3. Materials and methods
3.2 Transfection and single-cell sorting
3.2.2 Fluorescence-activated cell sorting
Outra narrativa cujo espaço social é africano, não em um passado remoto, tampouco no período escravagista, mas, sim, na contemporaneidade, é
As tranças de Bintou, de Diouf (2004), traduzida
no Brasil. Nesta não há alusão aos grandes feitos de lideranças negras, nem à fundação de determinadas civilizações africanas; também não é possível identificar em qual país ocorre o fato
narrado. Trata-se da história de Bintou, uma meiga menina que vive sonhando ter tranças, o que não lhe é permitido, por ser ainda criança. Mas, após um ato de heroísmo, por salvar dois jovens da aldeia de serem afogados, a protagonista tem a permissão da mãe para fazer as tranças. A avó penteia seus cabelos, faz birotes enfeitados com pássaros coloridos e ela torna-se feliz e orgulhosa com o cabelo “negro e brilhante”.
Em As tranças de Bintou o leitor percorre o imaginário da “narradora- protagonista”, se entendida à luz de Chiappini e Leite (1991, p. 43), por meio da qual não se tem “acesso ao estado mental das demais personagens”, estando-se “limitado quase que exclusivamente às suas percepções, pensamentos e sentimentos”.
Antes de percorrer os conflitos da protagonista é importante informar que em As
tranças de Bintou a ação nasce de um desejo considerado, aqui, na acepção de
Bourneuf e Oullet (1976, p. 215), não um opositor, um antagonista que a persegue. Este corresponde ao objeto desejado (prosseguindo na direção do pensamento de Bourneuf e Oullet, que se baseiam nos estudos de Souriau).
Bintou, a narradora-protagonista, é a principal desencadeadora das ações na
narrativa, sendo por meio dela que adentramos na história e conhecemos um pouco do universo africano expresso também através das ilustrações. É ela, Bintou, quem relata o rito de iniciação, o batizado do irmão, é quem expressa as maneiras de ser e viver comunitário. E as ilustrações complementam sua visão local. O ponto de vista é da criança, não integrada ao mundo adulto, muito embora tenha o carinho e afetividade no meio familiar.
Segundo Brait (1990, p. 52-53), o “ponto de vista” é um dos recursos para se “caracterizar as personagens” o que, por outro lado, evidencia o importante papel do narrador; “esta instância narrativa que vai conduzindo o leitor por um mundo que parece estar se criando à sua frente”. É o que acontece em As tranças de Bintou, sendo o “seu foco narrativo” que conduz o nosso olhar, face às suas ações, sensações e frustrações pela carência do objeto de desejo.
O título da história tende a instigar o leitor ao anunciar a temática, que girará em torno de um traço característico da protagonista, as tranças. Mas, ao se observar a capa do livro e as demais páginas, se notará que o que foi anunciado é, na realidade, o desejo da criança, logo projetado no mundo dos sonhos. Surge, daí, a primeira instigação a nos levar a percorrer o livro para localizar o que foi anunciado inicialmente.
Podemos compreender, reportando-nos a Brait (cit, p. 61), que Bintou, por meio da linguagem verbal, “conduz os traços e os atributos que a presentificam” assim como as “demais personagens”. No entanto, ela não descreve o universo interior dos demais seres com os quais se relaciona, se refere a eles em uma “visão de fora” e, assim, desvela a impressão dos mesmos, embora dizendo de si, dos anseios, sonhos, indignações e percepções externas. Essa narradora-protagonista, logo de início, se apresenta e expressa o objeto desejado:
Meu nome é Bintou e meu sonho é ter tranças.
Meu cabelo é curto e crespo. Meu cabelo é bobo e sem graça. Tudo que tenho são quatro birotes na cabeça (p. 3)
A tristeza de Bintou é refletida através do espelho. Observemos, nessa ilustração (fig. 5), a integração com a natureza, pois ao seu lado uma ave, com o bico imerso no mar, procura alimento. A imagem de Bintou remete, de certa forma, ao “mito narcísico”, e o inverte, pois o reflexo não é admirado, ocorre o inverso, é rejeitado, e aparece um tanto desfigurado, em meio à água, cujo semblante entristecido redimensiona e intensifica o conflito interior da protagonista. As mãos sobre a cabeça dão indício de que ela está tensa, diferentemente da ave verde que, ao lado, procura alimento, tranquilamente.
