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Sayyid Qutb (1906-1966) foi um discípulo egípcio de Mawdudi que estudou literatura e trabalhou na inspecção do Ministerio da Educação do Egipto até 1948, ano em que emigrou para o Texas (EUA), onde viveu durante cerca de três anos e interiorizou uma experiência muito negativa do ―american way of life‖ que contribuiu para exacerbar a sua aversão ao mundo e ao estilo de vida ocidentais (Ibáñez e Jordán 2007, 66).

Para Qtub ―os americanos eram pouco diferentes dos animais‖, porque ―viviam de ilusões e não pensavam senão em sexo e dinheiro‖, consideravam ―o materialismo o verdadeiro deus americano‖, assim como ―a alma não tinha qualquer valor‖, o que acentuou o seu radicalismo e o transformou num apologista da ―reactivação da jihad e do recurso à violência para atingir os seus fins‖ (Meddeb 2005, 109; Wright 2006, 19-35).

Para este autor, ―todo o mundo, desde o decadente Cairo até à bárbara Nova Iorque, estava em

estado de jahiliyya‖, porquanto pelo seu prisma, o Ocidente era um ―gigantesco bordel, mergulhado

em luxúria animal, ganância e egoísmo‖ (Buruma e Margalit 2005, 120).

Nesta perspectiva, considerava que ―o grande choque mundial seria, entre a cultura do Islão, ao serviço de Allah, e a cultura de jahiliyya, ao serviço das necessidades corporais que degradam os seres humanos até ao nível dos animais‖ (Buruma e Margalit, 123), sendo Roma, o centro ou o coração da

nova jahiliyya, donde emana toda a corrupção e, por conseguinte, a ideia de que o Ocidente é inferior

ao humano, tornou Sayyid Qutb um ―sumo-sacerdote do Ocidentalismo‖ (Buruma e Margalit 2005, 124).

A consequência da experiência americana de Qutb resultou num ódio e aversão radical aos

Estados Unidos e ao American way of life, que para a grande maioria dos cidadãos ocidentais, e não

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de melhor: a liberdade, o cosmopolitismo, o pluralismo sem um centro religioso único, a liberdade das mulheres e o individualismo‖ (Raposo, s/d).

Qutb descreveu a civilização ocidental como ―uma forma de barbarismo idólatra‖88 e ―uma

contribuição original para a história do Ocidentalismo‖ (Buruma e Margalit 2005, 106).

Em 1953 um grupo de oposição derrubou o rei Farouk do Egipto, e Qutb incentivado pela esperança do novo governo instaurar um regime baseado no Islão, decidiu aderir à Irmandade Muçulmana (Ibáñez e Jordán 2007, 66).

No ano seguinte, a Irmandade Muçulmana tentou assassinar o General Gamal Abd al-Nasser (homem forte do regime, grande defensor do laicismo e do pan-arabismo, e aliado da União Soviética), e muitos membros desta organização foram presos, incluindo Qutb que permaneceu dez anos preso e

das suas reflexões, escreveu duas obras importantes ―À Sombra do Alcorão‖ (In the Shadow of the

Quran) e ―Marcos‖ (Milestones),89 as quais resumem as bases ideológicas do salafismo jihadista

contemporâneo, assim como recuperaram a noção guerreira de jihad e a sequência argumentativa

ijtihad – hisba90 – takfir – jihad, que já havia sido aplicada por outros movimentos insurgentes islâmicos

(Ibáñez e Jordán 2007, 66-67; Wright 2007, 41).

Em congruência com os pensamentos de Ibn Taymiyya e Mawududi, Sayyid Qutb assumiu o princípio salafista de que os seres humanos não têm o direito de legislar ou produzir normas,

diferentes ou opostas às vertidas na Sharia e, a partir do conceito de hukm, cunhou o neologismo

hakamiyya (soberania), que se tornou um dos atributos divinos (Meddeb 2005, 110-111; Ibáñez e Jordán 2007, 67).

Como Mawdudi, também Qutb fez a apologia da jahiliyya que se converteu numa peça nuclear

do salafismo jihadista, afirmando que a época moderna se assemelhava à pré-islâmica devido à sua

ignorância acerca do verdadeiro Islão, ou seja, a modernidade engloba uma nova jahiliyya, resultante

da contaminação do mundo muçulmano pela cultura ocidental (Ibáñez e Jordán 2007, 64).

Para alterar a sociedade e o sistema político vigente no Egipto, Qutb não tinha muita confiança na eficácia da retórica política e da crítica, pois pensava que quem usurpava a autoridade de Deus e oprimia os homens não renunciaria ao seu poder, por muito que fosse criticado. Nesta perspectiva, defendia como única solução viável para inverter a situação, a criação de um movimento de vanguarda,

88 ―A idolatria é o pecado mais abominável, pelo que deve ser contrariada com todas as forças e sanções ao alcance dos verdadeiros crentes‖ (Buruma e Margalit 2005, 106).

89 Este livro de Qutb tanto pode ser considerado um manifesto político, que alguns designam como o Manifesto Comunista do Islão, como um grito de raiva e dor, o qual engloba várias correntes ou tendências anteriores do radicalismo islâmico e visa a sua aplicação futura, não olvidando o passado (Burke 2004, 71 e 72).

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similar ao do Profeta Maomé e dos seus Companheiros, para derrubar aquele regime, instaurar um verdadeiro Estado islâmico e libertar as pessoas da tirania (Ibáñez e Jordán 2007, 68; Wright 2007, 42).

Para que tal empresa tivesse sucesso, Qutb admitia a reactivação da jihad91 e o recurso à

violência como recursos indispensáveis para limpar todos os obstáculos que obstem ao estabelecimento de um regime islâmico forte que domine os inimigos da verdadeira religião - Cristãos,

Judeus e Muçulmanos apóstatas que não respeitam a Sharia, ressuscitando também nos seus textos,

a clássica distinção entre o Dar-al-Islam (território do Islão) e o Dar-al-Harb (território de guerra),

referindo-se às Cruzadas e ao facto de o próprio Profeta Maomé ter decido recorrer à guerra, após treze anos de pregação (Meddeb 2005, 109; Ibáñez e Jordán 2007, 68; Wright 2007, 42).

Qutb, considerado por muitos autores o principal ideólogo da Irmandade Muçulmana, defendia

um Islão ofensivo, ou seja, a prática da jihad internacional porque considerava que a mensagem do

Islão era universal, e a sua revelação foi para o benefício de toda a humanidade e, consequentemente, a expansão não devia ter limites, aconselhando todos os Muçulmanos a esquecerem as suas diferenças e voltarem a caminhar juntos no caminho de Allah (Ibáñez e Jordán 2007, 69-70).

Hodiernamente as apelações de Qutb à jihad violenta tornaram-se mais clarividentes, na obra de Suhkri e de Mustafa al-Salam Abd Faraj, dois discípulos seus que tiveram uma responsabilidade substancial na formação de diversas organizações terroristas durante a década de 1970 (Ibáñez e Jordán 2007, 69-70).