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2. TEORETISK RAMMEVERK

2.4 F ORHANDLINGSPROSESSEN

Outro fator de análise nessa temática são as relações sapatão-sapatão e lady-lady, que não refletem duas ativas ou duas passivas de forma necessária, entendendo ativa e passiva nos termos que as entrevistadas pontuaram: uma que mais “dá prazer”, “faz”, “dá carinho”, “toca”, “penetra”; e outra que mais “sente prazer”, “recebe”, “é tocada”, “deixa”, “aceita”,

havendo ou não penetração, com dedos, mãos, língua ou dildos. As sapatões assumem estereótipo e comportamentos mais masculinos, enquanto as ladies adotam comportamento oposto, o que não fundamentalmente envolve a relação sexual. Como as entrevistadas pontuaram, lésbicas masculinas podem ser “verdadeiras ladies na cama”, e lésbicas femininas podem “ser um macho na cama”. Contudo, se a imagem de duas ladies é por um lado vista com estranhamento por não se notar no pensamento falocêntrico e heterossexual uma atividade sexual – legitimada pelo sujeito portador de pênis –, na relação entre sapatões a transgressão é ainda mais incômoda, pois desconstrói até o entendimento de lesbianidade:

Para estas autoras [Innes e Lloyd72], a atração butch / butch [sapatão-

sapatão] desconstrói não apenas o imaginário polarizado heterossexual, mas também o faz no próprio âmbito da homossexualidade, em múltiplas transgressões. Explicitam que dois corpos de fêmeas tendo sexo violam o mito da ‘heterossexualidade natural’, corpos femininos vestidos em roupas masculinas violam as restrições de gênero e estes mesmos corpos tendo uma prática sexual entre si representam uma ameaça explosiva. (NAVARRO- SWAIN, 2004, s.p.)

Nos termos da economia fálica (BUTLER, 2003a), a relação lésbica só se faz legítima quando constitui uma “imitação da heterossexualidade”, percebida muitas vezes equivocadamente nas categorias sapatão-lady:

As mulheres que não reconhecem essa sexualidade como sua, ou não compreendem sua sexualidade como parcialmente construída nos termos da economia fálica são potencialmente descartadas por essa teoria [o essencialismo biológico], acusadas de ‘identificação com o masculino’ ou de ‘obscurantismo’. (BUTLER, 2003a, p. 55)

A história que Janaína relatou desconstrói ainda mais as naturalizações do feminino e do masculino. Se por um lado a maternidade é dita feminina e, logo, das mulheres, e por conseguinte, a masculinidade é dita dos homens, este relato fundiu em uma só vivência todos esses tipos de expressões:

[...] eu tive um casal de amigas. Na minha juventude, logo quando eu me assumi, uma das minhas melhores amigas, ela passou por vários relacionamentos, e, aí, um dia apareceu com uma menina que era um hominho escrito, e tão juntas até hoje! As duas são mais masculinizadas, e, um fato interessante, essa minha amiga era mãe, quem criou o filho dela foram os pais. Pra você ver, ela era tão assim, que ela não aceitava o filho como filho. Ela dizia que era sobrinho dela. E a outra que ela arrumou, a

mesma coisa: tinha um filho também. Mas quando elas se envolveram, bem masculinizadas, as duas levaram os filhos, e as duas assumiram o papel de mãe. Você entendeu? E, se você olhar pra elas, assim, eu devo ter foto (não aqui, fica na casa dos meus irmãos), você não diz que são duas mulheres. Você diria até que são dois homens. Mas assumiram a vida de mãe e tão juntas até hoje. (Janaína, 47 anos)

As entrevistadas ainda pontuaram a questão da atividade e passividade fora do ato sexual, ou seja, presente em comportamentos cotidianos. Marina coloca que, por conta do machismo, algumas mulheres acabam assumindo as condutas que socialmente são tidas como “papéis do homem” para si, sem permitir que a companheira as assuma também:

