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Principles of droplet motion

CHAPTER 3. PRINCIPLES OF DROPLET MOTION

3.3 Flow around obstacles

A característica ambígua das personagens remete a uma tragicidade presente no enredo, visto que a ação trágica se caracteriza pela ambiguidade. Para Costa e Remédios (1988: 38), o ―universo trágico pode ser concebido como uma crise cujo ponto central é a ambiguidade‖. No entendimento de Huppes (2000:112), as personagens trágicas são ―complexas, ambíguas. Elas convivem com a dúvida e a culpa, sob a iminência de uma catástrofe‖.

A ambiguidade das personagens em Dançando no Escuro se estende de uma maneira geral às personagens da trama, como, por exemplo, com a personagem Bill. Ele não se assume como vilão nem como herói, visto que oscila entre o sentimento de amizade por Selma e a intenção de lhe roubar o dinheiro, ato esse que no filme também oscila entre um ato de maldade e um de desespero, pois poderia perder sua mulher caso não o fizesse. Além disso, Bill em vários momentos do filme assume posição protetora e paternal em relação à Gene, conversando com ele, levando-o à escola e presenteando-lhe uma bicicleta.

Ainda sobre essa ambiguidade, as demais personagens da trama costumam tratar Selma de maneira generosa. Em contrapartida, em determinados momentos, tal generosidade soa como uma espécie de concessão. Um exemplo disso acontece na cena em que o chefe de Selma lhe questiona num tom de ironia o porquê de ela estar nos EUA se, de acordo com o que ele sabe, é comum os comunistas dividirem tudo, e ela ratifica que isso é uma coisa boa de seu país. O tom irônico é confirmado pelo olhar reprovador de Kathy – amiga e colega de trabalho de Selma, interpretada pela atriz Catherine Deneuve – para ele. No entanto, após Selma cometer o assassinato, seu chefe não hesita em ajudar na sua condenação, sendo um agravante, para ele, assim como para os demais, a sua condição de estrangeira. Isso é evidenciado na cena, durante o julgamento, em que o chefe de Selma expressa o que ela havia dito sobre o comunismo e percebe-se então um certo desconforto por parte do júri. Além disso, boa parte da linha de argumentação do promotor volta-se para a condição de estrangeira de Selma, que é acusada, então, de traição, de ser uma pária.

No tribunal, Selma nada comenta sobre sua doença genética e acerca da cirurgia do filho, para que assim não saibam onde se encontra o dinheiro. Além disso, Selma nada fala, em virtude de sua promessa, sobre o fato de Bill ter roubado seu dinheiro por conta de não ter mais dinheiro algum. Esses dados omitidos (que poderiam contribuir para a comutação da pena) dificultam sua condição e aceleram a sua condenação à pena de morte. Essa seria também uma forma de Selma se punir, para se redimir de seus erros, qual um Édipo que fura os próprios olhos. Já a punição implacável da justiça penal dos Estados Unidos funciona também como uma forma de redenção de uma coletividade, no caso, a comunidade em volta de Selma, que a condena à pena de morte, também pelo fato de ser estrangeira. É a lei do olho por olho dente por dente. Selma, ao matar Bill, é julgada na mesma moeda pela comunidade e pelo sistema penal dos EUA. Essa repetição da violência é um dos traços que marcam a ação trágica, como defende Costa e Remédios.

Quando uma violência recai sobre um indivíduo que tem certo vínculo social com a comunidade e, por isso, é não-sacrificável, acontecem as represálias dos outros, que se vêem no dever de vingar o seu próximo. São as represálias, as repetições de uma ação violenta, que caracterizam a ação trágica. (COSTA; REMÉDIOS, 1988:39)

Selma, sendo uma estrangeira, isto é, sem vínculo social com a comunidade, provoca a ―represália‖ da justiça penal estadunidense após matar Bill. Tal sacrifício remete, segundo Costa e Remédios (1988:50), a uma sacralização do herói trágico, visto que, ―ao destruir a vítima, ao mesmo tempo a sacraliza, transformando-a, de vítima sacrificável pelo erro cometido, em modelo exemplar, redentora de uma culpa coletiva agora mais controlável graças a seu trágico exemplo‖. É evidenciada aqui a relação entre a ação trágica e sua reverberação na esfera coletiva, no caso do filme, a ressonância e o impacto que a ação de Selma provocará na pequena comunidade, que não possui nome, o que enfatiza o caráter de universalidade pertinente ao trágico. Como assinala Sterzi (2004: 105), a ―morte do sujeito trágico afirma e confirma, com a veemência do sacrifício, a saúde da pólis, a afortunada concatenação das diferentes ordens que constituem aquela sociedade‖.

A morte de Selma pode ser considerada, portanto, sacrificial, que redime a culpa coletiva da comunidade, além de servir como exemplo para que os demais em sua condição não façam o mesmo, remetendo-nos à esfera do trágico. Quando a câmera se eleva, após as cortinas do ―espetáculo‖ serem fechadas, é como se a morte de Selma (assim como a de Bess,

com seus sinos dobrando nos céus) fosse também sacralizada. Mas o consolo de Selma não é metafísico, não vem dos céus como o de Bess. A compensação à tragicidade da trajetória de Selma vem na forma do êxito da cirurgia de seu filho Gene. Após saber que a cirurgia foi bem- sucedida, canta que essa ―não é a última canção‖, seu filho conseguirá fazer a cama e embrulhar o pão sozinho, e poderá ver os netos. É uma redenção mais sutil. Isso, ao nosso ver, não prejudica o caráter trágico da obra como um todo, embora vá de encontro ao que estudiosos do trágico (como Steiner) defendem: que o trágico não deve abrir espaço para qualquer natureza de redenção. Já Nietzsche, como vimos, defende a existência da redenção (inclusive sob a forma de consolo metafísico) como características do trágico.

No entanto, não é a morte de Selma ou seu sacrifício ao final que definem o trágico no filme, pois, para Szondi, como já vimos, o trágico não se resume somente ao aniquilamento, mas ao fato de o herói sucumbir justamente no caminho tomado para fugir da ruína; no caso de Selma, o fato de ela ter emigrado para os Estados Unidos na esperança da boa-aventurança e lá encontrar sua ruína.