Segundo dados da Entidade Reguladora da Comunicação, existiam em 2018, 759 publicações periódicas regionais registadas em Portugal, “das quais 15,7%
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são publicações diárias, 18,2% são semanários; 14,2% têm publicação quinze- nal e 30% são publicações mensais” (CardoSo et al, 2018, p. 13), que mostram a relevância deste meio de comunicação no nosso país.
“A imprensa regional é, independentemente do suporte em que veicula notícias, um espaço de encontro do público com a realidade quotidiana e comunitária que o circunda” (JerónImo, 2015, p. 305). A proximidade com a comunidade, o sentimento de pertença e de partilha pelo público são algumas das características que tornam este meio atrativo para os leitores.
Um estudo da Reuters Institute Digital News Report em 2016 dava conta que “em relação aos hábitos de consumo de informação noticiosa, os portu- gueses revelam preferir o ambiente digital (Internet: 88%), relegando para segundo plano outros formatos, próprios dos meios tradicionais (televisão: 82%; imprensa: 47%; rádio: 37%).” (JerónImo, 2017 p. 84). Estes dados mos- tram que a maioria das pessoas acede a informação através da Internet e esta tendência de consumo tem tudo a ver com os novos meios e com as gerações mais novas.
“Os dispositivos móveis têm assumido um crescente protagonismo no contexto dos media e no exercício do jornalismo” (JerónImo, 2017, p. 85). Perante esta realidade, a adaptação dos media tradicionais à mobilidade, a reestruturação das notícias, de aplicações e as mudanças nas rotinas de pro- dução têm sido alvo de debates e estudos por parte da comunidade científica. No contexto de grande agitação em que todos os dias surgem novas tecno- logias e ferramentas úteis aos jornalistas, a imprensa regional reflete mudan- ças menos acentuadas do que a imprensa nacional. Um estudo publicado em 2018 pelo OberCom revelou resultados importantes sobre a imprensa regional que ajudam a explicar este facto:
1. A queda do volume de circulação impressa paga é inferior à queda registada para a imprensa nacional;
2. Há uma “transição mais lenta da imprensa regional para os formatos online”; 3. Os jornais regionais têm “um impacto muito significativo no setor da imprensa escrita”, representando um número de vendas superior ao dos jornais desportivos;
4. Os leitores dos jornais locais preferem o formato impresso em vez do for- mato online;
5. Os leitores tendem a preferir consultar jornais regionais em papel e jornais nacionais no formato online;
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95 6. O público mais velho é o que mais consulta os jornais regionais;
7. Nas regiões com menor densidade populacional, o número de leitores de jornais no formato impresso é mais significativo;
8. As notícias sobre a localidade são os assuntos que despertam maior inte- resse nos leitores;
9. Os leitores do formato em papel tendem a confiar mais nas fontes noticiosas do que os leitores do formato online;
10. Os leitores dos jornais regionais que pagam para obter conteúdos online são ainda uma minoria.
Os resultados apresentados por este estudo têm relação direta com a faixa etária dos leitores dos jornais regionais, que são na maioria mais velhos e com menos literacia digital (essencialmente no interior do país). A população mais velha é mais resistente às alterações implementadas pelo mundo digital e não muda os seus hábitos e rotinas tão facilmente como os mais jovens, que já nasceram com as novas tecnologias.
No que diz respeito aos consumos, por idade, as fontes tradicionais como a rádio, a imprensa e a televisão são as mais utilizadas pelos cidadãos mais velhos, sendo que a Internet e as redes sociais representam já valores signi- ficativos em todas as faixas etárias, como podemos ver no gráfico:
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O Gráfico 1 mostra que a população mais velha ainda tem como principais fontes de notícias os meios de comunicação tradicionais. 57,3% dos inquiri- dos com 45 ou mais anos revelam utilizar a imprensa como principal fonte de notícias, sendo que essa proporção atinge os 65% no caso da televisão e 60,6% no caso da rádio. Contudo, a Internet (incluindo redes sociais) representa já valores significantes em todas as faixas etárias, sendo já a principal fonte de notícias para 24,6% dos inquiridos com 55 ou mais anos.
É percetível que tanto a Internet como as redes sociais são muito utiliza- das no momento de procurar informação, essencialmente pelos mais novos. As gerações mais novas revelam assim novos hábitos de consumo que o jor- nalismo tenta acompanhar. “Como a Internet oferece a possibilidade de inte- ratividade, agilidade, atualizações em tempo real, recursos audiovisuais e velocidade para disponibilizar a informação, os recetores alimentados pelo jornalismo online, tornaram-se acostumados a consumir nesse mesmo ritmo” (lIma, 2010, p. 3).
A MOBILIDADE
Segundo o Presidente da anIr, Eduardo Costa, três quartos da imprensa regio- nal e local tem presença online, “porque existe a consciência que estar na inter- net é uma opção necessária, havendo convicção de que quem não está, não é moderno” (Eduardo Costa, entrevista, 2019). Porém, é reduzido o número de jornais regionais que possuem aplicações móveis. “As razões estão na ine- xistência de meios humanos especializados e nos custos” (Eduardo Costa, entrevista, 28 de maio de 2019).
A adaptação da população acima dos 40 anos aos novos meios dá-se a um ritmo muito mais lento, tal como a adaptação da imprensa regional ao formato digital e móvel. Nas regiões do interior do país, onde a população é maioritariamente idosa, o consumo dos jornais regionais é feito sobretudo na versão impressa.
