Kapittel 6: Ugifte kvinner og enkers sysselsetting i Fredrikshald 1875-1910: Drøfting
6.11 Avslutning
La disparition213 é um romance que chama a atenção na obra de Perec frequentemente pelas mais de trezentas páginas, nas quais não existe a letra “e”, a mais utilizada na língua francesa. No momento da publicação, foi o lipograma mais extenso já escrito. A empreitada de escrever um livro sem um signo tipográfico e de este ser de um autor já premiado fizeram com que o romance, de súbito, se tornasse famoso.
Porém, até hoje, seu público é aparentemente formado por especialistas, o que cria situações curiosas. Como o fato de estudos inteiros não informarem que uma das personagens, Anton Voyl, é a protagonista. Ou não comentarem sobre sua trajetória, marcada por incursões sorumbáticas e crises fisiológicas, que terminam no seu desaparecimento, a partir do qual se seguem inúmeras outras desaparições e assassinatos violentos. Todos sob a veste das narrativas policiescas.
O prólogo do romance avisa ao leitor o que está por acontecer.
Sob o título de “Oú l’on saura plus tard qu’ici s’inaugurait la danation”214 (PEREC, 2009a, p. 11), são enumeradas as mortes de vinte e cinco magistrados, magrebinos, negros, judeus, um sacristão, um irmão – seu primo e seu vizinho –,um cônsul holandês, um marquês de sapatos nacarados, um batalhão inteiro, um cabo, habitantes de Lyon, um campeão de aviação, um cretino, dezoito Pasionaria, vinte Mao, vinte e oito Marx (um Chico, três Karl, seis Groucho e dezoito Harpo), um Marat, um homem agonizando, ao menos três falsos cristãos, um bêbado, um farmacêutico, um motociclista, advogados, franciscanos, datilógrafos, aprendizes de padeiro, palhaços, meninos, prostitutas, comerciantes de carvão, tipógrafos,
213 Primeiramente, uma tradução de La disparition que não seja lipogramática não faz sentido, caso
se leve em conta que antes de tudo é central traduzir a contrainte, e a contrainte em francês é a letra mais utilizada na língua. Em segundo lugar, é inegável que Georges Perec era dado a escrever sob o nível máximo de dificuldade. Como visto, percebe-se isso nas inúmeras restrições para a confecção dos “romances” de A vida, modo de usar (1978), nos heterogramas de Alphabets (1976) e no palíndromo de 1970, o maior do mundo à época. Assim, para dar conta da complexidade formal e de sentido de La disparition, é preciso ater-se à restrição, ou seja, transcriar levando-se em conta que se trata de um lipograma em que a letra excluída é a mais frequente. Quando a letra (ou elemento correspondente) mais utilizada do idioma de destino é distinta, como no espanhol, no russo e no japonês, optou-se pelo apagamento da letra mais recorrente em cada língua. Propomos o mesmo em português retirando a vogal a, cuja frequência é 20% maior que a do e, a segunda em ocorrência na nossa língua. Como resultado, fugindo de qualquer conveniência tradutória, os esboços de O sumiço constam em nota de rodapé.
tocadores de tambor, síndicos, habitantes de Pont-à-Mousson, camponeses, marinheiros, ricaços e greasers, entre outros (PEREC, 2009a, p. 11-14).
A variedade dos eventos descritos, com a desgraça chegando a órgãos e instituições públicos, como prefeitura, aeroporto e hospital, entremeada com situações cômicas, descortinam um romance que vai além do simples trabalho braçal que envolve escrever sem uma letra. Vide o jogo que se monta entre as mortes por afogamento no trecho “On noya dans l’alcool un pochard, dans du formol un potard, dans du gas-oil un motard”215 (PEREC, 2009a, p. 14), em que o local de óbito, “alcool”, “formol” e “gas-oil”, formam rimas entre si, assim como o grupo de falecidos, um “pochard”, um “potard” e um “motard”. Ou, como no final da enumeração de figuras históricas em que, depois de “dix-huit Pasionaria, vingt Mao, vingt-huit Marx”, célebres figuras de esquerda, surge a figura de Marx que, surpreendentemente, não é o autor de O Capital, mas os irmãos: “un Chico, trois Karl, six Groucho, dix-huit Harpo”216 (PEREC, 2009a, p. 13).
