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7.4.2 Forklaringer på forskjellene for de Forklaringer på forskjellene for de Forklaringer på forskjellene for de enkelte referansebruk Forklaringer på forskjellene for de enkelte referansebruk enkelte referansebruk enkelte referansebruk

No tópico anterior, fizemos as análises do texto de PF. No tópico atual, 4.7, começamos pela leitura do diálogo em francês da cena e analisamos a respectiva tradução, em português, do estudante PH.

Acompanhemos o quadro,

Quadro 29: Texto da cena e Tradução do estudante PH

VENDEUR VENDEUR

Bonsoir! Boa noite!

LIZ LIZ

Bonsoir! Qu’est-ce que tu veux? Boa noite! O que você vai querer?

KEN KEN

Un demi. Um chope.

LIZ LIZ

Deux demis, s’il vous plaît! Senhor, dois chopes, por favor!

VENDEUR VENDEUR

KEN KEN

Vous faites quoi à Paris? Você faz o que em Paris?

LIZ LIZ

J’ai “une” rôle dans “une” film. Eu tenho um papel em um filme.

KEN KEN

C’est quoi comme genre de film? Que tipo de filme?

LIZ LIZ

C’est un film d’époque. É um filme de época.

KEN KEN

Tu tournes ce soir? Você vai voltar essa noite?

LIZ LIZ

Oui... “tout” la nuit. Sim...todas as noites.

Je vais aller là-bas dans une heure. Estarei voltando em uma hora.

KEN KEN

Je pourrais y voir? Eu posso ir vê-la?

LIZ LIZ

Si tu veux… Se você quiser...

KEN KEN

Bon, je dis... si je viens, je vais pas me faire jeter ?

Bom, eu disse... se eu for, não vou ser expulso ?

LIZ LIZ

Quoi? O quê?

KEN KEN

Si je viens, je vais pas me faire jeter ? Se eu for, não vou ser expulso?

LIZ LIZ

Tu peux m’appeler. Você pode me ligar.

KEN KEN

J’ai pas ton numéro. Mas eu não tenho seu número.

VENDEUR VENDEUR

Merci. Obrigado.

LIZ LIZ

On doit faire 001 parce que c’est “une” téléphone “américaine”.

Antes de discar, você precisa colocar 001, porque é um número americano.

KEN KEN

Prends soin, elle est forte. Cuidado, ela é forte.

À plus tard. Até mais!

4.7.1 Estratégias de Tradução

Partindo da leitura do texto de PH, identificamos a ocorrência de algumas estratégias de tradução, que são utilizadas para solucionar possíveis problemas em traduções (BARBOSA, 2004).

Dentre as estratégias que conhecemos na fundamentação teórica desta pesquisa (cf. tópico 2.1.), a estratégia mais utilizada pelo estudante PH foi a tradução

literal, pois, segundo Vinay e Darbelnet (1996[1958]), torna o texto de chegada o mais

semelhante possível, em estrutura e conteúdo, ao texto de partida, como apontamos nos primeiros exemplos que ilustram tal definição “Boa noite!”, “Um chope”, “Certo” e

“Você faz o que em Paris?”. Lembramos que, no quadro das traduções diretas, a tradução literal é a que mais aproxima, em forma e conteúdo, o texto de chegada ao texto de partida.

Vejamos que, assim como nesses exemplos “Boa noite!” e “Um chope”, o estudante PH preservou tanto os recursos linguísticos, como a ordem das estruturas, por exemplo, em francês, temos “Vous faites quoi à Paris?” e, em português, temos a tradução correspondente “Você faz o que em Paris?”.

Embora a tradução seja literal, o estudante traduziu o pronome “Vous”, marca de formalidade em língua francesa, por uma expressão mais informal, em português, como “você”. No próximo trecho da entrevista, PH descreve como procedeu:

Fragmento 1

PH - Ter assistido ao vídeo, assistido à cena, eu percebi que era uma linguagem bem informal, assim, uma comunicação bem informal. Apesar de que, aqui, no texto tem uma passagem que o personagem utilizou uma linguagem mais formal, mas eu adaptei e utilizei uma informalidade. Eu apenas tentei deixar uma linguagem bem mais coloquial mesmo, sem me prender muito às particularidades da gramática.

Em outros termos, observamos que o estudante PH considerou a utilização da gramática de forma contextualizada, prezando pelo contexto situacional do diálogo do que, necessariamente, pela forma do texto.

