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Flesberg-dommen

In document Aksjens virkelige verdi (sider 31-44)

4.1 Forarbeider

4.2.2.3 Flesberg-dommen

A primeira constatação a emitir e interpretar é a distribuição equilibrada dos personagens ligados à esfera militar, política, económica e cultural no livro A. A memória nacional assim forjada através deste manual tem, por conseguinte, uma dimensão não só política, mas também cultural81. Trata-se de uma tentativa de construção da memória, sobretudo pelas acções das diferentes personalidades, mesmo as que nunca haviam pertencido ao aparelho do Estado Russo e ao seu regime82, e actividades da elite cultural. A ambição dos autores era mostrar o potencial dos indivíduos e grupos dos diferentes domínios e áreas de actividade que participaram na construção da Nação desde os tempos mais remotos, e que foram especialmente importantes.

81De acordo com a metodologia marxista de diferenciação dos fenómenos de base e os de superstrutura, a

literatura soviética de ensino, ao revelar um período particular da história, começava tipicamente com uma descrição das condições económicas. Depois, seguia-se a explanação das relações sociais, para logo evidenciar as políticas do Estado, primeiro internas, depois externas, e terminava com uma secção de história da cultura (Bagdassarian, 2009).

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Por contraste, quando se caracteriza o estado da decadência a que tinha chegado a Rússia Imperial, não se poupam adjectivos – as imagens, testemunhos e a visão pessimista parecem conduzir a um beco sem saída.

139 Especialmente revelador é o próprio título escolhido pelos autores para o livro A, apesar de este último abranger somente o século XIX: “História da URSS”. A mensagem transmitida por este anacronismo (sempre de acordo com a ideologia do materialismo histórico: os autores afirmam-se convictos do determinismo dos processos históricos) pretende fortificar a ideia duradoura do que a formação da URSS não teria sido um acidente, mas sim um nexo de causalidade, resultado da cooperação contínua das gerações de personalidades notáveis e da elite cultural nacional na luta pelo progresso e pela justiça.

Três grandes temas são desenvolvidos no manual A:

 O povo da Rússia, graças ao seu trabalho e à sua luta heróica contra vários inimigos, criou um Estado poderoso, desbravando os territórios desocupados;  A Rússia estava atrasada em relação aos outros países e o travão principal

sempre foi o regime político-económico e os seus atributos, nomeadamente a servidão;

 A Revolução Francesa e suas ideias despertaram a sociedade russa que, passados 60 anos, graças à luta dos revolucionários e ao seu grande povo (e apesar das vítimas), conseguiu abolir a servidão e deu um passo grande para a libertação do povo russo.

Apesar de o Livro A ser dedicado ao Império Russo no século XIX, faz várias referências aos Estados dos outros povos, que tinham existido desde tempos imemoriais “no território da União Soviética”, provavelmente com a intenção de possibilitar que o curso da história começasse desde um período muito mais antigo; sem, no entanto, deixar de ser a História da Rússia. Assim, o conceito de território comum, no contexto de livro A, constitui uma das bases de identificação nacional. As pessoas comuns que habitavam nesse território apresentam-se como principais portadores do sentimento nacional e patriótico, em oposição às classes dominantes que tendiam para a traição nacional.

Os povos não-russos que foram integrados no Império Russo são geralmente retratados como tendo beneficiado claramente em se juntarem à Rússia. As principais vantagens da adesão ao império são: a familiaridade com a uma cultura superior, a libertação de outras dependências mais graves, a restrição de “arbitrariedade” das elites

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locais, a cessação de guerras civis. Neste contexto, a ideia de o Império Russo ser uma “prisão dos povos”83 parece não ser mais do que um mito histórico.

A adesão do Cáucaso à Rússia foi um acontecimento importante e progressivo para os povos do Cáucaso (A, p. 59).

Mas quando se trata da avaliação do capitalismo russo do ponto de vista marxista, o império volta a aparecer como “prisão dos povos”, e condena-se sem reservas o colonialismo.

