Diversas combinações da teoria dos ciclos de vida (Low, 1998) e da teoria do apego (Bowlby, 1969) sugerem que experiências críticas durante a infância são determinantes no desenvolvimento das estratégias sexuais humanas (Belsky et al., 1991; Draper & Harpending 1988; MacDonald, 1997).
Belsky et al. (1991) apresentaram a Teoria Evolucionista da Socialização, segundo a qual diferentes estratégias reprodutivas e sexuais teriam sido selecionadas em função do contexto de criação. Padrões divergentes no desenvolvimento infantil, adaptativos nas situações em que emergem, determinariam as características de socialização no adulto, inclusive a estratégia reprodutiva e sexual predominante. Um desses padrões decorreria de um ambiente de criação infantil estressante (com discórdia marital e recursos inadequados), fator associado ao desenvolvimento de apego inseguro aos pais e ao desenvolvimento de subseqüente orientação interpessoal oportunista, com puberdade e sexualidade precoce na adolescência, ligações instáveis de curto prazo e investimento parental limitado. Portanto, indicadores de contextos de criação estressantes, como a ausência de um dos pais, estresse familiar e apego inseguro, comporiam conjuntos de fatores potencialmente associados à determinação da formação no adulto de uma orientação sócio-sexual irrestrita. A suposta vantagem adaptativa estaria na adoção de uma estratégia sexual quantitativa oportunista, ajustada a ambientes de risco, que aumentaria as chances de propagação dos genes pelo aumento do número de parceiros, com reduzido investimento parental. O outro padrão é exatamente o oposto do primeiro - baixo estresse familiar, presença de ambos os pais na família, e apego seguro – e estaria associado a uma sócio-sexualidade restrita no adulto (Belsky et al., 1991; Mikach & Bailey, 1999; Schmitt et al., 2004).
Todas as crianças viriam equipadas com uma sócio-sexualidade potencialmente restrita ou irrestrita, e com adaptações psicológicas sensíveis às condições locais do ambiente, que influenciariam desejos e comportamentos sócio-sexuais no adulto de modo adaptativo (Belsky et al., 1991).
Muitas pesquisas deram suporte ao modelo de Belsky et al. (1991), indicando que a sócio-sexualidade irrestrita está positivamente relacionada com a ausência de um dos pais e a presença de padrastos (Hoier, 2003), com maior incidência de divórcio (Barber, 1998), com estilos inseguros de apego para homens e mulheres (Schmitt, et al., 2005b), com estilo de apego inseguro em mulheres, mas seguro para homens (Barber, 1998) e estilo de apego rejeitador e preocupado para homens, mas sem correlação para mulheres (Moreira et al., 2003). Conforme pode se verificar por esses resultados, embora haja uma indicação geral de correlação entre estilo de apego inseguro e sócio-sexualidade irrestrita, há uma interação complexa entre os fatores relacionados aos estilos de apego e ao sexo, que merece ser mais bem investigada.
As teorias de apego adulto tiveram origem nos estudos de apego infantil (Bussab, 2003; Scheroki, 2004; Schmitt et al., 2004). A teoria do apego entende que necessidades universais humanas embasam a formação de vínculos afetivos e, neste sentido, a teoria comporta tanto uma concepção normativa para a compreensão do sistema de apego universal, típico humano, como para a explicação das diferenças individuais nos estilos de apego (Bussab, 2003). O apego infantil é caracterizado pela busca da redução de distância em relação às pessoas, capazes de fornecer segurança e proteção, e é constituído por um sistema cognitivo comportamental e emocional determinado, biologicamente, segundo a função de sobrevivência e reprodução no ambiente de adaptabilidade evolutiva, mediado por outros sistemas que promovem a proximidade da figura de apego e estabelecem o senso de segurança (Bowlby,1973,1979; Bussab, 2003; Scheroki, 2004).
Os comportamentos de apego, que se desenvolvem desde o nascimento com a figura de referência, proporcionam à criança uma base emocional primária para relacionamentos. Segundo Bartolomew e Horowitz (1991), essas experiências promovem o desenvolvimento de um conceito de si positivo ou negativo (relacionado à concepção do sujeito de ser ou não merecedor de cuidado, atenção e amor) e de um conceito do outro positivo ou negativo (relacionado à concepção de o outro ser merecedor de confiança).