A ilustração da primeira página, através da qual tomamos conhecimento do conflito de Bintou, é bastante simbólica. Por meio dela se sugerem leituras diversas, inclusive complexas, hajam vista as possíveis
simbologias da água como fonte de vitalidade e, também, associada ao espelho, o qual reflete o seu universo interior. Tratando-se da pequena narradora- protagonista, cujo reflexo aparece distorcido em meio às ondulações do mar que flui, a tensão se intensifica nas circularidades em cena.
A cena ilustrada se redimensiona no jogo contínuo entre Bintou, a ave e seu reflexo no mar (fig. 5). Então, pela via da visão, tracemos uma linha triangular. Lá está Bintou, no primeiro plano, em uma dimensão tensa, face a face, sob o reflexo da água. Ela está situada em meio ao amarelo da
página, com as mãos na cabeça, e tem uma pulseira branca de búzios sob um pulso.
Amarelo é o seu vestido, com desenhos circulares pretos e, ao centro dos desenhos três pontinhos, cujos traços podem ser associados a um desenho infantil, no qual podemos entrever a boca e os olhos, constituindo os traços de rostos disformes, ampliando a tristeza da protagonista.
Ainda no primeiro plano temos outra dimensão por meio da ave verde. E, sabemos, a cor verde no Brasil simboliza a esperança, o esplendor da natureza, a vastidão e vitalidade91. O mar, em sua dimensão simbólica, para nós, brasileiros, sugere purificação, e restituição da paz.
O bico da ave, imerso no mar, gera pequenos círculos, e estes destoam da terceira dimensão: o rosto de Bintou, posto que, da refletida face emerge um ser cabisbaixo, entristecido, cujos olhos opacos e lábios curvos têm a densidade ampliada pelas ondulações da contínua correnteza. Assim, acompanhamos o drama existencial sob a voz da pequena, também impresso nas palavras, a complementar a imagem ilustrada, a princípio pela predominância do amarelo ouro, associado à areia, repleto de pegadas, indo a todas as direções. Há, ainda, o intenso verde da ave, o azul celestial do mar e, acima, os pretos cabelos da protagonista e os curvos desenhos, além da negra tez, empalidecida no difuso reflexo sob a água do mar.
Se a imagem ilustrada amplia o conflito existencial de Bintou, a linguagem verbal a anuncia, pois o dilema existencial é colocado sob seu ponto de vista, pois crianças não podem ter tranças, só os adultos, dizem-lhe. E ela tem que se conformar com os quatro “birotes”. Ou seja, a questão crucial da protagonista, seu grande dilema, é decorrente de uma carência: “as tranças” enfeitadas correspondem ao desejo reprimido e opõe-se ao cabelo “curto e crespo”; logo “sem graça”. Bintou quer algo simples, o que os adultos têm (tranças), mas sem deixar de ser criança.
A saída para sanar a carência é a projeção no mundo dos sonhos, os quais permeiam a narrativa, descritos em três cenas. Na primeira aparece a Bintou criança, com os “birotes”, integrada à natureza, e nas duas seguintes ela é a adolescente, irradiada pela luz do sol, associada à princesa com suas belas tranças. Em todas as cenas aparecem pássaros, os quais sugerem liberdade, movimento, colorido, semelhante às tranças que Bintou tanto quer.
91 Vale salientar que estamos analisando a obra sob a nossa ótica, daí as associações no tocante à cor
Na primeira cena, semelhante às demais, prevalece a harmonia com os pássaros, os quais aparecem coloridos: verde, amarelo, vermelho, em uma tonalidade semelhante à cor da sua roupa. Ao
fundo, o azul celestial e cores fracas simbolizando as nuvens, sugerindo dimensão espacial que complementa a integração de Bintou com a natureza. Ela, embora situada em um canto da página, à esquerda, é o centro de
tudo; é para onde os pássaros e nosso olhar convergem:
Às vezes sonho que passarinhos estão fazendo ninho na minha cabeça. Seria um ótimo lugar para deixarem seus filhotes. Aí eles dormiriam sossegados e cantariam felizes.
A maioria das vezes eu sonho mesmo é com tranças (p. 5).
Entre “pássaros” e tranças Bintou expressa os sonhos. Destes, emerge a sensação de liberdade (pássaros e tranças que balançam). Os “birotes”, nesse primeiro sonho, simbolizam agasalho, tornando-se possível local para os pássaros fazerem “ninhos”, dormirem e cantarem “felizes”. Mas, “na maioria das vezes”, a pequena sonha mesmo é com “Longas tranças enfeitadas com pedras coloridas e conchinhas”.
