4.2 Foreldrerollen
4.2.1 Foreldreerfaringer:
A ideia de juventude está naturalizada em nossa sociedade, que ciclicamente a aponta como fonte de determinados problemas sociais ou vinculada a um imaginário idílico de pureza e beleza. Das propagandas que fazem da juventude um produto pronto a ser consumido – seja de natureza estética e desportiva – às notícias que associam os jovens a uma suposta instabilidade e modo de vida desviante, a rapidez com que os discursos se alternam é impressionante. Mediatizado pelo mercado e por diversos meios de comunicação, o “corpo jovem” é apresentado como símbolo de poder e sedução (Ferreira, 2011:259), um ideal de distinção a que somos constrangidos a seguir sob pena de não nos sentirmos confortáveis com o nosso próprio corpo. Não é de estranhar que todos queiram ser jovens e procurem infinitos artifícios para manter um aspeto jovial. O desejo de preservar a juventude está profundamente enraizado em grande parte das sociedades contemporâneas, o que contribuiu para o
22 Segundo Howard Becker, uma determinada ação para ser considerada desviante depende não apenas do
contexto histórico, mas de quem é acusado de desvio e de quem se sente prejudicado por ele (2008:25). Ou seja, um mesmo ato pode ser tratado ora como um caso grave, ora como um caso brando conforme as características dos atores sociais envolvidos. Diversos estudos demonstraram como a mesma lei é diferentemente aplicada, existindo uma seletividade que criminaliza os jovens pobres e negros, ao contrário do que se sucede com os jovens brancos da classe média e alta (Machado, 2010; Becker, 2008; Wacquant, 2005).
alargamento do seu espaço temporal. Daí ganhar força um conjunto de produtos (cosméticos, roupas e fármacos), práticas (desporto, musculação, estilos de vida) e serviços (cirurgia plástica, esteticista, cabeleireiro) que, ao difundirem a ilusão de proporcionar a chave da eterna juventude (e da juvenilização dos corpos), se tornaram extremamente lucrativos. Essa “promiscuidade intergeracional” torna a definição de juventude bastante complexa, principalmente quando ser jovem passa a ser um objetivo permanente (Vianna, 1997a:9). Carles Feixa utiliza a metáfora “síndrome de Peter Pan” para caracterizar a extrema valorização dos jovens no mundo atual, um atributo cobiçado e glorificado por ser sinónimo de engajamento, beleza e irreverência (2011:206). Contudo, convém ressaltar que este imaginário convive com outros que os associam a um conjunto de patologias e estigmas – visualizados nos supostos comportamentos violentos e desviantes que praticariam –, designadamente quando se trata de jovens pobres, negros e/ou moradores de áreas rotuladas como “problemáticas” ou “desorganizadas”.
A juventude não é uma condição natural e universal do desenvolvimento humano, mas uma construção sócio-cultural. O seu significado varia conforme o contexto, as épocas históricas e as características dos indivíduos em causa: classe, género, etnia, percurso biográfico. Ser um “jovem à rasca” ou integrar a “geração 500 euros” é bem diferente de ser um “beto”23. A juventude para quem é negro e vive numa favela do Rio de Janeiro apresenta
configurações distintas daquelas de quem é branco e vive em bairros nobres. Deste modo, não será um abuso de linguagem agrupar um conjunto tão vasto e heterogéneo de indivíduos numa mesma categoria? É esta a opinião de Pierre Bordieu quando afirmou que a juventude constitui apenas uma palavra. Para o autor:
“(...) a idade é um dado biológico socialmente manipulado e manipulável; o facto de se falar dos jovens como uma unidade social, como um grupo constituído, dotado de interesses comuns, reportando esses interesses a uma idade definida biologicamente constitui, desde logo, uma manipulação evidente. (...) é por um formidável abuso de linguagem que podemos reunir sob um mesmo conceito universos sociais que não têm praticamente nada em comum24.” (Bourdieu, 2008:145)
Para José Machado Pais, uma das principais polémicas em torno da ideia de juventude nas
23 Recentemente, várias expressões têm sido criadas em Portugal para tentar definir os jovens sob a ótica da sua
frágil inserção no mercado de trabalho: “geração à rasca”, “geração 500 euros” ou “geração precária” são alguns dos termos mais usuais.