Nos territórios aderentes a autocracia instalou um regime colonial (A, p. 59)

Os povos coloniais não se “familiarizaram com a cultura superior”, antes surgem como submetidos à opressão e a exploração:

O povo russo é visto neste manual como uma personagem colectiva, portadora de grandes virtudes e qualidades. Tais qualidades apenas estavam adormecidas, devido aos factores desfavoráveis (regime czarista, ausência da ideia que podia unir e levantar o povo para a luta, assim como falta de organização e de líderes competentes); mas bastou que as circunstâncias se tornassem favoráveis para as qualidades e capacidades do povo se revelarem em toda a sua plenitude:

O povo russo, que salvou outros povos da escravidão (libertou a Europa de Napoleão) não podia permanecer, ele próprio, oprimido (A, p. 30);

Napoleão invadiu a Rússia, foi então que o povo russo sentiu pela primeira vez a sua força, que despertou em todos os corações um sentimento de independência, em primeiro lugar político e mais tarde popular. É aqui o começo da Rússia livre. (Idem, p. 33);

Para fazer uma revolução, o povo russo ainda não tinha força (A, p. 34).

A par de temas como a guerra napoleónica, o atraso do Império relativamente às nações ocidentais, o problema das revoltas e rebeliões dos povos do Império Russo em diferentes regiões do país, as lutas nacionais contra invasores e as lutas das minorias étnicas pela independência, o aparecimento de uma personalidade do tipo novo84

83 Uma frase de Astolphe de Custine do livro La Russie en 1839, erradamente atribuída a Lenine, por este

a ter usado no “Discurso sobre Questão Nacional”, em 1917. Dicionário de locuções, consultado em 25 de Maio de 2011, http://bibliotekar.ru/encSlov/18/109.htm.

84 Esta ideia, promovida no manual A, encontra a sua corroboração no trabalho do historiador marxista

Hobsbawm no seu livro Era das Revoluções: “[…] nos últimos anos das Guerras Napoleónicas começaram a surgir gerações de jovens para quem só a grande chama libertadora da revolução se projectava pelos anos fora, enquanto desapareciam da vista as cinzas dos seus excessos e da corrupção; e após o exílio de Napoleão, até esta personagem pouco atraente se tornou uma Fénix semimística e um libertador. À medida que a Europa se afundava, ano após ano, nos domínios incaracterísticos da acção/reacção, da censura e da mediocridade, e nos pântanos pestilentos da miséria, da infelicidade e da

141 constituiu um dos temas chave deste manual – os lutadores contra o regime – e configura uma das componentes da proposta identitária dos seus autores.

Podemos distinguir vários grupos dentro desta categoria. O primeiro grupo é o dos indivíduos que, pela sua origem e educação, podem ser definidos como “elite” do Império Russo mas não como líderes/revolucionários, uma vez que “[…] as doutrinas e crenças que dão um fundamento moral ao poder dos dirigentes[…]” (Mosca, Bouthoul, s.d., p. 7) e que moviam estas personalidades estavam longe das doutrinas marxistas, verdadeiramente revolucionárias. Eram portadores de qualidades morais e intelectuais elevadas, aristocratas com alto estatuto socioeconómico, contudo não eram dirigentes. Correspondiam mais ao conceito de “contra-elite” de Pareto (1987), por possuírem as qualidades típicas da elite, mas não terem acesso à liderança por causa de seu status social e de uma certa impotência e rebeldia perante o poder.

No manual A são representados pelos “Decabristas”, movimento de um grupo de aristocratas que se levantou pela libertação face ao poder absoluto (um objectivo nobre, portanto) e acabou por ser destruído pelo mesmo. A parte do livro dedicada aos “Decabristas” tende a mostrar que estes personagens históricos eram tributários de um realismo ingénuo, incapazes de fazer uma análise profunda da realidade czarista da época e consequentemente levar a cabo uma acção contra a mesma. Assim, ao sublinhar as características destas personagens, faz-se a projecção das concepções e dos valores comunistas que serviram para a interpretação dos seus contributos.

O paradigma interpretativo que foi aplicado na construção da imagem dos Decabristas no livro A, concentra-se em três pontos principais: a sua intenção revolucionária limitada, que visava tão-só a limitação do poder absoluto; a sua não- relação com povo:

[…] tinham medo de atrair o povo (A, p. 41); […] tiveram medo de se apoiar no povo (A, p. 43);

[…] estavam longe do povo, assim, o seu revolucionarismo era limitado (A, p. 43); e, finalmente, o seu patriotismo.