Nesse sentido, o “Avant-propos” é o prenúncio do que se seguirá na narrativa, que se desenvolverá sob a égide da danação revestida de humor. As personagens vão sumir uma a uma. Primeiro Antol Voyl, depois Douglas Haig Clifford, Ausgutus B. Clifford, Hassan Ibn Abbou, Olga Mavrakhordatos, Ottavio Ottaviani, Arthur Wilburgh Savorgnan e, por fim, Amaury Conson. Tais personagens, sem saber, estão ligadas por laços familiares. Este é o motivo que faz com que todos sejam mortos um depois do outro. Ao melhor estilo detetivesco de Hercule Poirot, de Agatha Christie, de Sherlock Holmes, de Conan Doyle, ou de Auguste Dupin, de Edgar Allan Poe, o policial Aloysius Swann desvenda a conexão entre os crimes.
Há uma violência desmedida de ponta a ponta no romance, a qual foi relacionada em inúmeros estudos com o massacre coletivo do Holocausto, que tanto marcou a vida de Perec. Ao lado dessa análise com viés autobiográfico, há a deflagração do aniquilamento do “e”. Deste modo, temos, de um lado, uma narrativa policial cheia de atrocidades e desaparecimentos, frequentemente associados à morte trágica dos pais do autor francês na Segunda Guerra Mundial e ao genocídio judaico como um todo. De outro, um texto escrito sem o “e”, no qual a ausência da letra é salientada a todo o momento, o que restringiria o romance à sua autorreferencialidade, como se todo elemento ali presente se justificasse por causa
215
“Imerge-se no vinho um biriteiro, no sonífero um enfermeiro, no combustível um motoqueiro”.
216 “dezoito Luxemburgo, vinte Tse-tung e vinte e oito King (um Luther, três Sthepen, seis B.B. e
do princípio que o constitui. Como vimos, muitos dos primeiros estudos sobre La disparition limitaram-se a identificar a contrainte e a entendê-la como um método de produção verbal, divertido, mas não muito mais do que isso.
Contudo, o radicalismo da postura dos primeiros especialistas, legitimados academicamente pelo estruturalismo, fragiliza-se quando se deixa de entender a linguagem como um signo cifrado, de perfeita correspondência, em prol de vê-la como um elemento turvo, opaco. Huizinga prevê duas possibilidades para o enigma:
Nunca se perderam inteiramente as íntimas relações entre a poesia e o enigma. Nos skalds islandeses o excesso de clareza é considerado uma falha técnica. Os gregos também exigiam que a palavra do poeta fosse obscura. Entre os trovadores, em cuja arte a função lúdica é mais patente do que em qualquer outra, são atribuídos méritos especiais ao trobarclus – o que à letra significa "poesia hermética".
As escolas líricas modernas, que se movem e residem em domínios geralmente inacessíveis e gostam de envolver o sentido numa palavra enigmática, permaneceram, portanto, fiéis à essência de sua arte. Com seu círculo restrito de leitores, que compreendem ou pelo menos conhecem sua linguagem especial, elas são grupos culturais fechados de linhagem muito antiga. Todavia, não é certo que a civilização que as rodeia seja capaz de apreciar suficientemente seus objetivos para formar o terreno em que a arte possa exercer a função vital que é sua razão de ser. (HUIZINGA, 2012, p. 150)
Mesmo sem o prestígio que teve na década de 1970 na França, o texto ainda parece ser relevante. Com certeza, é oportuno para refletir sobre o enigma em Perec. Considerando as regras formais como enigma, a questão é se elas exercem o papel vital que lhe compete, ou se serão eternamente destinadas aos iniciados, como o foram para as escolas líricas modernas, conforme leitura do teórico.
Giorgio Agamben abre novos horizontes políticos quanto trata da importância de entender o jogo como instrumento de libertação. Para tanto, parte da análise da relação entre jogo e rito feita Émile Benveniste, na qual se mostra que o jogo, mesmo sendo oriunda da esfera do sagrado, representa simultaneamente a sua inversão. Como ludus (jogo de ação), o jogo dissipa o mito e conserva o rito; e, como jocus (jogo de palavras), cancela o rito, deixando o mito. O homem tem, com a atividade lúdica, uma liberação e um desvio do sagrado, sem o perder por completo. Por isso a “profanação” do jogo não está ligada somente à esfera religiosa. (AGAMBEN, 2007, p. 67). A questão do uso, ou melhor, dos modos de usar, é central. No jogo proposto pela contrainte, pode-se fazer do texto próximo distante, uma aventura de novas relações completamente distintas das costumeiras:
A atividade que daí [do jogo] resulta torna-se dessa forma um puro meio, ou seja, uma prática que, embora conserve tenazmente a sua natureza de meio, se emancipou da sua relação com uma finalidade, esqueceu alegremente o seu objetivo, podendo agora exibir-se como tal, como meio sem fim. Assim, a criação de um novo uso só é possível ao homem se ele desativar o velho uso, tornando-o inoperante. (AGAMBEN, 2007, p. 74-75) Inventar uma estrutura e produzir uma obra a partir dela pode configurar-se na profanação das estruturas linguísticas socialmente sedimentadas em uma determinada tradição retórica. De maneira mais genérica, o rearranjo de elementos e funções provocado pelo jogo tem como consequência um descentramento do sujeito e uma difusão de fatores, que fazem da atividade lúdica um sistema em movimento. Nesse sentido, uma das consequências do radicalismo de uma leitura stricto sensu do lipograma, por exemplo, é obscurecer a proliferação de sentidos de La disparition, tornando-os puramente operantes em uma determinada lógica. Para “arrancar dos dispositivos – de todo dispositivo – a possibilidade de uso que os mesmos capturam” (AGAMBEN, 2007, p. 79), um caminho é entender essa propagação como profanação inerente à complexidade de relações que a restrição tece com a narrativa e o mundo, pois compreende tudo o que o lipograma faz surgir e sobrar, premeditadamente ou não.
