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As amostras que apresentaram os melhores e piores resultados de resistência mecânica aos 28 dias tiveram sua morfologia analisada por meio da microscopia eletrônica de varredura (MEV) e EDS, a fim de se tentar identificar as estruturas responsáveis pela resistência mecânica das argamassas, e observar a influência das diferentes soluções de resíduo tratado no desenvolvimento microestrutural.

As análises foram realizadas na região de fratura das amostras selecionadas após o ensaio de resistência mecânica a compressão. As micrografias obtidas podem ser vistas na Figura 4.18.

As argamassas de cimento Portland preparadas com as soluções de resíduo mostraram-se porosas com estruturas heterogêneas e complexas.

É possível observar, a partir dessas três micrografias, que a superfície da argamassa com resíduo tratado em meio básico possui grãos menores se comparados com as outras superfícies, ou seja, a hidratação ocorreu de uma forma mais lenta. Este mesmo resultado foi obtido por LEMOS [27], onde a amostra contaminada com NaOH não apresentou a fase C3A, que é uma das

Figura 4.18 Micrografias obtidas por MEV da superfície de fratura de corpos- de-prova de argamassas de cimento de Portland contendo 10% em peso de soluções de serragem de couro (raspa) tratada: a) em meio ácido; b) em meio básico; c) em meio neutro. Concentração 1:6 (reagente:água).

a

c b

A micrografia obtida na região da fratura da argamassa com adição de resíduo tratado em meio ácido 1:6-10% está representada na Figura 4.19.

Figura 4.19 Micrografia obtida por MEV e EDS da superfície de fratura de corpo-de-prova de argamassa de cimento de Portland contendo 10% em peso de solução de serragem de couro (raspa) tratada em meio ácido (1:6) ácido:água: a) matriz de C-S-H com cristais de etringita; b) microanálise da região fraturada.

Na micrografia pode-se notar a fase fibrosa de C-S-H, além da etringita que se cristaliza já no início da pega na forma de agulhas e desenvolve naturalmente e se distribui por toda a matriz, caracterizando a evolução da hidratação do cimento Portland. É possível observar também a presença de poros na estrutura, os quais permitem a hidratação.

a

A adição de ácido fosfórico para o pré-tratamento do resíduo também foi detectada pela microanálise (Figura 4.19-b) e está relacionado, possivelmente, à formação das fases de fosfato de cálcio.

As micrografias obtidas de duas regiões das argamassas com adição de resíduo tratado em meio básico mostram duas estruturas bem distintas (Figuras 4.20 e 4.21). Na Figura 4.20-a está representada a fase de C-S-H, por todo o volume da microestrutura, que confere a resistência do material e, em volta dela, cristais aciculares de etringita (Figura 4.20-b).

Figura 4.20 Micrografia obtida por MEV e EDS da superfície de fratura de corpo-de-prova de argamassa de cimento de Portland contendo 10% em peso de solução de serragem de couro (raspa) tratada em meio básico (1:6) base:água: a) matriz de C-S-H com cristais de etringita; b) microanálise da região fraturada.

b a

Na Figura 4.21-a, a região em destaque apresenta as placas de portlandita (Ca(OH)2); ao redor de uma matriz bastante densa. Na microanálise

por EDS (Figura 4.21-b) na região próxima a microtrinca foi detectada a presença do íon sódio, que foi utilizado para o pré-tratamento do resíduo.

Figura 4.21 Micrografia obtida por MEV e EDS da superfície de fratura de corpo-de-prova de argamassa de cimento de Portland contendo 10% em peso de solução de serragem de couro (raspa) tratada em meio básico (1:6) base:água: a) placas de portlandita; b) microanálise da região fraturada.

Na Figura 4.22 está apresentada a micrografia da argamassa com adição de resíduo tratado em meio neutro. Pode-se observar, nesta figura, que a estrutura é uma combinação das principais fases de hidratação, ou seja, ela é

a

formada majoritariamente por uma matriz de C-S-H e placas de portlandita, cuja análise de EDS apresenta os principais componentes (cálcio e silício).

Figura 4.22 Micrografia obtida por MEV e EDS da superfície de fratura de corpo-de-prova de argamassa de cimento de Portland contendo 10% em peso de solução de serragem de couro (raspa) tratada em meio neutro (1:6) ácido+base:água: a) matriz de C-S-H com cristais de etringita e placas de portlandita; b) microanálise da região fraturada.

As amostras que tiveram um desempenho mecânico muito abaixo frente à resistência da argamassa referência (sem nenhum tipo de adição), também foram analisadas microscopicamente, com o objetivo de se elucidar algum efeito advindo da adição do resíduo tratado em soluções de diferentes pHs.

a

Na Figura 4.23 é apresentada a micrografia da argamassa com adição da solução ácida que possuía maior concentração (1:2 10%).

As amostras de argamassas preparadas a partir da adição de resíduo tratado em meio básico bastante concentrado (1:2-10%), também foram analisadas na área da fratura. Na micrografia apresentada na Figura 4.24 pode ser vista na região analisada a grande quantidade de placas de Portlandita que se formaram. É importante salientar que dentre as observações de todas as microestruturas, quanto maior a quantidade de NaOH adicionada, maior evidência de placas de portlandita, diminuindo gradativamente, a quantidade de cristais de etringita e a formação de C-S-H e, conseqüentemente, causando uma diminuição na resistência mecânica.