Interessa-nos considerar esta última questão. Todos os cursos de história nacional são tradicionalmente vistos como um dos principais pilares da educação

opressão, a imagem da revolução libertadora tornava-se cada vez mais luminosa” (Hobsbawm, 1992, p. 303). Esta correspondência das ideias leva acreditar que os autores do livro didáctico soviético trabalhavam usando a abordagem aceite internacionalmente no mundo intelectual marxista na época.

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patriótica. No entanto, o conteúdo semântico do conceito de patriotismo nos últimos dois séculos mudou frequentemente. Em tempos, patriotismo significava principalmente a cidadania, ou seja, um sentimento de responsabilidade pessoal pelo destino do seu povo. Não admira que na Rússia do século XIX a palavra tenha soado como um desafio para o poder autocrático, o que fez com que o Czar Pavel I tenha proibido o seu uso (Jukovskaia, 2003). Sob a influência do nacionalismo crescente, o significado do conceito sofreu várias transformações, não raro tendo significados divergentes, e provocando debates teóricos. Mas, como sublinhou Matos (1988) os manuais de História não discutem a questão, antes a resolvem de uma ou outra forma, atribuindo esta característica (ou a sua antítese) aos protagonistas e às personagens da narrativa histórica. Por isso acha-se pertinente neste trabalho procurar nos manuais em análise, as respostas às seguintes questões:

 Quais são as principais características do patriotismo das personagens que deveriam formar a base da identidade nacional? De que valores este é constituído?

 Como estes últimos variam nos manuais em análise?

No que diz respeito ao primeiro tipo de personagens que pertenciam a estratos mais nobres da sociedade russa, sem ligação nenhuma com a burguesia emergente e por isso fraca, o seu patriotismo não se apoiava em aspirações políticas e económicas, mas sim culturais, de pessoas que reconheciam o atraso da Rússia em relação ao modelo ocidental. Atraso este que feria o seu orgulho pela Pátria Russa e fazia rejeitar o modelo alheio com a sua abordagem liberal e racional. É esta situação que, na opinião de Kohn (1994), fez nascer o complexo de inferioridade nas classes mais instruídas da Rússia e reflexões sobre a “alma” e a “missão” da nação, que estão na origem do patriotismo do século XIX. Greenfeld, ao desenvolver esta ideia, acrescentou que não só o atraso geral do país, mas também a ausência de instituições populares do tipo europeu, fizeram nascer na Rússia um tipo de patriotismo que só dava a conhecer todo o seu potencial quando existia uma ameaça à segurança nacional, a mobilização total contra um perigo exterior (Greenfeld, 1998).

O segundo tipo de personagens do livro A é constituído por indivíduos que tornaram a luta contra o regime a razão de ser da sua vida, mas que devido à sua origem

143 e educação pertenciam às camadas mais baixas da sociedade russa (camponeses85) e apesar de alguns deles possuírem características de líderes (o que, na terminologia marxista do livro, significa “estar com o povo e guiá-lo”) não tinham outras qualidades (educação, conhecimento, capacidade dirigente) nem objectivos políticos (os seus objectivos não iam para além da revolta) que lhes permitissem levar a cabo os movimentos populares que iniciavam:

Todas as manifestações dos camponeses, como regra, eram suprimidas de forma relativamente fácil pelo governo. Isto explica-se pelo facto de as manifestações terem carácter desorganizado, espontâneo e fragmentado. Os camponeses odiavam os proprietários da terra e os funcionários do Estado, mas acreditavam no “Czar-Pai”,

convencidos que este não tinha ideia das desgraças do povo (Livro A, p. 63).

A partir da guerra com Napoleão86 assistira-se à emergência de uma visão diferente do povo russo, definido como um indivíduo colectivo, formado por elementos étnicos primordiais, tais como o sangue e a terra, caracterizado por uma alma enigmática e uma busca de justiça ideal (Greenfeld, 1998). A sua visão patriótica baseava-se em valores morais, supostamente conservados nas bases comunitárias da sociedade agrária russa, expressão máxima, segundo se acreditava, da mentalidade popular russa:

Desde os tempos antigos, a obtschina permaneceu na aldeia russa. Isto significa que os prados, as florestas e outras terras eram propriedade colectiva (da obtschina) de toda a aldeia. As terras aráveis também eram propriedade da comunidade [...] os camponeses estavam agarrados à terra [...] tinham responsabilidade mútua […] era tudo que tinham e que defendiam, quando era preciso (A, p. 142).

