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3. Data and methods

4.8 Fluid flow structures .1 Description

A discussão sobre as redes como base para o capital social, realizada no capítulo 3 desta tese, será retomada aqui com a intenção de apontar as relações entre aqueles dois conceitos – rede e capital social - e o de cluster, destacando-se os mecanismos de cooperação e confiança.

Em seu trabalho seminal sobre a importância das instituições e do seu desempenho para o desenvolvimento e a construção do bem-estar social, Putnam (1996) destaca os estudos sobre o desempenho dos distritos industriais italianos. Na verdade, seu objetivo não era estudar os aglomerados de indústria, mas “contribuir para a compreensão do desempenho das instituições democráticas” (PUTNAM, 1996, p. 19) e “examinar as origens do governo eficaz” (PUTNAM, 1996, p. 30), tendo a Itália como laboratório. Ao examinar o desempenho institucional dos governos regionais italianos, ele constata resultados distintos e, com base em suas pesquisas, associa essas diferenças, sobretudo, à cultura cívica e à confiança interpessoal. Assim, “o desempenho de um governo regional está, de algum modo, estreitamente relacionado com o caráter cívico da vida social e política da região” (PUTNAM, 1996, p. 112-113).

As regiões com maior cultura cívica eram, também, as que apresentavam melhores índices de desenvolvimento econômico e social. Assim, restava uma questão de pesquisa a ser respondida, sobre a direção da causalidade entre essas

características regionais, isto é, se a “comunidade cívica não seria meramente epifenomenal e que somente o bem-estar econômico pode sustentar uma cultura de participação cívica” (PUTNAM, 1996, p. 162). Após uma profunda análise, empregando diferentes técnicas e metodologias, ele conclui que “os resultados indicam que as tradições cívicas podem influenciar fortemente o desempenho econômico e o bem-estar social, bem como o desempenho institucional” (PUTNAM, 1996, p. 167), e não o contrário. Segundo esse autor, esses resultados, conseguidos no nível ‘macro’, entre civismo e economia, se manifestam no nível ‘micro’ na Terceira Itália, especialmente nos seus distritos industriais. O senso comunitário e as formas institucionais de cooperação são partes integrantes do capital social dessas regiões e distritos industriais. As relações entre confiança e o capital social e o papel das regras de reciprocidade são destacadas e associadas ao sistema de intercâmbio social e à participação cívica (PUTNAM, 1996).

A importância da confiança na reprodução da colaboração entre os agentes econômicos dentro dos clusters deve ser enfatizada. Tal confiança é adquirida, após um período de tempo, por meio de contínuas contratações e recontratações, mediante acordos informais, dentre outros aspectos, e é exatamente a presença desse ambiente sociocultural, institucional e econômico que forma a base para a existência de externalidades, economias de escala, eficiência, economias de aglomeração, capacidade inovadora, criatividade industrial descentralizada, potencial para o desenvolvimento endógeno no nível regional e local, e especialização flexível. A cooperação justifica a aglomeração (e vice-versa), uma vez que a interação entre as firmas é facilitada pela proximidade com as outras (HARRISON, 1992).

Em sua análise do capital social, Coleman (1988) assinala que ele é definido por sua função e representa, ao mesmo tempo, várias entidades que são, na verdade, aspectos da estrutura social e formas de facilitação das ações dos indivíduos no âmbito dessa estrutura. Por ser uma forma de capital, ele também é produtivo, o que significa que sua existência permite que certos objetivos sejam alcançados, e que não os seriam na sua ausência (COLEMAN, 1988, p. S98). Ela se baseia em dois elementos: i) confiabilidade do ambiente social, isto é, há confiança entre os indivíduos, portanto, há uma aceitação mútua das obrigações e os favores

serão retribuídos e, ii) extensão das obrigações. As estruturas sociais diferem nessas duas dimensões (COLEMAN, 1988, p. S102)73.

