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A distinção entre artefactos e instrumentos é de grande importância na abordagem instrumental. Em antropologia a palavra artefacto designa algo que sofreu transformação, ainda que mínima, de origem humana, não se restringindo a algo material (físico), podendo também ser aplicado a sistemas simbólicos. Para Rabardel (2002) o termo artefacto é um termo “neutro”, uma vez que, não especifica nenhum tipo particular de relação com o “objeto” e é nesse sentido que o termo é usado na abordagem instrumental. Vérillon e Rabardel (1995) salientam a diferença entre artefacto e instrumento, considerando que um instrumento é um constructo psicológico:

A questão é que nenhum instrumento existe por si próprio. Uma máquina ou um sistema técnico não constituem imediatamente uma ferramenta para o sujeito. Mesmo construído explicitamente como uma ferramenta, não é, como tal, um instrumento para o sujeito. Torna-se [um instrumento] quando o sujeito é capaz de se apropriar dele para si próprio – é capaz de subordiná-lo como um meio para o seu fim – e, nesse sentido, integrá-lo na sua atividade. (p. 10)

Os autores propuseram um modelo para caracterizar situações de atividade instrumentada (IAS) que destaca a característica intermediária do instrumento e tem em conta as múltiplas relações que se podem estabelecer entre os três elementos constitutivos da situação de atividade instrumentada (Figura 9). Para além da relação direta sujeito – objeto, outras relações são consideradas: interações entre o sujeito e o instrumento, entre o instrumento e o objeto da ação e interações entre o sujeito e o objeto mediadas pelo instrumento. Apesar do modelo IAS não cobrir todas as características de situações onde a atividade é instrumentada, por exemplo, não inclui a dimensão coletiva, coloca em destaque as múltiplas interações que se podem estabelecer entre os três polos que estão sempre presentes no uso de um instrumento.

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Figura 9 – Modelo IAS.

(Adaptado de Vérillon & Rabardel, 1995, p. 11)

O modelo pode ser ilustrado com um exemplo simples, no caso da calculadora gráfica: a visualização da representação gráfica de uma função quadrática. O aluno necessita ter alguns esquemas que lhe permitam visualizar a representação gráfica de uma função na calculadora (interação sujeito – instrumento). Ao usar a calculadora gráfica para visualizar uma função quadrática, o aluno tem que desenvolver esquemas que lhe permitam visualizar aquele tipo de função (interação instrumento – objeto). Nesse processo o aluno adquire conhecimentos sobre o comportamento das funções quadráticas (interação sujeito – objeto mediada pelo instrumento), e esse conhecimento pode levá-lo a escolher uma janela mais apropriada numa próxima ocasião (modificação da forma de interação anterior sujeito – instrumento), e assim sucessivamente.

Um instrumento é um meio para a ação e, mais geralmente, para a atividade. Na ação o instrumento é um operante, uma vez que ele desempenha uma tarefa, estando a natureza da tarefa obviamente relacionada com o objeto da atividade e podendo ser, portanto, bastante variável. O instrumento tem, no entanto, um aspeto ainda mais geral, pois para além das especificações do presente ele pertence a uma classe de ações e situações, podendo ser utilizado no futuro em situações que pertencem à mesma classe. Através desta preservação, o instrumento pode ser visto como uma capitalização de experiências acumuladas (cristalizadas) e, nesse sentido, todo o instrumento é conhecimento. Esse conhecimento é capitalizável nas transformações materiais que constituem o artefacto e nos usos associados, formando uma entidade mista composta pelo artefacto e pelos seus modos de uso (Rabardel, 2002).

Sujeito

Instrumento

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O ponto central da abordagem instrumental prende-se com o facto de um instrumento não poder ser reduzido ao artefacto, sendo antes visto como uma entidade mista, nascida do sujeito e do objeto:

O instrumento é uma entidade composta constituída por um componente artefacto (um artefacto, uma fração de um artefacto ou um conjunto de artefactos) e um componente esquema (um ou mais esquemas de utilização, muitas vezes ligados com esquemas de ação mais gerais). Um instrumento portanto consiste em dois tipos de entidades: - um artefacto material ou simbólico produzido pelo sujeito ou por outros; - um ou mais esquemas de utilização, resultantes de uma construção autónoma específica do sujeito, ou de um esquema de utilização social anteriormente formado fora do sujeito. (Rabardel, 2002, p. 86)

Um instrumento não é apenas algo que faz parte do mundo exterior do sujeito ou que está disponível para este realizar uma certa tarefa, é também uma produção ou construção do próprio sujeito.

Os dois componentes de um instrumento estão associados entre si mas têm também uma relação de relativa independência, uma vez que, por um lado, o mesmo esquema de utilização pode ser aplicado a uma gama de artefactos pertencentes à mesma classe ou até a classes diferentes (por exemplo, os esquemas de utilização associados à janela de visualização de uma calculadora gráfica podem ser transpostos de uma máquina para outra) e, reciprocamente, um artefacto pode ser integrado numa gama de esquemas de utilização em que lhe é atribuído um significado ou funções diferentes (por exemplo, uma chave de fendas pode ser utilizada como um martelo).

O instrumento pode ter uma natureza mais efémera, devido a circunstâncias particulares da situação com que o sujeito é confrontado, ou mais permanente, sendo retido como um todo que ficará disponível para futuras ações. Esse todo dinâmico desenvolve-se à medida que o sujeito o envolve nas ações.

Para os autores da abordagem instrumental, esta definição de instrumento permite, por um lado, que este seja visto como uma forma de acumulação de experiências, ou de conhecimento, no sentido referido por Leontiev e, por outro lado, reconhecer o seu papel de mediação, que pode ser visto na relação entre o instrumento e a ação, uma vez que o sujeito escolhe certos componentes do seu ambiente como

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instrumentos para atingir o seu objetivo, ou seja, como um meio para a sua ação (Rabardel, 2002).

Um artefacto não é um instrumento ou um componente de um instrumento por si próprio, é instituído como instrumento pelo sujeito como um meio para atingir os objetivos da ação, ou seja, os artefactos integram a atividade. Um artefacto pode, portanto, ter um estatuto instrumental muito diferente consoante a situação, diferentes momentos da situação ou consoante os sujeitos. O artefacto é enriquecido através das situações em que, circunstancialmente, o sujeito o envolve como meio para a ação – o campo instrumental do artefacto vai sendo construído pelo sujeito e inclui: “o conjunto de esquemas de utilização que podem ser introduzidos com vista a formar um instrumento; o conjunto dos objetos sobre os quais [o artefacto] permite ao sujeito atuar; o conjunto de transformações e mudanças de estado que [o artefacto] permite o sujeito executar” (Rabardel, 2002, p. 88). Os esquemas de utilização do artefacto tornam-se, por sua vez, cada vez mais ricos e variados com a evolução do seu campo instrumental.