85A Rússia, de acordo com o seu 1º censo, realizado em 1897, contava com 129 milhões de habitantes,

dos quais 87% viviam no campo e 81,5% eram agricultores (Broué, 1973). Este cálculo certamente contava com a Finlândia e Polónia que na época faziam parte do Império Russo.

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De certa forma, graças ao livro de Tolstoi Guerra e Paz, contendo inúmeras imagens e exemplos do heroísmo do povo e do guerreiro-salvador que em prol do bem comum manifesta comportamentos extraordinários, superiores aos normais, muitas vezes sacrificando a sua vida. A escola histórica soviética e os manuais de história tinham uma relação ambivalente com Tolstoi e sua obra-prima Guerra e Paz. Tolstoi era um escritor de grande popularidade e, do ponto de vista cultural e informativo, a sua obra era uma poderosa e significativa fonte de conhecimento de factos e acontecimentos históricos da época mais gloriosa da Rússia (Imperial) – a guerra com Napoleão – com uma abordagem que destaca o patriotismo do povo russo, desde um simples servo até aos aristocratas e à realeza, que não podia ser ignorada (Rodden, Reat, s.d.). Mas os inesquecíveis protagonistas do romance criados por Tolstoi eram aristocratas, aliás como ele próprio. Este seu estatuto, ideologicamente incompatível, representava um grande problema para a educação soviética. O compromisso foi encontrado e os livros didácticos de história começaram a dar uma imagem parcial da obra e citar Tolstoi cada vez que era preciso salientar o papel do povo (narod) no contexto dos arrebatadores acontecimentos históricos, reposicionando assim

Guerra e Paz como um romance pré-socialista (Shneidman, 1973). Dentro dessa perspectiva a tarefa dos autores do manual A, assim, tornou-se num desafio virtuoso de evocação do passado; eles tiveram que escrever o manual de forma que Tolstoi aparecesse como se fosse de facto um herói dos camponeses, que quase tinha antecipado os acontecimentos de 1917, na época em que escreveu a Guerra e Paz: “A vara da Guerra Popular levantou-se com todo o seu poder ameaçador e majestoso….” (Tolstoi, citado no Manual A, p. 26).

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Assim, além das características compartilhadas – a língua, o território, a história e a religião, objectos de orgulho patriótico – e consideradas como base para a identidade nacional, a imagem destes personagens estimula a crença de que a singularidade do povo deve ser procurada não nas suas realizações, mas na sua essência. Por esta razão enfatizam as particularidades internas do povo russo, como sua alma e espírito, impossíveis de serem verificadas de forma objectiva:

Somente o povo russo conseguiu resistir; eles lutavam sob o céu da Pátria e estavam na sua terra natal (A, p. 23).

O manual A também afirma o eterno patriotismo do povo, quando define, por exemplo, as qualidades de combate extremamente elevadas dos soldados russos, ou a resistência da população russa. Isto reflecte uma compreensão da nação como algo fora

do tempo, uma vez que a consciência nacional do povo aparece mais como um fenómeno natural. Muitas vezes até as derrotas militares são descritas como “quase vitórias”. E quando se trata de realizações verdadeiramente grandes, as vitórias são descritas com louvor hiperbólico:

Os soldados e oficiais russos mostravam milagres de coragem e heroísmo (A, p. 16).

Outra vertente deste patriotismo tradicional é o ódio do povo russo a tudo que era estrangeiro, responsabilizando-o pelas desgraças da sua vida:

Entre os próximos a Nikolai (czar) havia muitos senhores alemães-bálticos, funcionários extremamente dedicados ao czar, mas cruéis, que desprezavam o povo russo e lhe eram completamente estranhos (A, p. 65);

Pior ainda quando os comandantes das tropas russas eram estrangeiros. O livro considera necessário, em cada momento, salientar como “ineptos” os líderes militares com nomes não-russos:

[…] ele (ministro militar Barclay de Tolly) não estava perto dos soldados e oficiais que não o entendiam e não gostavam dele […] conhecia mal o povo russo […] não poderiam comandar as tropas numa guerra que se tornou nacional (A, p. 18).