Figura 4.23 Micrografia obtida por MEV e EDS da superfície de fratura de corpo-de-prova de argamassa de cimento de Portland contendo 10% em peso de solução de serragem de couro (raspa) tratada a

em meio ácido (1:2) ácido:água: a) matriz de C-S-H com cristais de etringita. b) microanálise da região fraturada.

Figura 4.24 Micrografia obtida por MEV e EDS da superfície de fratura de corpo-de-prova de argamassa de cimento de Portland contendo 10% em peso de solução de serragem de couro (raspa) tratada em meio básico (1:2) base:água: a) placas de portlandita. b) microanálise da região fraturada.

Em ambas as regiões mostradas nas Figuras 4.23 e 4.24 foram realizadas as microanálises, onde se pode observar a forte influência da formação de silicatos de cálcio nas amostras preparadas com solução de resíduo tratado em meio ácido (Figura 4.23-b), e a predominância da formação de portlandita quando as amostras foram preparadas com solução de resíduo

b a

tratado em meio básico (Figura 4.24-b). Como era de se esperar, foram detectados também os íons fósforo e sódio, utilizados na condição ácida e básica, respectivamente.

Portanto, mesmo apresentando uma maior quantidade de porosidade (Figura 4.7) e poros maiores, argamassas com resíduo tratado em meio ácido se apresentaram com valores de resistência mecânica mais próxima aos da argamassa referência (Figura 4.10). Tal fato pode ser devido à microestrutura composta por uma matriz de C-S-H e agulhas de etringita que se formam nos poros. Para o caso das argamassas com adição de resíduo tratado em meio básico, a queda foi mais acentuada devido à formação de placas portlandita, que contribui pouco para a resistência mecânica. Uma resistência mediana foi obtida para argamassas com adição de resíduo tratado em meio neutro devido a uma mistura de fases: cristais de etringita e placas de portlantida.

5 CONCLUSÕES

A partir das análises dos resultados obtidos, e considerando as condições experimentais adotadas e utilizadas para o desenvolvimento deste trabalho, pode-se concluir que:

• O resíduo de couro (serragem ou raspa de couro) pode ser facilmente dissolvido em meio ácido (H3PO4) e básico (NaOH), de

forma a resultar em uma solução aquosa homogênea;

• Solução aquosa de pH neutro com serragem de couro dissolvida pode ser obtida a partir da mistura de soluções ácida e básica, previamente preparadas com a serragem de couro (pré-dissolução); • Os pHs das soluções químicas de resíduo tratado não influenciaram

significativamente as características das pastas e argamassas;

• Os tempos de pega das pastas contendo soluções de resíduo tratado nos três meios (ácido, básico e neutro) foram ligeiramente maiores em relação ao tempo de pega da amostra referência (padrão sem adições), com exceção, de soluções básicas de alta concentração de sódio.

• As soluções básicas de soda cáustica contendo serragem de couro resultam em corpos-de-prova de menor porosidade provavelmente pela ação dispersante do íon sódio nas partículas do cimento Portland, proporcionando um melhor empacotamento;

• Não houve variação significativa nas características gerais de pastas e argamassas, nos estados fresco e endurecido, comparando-se as adições de 5 ou 10% em de serragem de couro dissolvida;

• A resistência mecânica das argamassas é afetada pelo tipo de pré- tratamento utilizado;

• Os melhores valores de resistência mecânica à compressão axial dos corpos-de-prova aos 28 dias de idade foram obtidos pela adição de solução de ácido fosfórico diluída (baixa concentração).

• Adição de resíduo tratado em baixo pH (ácido fosfórico) minimiza a formação de Portlandita e favorece a formação de fosfatos de cálcio;

• As microestruturas, embora complexas e típicas de matrizes de cimento Portland, não revelaram a presença da serragem de couro (estado sólido), o que demonstra a efetividade do pré-tratamento químico, e pode significar uma alternativa para a incorporação deste resíduo em artefatos de cimento;

• A partir das técnicas utilizadas não foi possível observar a presença e estado químico do íon cromo e se houve o mecanismo solidificação/estabilização;

• A incorporação de soluções químicas contendo serragem de couro em matrizes de cimento Portland requer ainda mais estudos, de caráter interdisciplinar, sobretudo das áreas de Engenharia de Materiais, Química e Ambiental.

6 SUGESTÕES PARA FUTUROS TRABALHOS

• Utilizar outros reagentes para o pré-tratamento do resíduo de couro; • Estudar as reações químicas do resíduo de couro com os reagentes e a

influência dos produtos formados nas propriedades do cimento Portland; • Estudar a dissolução das cadeias de proteínas pelos reagentes

utilizados e a verificar se ocorre a liberação do íon cromo na solução; • Verificar a emissão de gases durante a adição do resíduo tratado no

cimento;

• Avaliar o desempenho mecânico para um tempo de cura maior que 28 dias;

• Avaliar as características de amostras de argamassa contendo o resíduo tratado após ensaios de envelhecimento;

• Realizar o ensaio de Lixiviação / solubilização

• Estudar a adição de resíduo tratado em corpos-de-prova de concretos; • Estudar a gestão e preparação de resíduo tratado e uma possível

utilização tecnológica deste com parcerias entre geradores, prefeituras e/ou órgãos ambientais e pesquisadores;

• Estudar a possibilidade da incorporação de outros tipos de resíduo contendo metais pesados em matrizes monolíticos utilizando o processo de estabilização / solidificação;

7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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