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Kapittel 5: Yrkesaktive kvinner i 1910

5.1 Folketellingen for Fredrikshald i 1910

Voltando a W ou a memória da infância, o enunciado “O projeto de escrever minha história formou-se quase ao mesmo tempo que meu projeto de escrever” guarda outras implicações. Além da narração autodiegética, do texto estar em itálico e do uso do passado composto, condicionando o leitor a fazer o pacto autobiográfico, há outras distinções entre a autobiografia e as narrativas em itálico. O tom memorialístico some nos outros dois relatos para dar lugar ao mistério da trama policial (na primeira parte) e ao universo inverossímil (na segunda), como em:

As Atlantíadas ocorrem mais ou menos a cada mês. As mulheres presumivelmente fecundáveis são conduzidas ao Estádio Central, despojadas de suas roupas e largadas nas pistas, onde se põem a correr o mais rápido que podem. Deixa-se que tomem uma meia volta de dianteira, e

96 “Ces ‘je me souviens’ ne sont pas exactement des souvenirs, et surtout pas des souvenirs

personnels, mais des petits morceaux de quotidien, des choses que, telle ou telle année, tous les gens d'un même âge ont vues, ont vécues, ont partagées, et qui ensuite ont disparu, ont été oubliées; elles ne valaient pas la peine d'être mémorisées, elles ne méritaient pas de faire partie de l'Histoire, ni de figurer dans les Mémoires des hommes d'Etat, des alpinistes et des monstres sacrés. Il arrive pourtant qu'elles reviennent, quelques années plus tard, intactes et minuscules, par hasard ou parce qu'on les a cherchées, un soir, entre amis […].”

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“Je me souviens d’une danse qui s’appelait la Raspa”; “Je me souviens de Lee Harvey Oswald”; “Je me souviens du tennis-barbe : on comptait les barbus qui passaient dans la rue : 15 pour le premier, 30 pour le second, 40 pour le troisième et ‘Jeu’ pour le quatrième”, respectivamente.

a seguir são lançadas em seu encalço os melhores atletas W, isto é, os dois melhores de cada disciplina em cada aldeia, o que perfaz 176 homens, já que há 22 disciplinas em quatro aldeias. Uma volta de pista em geral é suficiente para que os corredores alcancem as mulheres e, com frequência é diante das tribunas de honra, seja na própria pista, seja na relva, que elas são violadas. (PEREC, 1995, p. 150-151)

Embora descrita de maneira objetiva, uma organização social de horror como essa não poderia ser concebida do modo como é apresentada. Entretanto, salvo na separação estrita dos universos ficcional e autobiográfico, há uma ligação profunda entre os dois mundos e os dois gêneros, como se a condição de verdade dependesse do contrapeso da outra narrativa. Vide o comentário do narrador da autobiografia sobre as três lembranças da escola:

Foi praticamente ao redigir essas lembranças que uma quarta me veio: a das toalhinhas de papel que fazíamos na escola: dispúnhamos paralelamente tiras de papelão fino coloridas de diversas cores e as cruzávamos com tiras idênticas, passando uma vez por cima, uma vez por baixo. Lembro que esse exercício me encantou, que depressa entendi seu princípio e que o fazia com perfeição. (PEREC, 1995, p. 68)

Não se trata do princípio de escrita de W, mas tal comentário do texto não seria um total deslize. A metáfora funciona como método de escrita, pois o entrecruzamento entre autobiografia e ficção constitui uma arquitetura para W, não deixando de ser um jogo encantatório98. A nós cabe uma leitura detetivesca, mas sem um objetivo claro, como na história de Winckler. No caso dos fios entremeados, o “verdadeiro” da autobiografia não vale quanto pesa, pois fracassa em contar a história da vida de Perec, servindo para iluminar o ficcional no livro. O fictício da narrativa policial, por sua vez, entremeado com a descrição da ilha, contamina o “real”. Assim, em muitos momentos, o universo inverossímil de W é tingido por tons de verdade, enquanto que a narrativa do garoto de seis anos é suspensa pelos inúmeros buracos, vazios, falhas, amnésias, esquecimentos:

Do mundo exterior eu nada sabia, exceto que havia guerra e, por causa da guerra, refugiados […]. Havia também soldados italianos, caçadores alpinos com uniformes, parece-me, de um verde berrante. Não os víamos muito.

Diziam que eles eram bobos e inofensivos.99 (PEREC, 1995, p. 17, grifo nosso).

Isso nos faz ver com outros olhos o paratexto inicial da obra de 1975:

98 No original, “Je me souviens que ce jeu m’enchanta […]” (PEREC, 2009, p. 80, grifo nosso).

99 No original, os trechos grifados são “me semble-t-il” e o impessoal “On disait” (PEREC, 2009b,

Há neste livro dois textos simplesmente alterados; poderia quase parecer que eles nada têm em comum, no entanto estão indissoluvelmente imbricados, como se nenhum dos dois pudesse existir sozinho, como se apenas de seu encontro, dessa luz longínqua que lançam um sobre o outro, pudesse se revelar o que jamais é inteiramente dito num, jamais inteiramente dito no outro, mas somente em sua frágil interseção.

Um desses textos pertence por inteiro ao imaginário: é um romance de aventuras, a reconstituição, arbitrária mas minuciosa, de um fantasma infantil que evoca uma cidade regida pelo ideal olímpico. O outro texto é uma autobiografia: o relato fragmentário de uma vida de criança durante a guerra, um relato pobre de façanhas e de lembranças, feito de fragmentos esparsos, de ausências, de esquecimentos, de dúvidas, de hipóteses, de anedotas insignificantes. O relato de aventuras, em compensação, tem algo de grandioso, ou talvez de suspeito. Pois começa contando uma história e, de repente, se lança numa outra: nessa ruptura, nessa fratura que suspende a narrativa em torno de não se sabe qual expectativa, se acha o lugar inicial de onde saiu este livro, aqueles pontos de suspensão a que se prenderam os fios rompidos da infância e a trama da escrita. (PEREC, 1995, p. 3)

Vê-se que não há um “eu” nessa apresentação, mas sim se anuncia as interseções frágeis, as rupturas, as quebras, os pontos de suspensões. Por entre esse conjunto de faltas e fragilidades, erguem-se narrativas emaranhadas, desdobradas uma sobre as outras pelo que nelas há de silêncio, de ausência. É a passagem dos momentos pré-separação com a mãe à infância sob a tutela dos tios, da trajetória de Winckler à história da ilha. No centro do livro, o enigma do vazio, tipograficamente marcado pelo símbolo “(…)”, representando tudo que é omitido, não dito, censurado e proibido, unindo todas as elipses da escrita e os lapsos da infância em um só momento. O livro molda-se, contudo, pelo que é dito antes e depois do ínterim. Entre lembranças por vezes aparentemente sem grande importância, ou evidentemente falseadas, e a abundância da ficção típica do romance de aventuras. Entre a fabulação e o esquecimento, em uma alternância de posições que tenta negligentemente, seguindo Agamben, religar-relegere finalmente passado e presente.