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Foreningen Brukskunst i perioden 1918 til 1965

Kapittel 1: Fra opprettelse til omorganisering (1918–1965)

1.2 Foreningen Brukskunst i perioden 1918 til 1965

Durante o processo de divulgação de notícias, identificamos três situações com as quais uma organização pública produtora de ciência e tecnologia se defronta quando o assunto envolve riscos em geral (e não apenas os tecnológicos). A primeira diz respeito aos momentos em que ela toma a iniciativa de divulgar um determinado assunto; a segunda, àqueles em que a imprensa é quem toma a iniciativa de procurar a organização; e a terceira acontece nos casos

67 Happening aqui pode ser traduzido por evento, já que, para os autores, “ocorrência” é um “happening cognizado”, ou seja, que obtém seu sentido a partir do contexto em que está inserido, enquanto “acontecimento” é uma ocorrência “criativamente utilizada” por indivíduos e coletividades para demarcação do tempo público ou privado.

de ocorrência de um acidente – vazamento de gás, derramamento de petróleo, contaminação de um campo experimental, por exemplo. Neste último caso, a iniciativa de divulgar o episódio pode ser da organização ou da imprensa. Os manuais de comunicação riscos aconselham que, nesse caso, a organização seja proativa, embora, nem sempre isso aconteça.

No primeiro caso, estamos dentro dos chamados “acontecimentos de rotina”, ou seja, acontecimentos intencionalmente promovidos pela organização, segundo a tipologia dos acontecimentos públicos estabelecida por Molotch e Lester (op.cit.: 42-46). Na perspectiva da comunicação de riscos, isso acontece quando: i) a organização identifica e/ou caracteriza (ou está procurando identificar e/ou caracterizar) um perigo – agente biológico, químico ou físico capaz de provocar um efeito nocivo à saúde humana, animal ou ao meio ambiente; ii) a organização identifica e/ou caracteriza (ou está procurando identificar e/ou caracterizar) o risco – probabilidade de ocorrência dos efeitos nocivos identificados; iii) a organização desenvolveu (ou está desenvolvendo) medidas – métodos, procedimentos, tecnologias – para controlar (uma vez que não existe risco zero) os riscos. Assim,

Acontecimentos de rotina são distinguíveis pelo fato de o happening subjacente em que presumivelmente se baseiam serem realizações intencionais e pelo facto de as pessoas que se encarregam do happening (a que chamamos “os executores” ou effectors) serem idênticas àquelas que os promovem em acontecimentos (ibid.).

Para transformar (ou não) acontecimentos em notícias (releases e sugestões de pauta), as organizações de ciência e tecnologia se baseiam em valores-notícia que combinam interesses e necessidades organizacionais delas, da imprensa e, por delegação, do público. Em pesquisa realizada em uma empresa de pesquisa agropecuária brasileira, Attuch (op.cit.: 50) constatou haver um consenso entre os entrevistados de que notícias (conteúdos ou abordagens) que atendessem às necessidades organizacionais – “sobreviver às ameaças de extinção, ganhar apoio para obter recursos e garantir orçamento para ciência e tecnologia, valorizar a atividade de pesquisa junto ao público urbano, dar ao público uma formação em ciência e transferir conhecimentos e tecnologias” – deviam ser estimuladas ou promovidas. Ela também verificou que, apesar da afirmação dos entrevistados de que não havia “assuntos tabus” na organização, existiam “claras restrições” quanto ao que não podia ou não devia ser visto e sabido, havendo limites a serem respeitados, mesmo entre aquelas notícias que foram consideradas como devendo ser estimuladas ou promovidas:

Observei haver, entre os entrevistados, uma concordância generalizada em torno do tipo de notícias que devem ser evitadas: aquelas que prejudiquem o andamento de uma pesquisa, por se tratar de informação sigilosa; as que causem danos à credibilidade, confiabilidade, competência científica da

Embrapa e as que afetem os interesses de quem financia a pesquisa (op.cit.: 50).

Dentre as informações sigilosas, Attuch coloca as restrições provenientes do ambiente externo à organização, “como no caso da legislação que hoje regula a propriedade intelectual no País e impõe o sigilo da informação, por questões de segurança, até o momento em que a descoberta esteja patenteada”.

