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KAPITTEL 6: Resultater fra undersøkelsene

6.5 Flyselskapene

No inicio de 2008, foi publicado pela Secretaria Municipal de Cultura da cidade de São Paulo (SMC/SP) um edital para contratação de “empresa especializada em serviços educativos para desenvolvimento de projeto de educação patrimonial para o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), visando o atendimento ao público visitante dos seus equipamentos culturais”, o Museu da Cidade de São Paulo (MCSP). Atendendo a rigorosos critérios do processo de licitação pública, a empresa Arteducação Produções (AEP) ganhou a concorrência e foi contratada para iniciar os serviços em abril de 2008., Naquela ocasião, para os integrantes do AEP, esse projeto teve uma significação especial, pois a partir dele se ampliaram as oportunidades para a empresa investir em outros projetos educativos desenvolvidos para instituições culturais e museológicas.

Os anos de 2007 e 2008 foram representativos, pois significaram, respectivamente, o ultimo projeto educativo realizado no CCBB, na exposição Lusa: a Matriz Portuguesa, e o inicio do Projeto de Educação Patrimonial no MCSP. Para implantar esse projeto, previsto para ser desenvolvido por um período de um ano14, alguns integrantes do AEP formaram uma pequena equipe responsável pela administração e supervisão geral, considerando as funções exigidas pelo Caderno Técnico15 e adequadas ao orçamento. Com a experiência do CCBB como herança, iniciávamos um novo projeto, num cenário diferente.

O MCSP é um sistema que integra um acervo de edifícios e espaços históricos administrados pela Divisão de Iconografia e Museus (DIM) do DPH da SMC/SP. Sua sede administrativa é formada por um conjunto de imóveis localizado no centro da cidade, reabertos recentemente após longo processo de restauração: o Beco do Pinto, a Casa da

Imagem de São Paulo e o Solar da Marquesa de Santos onde também estão abrigados

outros cinco acervos16: de bens móveis, iconográficos, etnográficos, arqueológicos e de história oral.

A Divisão de Iconografia e Museus (DIM) foi criada em 1975, ano da criação da SMC e reformulação do então Departamento de Cultura, idealizado por Mário de Andrade na década de 1930, em Departamento do Patrimônio Histórico (DPH). São três as suas divisões: a do Arquivo Histórico Municipal, a de Preservação e a DIM, cuja trajetória é

14 O contrato da empresa AEP foi renovado junto à prefeitura e até os dias atuais o projeto educativo é

desenvolvido.

15 Documento que específica em detalhes os serviços a serem realizados. 16

Para compreender a formação desse acervo, assim como as pesquisas arqueológicas e o histórico dos processos de restauro e conservação das casas históricas, faz-se necessário estudo de programas parceiros do DPH, como o Programa de Arqueologia Histórica da Cidade de São Paulo junto ao Museu Paulista da Universidade de São Paulo (MP/USP), coordenado pela Profª Drª Margarida Davina Andreatta entre os anos de 1979 e 1985 e a tese de doutorado de Paulo Eduardo Zanettini de 2005, Maloqueiros e seus palácios de barro: o

cotidiano doméstico na Casa Bandeirista (MAE/USP) que registra um relevante trabalho de organização e

assinalada “por experimentações metodológicas inéditas e a musealização de novos enfoques patrimoniais (...) orientados para a cidade” (2006, p. 119), segundo Maria Christina de Oliveira Bruno, museóloga que atuou como diretora da DIM no período de setembro de 2003 a julho de 2005. São poucos os registros publicados sobre essa divisão que situem o surgimento do MSCP e suas ações educativas, por isso vale a pena citar algumas das experimentações mencionadas por Bruno, em seu artigo Museu da Cidade de São Paulo: as

mudanças éticas sonhadas por Mário de Andrade17.

Dentre as experimentações realizadas, respectivamente, entre o final da década de 70 e decorrer das de 80 e 90, podemos destacar o Museu de Rua (1978), que explorou o acervo fotográfico em exposições itinerantes em locais públicos, instituições educacionais e culturais; o Projeto Museu da Cidade (1985), com ações museológicas descentralizadas e comunitárias, articuladas em bairros e apoiadas em núcleos museológicos configurados nas casas históricas; e o Programa Museológico do Museu da Cidade de São Paulo, articulado à implantação do Sistema Municipal de Museus (2003) (BRUNO, 2006).