É ainda Bintou quem nos conta do acolhimento da irmã, da admiração e afetividade entre ambas. E lá aparece a pequena protagonista às lágrimas, na ilustração, acalentada pela irmã Fatou (Fig. 7). Em seu relato, Bintou comenta sobre os traços característicos:
Minha irmã, Fatou, usa tranças, e é muito bonita. Quando ela me abraça, as miçangas das tranças roçam nas minhas bochechas. Ela me pergunta: “Bintou, por que está chorando?” Eu digo: “Eu queria ser
bonita como você”. “meninas não usam tranças. Amanhã eu faço novos birotes no seu cabelo” (p. 7).
Por meio da percepção, a narradora-protagonista descreve e destaca alguns traços da irmã que, diferente dela, “usa tranças”, o que a torna “mais bonita”. Evidencia, com isso, o desejo de ser igual à irmã. Ser mais bela aqui está associada ao fato de se ter os cabelos trançados. No entanto, isso é permitido apenas aos adultos. Afinal, “meninas não usam tranças”, explica Fatou, abraçando e consolando a irmãzinha. Esse ato afetivo
amplia ainda mais a carência, diante das “miçangas” que “roçam” sobre suas “bochechas”.
O choro incontido exprime as diferenças hierárquicas, e a irmã, sem querer, amplia ainda mais a tristeza da pequena. Então, apesar de Bintou recorrer ao choro, um método utilizado pelas crianças para sensibilizar o
adulto e atingir seus fins, a situação não se altera. Tal qual um herói tradicional, face às forças opositoras, Bintou tem conhecimento das limitações que impedem a realização dos seus sonhos. O grande impasse é a faixa etária, pois a condição de criança só lhe permite é ter “novos birotes”, e não as desejadas tranças.
Diante da insistência da protagonista, percebemos que estas estão associadas a movimento, ao colorido, às “miçangas”, objeto lúdico, sob seu
prisma. Este corresponde a uma espécie de metonímia da vaidade feminina. Tranças com miçangas tecem cor, vida e movimento, tal qual o universo infantil, contrastando com os “birotes”: fixados à cabeça, sem movimento, logo, sem vida. Bintou quer mudar a estética; daí o mesmo lamento: “Eu sempre acabo em Birotes”.
Ao nos reportarmos à valoração atribuída aos cabelos crespos e aos demais traços característicos do segmento étnico-racial negro, conforme consta dos textos poéticos nos Cadernos Negros estudados por Souza (2005), observamos que tais traços, salvo raras exceções, são preteridos na literatura em geral ou tendem a ser associados à feiúra, à ridicularização, implicando em piadas preconceituosas, de cunho racista.
Ao contrário de tais associações, em As tranças de Bintou se exprimem a ressignificação e valorização dos fenótipos negros, através da percepção da protagonista. Diante dessa asserção, podemos estabelecer um elo com outra constatação de Souza (op. cit, p. 197) que, ao analisar uma poesia da escritora Celinha, nos
Cadernos Negros, salienta que as tranças, por ela poetizada e “cantadas em outros textos, sugerem aos poetas caminhos de beleza, poesia e sedução”.
As tranças, objeto de desejo também de Bintou, não são desprovidas de beleza;
com isso sugerem a inversão de sentidos, enquanto “marcas identitárias da raiz
africana92. Em consonância com essa ideia, Gomes (2006, p. 208) reconhece que o “uso das tranças é uma técnica corporal que acompanha a história do negro desde a África”, muito embora os sentidos de tal técnica” tenham sido “alterados” ao longo do tempo. No que se refere às
[...] sociedades ocidentais contemporâneas, algumas famílias negras, ao arrumar os cabelos das crianças, sobretudo das mulheres, fazem-no na tentativa de romper com o estereótipo do negro descabelado e sujo. Outras o fazem simplesmente como uma prática cultural de cuidar do corpo (GOMES, 2006, p. 208).
