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VEDLEGG 4: FORKLARINGER TIL FISKERITABELLEN
fui mais útil, lá. Aqui eu praticamente, eu, a minha pessoa, praticamente
peguei o prato feito, porque aqui quem veio quem arrumou quem ajeitou tudinho foi o Cezinha né, pra mim só vim embora pra dentro de casa, e lá não, lá agente tava todo mundo junto desde o início, dos primeiro mato que arrancou até as primeira telha que a gente botou, apesar de todo sofrimento né. Porque ali eu me lembro tranquilo dali, que a gente entrou três horas da manhã, três e meia, e foi aquele sofrimento o dia todinho, a gente limpando, limpando mato, abrindo caminho que não tinha... e, o quê, umas quatro ou cinco horas da tarde aquele pessoal da polícia vieram né, polícia não!, aqueles segurança fajuto, que eu acho que aquilo não era polícia realmente... e aí eu gostei da minha participação na Raízes da Praia.
(...)
G: Cezinha é que sempre falava, ele desde o início que ele dizia “tu num vai ganhar nada, só vai ganhar sofrimento” – deixa! Que no início né, que era aquele sobe e desce, fiquei da cor de tina (risos), e ele brigava, até hoje um dia desse a gente tava conversando e ele “tu ganhou o que, tu não ganhou nada, só sol na cabeça” – tá bom, mas eu fiquei feliz, tô feliz pelo que eu fiz. Não me arrependo de jeito nenhum! se fosse o caso eu faria tudo de novo, te juro, faria tudo de novo. (...) Às vezes Igo, por mais que você tente passar, por exemplo, eu tô te dando essa entrevista, por mais que eu queira expressar com palavras aquilo que eu passei, eu não consigo passar tudo do que eu senti, com palavras não consegue, porque o sentimento é uma coisa bem mais diferente. (Entrevista Graça)
Na Raízes da Praia as meninas do Morro foram as principais organizadoras e porta- vozes da ocupação. Formaram a primeira “comissão” junto a pessoas vindas dos outros núcleos do Mcp, principalmente do Serviluz. Mas também prepararam as pessoas que, moradoras da Raízes, acabaram por assumir a coordenação da comunidade. Só Assis ficou como remanescente do grupo do Morro da Vitória na Raízes da Praia, e hoje é presidente da recém fundada Associação Comunitária Raízes da Praia.
Liduina continua no Morro da Vitória, como presidente da Associação de lá, cada vez mais articulada politicamente, tanto com “gringos” de ongs e benfeitores locais, como com agentes do poder público, sobretudo após a ascensão do Pt à prefeitura em 2005 e, mais ainda, na atual gestão. Liduina tornou-se uma liderança mais institucional, inclusive já não participa de outros movimentos além da associação e das articulações políticas. Mas continua
exercendo um papel mediador fundamental nas relações internas e externas da comunidade – esse é sem dúvida o principal foco das suas ações, do seu trabalho. É como Graça diz:
Qualquer briga que tem de vizinho aqui, o pessoal num vai na delegacia não, vem chamar a Liduina pra resolver, já tô cansada de ver isso aqui acontecer... que um vizinho invade um pedaço de chão do outro, o outro vem aqui pra Liduina resolver, que fulano de tal invadiu meu quintal – isso aí, no momento que nós tamo hoje já, em dois mil e quinze, num é mais pra vim pra Liduina, porque o Morro em si já expandiu já, eu acho que é uma coisa pra ir na delegacia, sei lá procurar outros métodos, mas eles, ainda tem gente que tem muita consideração por ela que vê assim a importância dela na comunidade, porque se eu tenho um problema que pode ser resolvido por um, pela polícia, e eu invés de chamar a polícia eu vou atrás dela, é porque ela tem um importância muito grande na comunidade, e as vezes ela vai lá conversa apazigua e resolve só no queixo dela na conversa na lábia dela, ela consegue resolver, muitas vezes acontece... Por isso que eu te digo, se Liduina sair dessa associação, vai ser um baque muito grande pra certas... algumas pessoas vão sentir muito. A não ser que a pessoa que venha a substituir ela, faça igual ela faz ou um pouquinho melhor... (entrevista Graça)
E a própria Liduina admite sentir essa legitimidade ou reconhecimento dos primeiros tempos ainda hoje: “Eu acho que até hoje tem muito respeito comigo”. Mas ao contrário de Graça, Liduina acha que no dia que sair, haverá pessoas “capacitadas” para tocar o barco adiante: “Num acaba a Associação de jeito nenhum! eu acho, e é nesse meu entender que eu tô acreditando e torcendo por isso”.