No grupo das informações que devem ser evitadas por serem passíveis de causar danos à credibilidade, confiabilidade e competência científica da organização, a autora coloca aquelas cujos valores “fundamentam a legitimidade” no campo cientifico (BOURDIEU, 1983, 2003): a “verdade” e o “grau de certeza”. A verdade, afirma a autora, “é o primeiro dos valores predominantes no campo científico” e “deve orientar as notícias a serem produzidas [...] para manter a opinião púbica informada sobre a empresa” (op.cit.: 53). O segundo valor é, de acordo com ela, o “grau de certeza” em relação a uma informação, expressão sobre a qual ela observou não haver consenso, entre os entrevistados, sobre o que o determina. Em geral a expressão é traduzida por “é preciso evitar falsas promessas”, mas “parece ser um limite definido pelo pesquisador, ou pela empresa, e relacionado ao conceito de responsabilidade individual ou institucional, sendo, portanto, bastante subjetivo” (ibid.).

O último grupo de notícias que devem ser evitadas – “as que possam vir a afetar os interesses de quem financia a atividade de pesquisa ou, mais especificamente, alguns dos projetos desenvolvidos pela empresa” – não foi muito explorado pela autora. Ela, no entanto, relatou um episódio lembrado pelos pesquisadores entrevistados sobre um assunto que foi notícia e que teve repercussão negativa na empresa, causando polêmica e até mesmo reação por parte das entidades financiadoras do projeto que, segundo declaração de um entrevistado, até quiseram “cortar dinheiro”. Tratava-se de “uma matéria sobre uma pesquisa de trigo desenvolvida pela empresa, na qual o pesquisador declarou ser possível substituir o café pelo trigo, afetando os interesses dos cafeicultores” (op.cit.: 56).

As constatações de Attuch coadunam-se com as pesquisas realizadas por Ericson et al. (1989) nas quais eles observaram o processo de permanente ligação entre fontes e jornalistas nos seus esforços de rotina para negociar o controle de suas atividades cujo objetivo final é a produção de notícias. Segundo esses autores, a liberação de informações para os jornalistas por parte das organizações ocorre segundo uma grade de regiões – vanguarda e retaguarda – que se abrem e fecham, constituindo quatro dimensões: sigilo (segredo), confidência (confiança), censura e publicização (promoção).

Situados na região fechada da retaguarda estão os assuntos que a organização quer manter na “intimidade”, como o desenvolvimento de produtos e as fontes de financiamento. São os assuntos sigilosos, (op.cit.: 286). Um pouco mais à frente, mas ainda na retaguarda, estão os assuntos “abertos” apenas para alguns jornalistas com os quais a organização mantém uma relação de confiança (op.cit.: 288). A “censura” refere-se aos assuntos localizados na vanguarda ou “linha de frente”. As organizações permitem acesso aos jornalistas, mas mediante um porta-voz em geral da área de comunicação, aparentando uma “abertura” que, na verdade, não existe (op.cit.: 277). Finalmente a região da “publicização” é aquela situada na linha de frente, em que a organização libera a informação que lhe interessa, mas o controle sobre a publicação ou não do material não é seu, mas do jornalista (op.cit.: 291). Todos esses movimentos fazem parte do ato de gerir a informação organizacional.

A segunda situação em que as organizações se vêem diante da divulgação de um assunto que envolve riscos ocorre quando a imprensa toma a iniciativa de procurá-la para obter a sua visão dos acontecimentos. Isso é possível em se tratando de acontecimentos de rotina, mas, não dos protagonizados pela organização, em casos de escândalos e de emergências.

No caso dos acontecimentos de rotina promovidos por outros atores sociais, temos aqueles cuja divulgação inicial se dá por grupos que detêm pontos de vista semelhantes aos da organização – como o caso de “aliados” e “parceiros” – e por aqueles que têm posições opostas a ela – como no caso de grupos de ativistas que se colocam contra determinados posicionamentos científicos, gerando polêmicas. Situações desses tipos ocorrem quando, por exemplo, um órgão de ciência e tecnologia de um governo estadual ou um grupo ambientalista se manifesta sobre um tema de risco a respeito do qual a organização esteja desenvolvendo (tenha desenvolvido ou pretenda desenvolver) pesquisas. Tendo em vista garantir a objetividade e a imparcialidade da notícia, os jornalistas procuram apresentar as chamadas “provas auxiliares”, para corroborar a veracidade das informações, ou as denominadas “possibilidades conflituais” do fato noticiado, ou seja, outras opiniões sobre ele (TUCHMAN, [1972]1993).