Estabelecendo analogia entre essa afirmação e As tranças de Bintou, percebemos que, na narrativa, o impedimento é de ordem cultural, por haver a distinção entre os penteados apropriados para as crianças e outros para os adultos. Bintou, ao que parece, tem conhecimento disso, pois não avança em suas empreitadas de realizar o objeto de
desejo. Limita-se, apenas, a observar e pouco se manifestar explicitamente em relação a
ele. Tanto é que, no diálogo com a irmã, não ousa ir adiante e, envergonhada, tapando o rosto com as mãos, apenas diz desejar ser tão bonita quanto ela (Fig. 7). Ou seja, a força
antagonista, sobre a qual ela esbarra, é o tecido cultural hierárquico, o qual fratura seus
sonhos. E, na condição de criança, limita-se a desabafar, sonhar, observar, desejar e só se realizar no plano da imaginação.
Referindo-se ainda aos penteados cuja origem remonta à raiz africana, Gomes (2006, p. 208) complementa que “As meninas, durante a infância, são submetidas a verdadeiros rituais de manipulação do cabelo, realizados pela mãe, pela tia, pela irmã mais velha ou pelo adulto mais próximo”. É o caso de Fatou, ao tentar confortar a pequena irmã, prometendo fazer-lhe “novos birotes”, no dia seguinte.
As “tranças”, como os “birotes”, são penteados que remetem à ascendência africana, conforme os estudos antropológicos de Gomes (2006, p. 342-342). Esta afirmação se baseia nos estudos do “historiador da arte Neyt”, que se deteve sobre “a cultura dos Iuba”, na República Democrática do Congo”, e percebe a grande sofisticação dos penteados através das “esculturas”. Logo, conclui que não só estes, mas os “de outros povos africanos [...] reproduzem com maestria certos penteados”. E,
92 Raiz, aqui, tem o sentido de origem, conforme consta da pesquisa de Gomes (2006), em relação à
descendência fenótipica africana, a exemplo dos cabelos crespos e tez negra, dentre outros traços diacríticos do segmento negro.
assim, “atestam a importância simbólica deles”. Destacam-se “em forma de cruz usados pelos Iuba”, por meio dos quais se “refletia o status social de certas princesas”93.
Vale lembrar, portanto, que, logo de início, na primeira página do livro, no momento em que Bintou confidencia o conflito existencial, seu cabelo aparece dividido em forma de cruz. Mas a analogia, ali, não é dessa ordem, por não haver associação a nenhuma princesa. Tal associação, no universo de Bintou, só tem tal conotação no tocante às tranças.
Tranças simbolizam beleza e iluminação, sob o prisma de Bintou. E, na cena em que ela realiza o sonho, a vibração é descrita com bastante colorido. A cor amarela é intensificada e abrange grande parte da página, como uma extensão do reflexo do sol, que dá mais vida à cena em foco. As tranças, então, sugerem movimento, luz, ação e sensação de bem estar. Ao balançar “a cabeça”, o “sol” “segue” a jovem Bintou que, assim, brilha “como uma rainha”. Quer dizer, ter tranças significa, no mundo infantil da pequena, projetar-se e conquistar o máximo em termos do ideal de beleza.
Baseada ainda em Neyt, Gomes (2006, p. 346) comenta a diversificação em termos estéticos e simbólicos dos penteados para alguns povos africanos. Em meados do século XIX, por exemplo, no antigo Zaire, atual República Democrática do Congo, apesar dos problemas de ordem sociocultural locais, afligindo o poderio “dos uruá”, muitos viajantes estrangeiros ficavam impressionados com os “exuberantes penteados desses africanos e de suas princesas”. Ou seja, uma das nossas raízes africanas recriadas na diáspora tem a ver com a estética dos penteados, entre tantas outras recriações culturais. Gomes (cit, p. 348) salienta ainda que
Os diversos povos africanos reproduziam nos seus penteados formas encontradas no seu meio natural. Além disso, usavam elementos da natureza para compor os adornos dos penteados, tais como búzios, plantas e sementes coloridas. Também nas estampas das roupas eles reproduziam as cores presentes no seu habitat.
As tranças de Bintou, através das ilustrações, delineia diversos tipos de penteados, quando de um ato de iniciação, principalmente (um batizado), “adornos”, turbantes, além de “estampas” diversificadas nas vestes, alimentação (Fig. 11 e 12).