Acaba fazendo coisa que homem faz, quer dizer, que não deveria. Tipo, tem homem que abre a porta do carro e mulher também podia. Mas levando em consideração o machismo todo eu acho que tem mulher que acaba fazendo: “Que é isso, que é aquilo, eu abro a porta, eu pago a conta”. (Marina, 23 anos)

Marina exemplifica também: “eu tenho alguns jeitos. Então, eu até falo que, assim, que a minha namorada, a Helena, tem um jeito de falar que é mais feminina que eu, mas quem olha acha que ela é mais masculina”. E Fernanda, mostrando uma reivindicação “feminista” da ex-namorada:

[...] quando eu tava com uma outra ex, a Natália, a gente tava na lanchonete, na pizzaria. Era só ela que pedia, só ela que ia pagar a conta. Teve um dia que ela chegou em mim e deu um ‘crau’. E falou: ‘Pô, só eu, você não vai?’. Acho que isso também, sabe? [Aí, no caso, ela era ativa?] É. Uma atitude que eu poderia tomar, mas só ela que tomava. Ela falava: ‘Vai’; e eu falava: ‘Não, vai você’. (Fernanda, 25 anos)

Lembrando que Fernanda apresenta um estereótipo considerado mais masculino, pode- se notar, nessa sua fala, que cotidianamente, a chamada ativa também tem comportamentos femininos passivos. Ela ainda aponta que era uma atitude que ela poderia tomar, ou seja, não há opostos, não há definições de tarefa, nem mesmo de “nome”; ambas podem posicionar-se na masculinidade ou na feminilidade, independente da roupa que vista ou imagem que tenha. Confere sobre isso a opinião de uma leitora lésbica do boletim Chanacomchana (n. 8, ago. 1985):

[...] quando num relacionamento homossexual, há uma ‘ativa’ e uma ‘passiva’, facilmente reconhecíveis por toda uma série de ‘características’ popularizadas, que, na realidade, nada têm a ver com o interior das pessoas, a pergunta é: o que é que conduz uma mulher a adotar o dito ‘papel

masculinizado’, e outra, assumir o ‘feminino’? São realmente papéis que se desenvolveram com o tempo, ‘naturalmente’, ou são atitudes adotadas como uma ‘orientação’, perante algo novo e assustador, como é uma relação mulher/mulher. Conheço pessoas ‘classificadas’ como ‘ativas’, que possuem atributos ditos ‘femininos’ meiguice, tolerância, doçura, e outras ditas ‘passivas’, que são como vulcões quando explodem.

Assim, o hábito de chamar alguém de ativa ou passiva se dá por conta de “características facilmente reconhecíveis” e, do mesmo modo, de “classificações”, algo do visível e do enunciado, mas não da subjetividade da personagem.

A partir de todas essas pontuações feitas sobre esse tema, a questão da atividade ou passividade, tal como entendida na cultura hegemônica das sociedades ocidentais, se torna algumas vezes tão arbitrária entre lésbicas que, ao finalizar a entrevista com Marina, e mesmo tendo debatido sobre o assunto, perguntei se ela queria falar mais alguma coisa, e ela respondeu: “Não... eu só queria saber o que é ser ativa e passiva [risos]”.

Isso mostra a abjeção da relação lésbica, ou parte dela, à linguagem. As lesbianidades se apresentam de forma tão ampla, além do estereótipo masculina(sapatão)-ativa relacionando-se com uma feminina(lady)-passiva, que as diversas formas de vivenciá-las não têm nome, sendo concebíveis apenas as que se encaixam no sistema sexo/gênero/desejo/práticas sexuais. Em relação ao ato sexual, uma sapatão pode ser passiva (penetrada, deixar-se tocar, deixar-se sentir etc.) e uma lady pode ser ativa (penetrar, fazer, tocar, tomar a iniciativa etc.), trocar de posições ou mesclá-las na mesma relação, desconstruindo os sentidos sexuais dos conceitos. Além disso, nas relações lady-lady, ou sapatão-sapatão, a ininteligibilidade do ato sexual se dá por não ser considerada a possibilidade de dissociação entre masculinidade e atividade, ou feminilidade e passividade. Além disso, os modelos sapatão-lady não se configuram na imitação da relação heterossexual, e Pérez (200?) ainda pontua que sua forma de relação funciona com muito mais flexibilidade que no casal heterossexual:

Apesar de persistir a idéia de que entre lésbicas se reproduzem os papéis e as formas de opressão, acusando-as de falta de consciência política e de imitadoras dos modelos heterossexuais, inclusive a representação de um modelo macho/fêmea não implica, necessariamente, uma relação de opressão, já que funciona com muito mais flexibilidade que os estereótipos de gênero. (PÉREZ, 200?, p. 9)73

73 Minha versão do original em espanhol: “A pesar de que persiste la idea de que entre lesbianas se reproducen

los roles y las formas de opresión, acusándolas de falta de conciencia políticas y de imitadoras de los modelos heterosexuales, incluso la representación de un modelo machin/femme no implica necesariamente una relación de opresión ya que funciona con mucha más flexibilidad que los estereotipos de género” (PÉREZ, 2007, p. 9).

Essas imagens “acabam se tornando fonte de problematização retomada [...] até o infinito em um movimento que não faz outra coisa senão revelar a arbitrariedade desses padrões e os limites dessa tradução” (PORTINARI, 1989, p 54).

O que se conclui a partir dessa controvérsia é que as formas de relação são inumeráveis, e que, fora da linguagem e do pensamento heteronormativo, são possíveis e legítimas. A crença de que homens e mulheres são distintos e se atraem natural e inevitavelmente é mais uma ferramenta imprescindível para a manutenção do sistema heterossexista e do viriarcado. Homogeneizar os casais de lésbicas em sapatão-lady, ativa- passiva, masculina-feminina, é universalizar o modelo operário americano dos anos 1940 e 1950, esquecendo outros modelos de formação de casais (GIMENO REINOSO, 2005).

Heilborn (2004) retoma as idéias de Nicole Mathieu74 relativas a três modos de

conceitualização, no sistema homoerótico, de relações entre sexo e gênero. O primeiro sustenta os segmentos tradicionais das sociedades ocidentais, na qual “as relações só podem ser entendidas/experimentadas se masculino e feminino estão presentes em um casal que reúne dois homens ou duas mulheres” (HEILBORN, 2004, p. 46). Na segunda conceitualização, sexo e gênero correspondem-se analogicamente, integrando “todas as formas de escolha sexual sem se afastar da norma hetero-gênero” (HEILBORN, 2004, p. 47). O terceiro modo pode ser entendido como uma estratégia de resistência e atitude política de luta contra a heteronormatividade, no qual “presencia-se uma recusa da hierarquia de gênero e a tentativa de elaborar uma nova definição de sexo” (HEILBORN, 2004, p. 47).

Dentro disso, apenas as práticas que não se estabelecem com base em relações de igualdade devem ser evitadas e/ou punidas, ou seja, o que cause danos morais, físicos ou psicológicos a alguém sob justificativa do prazer sexual de apenas uma pessoa. Tal como aponta a autora, é possível fazer funcionar relações “mediante um sistema valorativo para a singularidade e autonomia das partes” (HEILBORN, 2004, p. 26).

Vivendo relações com reciprocidade e/ou em iguais condições de decidir, não importa quem vivencia uma atividade ou uma passividade, desde que os(as) envolvidos(as) se sintam beneficiados com sua forma singular de vivenciar sua sexualidade. A dominação, a diferença e a hierarquia na relação sexual pode ser desejável e prazerosa, mas desde que acordada, aceita por ambas as partes.

74 MATHIEU, Nicole-Claude. Identité sexuelle/ sexuée/ de sexe? trois modes de conceptualisation du rapport

entre genre et sexe”. In: L’Anatomie Politique – Catégorisations ei Idéologies de Sexe. Paris, Coté-Femmes Éditions, p. 227-266, 1991.

VII. Lésbicas ou são promíscuas ou formam casais românticos assexuados