A narrativa lipogramática, então, é a metáfora negadora: dos pais, mortos na Segunda Guerra; de determinadas palavras de um idioma, o que remete à censura; da mulher na língua e na sociedade, resultado da retirada da vogal em francês, marca do gênero feminino, nos dois sentidos do termo; e de uma letra, destacando a arbitrariedade da língua e a incomunicabilidade humana, tema caro e de sucesso à época (vide o cinema de Michelangelo Antonioni e o teatro de Samuel Beckett).
Porém, também o lipograma é a metáfora da afirmação, pois origina uma multiplicação de relações, de correlações, de caminhos, de sugestões, permitindo que a memória falha dos pais exista nas marcas autobiográficas, que as palavras interditas ecoem ao serem apagadas, que o traço feminino grite ao se calar e que a letra ausente seja omnipresente.
O jogo do romance é um jogo de enigma sem precisões ou respostas corretas. A instabilidade e a indefinição são geradas pela tensão entre textualidade radical e liberdade interpretativa, entre rigor conceitual e sentidos que ele descobre e desdobra ao se cobrir com as contraintes, tal como acontece quando nos cobrimos com um cobertor curto. Partindo desse roteiro sem destino, podemos tropeçar no prazer do texto, já que o enigma é apreciável, digno de ser lido à plat ventre, para utilizar uma expressão cara a Perec, e hermético, tal como nos troubadours.
Nos subcapítulos que se seguem, o debate será desenvolvido entre elementos que envolvem a confecção do romance, e a sua consequente recepção, assim como uma exposição da metatextualidade de La disparition – sem que nos privemos de trazer outros livros perecquianos, bien entendu. Os dois primeiros momentos permitirão entrever as implicações e os desafios de uma escrita lipogramática em língua francesa, como também a recepção do texto no campo literário francês. O terceiro, então, será marcado pelo estudo de como a narrativa reage sob a rede da restrição em que se molda um jogo ao mesmo tempo criativo e insuficiente, implicação de uma proposta totalizante. Nessa discussão, retomamos as noções de força centrípeta e centrífuga utilizadas no primeiro capítulo.
3.2 A morte do autor em uma desaparição elocutória?
A formatação do Oulipo como grupo é caracterizada pelo diálogo. Entre 1962 e 1967, os escritores reuniam-se para encontrar restrições na tradição literária e criar outras. Num segundo momento, absolutamente conectado com o primeiro, o desafio era produzir textos a partir de estruturas inventadas ou idealizadas por membros do grupo. Por vezes, uma contrainte era desenvolvida ou idealizada por um membro e produzida por outro, caso de La disparition217. A experiência coletiva da escrita desse romance é também de outra ordem. Na biografia de Perec, David Bellos descreve a comunidade do Moulin d’Andé218, localidade aprazível na Baixa Normandia, distante dos eventos perturbadores surgidos nas universidades parisienses e que logo se espalharam por toda a cidade em 1968. Nesse pequeno paraíso normando, Perec passou boa parte dos fins de semana da segunda metade dos anos 1960, ao lado de intelectuais que por ali passavam em busca de tranquilidade para a criação artística e para os diálogos refinados. Especificamente no ano de 1968, o autor de As coisas trabalhou na confecção do romance sem a letra “e”, incitando pensadores, diletantes, artistas e escritores (por vezes oulipianos) a participar de seus jogos de palavras. Por exemplo, após a produção diária de determinados seguimentos do livro, Perec lia os manuscritos aos ouvintes à sua volta e estimulava-os a produzirem trechos lipogramáticos. Muitos dos autores
217 Na verdade, são suposições que envolvem tal afirmação, surgidas a partir da declaração de
Marcel Bénabou de que o romance foi, de início, concebido como uma brincadeira oulipiana (cf. BENABOU apud PARAYRE, 1985, p. 9)