Com o desenvolvimento cognitivo da criança, essa base emocional primária tende a se cristalizar e ser guiada por modelos representacionais internos. Os modelos internos de funcionamento das relações constituem a representação das relações do indivíduo com o mundo, representações de si mesmo e do outro. No adulto estes modelos internos constituem mapas cognitivos e emocionais que orientam a percepção, interpretação e comportamentos em diversos contextos relacionais, incluindo as relações amorosas, de trabalho, religiosas entre outras (Bussab, 2003; Scheroki, 2004; Schmitt et al., 2004).
A hipótese básica derivada deste modelo referente ao relacionamento entre a sócio- sexualidade e os estilos de apego é: quanto mais irrestrita for a sócio-sexualidade mais inseguro será o estilo de apego, com os modelo internos de si e/ou do outro negativos. Esta hipótese foi testada em conjunto com hipóteses secundárias derivadas da incidência de divórcio entre os pais. Espera-se uma correlação positiva entre divórcio dos pais, ou falecimento de um dos pais, e orientação irrestrita (Hoier, 2003).
Uma teoria próxima foi proposta por Chisholm (1996; 1999a). Chisholm argumenta que condições ambientais relacionadas a altas taxas de estresse e falta de recursos, agem como sinais que de maneira contingente modificam a estratégia reprodutiva humana (Weinrich, 1977). Em culturas com alta taxa de mortalidade e imprevisibilidade de recursos, a estratégia reprodutiva ótima seria a reprodução precoce e constante, estratégia relacionada a um apego inseguro, uma orientação temporal de curto prazo e uma sócio-sexualidade irrestrita
(Chisholm 1999b). Em culturas com taxas baixas de mortalidade e abundante em recursos, a estratégia ótima seria investir maciçamente em um pequeno número de filhos, resultado de uma orientação temporal de longo prazo e uma sócio-sexualidade restrita.
Em sentido contrário às teorias apresentadas, Gangestad e Simpson (2000) propuseram a Teoria do Pluralismo Estratégico. De acordo com essa teoria, os seres humanos possuem opções de estratégias reprodutivas alternativas que podem ser seguidas (Buss & Schmitt 1993; Gross 1996; Simpson & Orina 2003; Thiessen 1994). A estratégia a ser seguida por cada indivíduo dependerá das condições ambientais. Em um ambiente exigente, onde as dificuldades para o cuidado da prole são elevadas, a necessidade adaptativa do cuidado biparental aumenta. Porque num ambiente exigente o sucesso de ter uma prole viável exige um alto investimento tanto de homens como de mulheres, Gangestad e Simpson argumentam que a importância da fidelidade e de um investimento maciço na prole deve aumentar correspondentemente. Em ambientes onde o investimento dos homens é necessário e valorizado, as mulheres devem ser menos propensas a engajarem-se em relacionamentos de curto prazo e com parceiros extras. Em resposta a isso, os homens devem aumentar a sua alocação de investimento na prole.
Ao mesmo tempo, em culturas onde o cuidado biparental é menos necessário para uma criação de sucesso da prole, Gangestad e Simpson (2000) esperam que a monogamia prevaleça menos. Eles postulam que ambientes com baixo estresse e disponibilidade adequada de recursos, as adaptações psicológicas humanas devem de maneira facultativa calibrar-se em direção a um aumento da sócio-sexualidade (podendo as pessoas serem mais promíscuas). Gangestad e Simpson propõem que no ambiente ancestral, quando o cuidado biparental não era tão crucial, os homens podiam deslocar seus investimentos em relacionamentos de curto- prazo e uma sócio-sexualidade mais irrestrita. As mulheres também poderiam se beneficiar de
relacionamento de curto-prazo tendo uma diminuição da sua dependência dos recursos e investimentos de um relacionamento de longo-prazo.
Deparando-se com uma robusta discussão teórica a respeito das influências do ambiente de criação na determinação da estratégia sexual e os vários resultados contraditórios encontrados na literatura, David Schmitt desenvolveu uma pesquisa inter-cultural na tentativa de solucionar essa questão. Em seus resultados, a influência do ambiente de criação na estratégia sexual está de acordo com a teoria do Pluralismo Estratégico, onde ambientes desfavoráveis levam ao estabelecimento de uma estratégia de longo-prazo (Schmitt et al., 2005a), o contrário do que seria esperado por Belsky et al. (1991) e Chisholm (1996). E em um segundo estudo (Schmitt et al, 2004) os resultados de estilo de apego, ambiente de criação e estratégia sexual vão de acordo com as expectativas de Belsky et al. (1991) e Chisholm (1996), em uma ambiente de criação estressante existe o estabelecimento de estilos de apego inseguros, e na vida adulta alguns estilos de apego inseguro estão relacionados a uma estratégia sexual de curto-prazo.