ciências sociais foram as diferenças de análise entre as chamadas correntes geracional e classista. A primeira entende a juventude como uma fase da vida, realçando os aspetos unitários e homogéneos desta categoria social. Segundo esta corrente, os jovens interagiriam como membros de uma geração social por oposição à cultura de outras gerações. Os momentos de tensão e de oposição protagonizados pelos jovens refletiriam uma perceção da sociedade distinta da visão dos adultos – entendida como cultura dominante –, expressão de uma contra-cultura ameaçadora da “cultura adulta” (Pais, 2003:52). A corrente classista, por sua vez, trata a juventude como um conjunto social diversificado dada a transição para a vida adulta ser condicionada pelas diferentes origens de classe. Nessa perspetiva, as culturas juvenis exprimiriam as desigualdades sociais da nossa sociedade, principalmente ao nível da divisão social do trabalho, e configurariam culturas de resistência, pois suas manifestações culturais acabam por ser entendidas como “soluções de classe” a problemas partilhados (idem:61). Embora as trajetórias juvenis não ocorram num vazio social, mas influenciadas por condições estruturais marcadamente desiguais, generalizar o caráter de resistência para todas as culturas juvenis não leva em consideração os aspetos integradores de algumas das suas práticas. Por outro lado, mesmo reconhecendo a existência de “interesses coletivos de geração” – como o menor reconhecimento do diploma escolar25 –, negar as diferentes
posições de classe dos seus componentes significa ignorar condições de existência bastante dissemelhantes (Bordieu, 2008:152). Desta forma, vale a pena fugir dessa polaridade e utilizar o que há de melhor nas duas correntes para a compreensão do universo juvenil.
A emergência da juventude nas sociedades complexas26 passou a existir quando uma série
de dispositivos de controlo foram impostos a uma determinada faixa etária, distinguindo-a das demais. Intimamente relacionadas com o processo de transição do feudalismo para o capitalismo – e permeadas pelo Renascimento, pela Revolução Francesa e pela Revolução Industrial (com os processos de urbanização que lhes são associados) –, as profundas mudanças operadas no seio da família, da escola, da Igreja, do exército e do trabalho delimitaram e segregaram a juventude, conferindo-lhe, pela primeira vez, uma “consciência
25 Pierre Bordieu fala em “desqualificação estrutural da geração” para explicar o sentimento de desencanto dos
jovens da atualidade a respeito da menor correspondência entre o capital escolar e o acesso a um emprego qualificado (2008:152).
26 Gilberto Velho utiliza este termo para referir-se às sociedades modernas capitalistas, marcadas pela divisão
geracional” (Feixa, 1999:37). Separados das outras faixas etárias pelas várias instituições que visavam prepará-los para as responsabilidades do mundo adulto27, os jovens passaram a
conviver entre si, ao mesmo tempo que era legitimado um tempo específico no ciclo de vida cuja existência não incluía a plena participação na esfera produtiva. O período de moratória social concedido à juventude teve como “reverso da medalha” o não reconhecimento da plenitude dos seus direitos, materializado em múltiplas formas de controlo social de ordem familiar, escolar, laboral e penal. A democratização do acesso às instituições de ensino, efeito da criação do Estado de bem-estar, cumpriu um papel de destaque nessas transformações ao generalizar a condição de estudante para jovens de distintas classes sociais, o que também significou serem postos à margem do poder. De facto, para Bordieu é esta desigualdade que fundamenta a noção de juventude, cuja fronteira com a idade adulta constrói-se mediante um jogo de forças entre gerações (2008:153). Todo este cenário de mudanças alterou os padrões de socialização tradicional, centrados nas esferas da religião, da família e do parentesco, transformando a própria conceção da juventude28 (Feixa, 1999).
Ao longo do século XX, principalmente após a 2º Guerra Mundial, esse modelo de juventude, até então restrito à burguesia da Europa e dos EUA, alargou-se a jovens de ambos os sexos das classes menos abastadas e das áreas rurais, inclusive em países menos desenvolvidos – o Brasil é exemplo dessa ampliação. Muitos desses jovens criaram territórios de vivência e interação nos espaços intersticiais das instituições formais, ao mesmo tempo que apropriavam e reinterpretavam elementos simbólicos produzidos noutros países ou por grupos de extratos sociais distintos. O estatuto de jovem tornou-se uma categoria sociocultural, cujo significado excede qualquer fronteira espacial, de género ou de classe. Neste contexto, os
27 A massificação da instituição escolar substituiu a aprendizagem tutorial, comum na Idade Média, e converteu-
se num importante instrumento de iniciação e preparação dos jovens não apenas para o mercado de trabalho mas também para a plena aquisição das responsabilidades do mundo dos adultos (Feixa, 1999). A imposição do serviço militar obrigatório seguiu o mesmo sentido, tornando-se num rito de passagem moderno para o jovem deixar de ser considerado um adolescente imaturo. Afinal, é frequente o seguinte comentário: “tens de entrar no exército para aprender a ser homem”.
