Inicialmente devemos compreender a historicidade do nascimento das cidades e Kohlsdorf (1985, p. 35) argumenta que ―ao receber a colaboração de sociólogos, historiadores, economistas, juristas, geógrafos, psicólogos, a definição de cidade realizada entrou, talvez, na maior crise de toda a história desta última‖.
A chamada ‗crise‘ referenciada por Kohlsdorf (1985) ocorre por não haver ―um lugar para as dúvidas ou mesmo para a investigação que conduziria a afirmativas gerais e genéricas acerca da definição de cidades ou se seu nascimento‖ (Sposito; Goes, 2013, IX). Além disso, como as definições de cidade variam segundo a corrente a que autores se vinculam, sentimos a necessidade de fazer a uma reflexão a respeito de como assumiríamos a definição de cidade, compreendida como contexto para o desenvolvimento humano.
As cidades se constituem como realização humana e vão se estabelecendo ao longo de um processo histórico que resultam em assentamentos humanos com variadas características, formas e funções. O fenômeno urbano que tem sua gênese ainda no paleolítico com as primeiras manifestações da fixação do ser humano, se desenvolveu junto à evolução das técnicas, sendo possível o estabelecimento das primeiras cidades. Marx em sua obra ‗Ideologia Alemã‘ destacou que ―a realidade da concentração, da população, dos instrumentos, da produção, do capital, dos prazeres e das necessidades‖ (1989, p.64).
Na obra de Sposito (2008) são referenciadas as primeiras manifestações da fixação do ser humano em um território na era paleolítica, estabelecidas pela atenção dada aos mortos. O ser humano, neste período, era nômade e tinha a preocupação com a ‗moradia‘ desses mortos, ―os mortos foram os primeiros a ter uma moradia permanente: uma caverna, uma cova assinalada por um monte de pedras, um túmulo coletivo‖ (Sposito, 2008, p. 12).
Sobre este tema, Santos (2014) esclarece que, a cidade dos mortos antecede a cidade dos vivos. Na leitura e estudos realizados na temática do nascimento das cidades é impreciso
se referenciar a origem das cidades na história da humanidade, mas é fato que existiram desde a Antiguidade. Platão e Aristóteles, filósofos gregos, já apresentavam em suas reflexões algumas preocupações com as cidades e o modo de vida de seus habitantes (Carlos, 2004; Saboya, 2014; Santos, 2014; Topalov et al, 2010; Vasconcelos, 2015).
O livro L´Aventure des mots de la ville, por Topalov et al. (2010) traduzido em oito idiomas e escrito por centenas de autores, argumenta e confirma a diversidade conceitual temática do nascimento histórico das cidades: cidade (português), citttà (italiano), city, town (inglês), ciudad (espanhol), gorod (russo), médina (árabe), stadt (alemão), ville (francês). A multiplicidade de expressões conceituais das cidades pelo mundo caracteriza a importância da temática na dimensão histórica do contexto humano em cultura de paz na perspectiva do sujeito.
De acordo com a leitura desta obra, devemos considerar as localizações geográficas, os contextos históricos e sociais, a cultura, além das formações dos autores para que possamos nos situar no espaço denominado ‗cidade‘. Salientamos que os aspectos subjetivos ou ainda, as individuações e ao tornar o indivíduo apto para observar e interpretar o comportamento humano, a psicologia do desenvolvimento compreende as características globais do ser humano (Biaggio, 2015). Segundo Toassa (2011, p. 11), ―pensar a constituição do humano, da subjetividade e da coletividade para explicar o comportamento humano‖, tem na área da psicologia do desenvolvimento, a ação da formação de grupos que possibilita a compreensão das mudanças a partir de várias questões do indivíduo: emoções e vivências.
Como bem demonstra a autora Toassa (2011, p. 13) em sua descrição de que Vigotski (1896-1934) ―passa a estudar as emoções, como uma função psicológica superior e como tal determinada pelos elementos da cultura, da história e das relações sociais, tendo a arte e a linguagem papéis estruturantes nessa constituição‖. As cidades no contexto social reflete o
pertencimento do indivíduo à sociedade como um ser em construção permanente, em movimento, em constante interação com seu meio, transformando este e a si mesmo.
Na perspectiva da Psicologia do Desenvolvimento, compreende-se que as sociedades humanas surgiram nas primeiras cidades e novas formas de organização social em um processo histórico e político. Palen (1975) destaca que as primeiras cidades tinham sua importância pela maneira como se organizavam socialmente, além disso, observa-se que o produto histórico-social revela a realidade social, e, no dizer de Carlos (2004), ―a materialização do processo é a dimensão da produção/reprodução do espaço passível de ser vista, percebida, sentida e vivida‖ (p. 14).
Como espaço de produção/reprodução e de vida, a cidade concebe o processo dialético e contraditório do modo de produção capitalista, que compreende a desigualdade nas relações culturais, sociais, econômicas da sociedade. Com isso, ocorre a desigualdade ao acesso aos bens da cidade e a violência instaura-se entre os cidadãos devido à multiplicidade de significações e experiências compartilhadas pelos indivíduos, que interfere nas estratégias de planejamento das cidades.
Este fato leva à mudança introduzida pelo planejamento, ou seja, a cidade planejada. Saboya (2014) destaca que a cidade idealizada para a solução de problemas práticos, concretos, busca estabelecer mecanismos de controle dos processos urbanos ao longo do tempo em que ―a cidade real passa a ser o foco, ao invés da cidade ideal‖ (p.02).
Nesta concepção, a cidade planejada pode ser definida historicamente como o conjunto de ação considerando a mais adequada para a sociedade na direção dos objetivos desejados politicamente. O planejamento segundo Hall (2002) a qual o urbanista deveria ‗projetar‘ a cidade, ―uma mudança da velha ideia de planejamento como a produção de projetos para a cidade desejada do futuro, para uma nova ideia de planejamento como uma série contínua de controles sobre o desenvolvimento de uma área‖. (p. 6).
As concepções sobre as cidades que são planejadas pelos urbanistas são particulares e se propõem a ‗desenhá-las‘ da forma que devem ser, ou seja, um design físico ou ainda, um projeto arquitetônico. Como cidade planejada, Brasília, surgiu na perspectiva de uma revolução social, política e cultural.
A proposta do arquiteto e urbanista Lúcio Costa não só desenhou os traços que definiram a capital do país, mas também previu como seria a alma de Brasília, como afirmou:
Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo cidade viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e administração, num foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país (1957, p. 283).
Taylor (1998) dispõe que as ―teorias sobre o planejamento urbano nessa época estavam usualmente preocupadas com projetos ou planos visionários que mostravam como a cidade ideal deveria ser espacialmente organizada‖ (p. 16). Brasília assim surge de uma visão histórica, mitológica, holística, geográfica e como patrimônio da humanidade; impressões que merecem destaque nas próximas linhas.