Com base nos dados obtidos, podemos dizer que a coleção 1 Português – Ideias & Linguagens, de Dileta Delmanto e Maria da Conceição Castro, aborda o trabalho de leitura e de escrita de texto digital no volume do 8º ano. Nos demais volumes (6º, 7º e 9º anos), a abordagem se dá pelas sugestões de sites de internet para pesquisa e para enriquecimento dos alunos em cada unidade, visando ao aprofundamento dos temas discutidos.
As autoras dedicam uma unidade do volume do 8º ano da coleção para discutir e apresentar atividades voltadas para o trabalho de leitura e de escrita de textos digitais. A unidade se inicia com informações referentes ao desenvolvimento da internet em diferentes aspectos da vida diária e apresenta as características da linguagem dos textos informais que circulam na rede, apresentando um pequeno glossário com palavras usadas nesse contexto como: navegar, bytes, ciberespaço, chat, entre outras. As autoras também trabalham a relação entre fala e escrita nas mensagens trocadas pela internet.
Nesse ponto, caberia o comentário de Marcuschi (2010, p. 76) de que as novas tecnologias digitais afetam nossos hábitos de ler e escrever e de que a escrita nos gêneros digitais se dá em uma certa combinação com a fala, “manifestando um hibridismo ainda não bem conhecido e muitas vezes mal compreendido”. Essa preocupação é revelada pelas autoras, uma vez que elas organizam atividades que favorecem a compreensão da relação entre fala e escrita utilizada nos textos que circulam no contexto digital.
A primeira atividade do livro analisado referente ao trabalho com textos digitais que as autoras propõem é o trabalho com o gênero blog a partir do conhecimento do gênero diário de bordo. Elas apresentam vários textos escritos em diários e um texto que foi postado em um blog. O objetivo descrito na atividade é levar os alunos a se interessarem por registrar suas experiências, desejos e sentimentos.
Dessa forma, é possível que a utilização do gênero tenha ocorrido para a realização da atividade de produção de texto, sem o objetivo de reconhecimento das características específicas que o gênero blog apresenta.
Komesu (2010) defende que o blog é um espaço em que o escrevente pode expressar o que quiser na sua escrita, assim como pode escolher sons e imagens para compor o seu texto. Há a possibilidade de o escrevente atualizar e manter os seus registros em rede, além de interagir com o leitor das páginas pessoais.
O blog é conhecido também como “diário virtual”, “diário da internet”, no entanto, apresenta características diferentes dos diários tradicionalmente escritos, apesar de percebermos traços do gênero diário na sua constituição.
Para Marcuschi (2010), os blogs se diferenciam do antigo diário não apenas pela mudança de ambiente, da folha de papel para o espaço virtual, mas também pelo propósito comunicativo. Nos blogs pessoais os autores expõem as suas intimidades diariamente, deixando, inclusive, um espaço para que leitores “postem” seus
comentários, pois eles são interativos e participativos. Já nos diários pessoais, outras pessoas não têm acesso ao conteúdo sem a permissão do autor.
Delmanto e Castro (2009) sugerem no manual do professor a possibilidade de utilizar o blog, como ferramenta educativa. Elas apresentam experiências que tiveram êxito na utilização dessa prática em sala de aula. Isso revela a preocupação das autoras em contemplar esse tipo de produção, tendo em vista que os professores precisam estar atentos às inovações do contexto digital e aproveitar o interesse dos alunos.
Essa preocupação das autoras está em conformidade com as orientações dos PCN (BRASIL, 1998, p. 56), que destacam a importância de o aluno “estabelecer as relações necessárias entre o texto e outros textos e recursos de natureza suplementar que o acompanham (gráficos, tabelas, desenhos, fotos, boxes) no processo de compreensão e interpretação do texto”, o que implica o contato com uma diversidade de gêneros discursivos de variadas esferas sociais e com diferentes mídias ou tecnologias.