28 Carles Feixa aponta cinco fatores importantes na alteração das condições sociais e das imagens elaboradas
sobre os jovens. O primeiro foi a emergência do Estado de bem-estar, responsável pela democratização do acesso às instituições de ensino e das possibilidades de ócio para os jovens. Em segundo lugar, apontou a crise da autoridade patriarcal, em que os jovens procuravam novas esferas de sociabilidade, ampliando a liberdade juvenil. Em terceiro lugar, o nascimento de um mercado dirigido especialmente aos jovens refletiu o seu crescente poder aquisitivo, proporcionando-lhes espaços de consumo e de convívio. Em quarto lugar, o surgimento dos meios de comunicação de massa impulsionou o aparecimento de culturas e estilos juvenis transnacionais. Por último, o autor considera que o processo de modernização impôs uma moral mais consumista e individualista, substituindo a antiga moral puritana (1999:43).
grupos de pares ganharam maior relevo nos processos de socialização e construção identitária, o que se refletiu nas análises sobre a juventude nas últimas décadas, quando foram desenvolvidas várias terminologias para designar os seus agrupamentos e práticas: subcultura29, tribos urbanas30 e culturas juvenis. A preferência pelo termo “culturas juvenis” é
motivada, por um lado, pela sua perspetiva pluralista de ver a juventude (o próprio conceito está no plural) sem esquecer um conjunto de valores e representações atribuídos aos jovens enquanto conjunto social etário. Por outro lado, implicitamente associados às culturas juvenis estão modos de vida específicos, que expressam certas práticas quotidiana. Sobre as culturas juvenis, José Machado Pais propõe a seguinte definição:
“(...) sistema e valores socialmente atribuídos à juventude (tomada como conjunto referido a uma fase de vida), isto é, valores a que aderirão jovens de diferentes meios e condições sociais. (...) O seu sentido antropológico faz apelo para os modos de vida específicos e práticas quotidianas que expressam significados e valores não apenas ao nível das instituições mas também ao nível da própria vida quotidiana.” (2003:69)
José Magnani, por sua vez, formulou um conjunto de categorias que visam melhor compreender as múltiplas circulações e apropriações dos espaços da cidade, frequentemente associadas às atividades lúdicas e de lazer. A noção de “circuito”, proposta por ele, privilegia a inserção dos jovens na paisagem urbana, dando ênfase aos seus pontos de encontro, à convivialidade e às situações de conflito. Diferente do olhar centrado em pequenas unidades territoriais de sentido partilhado – como é o caso do “pedaço31” –, a ideia de circuito é
conhecer a vasta gama de sociabilidades desenvolvidas pelos jovens na metrópole, o que poderá proporcionar uma visão mais contextualizada das suas práticas sociais e dos territórios
29 Gilberto Velho (2004) alertou para os perigos do uso do termo subcultura, que pode levar à reificação de traços
particulares de algumas populações que não expressam um conjunto de crenças e de valores partilhados. Considerado como muito traiçoeiro, este conceito passa a ideia que os seus integrantes pertencem a um mundo à parte, onde a comunicabilidade entre diferentes culturas é quase nula.
30 Este conceito, formulado por Maffesoli (2004), quer chamar a atenção para a “tribalização das sociedades
contemporâneas” impulsionada por microgrupos de jovens caracterizados pela sua busca constante da sensação de pertencimento, autoafirmação e afeto comunitário. Para Magnani (2005), o termo “tribo urbana” possui a limitação de poder transmitir a ideia de estigmatização e homogeneização de universos distintos, além de ter uma carga ideológica que suscita associações à ideia de “selvagem” e aos comportamentos agressivos que daí advêm.