Para a afirmação em francês “Oui”, o estudante traduziu “Certo”. Consideramos que foi uma tradução literal, porque não houve mudança de categoria gramatical e a expressão, além de ser dicionarizada, é usada em circunstâncias como essa de confirmação. É interessante notar que, para essa mesma afirmação, tivemos, nos textos dos outros estudantes, as traduções “Ok.” e “Sim.”.

Da mesma forma, PH seguiu utilizando a estratégia literal em “Eu tenho um

papel em um filme”, tradução palavra-por-palavra de “J’ai ‘une’ rôle dans ‘une’ film.”.

Diferente das traduções dos estudantes PA e PC e semelhante à tradução do estudante PF, o estudante PH não conservou em seu texto, em português, o erro de concordância identificado na fala da personagem Liz.

Durante a entrevista, perguntamos ao estudante PH sobre esse procedimento no texto. Vejamos:

Fragmento 2

PH - Bom, ela é americana e está em Paris... Talvez, por isso, por não ser nativa da língua, pode ter havido algum erro de pronúncia, mas aí eu fiz essa correção.

M – Então, você não conservou esse erro?

PH - Não, não. Eu não deixei essa marca. E até mesmo, ficaria estranho, uma pessoa ler o texto com alguns erros, bom, não sei... achei melhor corrigir.

Podemos compreender que o estudante PH conservou a ideia, mas não a ação linguageira individual da personagem que lhe identifica como estrangeira. Assim, o estudante, de posse de suas concepções sobre a língua, não alterou o conteúdo e nem conservou o erro criado para tal personagem, retirando a característica da estrangeira americana, que não domina muito bem a língua francesa.

Ao não conservar (ao corrigir) o erro, o estudante estaria descaracterizando a personagem, já que, em filmes, é possível identificar a origem de personagens estrangeiros através de seus sotaques, por exemplo. Todavia, consideramos que a tradução foi literal, mesmo sem manter, rigorosamente, a estilística do texto de partida.

O estudante PH traduziu o exemplo em francês, “C’est quoi comme genre

de film?” por “Que tipo de filme?” em português. Notamos que foi utilizado o nome

“tipo” em português ao invés de “gênero”, como no texto em francês, pois compreendemos que “tipo” é usado com mais frequência em língua portuguesa. Apesar da escolha por tal vocábulo, isso não interferiu na caracterização da estrutura como conduzida pela estratégia literal.

Além desses exemplos produzidos pelo estudante PH, temos “É um filme de

época.” e “Se você quiser...”, nos quais podemos perceber a mesma ordem e estrutura

do texto de partida “C’est un filme d’époque” e “Si tu veux...”, sem alteração do conteúdo.

No caso de “Bon, je dis... si je viens, je vais pas me faire jeter?” o estudante PH (re)estruturou tal oração francesa, respeitando a ordem sintática dos elementos na língua portuguesa, por exemplo, “Bom, eu disse... se eu for, não vou ser expulso?”. Além disso, traduziu, como podemos observar, o verbo “jeter” usado na expressão “se

faire jeter” por “ser expulso”, uma de suas acepções que podemos encontrar em

dicionários (cf. tópico 4.4).

Para completar o quadro de traduções literais no texto do estudante PH, temos os exemplos “O quê?” e “Você pode me ligar.”, que também foram produzidos seguindo a estrutura do texto de partida. O último exemplo de tradução literal é o correspondente do turno de fala “merci”, o termo “Obrigado”, utilizado pelo atendente do bar.

A seguir, vejamos os exemplos do texto do estudante PH que contemplam a estratégia de tradução literal:

Quadro 30: Exemplos de estratégia literal do estudante PH Boa noite.

Um chope. Certo.

Você faz o que em Paris? Eu tenho um papel em um filme.

Que tipo de filme? É um filme de época.

Se você quiser... O quê? Você pode me ligar.

Bom, eu disse... se eu for, não vou ser expulso? Obrigado.

Além da estratégia de tradução literal, identificamos a explicitação que se caracteriza por acrescentar outros recursos linguísticos ao texto de chegada. Por exemplo, ao traduzir o trecho “Qu’est-ce que tu veux?” por “O que você vai querer?”, notamos que o estudante PH acrescentou o verbo “ir”.