Com base no levantamento de atividades de leitura de textos digitais, percebemos que as autoras apresentam o blog, o e-mail e o chat como gêneros digitais para os alunos. Contudo, podemos dizer que, ainda, é uma abordagem muito pequena, uma vez que, na visão de Freire (2008), nunca se leu, escreveu e se comunicou tanto, como nos dias atuais, e isso se deve ao uso de novas práticas comunicativas no ambiente digital propiciadas pelas novas tecnologias. Assim, podemos inferir que é necessário e urgente a incorporação de novas práticas educativas na escola, que respondam, satisfatoriamente, aos usos dos novos gêneros proporcionados pelos avanços tecnológicos. Dessa forma, propomos ao professor um trabalho de leitura de hipertexto que possa contribuir com uma nova prática educativa frente aos avanços tecnológicos presentes em nossa realidade.
Observamos que as atividades com os gêneros digitais abordados pelas autoras atendem à orientação dada pelos PCN (1998) no que diz respeito diretamente às relações interlocutivas e ao processo de enunciação, destacando aspectos como o caráter histórico-social da linguagem, o reconhecimento do contexto de produção, a definição da temática e a estrutura do discurso a partir do gênero e do suporte.
Percebemos, porém, que as orientações das atividades são voltadas para a identificação de alguns elementos constitutivos do gênero (remetente, destinatário e assunto); a comparação entre gêneros (carta pessoal e carta profissional; e-mail pessoal e e-mail profissional) ao veículo.
Segundo Paiva (2010), ter acesso ao correio eletrônico – e-mail é hoje uma questão de inclusão social. “O uso de e-mail gerou uma revolução nas relações humanas, especialmente na área educacional, e merece ser estudado.” (PAIVA, 2010, p. 107). Para a autora, o domínio de gêneros demanda o controle sobre certas competências, como a pragmática, a tecnológica e a intercultural.
A competência pragmática implica o uso adequado da língua em relação ao contexto, à seleção e ao uso dos atos de fala, de modo a produzir sentido e estimular a interação. Essa competência “assinala o que pode ou não ser dito e as formas aceitáveis de dizer pela comunidade usuária” (PAIVA, 2010, p. 68).
Para Paiva (2010), a competência tecnológica é concebida como o saber fazer; saber utilizar os programas computacionais; saber utilizar de forma proveitosa todas as ferramentas tecnológicas disponíveis, como receber e enviar um e-mail, utilizando os mecanismos de edição, customização, gerenciamento e configurações do teclado.
Nesse sentido, percebemos a preocupação de Delmanto e Castro (2009) em apresentar dicas ao professor de como ensinar os seus alunos a fazerem busca e pesquisa na internet, pois, segundo as autoras, é preciso orientar os alunos, de maneira mais racional, no imenso labirinto de informações que é a internet.
Já a competência intercultural se refere à capacidade do sujeito de interagir com pessoas de outra cultura por meio de uma língua estrangeira. Por meio dessa competência é possível a participação por e-mail de listas de discussão em que interagem pessoas das mais diversas nacionalidades
a Língua Portuguesa deve ser aprendida não apenas para que o aluno saiba usá-la em diferentes situações ou contextos, mas, assim, como outras linguagens, ela deve ser vista como ferramenta semiótica essencial para que o ser humano transcenda os limites de sua experiência imediata e possa pensar sobre o seu próprio pensamento (MINAS GERAIS, 2005, p. 17)
Para Komesu (2010, p. 153), a internet se transformou em um veículo de comunicação com “uma linguagem acessível à maior parte dos hiperleitores e, desse modo, há uma exploração dos termos dessa área, os quais são transferidos para o contexto social e divulgados como uma linguagem global.” Para a autora, as expressões e termos veiculados na rede já estão difundidos e incorporados na linguagem do dia a dia dos interlocutores.
Para finalizar a discussão acerca do levantamento das atividades de leitura de texto digital encontradas na coleção Ideias & linguagens, podemos dizer que a escolha do tema da unidade 8, “Pela Internet”, é muito relevante ao professor e aos alunos, especialmente por trazer discussões para a sala de aula, dando oportunidade de os educandos expressarem a sua relação com o contexto digital. A proposta permite ao aluno um olhar crítico e o enriquecimento da habilidade de usar a linguagem e as ferramentas específicas da internet em situações adequadas.