31 Esta noção designa uma referência espacial bem delimitada, onde ocorrem densas relações de sociabilidade
entre os seus membros, mais amplas que as desenvolvidas pelos laços familiares, e também mais significativas e duradouras que as frágeis e superficiais relações vividas em certos contextos urbanos (marcados pelo individualismo e anonimato); o pedaço é um espaço intermediário entre o privado (a casa) e o público (a rua), onde se tece uma espessa rede de códigos e cumplicidades, a estabelecer quais são e quais não são os seus integrantes (Magnani, 2005).
com os quais interagem. Num mundo em que o indivíduo acumula uma pluralidade de referências identitárias e papéis sociais – o que está ligado a um crescente alargamento das redes de contacto e do horizonte de sociabilidades –, a proposta de Magnani tenta responder aos desafios da maior capacidade (e complexidade) de circulação e vivência dos indivíduos nos heterogéneos territórios da metrópole. Outros termos foram desenvolvidos por este autor com o mesmo propósito32: mancha, trajeto, point, quebrada e cena (Magnani, 2005).
A multiplicação das culturas e circuitos juvenis não significa que as tradicionais instâncias socializadoras (família, escola, igreja, etc.) tenham deixado de exercer forte influência, apenas que na contemporaneidade a participação dos jovens em territórios simbólicos mediados pelos “seus iguais” adquiriu uma intensidade inédita. A rua, a esquina, o bar, o clube, o ginásio, a praia, a discoteca ou o centro comercial são alguns dos vários espaços privilegiados de encontro da juventude, cujas sociabilidades partilhadas remetem para uma relação afetiva e igualitária. Na medida em que deixam de se rever totalmente nos espaços de socialização controlados pelos adultos, buscam novos abrigos relacionais e simbólicos onde forjam estilos de vida próprios e identidades inovadoras (Pappámikail, 2011). Numa altura em que as vias formais de autorrealização estão obstruídas ou fortemente desprestigiadas pelas novas gerações, as socializações informais junto dos grupos de pares – com quem partilham utopias, imaginários e estilos de vida – tornaram-se fontes valiosas de conhecimento, aprendizagem e produção de valores. É essa a opinião de José Machado Pais quando refere que a “produção de subjetividades galga as fronteiras dos lugares específicos das instituições” (Pais, 2001:404). Para Gilberto Velho, este processo é fruto dos efeitos da modernidade, em que a industrialização, a expansão da economia de mercado e das novas tecnologias de informação tornaram as ideologias individualistas mais fortes. O sistema de valores e as relações sociais (e institucionais) dos jovens foram bastante afetados, pois as formas tradicionais de
32 É interessante notar que, quase um século depois, vários dos métodos e das premissas inovadoras da Escola de
Chicago continuam muito pertinentes. Sem dúvida que Robert Park foi inspirador para Magnani na elaboração dos seus conceitos, que focam a “organização ecológica da cidade” com vista à compreensão dos comportamentos, das atitudes e dos valores dos citadinos (Park, 1973). Em conjunto com outros etnógrafos de Chicago, Robert Park fez dessa cidade um laboratório para compreender as mudanças sociais e conceber características do que seria o modo de vida urbano (Frúgoli, 2007). Prestava extrema atenção à organização física das cidades – divididas em guetos, subúrbios residenciais de classe média, bairros étnicos, etc. –, unidades passíveis de moldar o caráter moral dos habitantes e vice-versa. Na conceção de Park era central entender o modo como a ordem material (ecológica, económica) relacionava-se com a dita ordem moral, algo só possível de ser verificado empiricamente (Lopes, 2005).
socialização (geralmente guiadas por uma visão de mundo hierarquizante) enfraqueceram-se consideravelmente. Ao mesmo tempo, as alternativas e escolhas quanto a estilos de vida tornaram-se mais abrangentes, movidas pelo avanço da cultura de massas (Velho, 1996).