Como é atualmente conhecido, o MCSP possui um conceito que vem sendo desenvolvido e construído ao longo de sucessivas administrações18. Entretanto, para esta pesquisa interessa-nos destacar e detalhar o cenário mais recente que se configura no conjunto de bens imóveis onde o projeto educativo foi implantado e desenvolvido a partir de 2008 pela empresa AEP: cinco casas e uma capela de arquitetura e origens colonial e rural, uma casa de arquitetura moderna, o Monumento à Independência e o Museu do Theatro Municipal (MTM)19. A apresentação desse cenário e das etapas de seleção, implantação e desenvolvimento do projeto educativo será articulada às experiências que nele foram vivenciadas, enriquecidas com trechos de relatos reflexivos dos educadores desenvolvidos ao longo do projeto, que contribuem para pontuar considerações e reflexões sobre o patrimônio cultural e a mediação cultural, pois esse contexto incidiu ou incide sobre a formação dos educadores e a minha própria.

17

Artigo publicado na Revista do Arquivo Municipal/ Departamento do Patrimonio Histórico, São Paulo, volume 204, 2006.

18

Informações atualizadas podem ser consultadas no site www.museudacidade.sp.gov.br

19

O Museu do Theatro Municipal integrou o sistema do MCSP até meados de 2010, quando passou a ser administrado diretamente pelo Theatro Municipal de São Paulo.

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Em sua configuração atual como bens patrimoniais, a maioria desses espaços está localizada em meio a áreas verdes, entorno que contribui para a sua preservação e melhor visibilidade e ambientação, inspirando bucólicos diálogos com a natureza. O olhar distancia- se da cidade dos edifícios e das grandes avenidas, percorre gramados, caminhos de terra e, por entre algumas árvores, adentra as camadas de outros tempos que evidenciam fragmentos de histórias sobre as transformações da cidade, nas nove unidades do MCSP espalhadas nas regiões sul, norte, leste, oeste e central. Algumas histórias que podemos contar sobre a cidade falam de tempos muito diferentes. As casas de taipa e madeira de arquitetura colonial paulista da Casa do Bandeirante, no bairro do Butantã e da Casa do Tatuapé, no bairro de mesmo nome são de um tempo que conta sobre o processo de colonização da cidade e sua resistência a expansão mercantil. A Casa do Sitio da Ressaca, tem sua história vinculada ao surgimento da região do Jabaquara e descoberta quando da construção da linha Norte/Sul do Metrô na década de 1960. A casa do Sitio Morrinhos preserva em sua arquitetura a ocupação de alguns de seus moradores, como os monges beneditinos, no bairro do Jardim São Bento na Casa Verde. A construção encontrada em ruínas é do tempo de uma antiga fazenda produtora de chá, no atual bairro do Morumbi, interpretada e recriada como a Capela do Morumbi na década de 1940 pelo arquiteto Gregori Warchavchik (1896–1972) a convite da Cia Imobiliária Morumby. No Parque do Ipiranga, uma casa rural de pau-a-pique simboliza o momento em que o país se tornou independente de Portugal, a Casa do Grito, por remeter a uma casa rural representada na

pintura “Independência ou Morte” de Pedro Américo20 realizada em 1888, e, o Monumento do Ipiranga, construído na década de 1920 em função das comemorações do centenário da emancipação do Brasil. Há o tempo do concreto e do vidro da Casa Modernista, no bairro da Vila Mariana, projetada e construída na década de 1920 pelo já mencionado arquiteto Warchavchik, considerada por especialistas a primeira casa de partido modernista no Brasil. Destaquem-se ainda os tempos modernos nas histórias sobre as óperas, danças e concertos do Theatro Municipal, a partir de documentos na exposição “Ícone e Memória” no Museu do Theatro Municipal (MTM).

