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Quando se fala em ciência e tecnologia muitos entendem que essas duas palavras são, respectivamente, sinônimos de “verdade” e do que há de mais avançado quando se trata de produtos viabilizados tecnicamente. Em parte, a visão da ciência e da tecnologia calcada no início da segunda metade do século passado ainda guarda fortes resquícios. Entretanto, como descrito no item anterior, o campo CTS surgiu exatamente para desmitificar alguns conceitos estabelecidos como o da ciência “neutra”, “objetiva” e “autônoma” e uma tecnologia que se simplifica na ciência posta em prática. Os estudos CTS defendem que tanto a ciência quanto a tecnologia não agem de forma autônoma. Ao contrário: elas estão imbricadas e não agem sem a interferência do homem e da sociedade.

Andrew Feenberg (2003), um dos maiores nomes atuais da Filosofia da Ciência, entende que tanto a ciência quanto a tecnologia têm origem no mesmo tipo de pensamento racional, com base no conhecimento da causalidade natural e da observação empírica. A partir daí, o autor dá caminhos diferentes a uma e a outra. Para ele, a relação com a verdade não se confirma quando o assunto é tecnologia, que, por sua vez, tem ligação com a utilidade. Os propósitos também são diferentes: para ele, onde a ciência busca o saber, a tecnologia busca o controle.

Para Schor (2007), a imbricação entre ciência e tecnologia torna-se mais forte no momento em que a tecnologia passa a integrar o auto-entendimento da sociedade, tornando-se o centro da vida prática. Ainda segundo a autora, não é a tecnologia quem determina ou qualifica a sociedade e sim a própria sociedade. Já Almeida, Bastos e Bittencourt (2007) entendem a prática científica como um espaço social constituído por sujeitos e instituições que dependem das relações construídas com os outros para se manterem. Vale destacar ainda que para os autores o conhecimento científico compete com outras formas de expressões de cognição humana, como é o caso da religião e do senso comum, o que leva a crer que “não há um mundo objetivo além do sujeito, porém condições sociais que conduzem a produção do conhecimento aceito”.

A maneira de articular ciência e tecnologia possibilita uma chave interpretativa para um tema crucial da sociologia da ciência, que é justamente a relação entre elas. Ainda segundo Schor (2007), “compreender os elos entre ciência e tecnologia significa considerar a

produção do conhecimento científico como intrínseca às práticas políticas, econômicas e sociais constitutivas dela própria”.

Pode-se entender, então, que a relação entre ciência e tecnologia deva ser tratada dentro de um mesmo contexto social (em diversos aspectos), pois é parte integrante e condicional deste contexto, haja vista que elas interferem e/ou sofrem interferência nesse macro ambiente.

Isso não significa, como lembra Schor, que a ciência esteja livre de quesitos fundamentais ao padrão de racionalidade que constitui o entendimento científico. São justamente esses quesitos que podem estabelecer os limites do campo científico, com o intuito de obedecer a padrões de racionalidade definidos universalmente pela própria comunidade científica.

Já Snow (1995) defende que o processo científico tem duas motivações: uma é compreender o mundo natural e a outra é controlá-lo, sendo que qualquer uma pode ser predominante em qualquer cientista. E essa é a dialética entre a chamada ciência pura e a ciência aplicada que, segundo o autor, reside um dos problemas mais profundos da história científica. Já a tecnologia, para o autor, é o ramo da experiência humana em que as pessoas podem aprender com resultados previsíveis concretos. Vale destacar que essas conceituações formuladas por Snow são registrados em plena Guerra Fria, época em que a ciência e a tecnologia começam a perder a plena confiança da sociedade, carente de soluções técnicas de diversas ordens.

3.1.1 Origem

Para falar da tecnologia, Feenberg (2003) faz uma incursão nas origens da filosofia ocidental. A filosofia, diz ele, começa interpretando o mundo com base no fato de que a humanidade é um tipo de animal que trabalha de forma constante para transformar a natureza, fato esse que molda as diferenças básicas que se enraizaram ao longo da tradição dessa filosofia. Ele faz duas distinções: a primeira está entre o que os gregos chamaram de physis e de poiesis. Eles entendiam a physis, ou seja, a natureza como algo que tem a condição de se criar a si mesmo, porém há de se considerar que há “coisas” que dependem de algo para que possa existir. Já a poiesis é a atividade prática, o ato do ser humano quando se ocupa fazendo algo, que pode ser chamado de artefatos, o que inclui produtos de artesanato, de arte e de convenção social. Distingue-se ainda a palavra techne, que na Grécia antiga trazia o

significado de conhecimento ou ainda como uma disciplina que se associa com uma forma de poiesis. Para os gregos, cada técnica possui um propósito e um significado de artefatos que orientam a produção. Já a segunda distinção está entre a existência e a essência, sendo que a primeira responde à pergunta “é ou não é?” e a segunda à questão “o que é?”. Na filosofia ocidental o conceito de existência não é claro. E a essência e seus conceitos é quem têm uma atenção maior justamente por ser o conteúdo do conhecimento.

Para o autor, a relação entre essas distinções não é óbvia e a peça-chave disso é o entendimento grego do ancestral da tecnologia moderna: o techne. Quando se trata da poiesis, a distinção entre existência e essência é real e clara, ou seja, primeiro algo existe como uma ideia para depois ser produzido pelo homem. Entretanto, para os gregos, cada techne contém a essência do algo a ser produzido antes do ato de fazer, o que faz com que a ideia ou a essência do algo seja uma realidade independente do algo em si e de sua feitura. Tudo isso significa que o homem faz seu artefato de acordo com um plano e para atingir um propósito, que é um aspecto objetivo do mundo. Já para as coisas naturais, não existe a distinção entre essência e existência: elas existem juntas. São os homens quem constroem a ideia de essência na natureza.

Para Feenberg (2003), o ser humano não deve ser considerado mestre da natureza, porém trabalha com seus potenciais para trazer à tona um mundo significativo. Entretanto, talvez não seja esse o mundo esperado pelos antigos gregos quando faziam o uso da techne. O conhecimento foi avançando em espaço e tempo tomando um rumo que não se resume apenas à criação de artefatos essenciais para os homens. Pode-se afirmar que a ciência e a tecnologia ao longo da história, mas especificamente no século XX, tomaram rumos descontrolados, o que fez com que a sociedade (e a própria ciência) colocasse em discussão sua neutralidade, autonomia e sua verdade.