Para o Presidente da anIr, “a imprensa regional e local fora dos gran- des centros urbanos tem no jornal impresso a solução mais viável, nomea- damente para possibilitar receitas de assinatura e publicidade. Também a tradição e o hábito do papel representam bastante para a população destas regiões” (Eduardo Costa, entrevista, 28 de maio de 2019).
Um estudo regular da Marktest (2017), que analisa as audiências da imprensa em Portugal Continental, revelou que 2,7 milhões de portugueses contactam com a imprensa exclusivamente no suporte impresso, enquanto 1,2 milhões de indivíduos contacta somente com notícias no meio digital. O
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97 Gráfico 2 mostra a distribuição da cobertura máxima em papel e no formato digital, por faixas etárias, segundo a amostra do estudo.
Gráfico 2: Cobertura máxima de imprensa (%) (Portugal, 2017).
No Gráfico 2 é visível que as faixas etárias mais novas contactam mais com a imprensa online e as faixas etárias mais velhas (a partir dos 35 anos) contac- tam mais com as notícias no suporte tradicional, o papel.
O Gráfico 2 sustenta a afirmação de Eduardo Costa: “O uso da Internet sobretudo para ler jornais não é comum à população mais envelhecida, que é a maioria do país” (Eduardo Costa, entrevista, 28 de maio de 2019). Apesar de a população com mais idade ainda preferir claramente o formato impresso e representar a maior fatia de consumidores da imprensa regional e local, o futuro está dependente das gerações mais novas.
São os jovens que estão constantemente ligados à Internet, cada vez mais através dos dispositivos móveis. São eles que têm novos comportamentos no que diz respeito ao consumo da informação.
Em 2018, os dispositivos móveis assumiam já protagonismo no que diz respeito aos hábitos de consumo de informação dos portugueses, como reve- lou o mais recente estudo da Reuters Institute Digital News Report:
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Ainda que o computador subsista enquanto dispositivo mais utilizado e enquanto principal dispositivo para consumo de notícias, o smartphone des- taca-se ao ser utilizado em geral por 77,8% dos inquiridos face a 80,7% que uti- lizaram computador na semana anterior. No entanto, os dispositivos móveis agregados ultrapassam já o computador, sendo de salientar que o peso do smartphone nesta categoria é francamente maior que o do tablet. (CardoSo et al, 2018, p. 30).
Nesta perspetiva, “a solução do digital representa uma oportunidade para aumentar a audiência dos conteúdos” (Eduardo Costa, entrevista, 28 de maio de 2019). A grande problemática é de que forma é possível tornar os conteú- dos digitais rentáveis para as redações. Não basta que a informação chegue aos novos públicos, é necessário que essa informação se converta em receita para os jornais.
CONCLUSÃO
A evolução tecnológica tem desafiado constantemente os jornalistas. As novas formas de consumo de notícias, as rotinas jornalísticas e os valores-notícia têm estado em causa na era digital. A Internet e os dispositivos móveis estão a revolucionar a produção, difusão e o consumo de informação. Vive-se um novo paradigma que traz novas exigências aos profissionais. Para novos públicos Gráfico 3: Utilização de dispositivos em geral e para notícias (rdnr 2018. Edição: OberCom. N=2008).
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99 são necessárias novas abordagens, diferentes formatos e linguagens adapta- das a um consumo cada vez mais disperso.
A mobilidade revoluciona as rotinas dos jornalistas e das audiências, a comunicação torna-se bidirecional e as barreiras físicas como o tempo ou o espaço atenuam. Os dispositivos móveis abrem um leque de possibilidades inesgotáveis, mas também lançam novos atores na rede. Na Internet, todos podem escrever e partilhar conteúdos, que podem ser semelhantes a notícias. Porém, escrever não é sinónimo de ser jornalista. As linhas pelas quais se rege o jornalismo mantiveram-se intactas e são transportadas para os novos meios. A instantaneidade e a pressão para ser o primeiro a informar ganham maior relevância no meio digital. Por outro lado, a multimedialidade é uma clara vantagem em relação aos meios tradicionais. Esta pesquisa e os estu- dos mencionados acerca da adaptação da imprensa regional aos dispositivos móveis mostram que os jornalistas da imprensa regional continuam resis- tentes às mudanças impostas pela internet e pela mobilidade. Não só por se enquadrarem “num contexto de produção de décadas para o meio tradicio- nal” (JerónImo, 2017, p. 102), mas também pela falta de recursos humanos e económicos.
“Os jornais regionais e locais são uma imprensa de afetos, de proximi- dade, de construção da cidadania, a única que transporta informação que interessa ao cidadão e que não está nos jornais nacionais” (Eduardo Costa, entrevista, 28 de maio de 2019). Esta relação de proximidade não se perde no meio digital.
Uma maior flexibilidade por parte dos jornalistas e das redações regio- nais quanto à adaptação de conteúdos aos dispositivos móveis traria vanta- gens, uma vez que as gerações mais novas acedem cada vez mais à informação através da Internet.
As mentalidades mudam e é possível trazer novas abordagens e forma- tos para o jornalismo regional, como forma de conquistar os novos públicos. Quanto ao papel, continuará a ser um importante veículo sobretudo para o público mais velho e tradicional. Reforçar a complementaridade do papel e do online é um caminho que parece viável para o jornalismo de proximidade.
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