Como poderíamos situar a concepção de patrimônio que permeia esse contexto? Percebo evidencias na constituição do MCSP, a partir desse recorte, de uma concepção tradicional que compreenderia esses espaços como parte de um “catálogo patrimonial” da cidade (AGUIRRE, 2008), formado por objetos, imóveis e manifestações escolhidos e selecionados para serem preservados por possuírem determinados significados e valores para a sociedade. Para Imanol Aguirre, essas escolhas estariam alicerçadas numa concepção tradicional de objeto patrimonial sustentada por três critérios: o de antiguidade, que valoriza o passado como herança e legado a ser preservado; o de excelência cultural e o de tangibilidade, que podemos entender como aquelas qualidades que singularizam o objeto patrimonial e contribuem para a sua permanência física ou simbólica.

Diante desses critérios podemos nos perguntar quais as qualidades que estariam sendo valorizadas nas escolhas e seleção do MCSP? Palavras como ocupação, avanço, expansão, produção, construção, emancipação e independência nas descrições históricas pesquisadas que inspiraram a minha descrição de cada unidade do museu, acima, nos remetem aos valores das sociedades ocidentais que se intitulam como civilizadas a partir de uma concepção de cultura humanista e universalista. Essa concepção se constituiu no século XIX atrelada ao crescimento do capitalismo e do imperialismo “com suas práticas coloniais e com o desenvolvimento dos conhecimentos filosóficos, científicos, tecnológicos e das redes de comunicação que se estabelecem na geopolítica do mundo reconhecido como civilizado” numa época em que se produziram “estudos e pesquisas no sentido de definir e estabelecer critérios e valores para qualificar evolutivamente as culturas.” (COUTINHO, 2010).

Segundo Rejane Coutinho, o movimento patrimonial surge nesse contexto e irá influenciar as primeiras discussões em torno da preservação de bens patrimoniais, inicialmente de países europeus em períodos de guerra e posteriormente, com a criação da

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Pedro Américo de Figueiredo e Melo (Areia, 29 de abril de 1843 - Florença, 7 de outubro de 1905) foi um

pintor, romancista e poeta brasileiro. De estética neoclássica muitas de suas pinturas abordam temáticas

Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO, em 1945 uma série de convenções que buscam “regular, disciplinar e criar instrumentos jurídicos internacionais para a promoção e proteção dos bens culturais patrimoniais” (2010). Em paralelo a esse movimento, o processo de institucionalização de bens patrimoniais no Brasil nasce em 1937 com o projeto de criação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional IPHAN, envolvendo a “intelectualidade modernista e teve como base um anteprojeto idealizado por Mário de Andrade a pedido do então Ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema” (COUTINHO, 2010).

Segundo Aguirre e Coutinho, ampliações a partir da primeira convenção da UNESCO refletem mudanças sobre a concepção e definição de patrimônio, como em 2003, com a Convenção Internacional para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, que criou um instrumento de proteção às “tradições e expressões orais, incluindo o idioma como vetor do patrimônio cultural imaterial, as artes do espetáculo, usos sociais, rituais e atos festivos, conhecimentos e usos relacionados com a natureza e o universo e técnicas artesanais tradicionais”, segundo dados do site oficial da UNESCO21. Para Aguirre, apesar de essa concepção de patrimônio ainda revelar-se apegada aos critérios citados anteriormente, ela representa mudanças sobre os limites daquilo que é considerado patrimônio, como decorrência das transformações sociais que estamos vivendo na atualidade:

[...] os critérios para descrever os limites do patrimônio não são algo permanente e universal. Mudam de um país a outro e de uma comunidade a outra, inclusive, dentro de uma mesma comunidade vão mudando ao longo da história. Os debates sobre o que deve ou não deve ser considerado patrimônio cultural estão na ordem do dia e são especialmente intensos em momentos de forte convulsão ou transformação social, como os que estamos vivendo na atualidade. (AGUIRRE, 2008, tradução da autora)22 Os bens patrimoniais no MCSP – exceto o Monumento do Ipiranga e o Museu do Theatro Municipal – sofreram transformações estruturais e estéticas em decorrência de diferentes funções e moradores que abrigaram ao longo de suas etapas históricas, favorecendo mesclas e sobreposições de estilos e referências arquitetônicas. As diferentes concepções de patrimônio e processos de restauro suprimiram ou conservaram tais referências arquitetônicas ao longo do século XX, ecoando e reforçando tendências sobre