Da mesma forma, na tradução de “Deux demis, s’il vous plaît!”, adicionou o vocativo “senhor”, ficando em português: “Senhor, dois chopes, por favor!”. E na tradução de “J’ai pas ton numéro”, acrescentou o recurso “mas”, por exemplo, “Mas eu

não tenho seu número.”. No caso da tradução de “On doit faire 001 parce que c’est une téléphone américaine”, observamos que o estudante utilizou a explicitação “Antes de discar, você precisa colocar 001, porque é um número americano.”.

Em todos os casos, o estudante PH agiu, conforme a necessidade que teve de explicitar a tradução para o destinatário que receberá o texto. Além disso, construiu o texto, tendo em vista três ações: a formalidade, ao fazer um pedido em um

Tradução Literal

estabelecimento (no caso do filme, em um bar, utilizou “senhor”); a informalidade, ao usar um marcador linguístico utilizado (“mas”), com frequência, na fala; e a explicação, ao tornar o texto em língua portuguesa, mais simples para leitor, embora mais longo (“antes de discar, você precisa colocar”).

No fragmento, a seguir, o estudante PH reconheceu e compreendeu a estratégia utilizada como a marcação do grau de formalidade entre os personagens:

Fragmento 3

PH - Eu não segui... por exemplo, nessa parte em que a personagem Liz diz: “- Deux demis, s’il vous plaît”. Então, eu botei “Senhor, dois chopes, por favor”, pra apresentar a formalidade da fala aqui, “Senhor, por gentileza...”, né? Nessa parte, eu utilizei a correspondência, não foi uma tradução “mot-à-mot53”, literal, tanto é que eu mudei a ordem de algumas frases.

Compreendemos, também, que o estudante PH nega, de certa forma, a utilização da estratégia de tradução literal (também conhecida por palavra-por-palavra, segundo VINAY e DARBELNET, 1996[1958]), como se fosse incorreto utilizá-la em sua prática, talvez por confundir o termo com os problemas que sempre perpassaram os Estudos da Tradução, como a discussão entre origem, fidelidade e cópia, por exemplo (BASSNETT, 2003).

O próximo quadro resume a estratégia utilizada pelo estudante, nesses últimos exemplos, e, em negrito, temos os termos que foram explicitados e/ou acrescentados:

Quadro 31: Exemplos de estratégia explicitação do estudante PH

Qu’est-ce que tu veux? O que você vai querer? Deux demis, s’il vous plaît!  Senhor, dois chopes, por favor!

J’ai pas ton numéro Mas eu não tenho seu número.

On doit faire 001 parce que c’est une téléphone américaine Antes de discar, você precisa colocar 001, porque é um número americano.

A omissão, caracterizada por suprimir elementos considerados repetitivos ou desnecessários no texto de chegada, foi também outra estratégia utilizada pelo estudante PH, como podemos ver nos exemplos “Cuidado, ela é forte.” e “Até mais!”.

53

Palavra-por-palavra.

Explicitação

No primeiro exemplo, houve a omissão de “Prends”, correspondendo a “Tome” ou “Tenha”, antes do termo “Cuidado” e, no segundo exemplo, houve a omissão de “tarde” após o termo “mais”. Essas omissões são presentes, frequentemente, em conversas entre amigos, por exemplo, como no gênero oral em questão.

Após a leitura do fragmento, temos um quadro com a exposição dos exemplos em que houve a estratégia omissão, estando em negrito os termos que consideramos omitidos pelo estudante PH:

Quadro 32: Exemplos de estratégia omissão do estudante PH

(Tome) Cuidado, ela é forte. Até mais (tarde)!

Para fechar o quadro de estratégias tradutórias utilizadas pelo estudante PH, trazemos alguns desvios que aconteceram em seu texto. As transações, turnos de fala, traduzidas pelo estudante PH para a língua portuguesa: “Você vai voltar essa noite?”, “Sim, todas as noites.” e “Estarei voltando em uma hora.” distanciaram-se do conteúdo disponível no texto em francês que seria correspondente ao sentido construído durante a leitura do texto. Assim, esses trechos correspondem parcialmente ao conteúdo temático das transações em francês: “Tu tournes ce soir?”, “Oui... ‘tout’ la nuit.” e “Je vais aller

là-bas dans une heure.”.

Nestas, os verbos “tourner” e “aller” são utilizados de maneira divergente do sentido que deveria ser construído no diálogo da atividade proposta. Ou seja, ao contrário de “gravar” e “ir”, respectivamente, o estudante escolheu apenas a forma “voltar”, dando outro sentido para o texto, focando na personagem, ao invés de focar no filme que Liz grava em Paris.

