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O estudo do intumescimento da celulose em diversos meios (ácido,

base, solvente puro e misturas de solvente) é de grande importância, pois

representa o passo inicial em diversos processos, dentre os quais podemos

destacar a mercerização e a derivatização da celulose sob condições

homogêneas e heterogêneas de reação (Klemm et al., 1998; Krässig, 1996; El

Seoud e Heinze, 2005).

Devido à sua natureza cristalina, a celulose é insolúvel na grande

maioria dos solventes. O intumescimento é definido como a interação do

solvente com os grupos hidroxilas da celulose, sendo iniciado pela degradação

parcial da estrutura fibrilar por inchamento da fibra e inserção de moléculas de

solvente, seguido pela ruptura das fortes ligações de hidrogênio

intermoleculares. O grau de penetração do solvente depende de alguns fatores,

como o acesso do solvente as regiões inter- e intracristalinas da celulose e a

afinidade do solvente com os grupos hidroxilas do polímero (Kräsig, 1986;

Rowland et al., 1984).

Os efeitos das propriedades físico-químicas da celulose sobre o

intumescimento por solventes orgânicos foram pouco estudados. De maneira

geral, há uma concordância que diferentes GP, Ic, e quantidade de -celulose venham a gerar diferentes valores de intumescimento. Mais especificamente,

diminui em função do aumento do Ic, GP e -celulose contida (Mantanis et al., 1995; Yachi et al., 1983). Thode e Guide, por sua vez, propuseram que os

valores de intumescimento diminuíam à medida que a área superficial também

diminuía (Thode e Guide, 1959). A presença de microporos na estrutura da

celulose é relevante para o intumescimento e é interessante ressaltar que

pouca atenção tem sido dada a essa característica estrutural em relação ao

intumescimento, embora a informação sobre a distribuição dos tamanhos dos

poros seja necessária para um conhecimento completo da estrutura molecular

do biopolímero (Philipp et al., 1973). Além disto, os poros são importantíssimos

para a acessibilidade, inchaço, solubilização e derivatização da celulose

(Klemm et al., 1988).

Neale realizou o estudo do intumescimento de algodão em uma série de

solventes orgânicos, concluindo que a penetração de um agente intumescedor

moderado é limitada à região amorfa da fibra de celulose. As principais

conseqüências do intumescimento são o aumento da área superficial e as

quebras das ligações intermoleculares (Neale, 1929).

Alguns autores estudaram o intumescimento da celulose por soluções

alcalinas e concluíram existir uma relação entre o intumescimento e a

concentração da base, o raio do íon hidratado do metal alcalino e a

temperatura (Cuissinat e Navard, 2006; Dinand et al., 2002; Zeronian e

Cabradil, 1972). Creely e Wade investigaram o intumescimento por uma série

de n-alquilaminas, cujo pKa em água são semelhantes, e correlacionaram os

resultados com o volume molar da amina, Vs (Creely e Wade, 1978).

Alguns grupos de pesquisa correlacionaram o intumescimento da

Hildebrand (Hildebrand), as interações (dipolo-dipolo) solvente-celulose, além da

estrutura e porosidade do biopolímero. Nestas pesquisas, os autores

concluíram que Vs, (Hildebrand) e a formação de ligações de hidrogênio entre

solvente-celulose são importantes (Robertson, 1964; Robertson, 1970;

Mantanis, 1995). O parâmetro de solubilidade de Hildebrand pode ser

desmembrado em três componentes, D, H e P, referentes à força de

dispersão de van der Waals, ligação de hidrogênio, e às interações dipolares

ou de Keesom, respectivamente. Visto isto, alguns autores decidiram

correlacionar estas propriedades de solventes, juntamente com o Vs, para

quantificar o intumescimento (Chitumbo et al., 1974; Mantanis et al., 1994a;

Mantanis et al., 1994b; Mantanis et al., 1995; Philipp et al., 1973; Thode and

Guide, 1959).

Nenhum estudo sistemático de intumescimento de celuloses foi

realizado até o presente momento e os autores realizaram correlações

estatísticas insatisfatórias entre intumescimento e as propriedades dos

solventes, ora por empregar números insuficientes de solventes e descritores

para descrever o fenômeno, ora pelas propriedades dos solventes empregados

se correlacionarem entre si.

O intumescimento pode ser dividido em dois níveis: intumescimento

intercristalino e intracristalino

Intumescimento Intercristalino (Klemm et al., 1998).

No intumescimento intercristalino o agente intumescedor penetra apenas

nas regiões não cristalinas das microfibrilas e em espaços entre essas,

causando o inchamento das fibrilas da macromolécula. Neste caso, a alteração

mudanças no difratograma de raios X, onde o Ic sofre pouca variação, porém

as regiões amorfas tornam-se mais acessíveis (Tasker et al., 1994). O

intumescimento intercristalino é de extrema importância em reações de

derivatização da celulose sob condições homogêneas, pois este processo

aumenta a reatividade da celulose, gerada pela diminuição da intensidade das

ligações de hidrogênio nas regiões não cristalinas, permitindo e facilitando a

penetração de reagentes na fibra. A classe de solventes próticos e apróticos

são exemplos típicos de agentes intumescedores intercristalino.

Intumescimento Intracristalino (Klemm et al., 1998).

No intumescimento intracristalino, o agente intumescedor penetra nas

regiões não cristalinas e cristalinas da microfibrila, resultando em mudanças

profundas na estrutura cristalina da macromolécula, fato que pode ser notado

ao se analisar os difratogramas de raios X antes e após o tratamento (Tasker et

al., 1994). A extensão desta mudança depende essencialmente do grau de

penetração na estrutura cristalina, em dois níveis básicos que podem ser

classificados como: limitado e ilimitado.

(i) Limitado: o agente intumescedor leva à expansão do retículo

cristalino, sem causar a dissolução das fibras, isto é, nota-se uma diminuição

do Ic e mudanças na estrutura cristalina. Os álcalis são poderosos agentes de

intumescimento intercristalinos, e em altas concentrações estes atuam como

agentes intracristalinos. O processo de penetração de base forte, por exemplo,

NaOH, e a formação da chamada “soda celulose” é denominado mercerização.

intumescimento intracristalino limitado; sua discussão detalhada será realizada

posteriormente (Zeronian, 1985).

(ii) Ilimitado: neste caso, o intumescimento resulta na desagregação da estrutura fibrilar e das regiões cristalinas das fibras, gerando a dissolução do

biopolímero. A inserção das moléculas entre as cadeias é responsável pela

ruptura das ligações de hidrogênio intermoleculares e das interações de van

der Waals, acarretando na dissolução (D’Almeida, 1988). Normalmente, fortes

complexantes com grupos volumosos são capazes de dissolver a celulose a

partir do seu intumescimento intracristalino. Como exemplos podemos citar: a

cuproetilenodiamina (CUEN, [Cu(H2N-(CH2)2-NH2)2](OH)2), solvente

empregado na determinação do GP, o tartarato de sódio férrico (FeTNa,

Na6[Fe(C4H3O6)3]) e o N-metilmorfolina-N-óxido, o solvente usado na

fabricação da fibra Lyocell.

Neste trabalho realizou-se um estudo completo do intumescimento das celuloses em solventes próticos e apróticos e os valores de intumescimento foram correlacionados com as propriedades físico- químicas do biopolímero e dos solventes.