trazer denúncias com maior freqüência, e as advertências sobre os “perigos” desses vínculos aumentaram.

Um arrepio de terror percorre o mundo ocidental: se as mulheres se educam e podem manter-se economicamente, será difícil que queiram casar-se. Pela primeira vez, o amor entre mulheres ameaça a estrutura social, por isso é muito importante desacreditar as mulheres que se introduzem por esse caminho, e é esse o trabalho que fazem os sexólogos. A mulher que reivindica certos direitos é uma doente, é uma mulher que renega seu sexo: uma lésbica. (GIMENO REINOSO, 2005, p. 135)76

Essas “desviantes” já eram entendidas pelos especialistas da época (médicos, psiquiatras, psicólogos etc.) como possuindo uma identidade homossexual – não mais apenas atos homossexuais –, ou seja, eram classificadas como doentes a serem curadas. Além da opinião científica, ainda havia a questão da imoralidade trazida do século anterior e, também, o respaldo religioso da idéia de pecado para corromper a imagem das(os) amantes do mesmo sexo. Conforme Marcela lembrou em sua entrevista:

[Já ouvi falar] que [homossexual] não tem vergonha na cara, que onde já se viu isso aí. [Por que você acha que as pessoas pensam isso?] Porque são pessoas antigas. Porque, tem uma passagem na Bíblia, eu não sou crente, não, eu sou católica, mas minha mãe é crente e, às vezes, eu pego a Bíblia em casa, pra ficar lendo. Tem uma passagem lá que fala que teve uma época que Deus acabou com uma, com uma... nem lembro mais que cidade que foi... porque as mulheres começaram a desejar as mulheres e os homens os

con asexuales, no es más que la negación de su sexualidad y, en muchas ocasiones, de la lesbianidad presente en el proceso histórico” (GIMENO REINOSO, 2005, p. 18 - Prefácio de Gloria Careaga Pérez).

76 Minha versão do original em espanhol: ‘Un escalofrío de terror recorre el mundo occidental: si las mujeres se

educan y pueden mantenerse económicamente, será difícil que quieran casarse. Por primera vez, el amor entre mujeres amenaza la estructura social, por eso es muy importante desacreditar a las mujeres que se internan por ese camino, y ése es el trabajo que hacen los sexólogos. La mujer que reivindica ciertos derechos es una enferma, es una mujer que reniega de su sexo: una lesbiana” (GIMENO REINOSO, 2005, p. 135).

homens, e aí parou de procriar, parou de nascer filho, e a geração acabou ali. Então ele transformou todinha essa cidade em sal77. (Marcela, 42 anos)

Foi sendo criada, então, sobre aqueles que tinham atos sexuais não-reprodutivos, a idéia de perversão sexual, entendida como depravação. Essa “definição da homossexualidade como desvio dos padrões sexuais contribuiu muito para o surgimento da liberação gay” (ROTELLO, 1988, p. 70) e a criação de uma identidade homossexual. Rotello (1988) pontua que, antes dos anos 1950, apenas os homossexuais masculinos afeminados eram considerados e se consideravam homossexuais. Os homens que praticavam sexo com homens e tinham aparência não afeminada e funções masculinas não eram vistos nem se viam como tal:

Há provas convincentes que antes da metade do século [XX], o comportamento sexual dos homossexuais era muitíssimo diferente do que se tornou mais tarde, de que a partir de meados do século e depois, aconteceram mudanças fundamentais não apenas nas autopercepções e crenças dos homossexuais, como também nos hábitos sexuais, espécies e número de parceiros, e até nas maneiras de fazer sexo. (ROTELLO, 1988, p. 56)

Nos anos 1960 e início dos anos 1970, nos Estados Unidos, com o crescimento urbano, os homossexuais masculinos criaram uma subcultura que tinha como base de identidade homossexual a relação sexual descomedida:

[...] ocorreram mudanças muito significativas no comportamento gay masculino [...] Entre elas um nítido aumento do sexo anal com parceiros múltiplos, o aparecimento dos assim chamados grupos de alto risco formados por homens que praticavam níveis extraordinários de comportamentos sexual de alto risco, e um rápido aumento na quantidade de intercâmbios sexuais entre pessoas desses grupos de risco e o resto da população gay. [...] As instituições centrais da cultura gay masculina emergente eram os bares e as saunas. [Parte dos gays,] acostumados ao sexo secreto e furtivo, convenceram-se facilmente que a liberação envolvia não a abolição da clandestinidade, mas a liberdade de ser tão clandestino quanto possível. [...] se a liberação significava a rejeição da reserva, então, ser mais liberado significava rejeitar ainda mais restrições, e os mais liberados (isto é,

77 “Quando a Bíblia menciona comportamentos sexuais entre pessoas do mesmo sexo, ela o faz tal como esses

comportamentos eram entendidos naquela época. Os ensinamentos da Bíblia só podem ser aplicados hoje na medida em que a antiga compreensão destes mesmos comportamentos ainda for válida. [...] na época da Bíblia não havia uma compreensão mais elaborada da homossexualidade como orientação sexual. Havia apenas uma consciência genérica de atos ou contatos entre pessoas do mesmo sexo, o que poderia ser chamado de homogenitalidade ou atos homogenitais. [...] A simples afirmação de que ‘Deus disse que é errado’ não é uma resposta boa o suficiente, pois o princípio é válido mesmo em se tratando de Deus: também Deus deve fornecer o motivo pelo qual algo é errado. Isto significa dizer que há bom-senso, que há sabedoria na moralidade exigida por Deus. Se não houver, então toda a moralidade será arbitrária e Deus considerará as coisas como certas ou erradas segundo um capricho divino. Neste caso, toda a reflexão sobre ética deixaria de existir, pois não haveria um princípio racional por traz da moralidade e as exigências de Deus não seriam razoáveis” (HELMINIAK, 1998, p. 35-36).