Concordo com Liduina que a Associação não acaba com seu afastamento, pois, como já disse, há outras pessoas envolvidas com trabalhos comunitários no Morro da Vitória, inclusive uma geração nova na qual “meninos do Barracão” cresceram e se tornaram agentes comunitários, além do grupo ampliado que gira em torno da diretoria e dos trabalhos da Associação. Porém, também concordo com a Graça que o papel de “líder comunitária” desempenhado por Liduina é singular, não há substituto. Novos arranjos terão de ser produzidos. A autoridade exercida por Liduina não será reconhecida em outra pessoa. Isso porque, além das suas qualidades mediadoras e articuladoras e disposição de lutar, correr atrás e tal, há outra singularidade intransferível, mesmo não sendo uma qualidade pessoal – poderíamos mesmo dizer que não se trata de uma qualidade, mas de um atributo. Refiro-me ao carisma do início.
Contudo, o carisma do início que emerge da ocupação e constituição da comunidade é mais um atributo coletivo, que pode ser agenciado por uma ou mais pessoas – como parece ser o caso de Liduina, Lucirene, Socorro e outras pessoas do início da ocupação que originou o Morro da Vitória. Agências essas que possuem sua temporalidade e precisam ser reativadas
para continuar a provocar efeitos em determinados espaços do mundo social – caso da Liduina no Morro da Vitória.
James C. Scott (2013) afirma que:
O carisma não é ter uma qualidade – como ter olhos castanhos, por exemplo – que possa ser objetivamente identificada em alguém; implica, como sabemos, uma relação em que os observadores envolvidos reconhecem (podendo, aliás, contribuir para inspirar) uma qualidade que admiram. (SCOTT, 2013, p. 51).
O autor trabalha, então, com a noção de “ato carismático”. É o caso do discurso tornado “público” numa situação de enfrentamento com um dominador, quando este discurso era amplamente realizado, mas de forma “oculta”, entre os dominados – “um discurso oculto partilhado que até então ninguém tivera a coragem de declarar na face do poder” (SCOTT, 2013, p. 51). Isso vale para o discurso e outras práticas agenciadas por pessoas que tiveram a coragem e a capacidade de pô-las em marcha numa situação de enfrentamento com pessoas ou instituições mais poderosas. Aliás, “dizer na cara” das autoridades os anseios da comunidade mostrou-se uma das qualidades essenciais de uma “liderança”. Ter agido em afronta às autoridades e ter conquistado a vitória atribuiu um carisma todo especial ao coletivo e às pessoas que protagonizaram tal “ato carismático”. Mantém-se aqui o caráter de extraordinariedade do carisma. Situação extraordinária e ações extraordinárias, num contexto de imprevisibilidade e ousadia132.
É a isso que me refiro quando falo em carisma do início da ocupação. Tal atributo que Liduina encorpora no Morro da Vitória – daí ser insubstituível – também é força propulsora das instituições engendradas na luta, como o Barracão e a Associação. Daí tais instituições serem sólidas o suficiente para sobreviver ao desaparecimento dos fundadores, desde que revitalizadas por novas agências e arranjos entre atores da cena comunitária do Morro da Vitória e aliados.