De acordo com Glaeser, Laibson e Sacerdote (2002), as bases teóricas para a mensuração empírica dos impactos do capital social são bastante claras, mas o mesmo não acontece com a identificação dos mecanismos associados à criação do capital social. Parte da dificuldade é atribuída ao fato de que o verdadeiro proprietário do capital social não é o indivíduo, mas a comunidade, através da rede de relações existentes. Assim, os economistas têm dificuldade em criar um quadro conceitual no qual a comunidade deva ser tratada como uma unidade capaz de tomar decisões.

Do ponto de vista do desenvolvimento e da expansão dos clusters, uma questão que se coloca é a sua dependência em relação a essa forma de capital. De forma associada, surge outra pergunta: trata-se ou não de um raciocínio circular? A confiança existente em uma sociedade é um fenômeno historicamente construído (PUTNAM, 1996). Mesmo se ela for associada às instituições e regras de conduta, estas são, também, historicamente construídas (NORTH, 1993), constituindo-se em um dos componentes do capital social que por suas características de bem público pode não estar sendo produzido na quantidade adequada. Para que as pessoas se decidam pela contribuição para a construção do capital social, elas devem confiar nas possibilidades de se controlar os oportunistas, ou seja, para se construir o capital social, é necessário que ele já exista, num raciocínio circular. Assim, o capital social, para ser ampliado, dependeria da existência prévia de capital social.

Em outras palavras, se a comunidade social possui valores que permitem agir em confiança, os benefícios econômicos serão muitos. No caso dos clusters, as relações comerciais construídas sobre esses valores afastam a paralisia que seria observada se cada firma tivesse medo das ações oportunistas das demais. Sem

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Coleman (1998) especifica, ainda, duas outras formas de capital social. A segunda forma diz respeito a canais de trocas de informações (p. S104) e a terceira são as normas e sanções (sendo que uma forma especialmente importante são as normas prescritivas que incentivam as ações dos indivíduos em favor da coletividade (p. S104)). Segundo esse autor, o capital social tem algumas características que o aproximam de um bem público, indicando que ele pode não ser produzido ou ser produzido em quantidades inferiores à socialmente desejada. Essa qualidade de bem público faz com que os indivíduos capazes de desenvolver ações para aumentar o capital social deixem de fazê- lo ao perceber que outros se beneficiarão mais de suas ações do que ele próprio. Assim, muitas formas de capital social surgem e desaparecem como subprodutos de outras atividades.

isso, não há troca de informações comerciais, conhecimentos e idéias (SENGENBERGER, PYKE, 1992).

E no caso inverso? Como foi apresentado, o capital social pode ser um subproduto das ações individuais, mas ele poder ser insuficiente. Para o desenvolvimento dos clusters, trata-se de um sério problema, já que a confiança não se constrói da noite para o dia. Entretanto, ela cresce e evolui a partir do aprendizado dos indivíduos, desde que vivencie experiências positivas em suas interações e trocas sociais (SENGENBERGER, PYKE, 1992).

Esse último ponto indica que existe a possibilidade de se criar, ao menos localmente, condições de confiabilidade necessárias para algumas ações. Alguns pesquisadores, baseados nessa possibilidade, apontam que a confiança apresenta uma dimensão ‘macro’74 e outra ‘micro’, e essas dimensões devem ser estudadas a partir de diferentes abordagens (BEUGELSDIJK, 2006).

Outra diferenciação relevante foi feita por Sabel (1992) em relação à cooperação e confiança. Segundo esse autor, não se deve associar a confiança com a cooperação, pois esta resulta de uma avaliação (cálculo) contínua dos benefícios individuais, portanto, do auto-interesse – o que ele denominou modus vivendi. Assim, não se deve esperar que a confiança seja criada quando necessária, mas se pode atuar no sentido de construir um modus vivendi que permita a cooperação.

Beugelsdijk (2006) vai destacar os conceitos macro e micro de confiança e analisar as forma de sua mensuração. A base teórica das pesquisas por ele analisadas está fundamentada na conjectura de que a confiança reduz os custos de transação e promovem o crescimento; além disso, o autor menciona que outras pesquisas mostraram que a confiança tem um efeito estatisticamente significante no crescimento ou, dito de outra forma, os países com maior capital social teriam maiores possibilidades de crescimento75.