os mais gays) eram aqueles sem nenhum tipo de reserva ou restrições. (ROTELLO, 1988, p. 22; 73-76)

A partir disso, a idéia de perversão entendida como promiscuidade – além da opinião científica médica de desvio sexual – foi mais usada para qualificar o conjunto sexual dos gays. Por exemplo: “[Você acha que os gays são mais promíscuos que as lésbicas?] Com certeza, eles são... eles ficam com o que aparecer e não adianta. Isso eu já vi com meus próprios olhos. Tem os amigos assim que falam pra mim que ficam mesmo e não tão nem aí” (Marcela, 42 anos). Entretanto, mesmo que tenha sido parte de uma subcultura a vivenciar essas relações libertinas, no senso comum essa visão parece ter sido estendida a todos os chamados desviantes da época, inclusive as lésbicas.

Janaína aponta a questão da generalização que se faz daquilo que é chocante ao pensamento moral, e como a homossexualidade é abraçada pelo estereótipo da devassidão e, pautada na idéia de monogamia necessária à boa imagem do relacionamento, defende que aqueles que preferem formas mais liberais de viver seu prazer devem mantê-las no sigilo:

O que a gente ouve muito da relação homossexual, tanto de mulher lésbica, da relação entre mulheres, ou a relação entre homens, é que é tudo uma putaria! Isso é ruim pra gente ouvir. Mas, infelizmente, por causa de alguns, nós somos classificados dessa forma. Porque você sabe que tem meninos que ele tá com um menino aqui, depois quer tá com outro ali, e outro ali. Então, isso vira realmente uma coisa negativa pra gente. Muitos gostam de orgia, essas coisas toda. Eu não acho... pode até gostar, mas não leve isso a público. O que você faz entre quatro paredes você não precisa sair gritando lá fora. E infelizmente muitos agem dessa forma. Então isso deturpa muito, isso cria uma imagem muito negativa em relação ao homossexual. (Janaína, 47 anos)

Publicizar a subversão, como “ficar com várias pessoas”, ou “dizer que gosta de orgias”, para Janaína, mantém a idéia de homossexualidade como algo promíscuo, esquecendo que tais práticas também fazem parte da vivência heterossexual.

A partir dessa generalização que se faz da homossexualidade, os movimentos LGBTT pela luta por direitos e combate à discriminação, que cresceram nas últimas décadas, vieram ratificando, entre outros ideais, a concepção da homossexualidade como uma forma de relação que engloba, além do desejo sexual, a afetividade e o desejo de convivência conjunta. Isso permitiu, de certa forma, um abrandamento do sentido de perversão/doença/devassidão, a partir da valorização da afetividade no casal – tal como nas relações heterossexuais vitorianas, ainda presentes no ideário social. Para Rubin (1998, p. 107), praticamente “todo comportamento erótico é considerado mau, a menos que se estabeleça uma razão específica

que o inocente. As desculpas mais aceitáveis são o casamento, a reprodução e o amor [...] ou uma relação íntima duradoura”78. Assim, a aceitação (ou tolerância) social do casal

homossexual pode ocorrer baseada na existência de um sentimento nobre, o amor, existente entre dois seres humanos.

Em relação ao casamento entre homossexuais para conferir ao par um parentesco outorgado legalmente, Butler (2003b, p. 224) aponta que a petição ao direito do casamento seria o mesmo que interpelar o Estado como “detentor de um direito que, na verdade, deveria conceder de maneira não discriminatória, independente de orientação sexual”. Além disso, indiretamente, há um reforço do matrimônio como condição única de acesso à cidadania, que poderia, e eticamente deveria, ser direito de todos os cidadãos e cidadãs.

Por que não existiriam maneiras de se organizar os direitos de atenção à saúde de modo que todos, independente do estado civil, tenham acesso a eles? Se defendermos que o casamento é uma maneira de assegurar esses direitos, não estaríamos afirmando também que um direito tão importante quanto a atenção à saúde deve continuar sendo alocado com base no estado civil? Como isso afeta a comunidade dos não-casados, dos solteiros, dos divorciados, dos não-interessados em casamento, dos não-monogâmicos – e como o campo sexual torna-se assim reduzido, em sua própria legibilidade, se o casamento se torna a norma? (BUTLER, 2003b, p. 231)

A autora ainda complementa que “o casamento conduz, pelo menos logicamente, ao reconhecimento universal: todos devem deixá-lo adentrar a porta do hospital, todos devem honrar sua reivindicação de pesar; todos respeitarão seus direitos naturais sobre um bebê; todos considerarão sua relação como elevada para a eternidade” (Butler, 2003b, p. 234). Contudo, o reconhecimento tanto do casamento como do ato sexual e das práticas eróticas entre as pessoas do mesmo sexo é ainda incabível no sistema heteronormativo. Tal fato é corroborado por “tolerantes” falas populares, como: “eu aceito, mas eles/elas não precisam se beijar em público”. Ou seja, eliminando-se o erotismo, permite-se que essas pessoas se relacionem castamente. Como coloca Louro (2000, p. 29-30), “de acordo com a concepção liberal de que a sexualidade é uma questão absolutamente privada, alguns se permitem aceitar ‘outras’ identidades ou práticas sexuais desde que permaneçam no segredo e sejam vividas apenas na intimidade”.

78 Minha versão do original em inglês: “Virtually, all erotic behavior is considered bad unless a specific reason to

exempt it has been established. The most acceptable excuses are marriage, reproduction and love. […] or a long- term intimate relationship” (RUBIN, 1998, p. 107).