21 Site da UNESCO: http://www.unesco.org/culture/ich/index.php?pg=00006, acesso em 18.11.2011 22

“los critérios para describir los limites del patrimônio no son algo permanente y universal. Cambian de um país a outro y de una comunidad a otra; incluso, dentro de uma misma comunidad van cambiando a lo largo de la historia. Los debates sobre lo que debe o no debe ser considerado patrimonio cultural están a la orden del ddia y son especialmente intensos em momentos de fuerte convulsión o transformación social, como los que vivimos em La actualidad”.

determinados valores, fossem eles estéticos, técnicos, históricos, artísticos e afetivos ou socioeconômicos e turísticos.

Configurando-se como museus, as casas também sofreram adequações em suas estruturas internas e externas para acolhimento de exposições e visitantes, tal como a incorporação de anexos para as consideradas “áreas molhadas” como copa e banheiro em algumas unidades. Contudo, o cenário que à primeira vista nos parecia tão belo, imponente e preservado, concebido, portanto, como bem patrimonial, foi revelando precariedades em sua manutenção, percebidas por nós em função de nossa convivência diária com esses espaços, desde a implantação do projeto em 2008. Goteiras, lâmpadas queimadas, equipamentos inoperantes, sanitários sem funcionar marcaram nossas rotinas com preocupações e frustrações pelas longas esperas de respostas ou resoluções de problemas práticos as quais, muitas vezes, não ocorreram.

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Entre os educadores e a supervisão tornar-se-ia perceptível uma tensão latente entre a necessidade e interesse de acolher o público nesses espaços e o desconforto e perplexidade diante de tal precariedade, como é possível perceber nos trechos de dois relatos23 da educadora TCG um sobre suas primeiras impressões da Casa Modernista, na época de sua inauguração, em agosto de 2008, e o outro, escrito posteriormente como

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Todos os relatos e resenhas citados no segundo capítulo foram registrados durante a realização do Projeto de Educação Patrimonial no MCSP, no período de maio de 2008 a agosto de 2010.

ultimo relato antes de sua saída do projeto, em março de 2010, cujos trechos compartilho nesta pesquisa:

A casa reabriu, no dia 30 de agosto de 2008, sem grande alvoroço. Não houve nenhum “cocktail” de abertura nem cerimônia oficial. Ela simplesmente abriu suas portas para quem se interessasse a entrar. Este fato, ao que me parece, é o que vem orientando a dinâmica de visitação da casa nesses primeiros dias desde a sua abertura. Grande parte das pessoas que entram estava de passagem em frente ao parque e, vendo os portões abertos e o informativo de reabertura da casa à entrada, se arriscaram a visitar. E a reação de todos é muito semelhante: encantamento! Os visitantes se entusiasmaram com os espaços amplos, com a iluminação farta dos ambientes, com as soluções arquitetônicas. Além da localização da casa, é claro, cercada pelas árvores do parque, com a trilha sonora constante dos pássaros.

Muitos dos visitantes são moradores do bairro, funcionários do hospital Santa Cruz ou pacientes e acompanhantes. Aqueles que conheceram a casa em estado de abandono, antes do restauro, são os que mais louvam a iniciativa de reabri-la, agora tão bem cuidada. [...] (Arquivo da autora). Hoje é meu último dia de trabalho como educadora na Casa Modernista. Daqui 30 minutos deixarei de sê-lo. O texto acima escrevi há mais de um ano e meio e, relendo-o, é possível fazer uma análise do que ocorreu com a casa desde então. Hoje ela é muito mais visitada do que quando abriu, mas seu movimento ainda é muito por conta dos passantes, a divulgação, apesar de acontecer vez ou outra em algum veículo de mídia, ainda é pouca.

Todo o cuidado que a casa recebeu naqueles primeiros dias parece ter sido só uma maquiagem para seu evento de abertura “oficial”, junto com a inauguração da exposição “Ambientes Modernos”, em outubro de 2008. Hoje, quando há alguma coisa a ser reparada, levam-se meses até aparecer algum responsável [...]. A exposição, aliás, permanece sendo a mesma.[...] (Arquivo da autora).