Lucirene também exerceu forte carisma no Morro da Vitória e, depois, na Raízes da Praia, onde durante algum tempo foi, talvez, a principal referência, uma verdadeira dirigente, como se diz, mas de fato uma grande animadora espiritual e política, com capacidade organizativa e incidência moral junto ao coletivo. Mas, ao contrário de Liduina, Lucirene não se sedimenta em um canto, possui uma vida mais nômade, passa poucos anos em cada canto. Porém, a partir do Morro da Vitória, ao nomadismo juntou-se a agência lutadora, a
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Para Nobert Elias (2001, p. 137), o líder carismático e o seu grupo experimentam uma situação de instabilidade ou abalo de certa ordem estabelecida: “Ambos precisam ter ousadia de avançar para algo que é relativamente desconhecido e imprevisível. (...) Ambos têm de se servir de meios, atitudes e comportamentos que ainda não foram postos à prova”.
experiência fez com que ela desenvolvesse competências e ela as aplica – Lucirene participou de quatro ocupações após o Morro da Vitória e é das meninas do Morro, a mais envolvida com o Movimento, a mais “militante”. Mas só morou, mais ou menos, em uma delas, a Raízes da Praia, durante uns dois anos ela ficou entre o barraco da família na Raízes e a casa no Morro. Depois foi morar na Messejana, mais precisamente na Paupina, também numa ocupação, mas já consolidada, onde ela adquiriu uma casa – a do Morro da Vitória, venderam. ...é isso que tá o problema, quando você tem uma missão, a gente só fica naquele tempo, terminou sua missão você tem que sair, você não pode passar mais que aquele tempo, já me disseram isso pra mim já, você não pode, se você continuar a ficar ali não tem crescimento, porque as pessoas não vão querer crescer, você que vai ter que levar nos braço, a pessoa se acha inferior a você, ela nunca pode nada, ela nunca tem como fazer, “não, fulano de tal é só ele que pode fazer porque eu não sei fazer”, entendeu? (Entrevista Lucirene).
Atualmente, Lucirene vive em São Gonçalo do Amarante, próximo ao Pecém na RMF, onde foi cuidar da mãe (recém-falecida segundo me contaram), e onde tem ajudado na organização de uma ocupação às margens da Br-020, e que foi batizada “Parque Vitória”. Está fazendo parte de uma associação da área, mas diz que seu negócio mesmo é atuar como “movimento”. Falando do Parque Vitória ela explica:
L: ...entrei como vice-presidente porque fui obrigada entendeu?, porque o pessoal queria, pra mim ter mais êxito dentro da ocupação né, pra mim ter mais peso na associação, pra mim ter direito, num sei se é sabedoria ou se foi uma visão, mas num, (...) pro Movimento ter mais apoio né, que eles queriam que eu entrasse como presidente, mas eu disse “seu Chico eu não”... sou mais ficar como movimento do que como associação, entendeu?, eu fico solta e se eu ficar eu fico presa e eu num presto pra tá presa em nada, porque eu hoje eu tô aqui, amanhã eu posso num tá, e ele disse “tu quer bem ir pra ocupação de Iatapajé num é?”, eu disse “num sei”, pode até acontecer né. I: Por que ser movimento é mais solto do que ser associação?