Outros autores teorizaram sobre os efeitos das recentes transformações das sociedades complexas nos processos de transição dos jovens para a vida adulta. Esses processos deixaram de ter um modelo oficial, “multiplicando-se em trajetos e projetos distintos e não lineares, intensamente reflexivos e individualizados” (Guerreiro e Abrantes, 2004:166). A antiga trajetória linear rumo à idade adulta converteu-se numa trajetória sem direção definida, marcada por reversibilidades. Esta é a perspetiva de Enrique Calvo (2011) quando advoga que a trajetória juvenil deixou de ter um estatuto teleológico (o autor denomina “seta do tempo”) para adquirir um sentido indeterminado, circular e prisional nos dias de hoje33. Maria
Guerreiro e Pedro Abrantes (2004) partilham tal apreciação e denominaram “transições incertas” este novo padrão de ingresso na vida adulta, cuja natureza tende a ser trespassada por riscos e retrocessos. A sucessão de etapas bem definidas e delineadas que caracterizava o anterior modelo de transição tornou-se fragmentada, autónoma e intransitiva. Esta perspetiva já tinha sido objeto de análise de José Machado Pais (1994), que usou a metáfora “geração yô- yô” para caracterizar os constantes movimentos de vai-e-vem dos jovens de hoje: mudam de trabalho a todo momento (o que é agravado pela extrema precariedade); paralisam os estudos (que podem ser retomados posteriormente); os namoros seguem o ritmo da paixão do momento e raramente convertem-se em casamento. Não obstante, o que vários autores (Calvo, 2011; Feixa, 2011; Guerreiro e Abrantes, 2004; Pais, 2001; Lopes, 2000;) concluem é que os processos de transição para a vida adulta são múltiplos e variados, influenciados pelas condições materiais de existência, mas abertos ao sujeito reflexivo e inventivo capaz de dar uso às suas capacidades criativas para alargar os seus “campos de possibilidades” na concretização dos seus sonhos e projetos de vida (Velho, 2004). Além disso, o “princípio da incerteza” assombra um número cada vez maior de jovens, que veem as suas carreiras e perspetivas de futuro ameaçadas por um modelo económico neoliberal que não lhes dá hipóteses (Pais, 2001:410).
33 Para o autor, as trajetórias juvenis, anteriormente, seguiam um curso temporal seguro que culminava num
destino expectável (reprodução do estatuto dos pais) ou glorioso (ascensão social), cujas transições – entrada na escola, inserção laboral, casamento – entrelaçavam-se entre si “como elos consecutivos para compor uma cadeia causal que conduz necessariamente à sua conclusão final: a futura inserção adulta” (Calvo, 2011:46).
Presencia-se uma mudança do centro de gravidade existencial da juventude, na medida em que a pertença a uma dada classe já não é tão inspiradora na construção identitária (se compararmos com a geração anterior) ou de uma carreira profissional. Esta pertença é substituída, em parte, pela adesão aos novos estilos de vida centrados nas esferas do lazer e do consumo. A seguinte afirmação de Manuel Castells corrobora esta ideia:
“(…) a identidade está a tornar-se na principal e, por vezes, única fonte de significado num período da história caracterizado pela ampla desestruturação das organizações, deslegitimação das instituições, enfraquecimento de importantes movimentos sociais e pelas expressões culturais efémeras. Cada vez mais, as pessoas organizam o seu significado não em torno do que fazem, mas com base no que são ou acreditam ser.” (2007:3)
Essas mudanças estão intimamente ligadas às transformações estruturais no modo de produção capitalista, que passou a ser dominado pelo sistema financeiro e impôs um conjunto de derrotas aos trabalhadores num contexto de revolução das tecnologias de informação no final do século XX34. A deslocalização de indústrias (principalmente as mais pesadas:
metalurgia, construção naval, têxtil, etc.) dos “países centrais” para a Ásia e a América Latina, a integração global dos mercados, a crescente individualização da sociedade, a generalização do trabalho feminino em múltiplos setores da economia e a massificação das migrações agudizaram tal processo, ao criar uma nova divisão das classes sociais mais volátil e flexível, diluída na chamada “modernidade líquida” (Bauman, 2001).
Segundo Appadurai (1990), uma das particularidades dos tempos atuais é a maior influência do imaginário na produção dos gostos, condutas e estilos de vida, ao servir de matéria-prima na formulação de novas subjetividades. A compressão espaço – tempo acelerou os processos globais e tornou o nosso planeta menor, intensificando a internacionalização da cultura e a expansão da cultura de massas, o que se repercutiu em novos arranjos entre o local – global e na transformação das culturas juvenis. Mediado pelos novos media e por uma circulação (de pessoas, ideias e produtos) cada vez mais intensa, o imaginário tornou-se central para os jovens na construção e reelaboração dos seus sentidos de vida.
Hoje, o desenvolvimento das novas tecnologias digitais e de informação não só alteraram
34 O colapso dos regimes chamados comunistas da União Soviética e Leste Europeu e a sua absorção pelo
capitalismo global criou uma nova correlação de forças caracterizada pelo fortalecimento do capital em relação