Uma das influências africanas no livro, além dos trajes e das indumentárias, dentre outros valores culturais, são os cabelos crespos, destacados o tempo todo pela protagonistaa, mesmo que essa não seja mais a realidade de alguns países do continente
africano, em virtude da influência dos produtos de alisamentos94. Nesse aspecto, As
tranças de Bintou destaca um padrão preterido no Brasil, daí a correlação entre a obra e
as colocações de Gomes (2006), no que se refere a tal aspecto social, recriado no Brasil como uma das formas de afirmação identitária negra, a despeito das recorrentes desvalorizações. Observemos que, na narrativa, trança é associada ao belo, à variedade, a uma herança ancestral e demarca a hierarquia pré-estabelecida, diferenciando os mais velhos dos mais novos.
Os mais velhos95, na obra, se aproximam da cosmovisão africana, conforme aludida por Siqueira (2006), já que a avó, nesse caso, simboliza sabedoria e afetividade. É ela a matriarca, detentora de conhecimento. É a quem Bintou recorre para o porquê de não poder usar tranças.
E lá se vai a pequena narradora-protagonista em seus relatos, buscar a avó, a pedido da mãe, para o batizado do irmão, que completa “oito dias”. É ela, Bintou, quem nos diz:
“E aqui está ela, com seu lindo vestido azul”.
Vovó Soukeye sabe de tudo. É o que mamãe sempre diz. Ela me explicou que os mais velhos sabem mais porque viveram mais, e por isso aprenderam mais. E, já que a vovó sabe tudo, eu lhe pergunto por que meninas não podem usar tranças (p. 11).
É importante destacar, na fala da narradora-protagonista, a associação avó = sabedoria, pois é quem “sabe tudo”. A justificativa para isso é dada pela mãe: “os mais velhos sabem mais porque viveram mais, e por isso aprenderam mais”96. Apesar de descontente com os tais “birotes”, Bintou não transgride as regras locais, não pediu à irmã, nem à avó, para fazer-lhe tranças. Ela sabe que ainda não pode tê-las, mas busca descobrir o porquê disso, o que lhe é respondido através de uma história, entre os afagos da avó, intermediados por seus relatos:
94Não estamos afirmando que o destaque aos cabelos trançados, crespos, com penteados afros seja uma
realidade dos países do continente africano. Não temos estudos sobre isso, mas Munanga (1988) evidencia em seu livro a influência dos produtos de alisamento em alguns países, implicando até na proibição de tais produtos pelos respectivos governos. Em Maputo, por exemplo, salvo as exceções, notamos a grande influência desses produtos além das perucas e fibras, utilizadas pelas mulheres. Por outro lado, as cabeleiras das crianças chamaram nossa atenção pelos diversos modelos de penteados afros; se associavam, nesse aspecto, à protagonista com suas miçangas, tranças finas, coloridas.
95 O avô, a avó, enquanto os mais velhos são, ainda, na hierarquia familiar, os guardiães de princípios
fundadores de saberes, deveres e responsabilidades a serem cumpridas. Um exemplo disso no Brasil pode ser visto através da simbologia das Yalorixás e/ou Babalorixás, guardiãs de sagrados segredos. São, portanto, as lideranças reverenciadas nas comunidades religiosas de matrizes africanas.
96 Observemos que a mãe de Bintou não toca a questão de gênero, à avó, especificamente, mas, sim, aos
“Há muito tempo, existiu uma menina chamada Coumba que só pensava no quanto era bonita”. “Todos a invejavam, e ela foi se tornando uma menina vaidosa e egoísta. Foi nessa época, e por isso, que as mães decidiram que as
crianças não usariam tranças, só birotes, porque assim elas ficariam mais interessadas em fazer amigos, brincar e aprender” (p. 11)97.
Vovó me acaricia e diz “Querida Bintou, quando for mais velha, você terá bastante tempo para a vaidade e para mostrar a todos a bela mulher que você será. Mas, agora, querida, você ainda é apenas uma criança. Poderá usar tranças no momento adequado”
Apesar dos afagos e da lição de moral da matriarca, não podemos deixar de registrar, na narrativa,
que prevalece a voz do adulto em detrimento da criança, que deve escutar, aceitar e acatar as determinações dos mais velhos, os detentores da sabedoria. Mas, embora em silêncio, reprimida em seus intentos, sem voz e sem vez, em meio ao discurso “adultocêntrico”, Bintou projeta o desejo para o único plano possível de realizá-lo: o mundo dos sonhos.
A avó, no entanto, enquanto mais velha, corresponde ao princípio africano, pois é quem acalenta, acolhe, tem o poder da palavra, do conhecimento/saber, simboliza