Ainda nessa categoria estão os acontecimentos criados pela própria imprensa: “estórias” geradas pelos news assemblers que vão “desenterrar” as notícias (MOLOTCH; LESTER, [1974]1993: 46). Como exemplo desse tipo de situação, pode-se citar o caso em que, examinando os registros de ocorrência de câncer de pele nos hospitais de uma determinada região, o jornalista verifique seu aumento e inicie uma investigação para apurar as causas dessa ocorrência. Depois de ouvir representantes da população local, o jornalista em

geral procura uma organização científica – mesmo que ela não desenvolva pesquisas especificamente sobre o assunto –, com a finalidade de ouvir a “palavra do especialista”. Esta é uma prática cada dia mais corriqueira na atuação jornalística: o recurso aos representantes “dignos de crédito” de instituições cientificas reconhecidamente importantes. Conforme destacam Hall et al. (1993: 229), o “perito” é uma das fontes “acreditadas” pelos jornalistas. “[...] a sua atividade - a busca ‘desinteressada’ do conhecimento -, não a sua posição ou representação, abona em favor da ‘objetividade’ e ‘autoridade’”.

Escândalos partilham características tanto dos acidentes como dos acontecimentos de rotina, mas, segundo Molotch e Lester, também diferem de ambos porque sua divulgação é promovida por uma atividade intencional de grupos que não partilham do pensamento ou da forma de atuação de um determinado indivíduo ou de uma organização:

Um escândalo implica uma ocorrência que se torna um acontecimento através da atividade intencional de indivíduos (chamamos-lhes “informadores”) que por uma ou outra razão não partilham as estratégias de produção de acontecimentos dos “executores” das ocorrências (MOLOTCH; LESTER, op.cit.: 48).

Como o acidente, lembram os autores, o escândalo revela traços normalmente ocultos das organizações e dos processos institucionais. Freqüentemente, um acidente estimula uma série de escândalos, mostrando a fragilidade de determinados modelos de cálculos utilizados para determinar a segurança de um equipamento numa usina nuclear ou para avaliar a segurança alimentar de certos produtos, por exemplo.68

A terceira situação em que a imprensa procura uma organização de ciência e tecnologia para tratar de assuntos envolvendo riscos refere-se às emergências. As emergências dizem respeito tanto a um evento ocorrido quanto à possibilidade de que um acontecimento futuro venha a provocar danos à saúde da população ou dos animais, ou à qualidade do meio ambiente. O primeiro caso, mais comum na literatura sobre comunicação de risco, engloba as conhecidas “tragédias” ocasionadas por agentes físicos (tornados, terremotos, enchentes), biológicos (bactérias que provocam a contaminação de alimentos, por exemplo) e químicos (radioatividade, ondas eletromagnéticas, energia nuclear, petróleo, gases etc.). Tanto a organização pode estar envolvida diretamente com o acidente como pode ser procurada para

68 Um caso recente de escândalo foi a denúncia de contaminação no leite Longa Vida, feita pelo Ministério Público Federal, em outubro de 2007. Na ocasião a Polícia Federal prendeu 27 pessoas acusadas de crime contra a saúde pública e contra as relações de consumo. As acusações eram referentes a adulteração no leite produzido por cooperativas das cidades de Uberaba e Passos, em Minas Gerais. Os acusados usavam técnicas ilegais (soda cáustica e água oxigenada) para aumentar a duração e rentabilidade do produto (soro). Utilizadas em desacordo com os parâmetros recomendados, as substâncias químicas podem se transformar em poderosos agentes cancerígenos.

emitir sua opinião a respeito dos fatores envolvidos na ocorrência do evento e as possíveis conseqüências para a população e para o meio ambiente, seguindo, como já observado anteriormente, a estratégia jornalísticas de “ouvir” os especialistas.

O segundo caso, bem menos abordado pela literatura de risco, inclui as chamadas “ações preventivas” de utilidade pública ou de prestação de um serviço à comunidade em face da possibilidade de ocorrência de uma epidemia (gripe aviária, febre aftosa, dengue, febre amarela) ou de um evento relacionado a fatores climáticos (chuvas excessivas, seca prolongada). Nessas ocasiões a imprensa procura informar a população sobre quais as medidas a serem adotadas para prevenir ou para minimizar os efeitos adversos e, para isso, procura as fontes especializadas sobre o assunto nas organizações produtoras de conhecimentos científico-tecnológicos.69

Os acidentes são classificados por Molotch e Lester como diferentes dos acontecimentos de rotina em dois pontos: 1) o evento subjacente não é intencional; e 2) aqueles que o promovem como acontecimento público não são os mesmos cuja atividade deu origem ao acontecimento. Os acidentes residem, assim, dizem os autores, nos cálculos errados que levam à quebra da ordem habitual. Por exemplo: derramamentos de petróleo, eles explicam, envolvem “erros” em que o propósito estratégico da atividade de produção petrolífera se desliga das suas conseqüências:

O acidente tende a ter resultados que são opostos aos acontecimentos de rotina. Em vez de ser um contributo deliberadamente planejado para uma estrutura social intencionalmente desenvolvida, ele fomenta revelações que de outro modo são deliberadamente ofuscadas por aqueles com recursos para criar acontecimentos de rotina (MOLOTCH; LESTER, op.cit.: 47).