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Dentre os autores que analisam a confiança como um aspecto geral (macro) envolvendo toda uma sociedade, pode-se mencionar Fukuyama (1996) e Putnam (1996), embora de forma distinta, pois o primeiro enfatiza os aspectos culturais que afetam o capital social de uma sociedade e o segundo destaca o papel das instituições.

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Foram usadas as informações do World Values Survey (WVS, http://www.worldvaluessurvey.org/) obtidas com a questão: “De forma geral, você acha que as pessoas são confiáveis?” E as respostas assumem apenas duas possibilidades: “’a maioria das pessoas é confiável’ e ‘deve-se tomar muito cuidado’”. A confiança foi medida como a percentagem dos respondentes de cada país que marcaram a primeira opção (BEUGELSDIJK, 2006, p. 371). O autor faz críticas a essas pesquisas, tanto ao conceito de capital social quanto à forma de definição da proxy, e reconhece que essa ainda é uma área recente na economia.

Os aspectos relacionados ao nível micro de confiança são importantes para a análise dos clusters. A confiança, nesse nível, depende das relações individuais, inclusive entre firmas, e se desenvolvem a partir de interações sociais. Beugelsdijk (2006) menciona vários estudos relacionando confiança e a governança das relações entre as firmas e na organização de alianças entre empresas. Ele apresenta, também, as diferentes tipologias de confiança no nível micro, frutos de uma rica literatura sobre o tema, destacando três delas: i) confiança baseada no conhecimento (knowledge-based trust), construída a partir da repetição das interações e do desenvolvimento de normas de relacionamento, definindo-se uma reputação, o que resulta na possibilidade de se prever o comportamento do outro; ii) confiança baseada no cálculo (calculus-based trust), que se relaciona ao temor de sofrer sanções por não se fazer o que foi combinado ou acordado; e iii) confiança baseada na identificação (identification-based trust), construída com base na similaridade percebida entre os parceiros, criando-se uma identidade e empatia, ou seja, os parceiros se enxergam como iguais e não vão adotar comportamentos oportunistas entre si (BEUGELSDIJK, 2006).

Algumas das características acima mencionadas podem servir de referência para se construir mecanismos de cooperação, ou seja, uma nova compreensão do conceito de confiança pode levar a ações que promovam o desenvolvimento (SABEL, 1992)76. A noção de confiança está apoiada em dois aspectos complementares da natureza humana: i) as ações individuais de cada um podem, acidentalmente, levar a ações complementares entre diferentes indivíduos, ou seja, uma cooperação acidental que caracteriza um modus vivendi; e ii) os indivíduos podem ter preferências e motivos compatíveis, e conhecer as preferências dos demais não implica em um custo proibitivo e, conseqüentemente, podem confiar uns nos outros (SABEL, 1992), desenvolvendo uma confiança baseada na identificação, conforme mencionado acima. Isso não significa que compartilhem todas as suas crenças e que não haja disputas e “[n]essa perspectiva, a confiança, no sentido de expectativas compartilhadas, (e a crença que elas possuem continuarão a ser compartilhadas) é uma fato constitutivo da vida social” (SABEL, 1992, p. 220). Dessa forma, o autor propõe o conceito de ‘confiança

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Na verdade, Sabel (1992) menciona essa nova compreensão do papel do governo no desenvolvimento. No entanto, essa idéia pode ser aplicada às organizações presentes em um cluster.

estudada’ construída a partir do convívio e do compartilhamento dos problemas – se os envolvidos estudarem os problemas uns dos outros, eles podem descobrir novas idéias, novas práticas e possibilidades de ação coletiva (SABEL, 1992)77.

Assim, as possibilidades de se tomar ações coordenadas para o desenvolvimento dos clusters podem aumentar, tendo-se em mente que não se pretende criar confiança e o capital social, mas oferecer condições para que os mecanismos de cooperação – o modus vivendi – funcionem. Essa abordagem permite o raciocínio circular, citado anteriormente, seja rompido, aumentando-se a importância da compreensão dos mecanismos de governança, tanto na acepção mais geral, quanto naquela mais restrita.