L: Vou já dizer qual é o motivo: o Movimento é solto porque ele dá oportunidade pra todos, entendeu, a falar, a reivindicar, e tem decisões que que... E assim, a associação pra mim, é tipo assim, é como se ela não me, como se diz, não me, eu não tenho muito aquele aconchego aquela visão de desenvolvimento, associação pra mim, ela é muito fechada, é muito assim, espera por decisão dos outro, a última é como se fosse do presidente, entendeu, então isso não dá pra mim, eu não gosto eu não consigo gostar. Aliás, desde os quinze anos de idade que eu trabalho com associação, eu comecei a dar aula pra criança de associação, reforço, nas Placas. Então, nessa trajetória toda eu não consegui me descobrir, por que?, porque a associação não deixa, ela é aquela coisa véia trancada, entendeu, ela é aquela coisa véia que faz tipo assim uma diretoria de 4 ou 5 pessoa, presidente tesoureira aquela coisinha, fica fechado se tem algum assunto fica muito acumulado ali dentro, entendeu? Então pra mim, eu me sinto sufocada, eu não consegui me descobrir em associação por causa disso... e tem muitos erros e lá querem abafar, aquela coisa véia ali, entendeu?, não me descobri nisso aí. Então o Movimento pra mim foi mais amplo, entendeu?, se não vai
tu, vai tu, tu decide, vai aquela voz daquela outra pessoa, nem que teje, se a tua for melhor, entendeu?, mas se tiver menos de revolução e aquela tiver mais vai aquela, então isso pra mim foi ótimo, foi mais, teve mais integração comigo, entendeu? Aí quando eu entrei na Cebs também, aí tirando o Movimento pra Cebs aí foi... pra mim, eu acho que foi um prato cheio pra mim, em termo de conhecimento né, de saber montar as peças né, e na associação nunca consegui, e até hoje não consigo. (Entrevista Lucirene). Graça também fala que aprendeu muito nas ocupações, no Movimento, com as pessoas dos coletivos dos quais participou. Destaca a própria Lucirene, lamenta sua ausência, mas lamenta ainda mais o fato dela, Graça, estar indo embora de volta para o Icapuí, pois pra ela, dos 53 anos de vida, aqueles 15 que passou no Morro foram os melhores.
Eu pra mim mesmo aqui no Morro é uma das fases que eu tô, que vivi mais bem na minha vida. Bem bem só não no plano financeiro, mas também a minha vida financeira melhorou aqui... e os vizinhos, amigos, fiz muita amizade aqui graças a deus, fiz também no Mirante e no interior tenho muita amizade, mas aqui no Morro é praticamente minha história tá todinha aqui, meu filho cresceu aqui, teve amigos, graças a deus nunca se envolveu em nada, eu não tenho ninguém que tenha raiva de mim aqui, e em nenhum canto graças a deus. (Entrevista Graça)
E dessas amizades ela destaca Lucirene.
G: A Lucirene eu conheci ela aqui no Morro né, na luta dela aqui pelo Morro da Vitória, se tornamo grandes amigas – por falar nisso nunca mais eu vi ela, faz dias que não vejo ela – e a gente ficou uma amizade tão grande. Trabalhamos juntas, fizemos curso junto, Lucriene foi uma grande parceira na minha vida... ainda é ainda amiga, apesar de a gente não tá se vendo muito ultimamente, mas ela é uma pessoa que teve um espaço muito especial na minha vida.
I: Como, em que sentido?
G: De amizade, de conselho, de abrir minha mente pra certas coisas, de me sentir mais, pra ter coragem de fazer algumas coisas que eu não tinha, tipo na costura eu num tinha, eu pegava uma peça e dizia que não fazia, ela dizia “você faz você é capaz vai e faça”, eu tentava e fazia, sabe, é aquela pessoa que te incentiva pra te dar coragem pra tu enfrentar qualquer coisa que tu queira fazer. Porque muitas vezes a gente vê que não tem, até hoje eu ainda tenho esse problema, eu acho que eu não sou capaz de fazer alguma coisa, e ela chegava e dizia “você é, você vai fazer, rumbora faça!”, e eu tentava, fazia e dava certo, sabe, ela era uma pessoa muito, incentiva muito bem, uma pessoa muito boa, uma parceira de... (...) faz um tempão que eu não vejo aquela nojenta. Ela me ligou, que tava com essa ocupação, pediu pra eu ir com o padre Eduardo ou foi com a Liduina, mas eu disse como é que eu vou?, mas quando eu vier passar fim de semana eu vou qualquer dia, eu já fui lá uma vez.
I: Tu acha que essas relações, ter participado do grupo, do movimento e tal, isso fez uma diferença na tua vida? Em que sentido?
G: Me deixar mais experiente com as coisas da vida, que eu era uma