A rapidez com que acontecem e a sua natureza imprevisível faz com que as organizações, muitas vezes, não estejam preparadas para lidar com eles e, assim, terminem por prestar informações descoordenadas e até mesmo contraditórias. Se não tratados adequadamente pela equipe de profissionais da comunicação organizacional, acidentes podem se transformar em verdadeiras crises institucionais trazendo sérios prejuízos para a reputação

69 Algumas vezes a própria organização dispõe de “sistemas de alerta” à população, que também abastecem regularmente a imprensa, com informações sobre riscos climáticos ou sobre doenças e pragas que afetam a produção agrícola, por exemplo. A Embrapa dispõe do Sistema de Alerta para lavouras de soja, trigo e girassol. Ele é uma rede de comunicação que se destina a informar a assistência técnica pública e privada sobre problemas detectados durante a safra, orientar quanto a possíveis soluções e captar, entre os agentes de transferência, informações sobre o desempenho da safra nas várias regiões produtoras. Informações sobre o sistema estão no endereço eletrônico <http://www.cnpso.embrapa.br/alerta/index.php>. Acesso em: 16 jul. 2008.

da organização. Talvez por essa razão, os manuais de comunicação de risco sejam pródigos em receitas sobre como a organização deve se colocar perante a imprensa em casos de acidentes (USA, 1998; CANADA, 2001; OECD, 2002; SANDMAN, 2006).

O processo de “disrupção acidental”, seguido de tentativas para restaurar os significados tradicionais, pode ser observado empiricamente, argumentam Molotch e Lester (op.cit.: 47). Por esse motivo, os autores consideram os acidentes “recursos cruciais para o estudo empírico dos processos de estruturação de acontecimentos”, permitindo, por sua observação, compreender as práticas organizacionais que fazem com que um produto – a notícia – venha a aparecer da forma como aparece.

A situação atual vivenciada pelas organizações públicas de ciência e tecnologia na divulgação de assuntos e problemáticas que envolvem riscos tecnológicos foge, no nosso entender, inteiramente aos padrões até hoje estabelecidos de rotinas produtivas. Em primeiro lugar, as tecnologias emergentes ou tecnologias portadoras de futuro trazem “embutido”, além dos benefícios, os riscos incertos e controversos, sobre os quais ainda não se têm evidências científicas suficientes para se afirmar, com certeza, que implicações podem ter para a saúde humana e para o ambiente num futuro próximo. Em segundo lugar, seu desenvolvimento requer investimentos vultosos em pesquisa (materiais e equipamentos) e conhecimento de ponta, o que leva as organizações públicas de pesquisa a depender da injeção de recursos de parceiros privados, em muitos casos de empresas multinacionais, cujos interesses têm que ser levados em consideração quando da divulgação dos resultados para a sociedade. Em terceiro lugar, por serem extremamente novos e complexos, esses assuntos não são familiares nem ao público leigo nem aos jornalistas, o que gera, em ambos, uma mistura de fascínio, sobre suas possibilidades de aplicação, e receio, em relação a suas conseqüências, tendo, como resultado, um alto valor como notícia.

Diante disso, as organizações públicas vêem-se diante de um quadro altamente contraditório. De um lado, elas têm nas mãos um assunto atual e interessante para o público e para os media, que lhes interessa promover, uma vez que dará um “bom retorno” institucional. De outro, a divulgação daquele assunto pode gerar repercussões negativas e afetar a estabilidade institucional, uma vez que “esbarra” num dos pilares, como vimos, da legitimidade científica: o grau de certeza. Como agir, então, diante dessa situação? Qual seria o momento mais adequado para divulgar o assunto? É possível combinar os interesses da organização – e de seus parceiros - com os receios e as expectativas dos públicos? Como lidar com as divergências internas dos cientistas da organização em relação ao assunto no momento

em que ele é divulgado? Que atitudes tomar em caso de o assunto vir a provocar polêmicas na imprensa?