Voltamos à análise da capacidade de ação, na qual identificamos que, nessa parte da transação, o tema é o filme que Liz está gravando em Paris. Na tradução de PH, a tradução de “y voir” por “vê-la”, é ambígua, ou seja, podemos entender que o personagem Ken ou está querendo ver Liz, ou a gravação do filme.

Nesses casos, o estudante PH criou, deu um novo sentido ao texto, mostrando que pode ser construído um novo texto. O desvio direcionou o conteúdo do

texto para outro conteúdo totalmente novo. Apesar de que, para alguns teóricos da tradução (MOUNIN, 1963) esse desvio seria considerado como erro, em nossa pesquisa não defendemos o “erro” em tradução, pois se lidamos com essa noção, acabaremos por voltar à discussão de que um texto deve ser literal (fiel) e não equivalente ao texto de partida.

Sabemos também da importância em deixar a mensagem do texto de chegada semelhante ao texto de partida, porém como consideramos o processo pelo qual passa o aluno ao traduzir, lidamos com essa noção de “erro” através da palavra “desvio”, pois o texto não está errado, apenas desviou-se, parcialmente, do conteúdo temático que trazia o texto de partida.

Quanto ao desvio, não se trata da maneira como o indivíduo vê a realidade ou a interpreta na sua cultura, o que denominaríamos como modulação. Mas da própria compreensão linguística e semântica que o estudante tem dos termos que traduziu, como problema de compreensão das acepções, que podem ter os termos em questão.

Acreditamos que o “erro” pode ser uma consequência do processo constante de aprendizagem em LE, pelo qual ainda passam os alunos de Letras, assim como qualquer aluno que estuda uma LE, em outros contextos. Justificamos esse dado, pois não é de nosso intento mostrar o certo e nem o errado. Mas dizer que é comum a situação em que estudantes de LE, no nosso caso em formação inicial de professores, interpretar textos (ou somente palavras) de maneiras diferentes, e às vezes, com conteúdos diferentes, como o caso que acabamos de ver e como vimos, durante a observação da pesquisa nas disciplinas de Tradução do curso de Letras.

A problemática maior é quando nos deparamos com desvios que não correspondem, de forma alguma, ao conteúdo temático de um texto, o que não é o caso da tradução do estudante PH. Pois, apesar de tudo, ainda podemos compreender a situação comunicativa, enquanto leitores e, também, produtores de significados como o tradutor (RODRIGUES, 2000), e ter um texto aceitável.

Barbosa (2004) fala de duas autoras que categorizaram o desvio como erro (ALVES, 1983 apud BARBOSA, 2004)54 e tradução inadequada (PAIVA, 1981/82

54 ALVES, Irene da Costa. Modalidades de tradução: uma avaliação do modelo proposto por Vinay e Darbelnet. Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1983, 252 págs, Mimeografada.

apud BARBOSA, 2004)55 em pesquisas sobre o uso de estratégias tradutórias. Como não corroboramos com os termos “erro” e “inadequado”. Acrescentamos um quadro sintético com o termo “desvio” e as respectivas traduções.

Destacamos, a seguir, os termos tanto em francês, quanto em português, identificados no texto como desvios de tradução:

Quadro 33: Exemplos de desvios tradutórios do estudante PH

Você vai voltar essa noite? Tu tournes ce soir? Sim, todas as noites.  Oui... ‘tout’ la nuit.

Estarei voltando em uma hora.  Je vais aller là-bas dans une heure.

Temos também “Je pourrais y voir?” que foi traduzido por “Eu posso ir vê-

la?”. No trecho, o estudante PI usou em português o pronome oblíquo na construção

“vê-la” ao invés do advérbio “lá”. Observamos que esse turno de fala poderia ser uma tradução literal, mas por conta dessa mudança gramatical, trazemos a noção que define outra estratégia: a transposição. Em francês, a transposição não existiria nesse trecho, porque o elemento de coesão “y” é um pronome e não um advérbio, como em português.

Vejamos o quadro com o exemplo de transposição:

Quadro 34: Exemplo de estratégia transposição do estudante PH

Je pourrais y voir ? Eu posso vê-la ?

Lembramos que todas as estratégias podem se combinar, aparecendo em certos trechos mais de uma. Porém, optamos por identificá-las separadamente e por nível de adequação ao exemplo.

