A Teoria do Desconto do Futuro de Wilson e Daly argumenta que as pessoas (e outros organismos) normalmente preferem consumir e adquirir recursos imediatos que esperar por um futuro incerto. A preferência pelo mais imediato em relação ao tardio é adaptativa, porque o adiamento do ganho de recursos ou benefícios pode aumentar o risco de que eles sejam perdidos. Em condições equivalentes, a seleção natural favorecerá a reprodução que ocorrer mais cedo em comparação com a tardia. Entretanto, em condições específicas, o adiamento pode ser mais ajustado e seguro. Além disso, uma indiferença em relação ao futuro e ênfase no presente pode encorajar formas imprudentes e violentas de tomada de risco (Daly & Wilson, 2001; 2005).
Analisando tais idéias do ponto de vista dos Ciclos de Vida, encontramos um dilema evolutivo envolvido na alocação dos recursos no domínio reprodutivo: a reprodução precoce normalmente produz maiores taxas de sucesso reprodutivo do que a reprodução tardia e, portanto, quanto mais se posterga o acesso, maior será a chance de perder recursos. Segundo a seleção natural, esse dilema reprodutivo é dependente de quão rápido o valor reprodutivo
esperado declina com o passar do tempo, o que é altamente determinado pelas taxas intrínsecas de risco de mortalidade e senescência. Então, essa linha de pensamento sugere que as taxas de desconto exibirão variações adaptativas nas preferências entre os sexos durante a vida e, de maneira contingente, às circunstâncias que são previsíveis do futuro (Daly & Wilson, 2001; 2005; Wilson & Daly, 1998).
Discussões fundamentadas na Teria da Seleção Natural e dos Ciclos de Vida sugerem que as preferências e a tomada de decisões devem ter evoluído de maneira sistemática quanto à variação de idade. Evidências de estudos sobre expectativa de vida dão apoio a essa idéia, pois homens jovens maximizam esforços e intensificam as tomadas de risco, na forma de competição intra-sexual (Daly & Wilson, 2001; 2005; Wilson & Daly, 1998).
A Teoria da Seleção Sexual com seu princípio da competição intra-sexual esclarece a maximização encontrada entre os jovens e o sexo masculino, com a hipótese de que as diferenças sexuais quanto à avaliação dos recursos naturais pode ser especialmente conspícua nos estágios da vida nos quais os homens foram selecionados para competir o mais intensamente possível por oportunidades reprodutivas (Daly & Wilson, 2001; 2005).
A Teoria do Investimento Parental complementa a explicação das diferenças entre os sexos quanto ao desconto de futuro, pois o investimento parental é mais intenso nas mulheres, selecionando uma estratégia feminina peculiar, pois o nível mais intenso de investimento na prole pressionou as mulheres a serem mais exigentes e pensarem mais a longo prazo, limitando seus esforços a acessar recursos materiais e demandar energia aos seus filhos. Enquanto os homens, que investem menos na prole, caracterizam-se por ter uma estratégia vinculada a uma menor exigência e maior competitividade pelo acesso às mulheres, levando a ter um horizonte temporal mais curto. (Trivers, 1972; Daly & Wilson, 2001; Buss, 1994, 2003; Buss & Barnes, 1986; Buss & Schmitt,1993). Portanto, quanto maior for a diferença no investimento parental entre os sexos, maiores serão as diferenças das estratégias reprodutivas
de curto e longo prazo (Buss & Schmitt, 1993), o que nos leva a pensar que a diferença entre os sexos quanto ao comportamento de “desconto do futuro” possa seguir em parte a lógica da Teoria das Estratégias Sexuais.
As conclusões quanto ao desconto do futuro, depois de um grande número de estudos, são as de que o ajuste do horizonte de tempo deve ter sido uma resposta adaptativa a informações que predizem a estabilidade da ordem social do indivíduo, propriedades e expectativa de longevidade (Daly & Wilson, 2005). Ao decorrer da vida, é possível que o horizonte de tempo ou taxa de desconto, assim como as recompensas futuras tornem-se relativamente menos atrativas. Quanto à diferença entre os sexos, os homens apresentam-se mais propensos que as mulheres a correr riscos e a descontar o futuro, provavelmente porque os ancestrais masculinos tenham sido subjugados por intensa seleção sexual em comparação às fêmeas, com efeitos resultantes em vários atributos de diferenciação sexual, incluindo adaptações para a competição intra-sexual e avaliação de risco. Essa hipótese, hoje em dia, parece apresentar uma resposta às evidências de diferença intersexual quanto às altas taxas masculinas de acidente, homicídio, suicídio, uso de drogas e contração de doenças sexualmente transmissíveis, em comparação às femininas (Daly & Wilson, 2001). Num estudo brasileiro do Núcleo de Estudo da Violência (NEV) da USP, lançado no ano de 2007, o 3º Relatório Nacional sobre os Direitos Humanos no Brasil 2002-2005, encontra-se a taxa geral de homicídios de 2004, que confirma amplamente essa diferença entre homens e mulheres: 44.519 homens foram assassinados, contrastando com as 3.830 mulheres assassinadas no mesmo período. As mulheres representam menos de 10% dos casos constatados. Estudos brasileiros com universitários (Varella, 2007) e adultos (Ferreira, 2007) encontraram diferenças significativas entre os sexos quanto a comportamentos de risco, como consumo de álcool e cigarro. No Canadá, Wilson e Daly, compararam taxas de homicídio em relação à idade, para homens e mulheres, em homicídios envolvendo pessoas não aparentadas
do mesmo sexo, no Canadá, de 1974 a 1992, e em Chicago, de 1965 a 1989, assim como os estudos brasileiros, homens apresentavam maiores taxas e foi observado um aumento da taxa de homicídio com a entrada na puberdade e um pico aos 25 anos, declinando com o passar do tempo. Concluindo, as escolhas quanto a estratégias de curto ou longo prazo dependem do estágio do ciclo de vida em que os indivíduos se encontram e são contingentes às mudanças dos fatores ambientais presentes e futuros.
Analogias entre padrões de desconto de futuro e orientação sócio-sexual de curto e de longo prazo são muito factíveis, pois a própria definição da sócio-sexualidade diz respeito a uma orientação para o presente – relacionamentos de curto prazo – e uma orientação para o futuro – relacionamentos de longo prazo. Apesar disso, ainda não existem estudos que façam essa comparação entre o desconto e a tomada de risco com a sexualidade, e nem estudos que investiguem as diferenças intra-sexuais ou individuais do desconto do futuro, resultantes de um grande número de ajustes contingentes dos organismos às mudanças do ambiente, considerados na Teoria do Pluralismo Estratégico. Como tais estudos já vem sendo feitos no contexto da Sócio-sexualidade, a integração dessas duas vertentes teóricas dos estudo do comportamento humano pode contribuir para a compreensão das diferenças individuais quanto à sexualidade e o desconto do futuro, além de permitir o estudo dos mecanismos comuns de alocação de investimento parental e as tomadas decisão envolvidas na resolução desse dilema.