A Casa Modernista apresenta desde a sua reabertura a exposição Ambientes

Modernos: A Casa da Rua Santa Cruz, De Gregori Warchavchik..., que procura situar a

história da própria casa em relação a seu arquiteto e morador, Gregori Warchavchik, e à arquitetura moderna, com seus valores sobre a racionalidade, a funcionalidade e o conforto. Localizada no Parque Modernista, a área verde que circunda a casa possui traços de seu projeto de paisagismo original projetado pela esposa do arquiteto, Mina Klabin. Assim como essa, as exposições mais recentes do MCSP – a maioria de longa duração – abordam temas relacionados às áreas de história, cultura, arte e arquitetura sob a perspectiva ou tentativa de estabelecer diálogos com a história de São Paulo e as histórias de cada unidade do MCSP.

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Podemos compreender esses diálogos entre os espaços, ou seja, o patrimônio e as exposições, como uma tendência à preservação e à divulgação dos vínculos existentes entre patrimônio e cultura, reforçando aspectos que representariam e singularizariam certa identidade ou personalidade cultural. Segundo Imanol Aguirre (2008), em ambos conceitos, patrimônio e cultura, reside a ideia de acervo, compreendido como um grande conjunto de objetos, acontecimentos, crenças e pensamentos de um determinado grupo humano, acumulados por tradição e herança. Patrimônio, para o autor, seria “uma espécie de grande inventário cujo conteúdo da conta da personalidade da comunidade com a qual se identifica, quer dizer, de sua cultura”24 (2008, tradução minha). Compreendida como uma visão essencialista e estática, essa visão de cultura não seria suficiente para incorporar novos elementos e significados, movimento que seria favorecido pela compreensão de cultura como um espaço dinâmico de constantes trocas, transfusões e mestiçagens. Tomando como referência o antropólogo C. Geertz, para Aguirre a cultura deveria ser vista não como um conjunto de produtos, mas como uma rede de significados e um sistema dinâmico de permanentes transformações por meio das quais poderiam ser articulados o velho e o novo, ou aquilo que é contraditório, heterogêneo e distinto. Nos exemplos a seguir, percebemos como essas concepções permeiam as exposições e os processos de mediação dos educadores.

24

“una especie de gran inventario cuyo contenido da cuenta de la personalidad de la comunidad com la que se identifica, es decir, de su cultura”



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As exposições São Paulo Metrópole do Café e Guerra dos Emboabas - 300 anos

Depois, que ocorreram entre 2008 e 2010 na Casa do Bandeirante e Fazeres e Sabores da

Cozinha Paulista25na Casa do Tatuapé em 2008 e que em 2007 já havia sido exposta na

Casa do Bandeirante, traçaram aspectos em torno dos processos culturais, históricos e socioeconômicos geralmente situados nos contextos de uma sociedade colonial e escravocrata dos séculos XVII e XVIII, época da construção destas casas rurais. As relações entre essas exposições com a história, ou melhor, as histórias de cada uma dessas casas configuraram-se em conversas muitas vezes desafiadoras, pois situadas em contextos próximos ou distantes, harmoniosos ou contraditórios, a partir dos quais os educadores teceram suas conversas com o público, como mostram os relatos abaixo, do educador MPG, sobre a Casa do Tatuapé, e os de DCRD e ALG, a respeito da Casa do Bandeirante, sobre alguns dos temas abordados durante as visitas mediadas:

Construída no século XVII, a Casa do Tatuapé foi utilizada para diversos fins com o passar do tempo. Foi um importante ponto de descanso e hospedagem para aqueles que viajavam para a então Vila de São Paulo, foi sede de engenho, olaria no século XIX e moradia de muitas famílias antes de se tornar um espaço museológico. As transformações históricas visíveis nas mudanças das funções do espaço da Casa e as diferentes relações que as pessoas mantiveram com o lugar oportunizam uma conversa sobre o desenvolvimento da cidade e as transformações na paisagem urbana