55 PAIVA, Mª da Graça Gomes. Aplicação das modalidades de tradução de Vinay e Darbelnet em um número considerável de sintagmas nominais usados na área de serviço social. Estudos Anglo- Americanos. Associação Brasileira de Professores Universitários de Inglês (ABRAPUI). 5-6:81-104, 1981/82.

Transposição Desvio

Tradutório

Podemos afirmar que o estudante PH utilizou estratégias tradutórias como literal, explicitação, omissão e transposição e, além dessas, ainda identificamos desvios entre o conteúdo do texto de partida e o conteúdo do texto de chegada.

Constatamos, então, que o texto de PH é semelhante ao texto em francês, ao mesmo tempo em que possui informações que o texto em francês não traz. Para caracterizar os elementos que materializam essas informações, apresentamos a análise da capacidade linguístico-discursiva. A partir dela, podemos entender a escolha de cada elemento presente no texto do estudante.

4.7.2 Capacidade Linguístico-Discursiva

Podemos encontrar no texto do estudante PH elementos da língua que concretizam os mecanismos de textualização e enunciativos que são responsáveis pelo desenvolvimento da capacidade linguístico-discursiva. Esta é responsável pela materialização da linguagem nos diversos gêneros textuais em interação com as outras duas capacidades, capacidade de ação e capacidade discursiva, que compõem o grupo das capacidades de linguagem. Estas últimas capacidades englobam as condições de produção, as sequências e os tipos de discursos, que vimos nos tópicos 4.3.1 e 4.3.2.

Já a capacidade linguístico-discursiva, sobre a qual nos detemos nesse tópico, possui em sua constituição os mecanismos de textualização e os mecanismos enunciativos. No primeiro grupo, encontramos os operadores de textualização, como os pronomes, verbos e conjunções, que demarcam a coesão nominal, a coesão verbal e a conexão. No segundo grupo, encontramos os operadores enunciativos, como as vozes e as modalizações. As coerências temática e pragmática de um texto decorrem da mobilização da capacidade linguístico-discursiva.

Desta forma, no trecho “Boa noite. O que você vai querer?” temos, assim como os demais textos traduzidos (dos estudantes PA, PC, etc.) apresentaram em seu conteúdo temático, a saudação “Boa noite”, marcando o momento do dia em que se encontram os personagens da cena; temos a coesão nominal representada pelo pronome de 2ª pessoa “você”, que introduz o personagem Ken no diálogo; essa coesão nominal é acompanhada pela coesão verbal, caracterizada pelos verbos “ir” e “quer” no futuro perifrástico, “vai querer”, que, apesar de tal forma possuir um verbo no presente (vai), sua ocorrência, nesse caso, está marcando o momento do processo como posterior ao

momento da produção de fala do personagem. Ou seja, nesse trecho Liz direciona o leitor para um desejo posterior à sua pergunta, concretizado pela resposta de Ken.

Na resposta “Um chope”, referente a essa pergunta, podemos encontrar o SN indefinido, artigo “um”, que introduz o subtema referente à pergunta de Liz. Na transação seguinte, a personagem Liz fala “Senhor, dois chopes, por favor!”; diferentemente dos textos até aqui analisados, nesse exemplo o estudante PH acrescentou o vocativo “Senhor”, que identificamos como a voz do autor, ou seja, do próprio estudante PH, caracterizando os mecanismos enunciativos. Percebemos que o estudante coloca no texto a maneira como ele fala ao fazer pedidos, como acontece nessa cena.

Em seguida, no trecho “Você faz o que em Paris?”, o estudante utilizou, novamente, o pronome de segunda pessoa “você” para retomar a personagem Liz, que já havia se apresentado no diálogo em “O que você vai querer?”. O pronome, responsável por mobilizar a coesão nominal, relaciona-se ao restante da oração que possui o verbo “fazer” conjugado no presente com valor aspectual de processo em atividade, em realização, caracterizando a coesão verbal. Além disso, o estudante inverteu a oração, colocando o interrogativo “o quê” depois do sintagma “você faz”, assim como está no texto em francês, mostrando a semelhança que tem com tal texto de partida, como analisamos na estratégia de tradução literal, vista no tópico anterior (cf. 00). Desta forma, a oração pede um complemento espacial, materializado pelo eixo local “em Paris”, que permite ao leitor (nesse caso, o estudante de letras que participou da pesquisa) identificar o lugar onde se passa a cena e a origem de Liz que não mora em