5.4 Designendring 1 - Bølgeskjold
5.4.2 Forankringskrefter
Para Adorno, tanto na música quanto na filosofia deve-se manter a distinção entre forma e conteúdo. O material musical não se confunde com as formas de organizá- lo, assim como “o pensamento filosófico deve ser dissociado do pensado, do conteúdo”70. Porém, a forma não pode se tornar algo absoluto, independente, como ocorre na filosofia com a lógica, sob o risco de se desligar totalmente do conteúdo. O pensamento enquanto forma precisa resistir ao temor de perder-se na matéria amorfa que lhe serve de conteúdo para reverter o processo de seu esvaziamento; deve assumir a sua diferença em relação ao seu outro, o pensado, e alimentar-se dessa diferença. Esse temor que acomete a teoria tradicional é expresso em termos de supressão do aspecto passivo do pensar, tido como oposto extremo do seu aspecto ativo. O desejo de dominar
69 ADORNO, Theodor W. Idéias para a sociologia da música, p. 265. 70 ADORNO, Theodor W. Observações sobre o pensamento filosófico, p. 15.
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a natureza impede o pensamento de deixar manifestar sua passividade. Porém, segundo Adorno, esses dois aspectos precisam se complementar para dar origem a um conhecimento efetivo da realidade e não só do próprio mecanismo do pensamento:
Onde o pensar é realmente produtivo, onde é criador, ali ele é sempre também um reagir. A passividade está no âmago do ativo, é um constituir-se do Eu a partir do não Eu. Disso ainda se irradia algo para a configuração empírica do pensar filosófico. Para ser produtivo, precisa sempre ser determinado a partir de sua coisa [Sache]. Essa é a sua passividade71.
O modelo epistemológico almejado por Adorno é o desse pensar construído a partir da reação a algo que lhe é exterior. Se o sujeito deseja conhecer, mas não aceita a intervenção dos objetos nos seus procedimentos cognitivos, fica dando voltas em torno de si, afirmando a identidade das coisas consigo mesmas. Com medo de se perder na diferença da alteridade, ele se limita a reconhecer a contradição entre “S é P” e “S não é P”. Por recusar sua passividade é que o pensar extremamente formalizado e reduzido à lógica apresenta-se como uma tautologia. O conhecimento que ele produz é vazio pois alheio às determinações objetivas. Adorno diz que, para um conhecimento ser verdadeiro, não basta que o pensamento seja correto em si mesmo, segundo a concepção de objetividade da teoria tradicional. O próprio termo já indica a necessidade da determinação dos objetos sobre o sujeito:
A objetividade, a verdade do pensamento depende de sua relação com a coisa. Subjetivamente considerado, o pensar filosófico é incessantemente confrontado com a exigência de conduzir-se em si mesmo de acordo com as regras da lógica e de, não obstante, receber em si aquilo que não é ele mesmo e que não se submete mais ‘a priori’ à sua própria legalidade. O pensar, enquanto ato subjetivo, deve primeiro entregar-se verdadeiramente à coisa, onde, como ensinaram Kant e os idealistas, constitui ou inclusive produz a coisa72.
A abertura do pensamento à experiência do real, antes de qualquer consideração sobre sua constituição, surge como uma tentativa de reverter a consolidação do procedimento lógico-discursivo da filosofia tradicional, segundo o qual o conhecimento parte de um princípio primeiro e se desenvolve com as consequências lógicas que seguem dele. A denúncia de Adorno é que a tradição supervaloriza a importância desse “curso do pensamento” quando decreta que ele não se separa do pensar. Assim, a lógica torna-se absoluta e acaba se afastando da realidade. O pensamento percorre seu caminho sozinho e sua verdade não tem mais relação com o
71 ADORNO, Theodor W. Observações sobre o pensamento filosófico, p. 17-18. 72 Ibidem, p. 18.
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objeto. A nova filosofia, por sua vez, obriga-o a alimentar-se, a todo o momento, da experiência da coisa que quer conhecer. O modelo epistemológico adorniano inverte aquele da tradição ao apontar as relações objetivas como ponto de partida do pensamento, e não a concordância deste consigo mesmo. O importante é o quão fecundo um pensamento se torna a partir das determinações do objeto, mais do que a sua correção lógica.
Os procedimentos propostos por Adorno para realizar essa inversão epistemológica aproximam-se da criação artística e principalmente musical, porque não se realizam automaticamente como os princípios lógicos, mas de forma experiencial. Eles não são esquemas prontos nos quais se encaixam conteúdos de modo arbitrário: acompanham mimeticamente os objetos, cada um em sua particularidade e respeitando as diferenças deles. Com isso, pretende inverter também o movimento do pensamento identificador: “à busca da identidade na não identidade há que se opor a busca da não identidade na identidade”73. A maneira de tratar os conceitos permite que eles carreguem algo mais além dos momentos comuns aos objetos que subsumem, superando o impedimento lógico da contradição. Isto é, a lógica, amenizando o rigor de suas regras, abre-se à não identidade e possibilita ao discurso conceitual acompanhar o caráter contraditório do real. Mas, para que essa disciplina consiga operar com o não idêntico, deve aceitar que essa contraditoriedade compõe tanto os objetos quanto os conceitos que a eles se referem; deve abandonar tanto a concepção de que o mutável e efêmero é dispensável ao conhecimento quanto a necessidade de definir os conceitos antes de empregá-los no discurso. A lógica precisa deixar de fixar os elementos, da realidade ou linguísticos, e considerar a história deles, pois “a não identidade lógica se realiza negando que haja elementos absolutos nos fenômenos ou na terminologia. O contexto no qual aparecem os modifica”74.
A nova filosofia requer uma nova lógica, à qual são imprescindíveis o não idêntico e a contradição. Esse modelo epistemológico, que se opõe ao pensamento identificador, concebe a oposição entre forma e conteúdo como uma mútua determinação dialética, segundo a qual cada elemento faz parte do outro, sem se confundir com ele, mas também não se separando completamente. Assim, os procedimentos formais da lógica não se tornam independentes e alheios aos conteúdos pensados, como ocorre também na relação entre o sujeito e o objeto do conhecimento,
73 AGUILERA, Antonio. Lógica de la descomposición, p. 43. (tradução nossa) 74 Ibidem, p. 49.
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ou entre os aspectos passivo e ativo do pensar. O projeto adorniano quer explorar o caráter antinômico dessas oposições e não resolvê-las em uma unidade superior.
A capacidade de desenvolver as oposições a partir da tensão que seus elementos estabelecem entre si é tomada de exemplo da música. Essa tensão é o que movimenta o pensamento e o discurso filosófico, sem que necessite ser resolvida. Pelo contrário, deve continuar impulsionando a relação deles com a realidade. O que ocorre é a sua suspensão temporária, dado que um raciocínio ou um texto não podem seguir indefinidamente. Como essas condições não poderiam ser satisfeitas pelo pensamento identificador, pela lógica tornada absoluta, Adorno recorrerá a outros aspectos da racionalidade. Pressupondo “uma necessidade de esclarecimento dos princípios da razão em contraposição a outras formas de pensamento e ação nas quais aparecem fortes componentes de instintivismo e irracionalidade”75, ele chega ao âmbito da arte e, mais especificamente, à música.