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4.2 Flukt fra det vonde

4.2.1 Flukt fra hjemmet

O sentido corrente da palavra comunicação é o de partilhar uma experiência portadora de um significado com alguém. A motivação para que um meio divulgue uma mensagem qualquer é a possibilidade de que o sentido caminhe e possa instrumentalizar outra pessoa que dele se utilize.

Espera-se que o receptor complete a sedutora mensagem imagética. Mas, o que se observa na figura 8 é uma impossibilidade de fechar o sentido da sedução proposto. Os olhos e os gestos desencontrados impedem o estabelecimento do vínculo.

85

Ver nota de rodapé na Introdução, página 12.

86 O estilista Jum Nakao apresentou a coleção de papel no São Paulo Fashion Week de 2004 provocando

assombro na platéia e integrantes do circuito de moda mais importante do País. Segundo Nakao, a atitude “é uma crítica a quem trabalha sem a consciência do que faz. Há muita gente que faz moda apenas por uma questão egocêntrica. O que acredito é que o artista é capaz de animar, dar alma ao objeto. Mas não vejo mesmo como uma crítica e, sim, como falar da responsabilidade de quem trabalha com moda, de escapar da fogueira das vaidades, de fugir da banalização comum nesse meio. Por isso, esse trabalho [as roupas de papel] representa a valorização da moda”. CYPRIANO Fábio. “Estilista Jum Nakao ataca a ‘fogueira das vaidades’

Figura 8: Outdoor ZOOMP: casal vestindo negro. Campanha de 2007

O que chama a atenção é que as imagens da moda nos outdoors não são fisionomias reais a encarar o transeunte. Elas tanto repõem estereótipos que o sujeito imita para se ver in quanto estampam imagens enigmáticas com rostos indiferentes. Diante de tais ofertas de estilos de vida os sujeitos podem ou não comprar.

Nesse processo de mimese a perda dos limites reais do corpo é uma realidade. As imagens dos corpos anoréxicos, como se observa na figura 9, denunciam essa condição. Na condição de suportes são alheios ao que suportam.

Um ‘belo corpo’, submetido a regras canônicas de êxito plástico, mas um corpo deformado, com vista a conseguir uma certa generalidade formal, isto, segue-se que o corpo da cover-girl não é o corpo de ninguém, é uma forma pura, que não suporta qualquer atributo (não se pode dizer que ele é isto ou aquilo) e, por meio de uma espécie de tautologia, ele reenvia para o próprio vestuário; o vestuário não tem a tarefa de significar um corpo redondo, alto

fashion”. Folha de São Paulo, São Paulo, 24 jun. 2004. Ilustrada. Disponível em: www.folha.com.br. Acesso em: 05.out. 2007.

ou baixo, mas, através desse corpo absoluto, encarrega-se de significar na sua generalidade87.

Esse corpo não vestido não significa porque seu suporte é um corpo absoluto.

Figura 9: Outdoor: anorexia

Campanha de Oliviero Toscani, fotógrafo, publicitário.

Matéria de Laura Lucchini, do jornal El País reproduzido pela F. de São Paulo

A campanha publicitária da marca italiana No-l-ita mostra uma ‘modelo’ esquelética e nua em enormes outdoors distribuídos por cidades como Paris e Milão. Essa imagem dramática era acompanhada de uma mensagem: Não à anorexia No-l- ita. O corpo magro, neutro, da ‘modelo’ não está ali para seduzir e sim para suportar imagens. O outdoor analisado permite uma reflexão: não é a ‘modelo’ no outdoor quem vai animar a roupa, mas o corpo real do observador. Este, ao tentar atender ao corpo aceito pela mídia, se vê nessas imagens A hipertrofia do olhar pelas novas mídias reduz a referencialidade do corpo concreto.

A mediação mimética tanto permite que vínculos se estabeleçam como é também objeto de estratégias de poder. O padrão de beleza quando se torna uma imposição exerce pressão sobre a sociedade. A mimese social instala o indivíduo na

tranqüilidade do genérico, do igual. Todos querem se magros. O desafio é progredir desse ambiente reprodutor de imagens para um movimento criativo que ative, no indivíduo, as próprias imagens88.

Porém nas imagens da moda, aqui chamadas de looks, o minimalismo dos gestos no rosto frio e distante, quase paralizado, da ‘modelo’ apresenta a roupa. Esse corpo-imagem é um “parecer pré-fabricado”89. O look, o corpo vestido, revela o poder mimético da estética industrial. Há uma sintonia entre a definição de GARCIA (2005) entre esses looks e o olhar fotográfico. Para BARTHES (1984), uma fotografia pode ser objeto de três práticas: o fazer, o suportar e o olhar. Estas práticas estão relacionadas a três personagens do evento fotográfico: o operator, o

spectrum e o spectator. Nesta formulação explicativa da experiência fotográfica, o spectator corresponde ao sujeito da informação a compulsar “nos jornais, nos livros,

nos álbuns, nos arquivos, coleções de fotos”90. O operator é o operador do dispositivo. O sujeito-imagem é o spectrum – que tanto pode ser a modelo fotografada do outdoor como o receptor que ao olhar o look proposto sente-se olhado pelo cartaz. Nestes dois casos as atitudes se artificializam, as pessoas fazem poses, se fabricam em um outro corpo, em uma outra imagem, simulam para si próprias.

A expressão look foi empregada, inicialmente, por dois modistas ingleses no período da 2˚ Guerra Mundial: Charles Fréderic Worth (já citado nesta tese) e Lucy Sutherland. Significava o ato de vestir as atendentes do atelier de costura com roupas dispostas em uma arara no intuito de promover as vendas.

Alguns looks de moda se eternizaram: o chemisier é a blusa ou camisa mais justa ao corpo; o vestido pode ser tubinho-túnica-sué ter-jumper-capote-saco-

chemisier-sarreau-tomara-que-caia; os trajes de banho evoluíram até o bikini; há o

traje de gala, a peça clássica, a roupa clean, o sportwear; o babylook, a moda

hippie, o visual punk entre outras representações do vestuário.

Na medida em que a moda ganhou o gosto das massas, o simples ato de vestir o corpo de um manequim tornou-se um evento cognitivo mais complexo: agregaram-se a ele paisagens visuais. Os looks ou corpos vestidos são proposições

88 GEBAUER, G. e WULF, C. Mimese na cultura: agir social, rituais e jogos, produções estéticas.São Paulo:

Annablume, 2004, p. 76.

89 GARCIA, C. Moda é comunicação: experiências, memórias, vínculos. São Paulo: Anhembi-Morumbi, 2005, p.

33.

90 BARTHES, Roland. Câmera Clara: nota sobre a fotografia. Tradução de Julio Castañon Guimarães. – Rio de

temáticas dos inúmeros modos de vestir – são performances.