Neste manual – e podemos antecipar que nos outros também –, o heroísmo, o sacrifício, o amor pela terra natal e o ódio aos inimigos são sempre registados pelos autores durante as guerras, por isso, a guerra é retratada pelos autores como o principal meio de “elevação” do espírito nacional do povo russo.

Pouco tempo antes da revolução, verifica-se a emergência de um terceiro tipo de personagens, que é o principal na proposta identitária dos autores dos manuais,

145 constituído por pessoas que reúnem todas as virtudes dos indivíduos dos tipos anteriores e não apresentam as suas falhas – são revolucionários marxistas que se distinguem pelas suas qualidades superiores e pelo contributo que tinham dado à libertação do povo russo, à justiça e ao progresso da humanidade:

O país tinha encontrado forças que, mesmo nas condições da reacção triunfante, conseguiram levantar-se para a luta contra a opressão e a violência (A, p. 71);

Os jovens revolucionários lançaram-se à luta pela liberdade e felicidade do seu povo. Foi uma luta heróica, desigual, de um punhado de revolucionários contra o czarismo armado até aos dentes. Esta luta despertava a admiração dos povos amantes da liberdade (A, p. 164).

É ainda possível distinguir duas ideias mestras na narrativa do livro A: a decadência (da Rússia Imperial) e o progresso (associado à revolução de inspiração marxista)87. Esta contradição constitui a base a partir da qual se constrói toda a narrativa. O progresso aqui é um percurso vitorioso, pensado, planeado e com um ponto de chegada deliberado. É um progresso conseguido com muitos sacrifícios; nunca é individual, mas sim social, mas que se deve ao trabalho árduo de agentes especiais. Às imagens dos revolucionários, marxistas ou não – o que nesse último caso significa personagens geralmente positivas, com “fundo bom”, mas “um pouco desorientadas” – associa-se a ideia do progresso da Rússia. Às imagens negativas, que se encontram personalizadas em todas as classes de proprietários, do czar até aos capitalistas, passando pelos proprietários da terra, junta-se por antítese a ideia de declínio e decadência.

Segundo Bagdassarian, a própria escolha desses factos e imagens delimita a formação na mente do aluno de uma determinada configuração interpretativa. Até mesmo a designação de relações causa-efeito, cuja identificação tradicionalmente serve como fundamento para o processo de construção do entendimento do conhecimento histórico, contém em si a prioridade de uma teoria (Bagdassarian, 2009). Assim, parece não haver dúvida de que os grandes acontecimentos que podem ser encontrados na narrativa do livro A foram prioritariamente escolhidos em função da importância que tiveram na preparação da nação e do povo russo para a revolução, portanto, para o “progresso”. A partir daqui, era uma história de vitória que se narrava.

Os revolucionários, aparecendo como as personagens-chave no Livro A, são retratados como a principal força capaz de levar as massas de trabalhadores e

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camponeses do Império Russo, e de todo o mundo também, ao progresso e à justiça, realizando essa tarefa de forma abnegada e heróica:

[…] eram sujeitos às penas mais severas: a servidão perpétua, a prisão, exílio, sob vigilância policial (A, p. 72);

[…] uma vida dura sem meios de sobrevivência, sem trabalho, sem apoios (A, p. 73); […] o ideal para eles era uma sociedade em que viviam e trabalhavam cidadãos iguais em direitos (A, p. 73).

A ideia de herói apoia-se na visão comunista que abreviadamente se transcreve: os heróis do manual eram heróis da razão e do progresso. As suas virtudes reflectiam o que tinham de mais nobre e valioso as pessoas de moral elevada. Ao mesmo tempo eram pessoas normais, iguais aos outros, sem comportamentos espartanos, sem o fatalismo ou o dramatismo dos heróis românticos88. Nada pode parar estas pessoas porque são movidas pelos ideais mais nobres que podem existir – justiça, igualdade, liberdade para todos os povos da Rússia –, porque estão armados com a teoria marxista, a única verdadeira, e porque são liderados por um partido que os conduzirá inevitavelmente a uma sociedade sem classes, a sociedade socialista (Smirnov, 1978). Desta forma, o marxismo subordinava a nação, os seus interesses e os sentimentos para com ela, aos valores mais elevados, promovidos pela doutrina, como a solidariedade de todos os povos oprimidos. Os heróis distinguiam-se dos outros homens pelas suas

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