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4. Results

4.1. Experiment B40/heptane

4.1.1. Flame heights and lengths

O rio Formoso localiza-se no noroeste do município de Buritizeiro e percorre aproximadamente 90 quilômetros de área de cerrado antes de desaguar no rio São Francisco. A comunidade Capão Celado59, localizada próxima à nascente do rio, nas margens de uma de suas veredas, é constituída por famílias que habitam a mesma área que habitaram seus antepassados quando se mudaram para a região, na primeira metade do século XX.

59 Nesta comunidade, os camponeses se identificam como lavradores, e não como veredeiros. Utilizo o

termo veredeiro devido à compreensão de seu ambiente de reprodução social. No item 4.3.1 delimito os espaços em que essas novas categorias são utilizadas como forma de afirmação política de seus direitos territoriais.

Capão Celado foi gradativamente rodeada pelas empresas agroindustriais que se instalaram nos arredores e que têm aumentado os desequilíbrios ambientais gerados pela utilização intensiva da água, do solo e de insumos artificiais. As monoculturas ameaçam a sustentabilidade da prática extrativista de coleta de frutos do cerrado para a produção de alimentos e de medicamentos e da agricultura veredeira.

As veredas são os cursos d’água seriamente atingidos por estas atividades, que se instalam em suas margens, represando-as e ou redirecionando o seu curso natural. Estas nascentes são responsáveis pela alimentação da maioria dos rios do cerrado. As águas que brotam nas chapadas formando as veredas, e os frutos que nascem das árvores neste subsistema são responsáveis por alimentarem e matarem a sede dos animais característicos do bioma cerrado. São, também, fontes de alimento para muitas espécies, uma vez que sua cobertura vegetal permanece verde durante todo o ano. As copas dos buritizais são o berçário das aves: araras azuis, maritacas, papagaios, periquitos. As águas calmas são o berçário dos peixes, o solo turfoso e o alimento das árvores são o lugar seguro onde as mães encontram abrigo para seus filhotes. Outra função ecológica da vereda é servir de refúgio nos momentos das grandes queimadas.

(...) não poderia deixar de me lembrar da mãe de minhas águas, do mais belo espetáculo cênico do mundo tropical, meu oásis, de maior beleza que o saariano. A ela confiei as mais nobres funções. Eu a dotei de espécies não encontradas em nenhum outro subsistema sob o meu comando, como o buritizeiro, a palmeira providencial do sertão, pois dela tudo se tira, tudo se faz. É a guardadora de água e de alimentos frescos para meus bichos durante as quatro estações do ano, defendendo-os também das ardências do fogo natural ou ateado que, no esconder das chuvas, flameja e crepita na macega seca de meus gerais, mas com muito respeito pelo úmido da vereda. Ela é meu santuário. (CHAGAS, 2003, p.21).

Quando as veredas têm seu equilíbrio rompido, são rompidas também as características da hidráulica, o que compromete a sua perenidade. Gradativamente, suas águas deixam de correr e o lençol freático, que anteriormente se encontrava próximo à superfície do solo, sofre um rebaixamento devido à sua impermeabilização. Durante anos, os buritizais permanecem como registro de um tempo passado, demarcando o lugar onde anteriormente corria a vereda - muitas vezes sendo

engolidos pelos areais que se formam ao seu redor - como se estivessem acusando aqueles que passam as suas dores pela perda do seu espelho.

Os moradores que permanecem em Capão Celado convivem com as práticas predatórias de desmatamento nas áreas de preservação para a monocultura mecanizada de soja e café e de implantação das silviculturas de eucaliptos.

Anterior às transformações ocorridas, as práticas de mutirão, as festas de reis, as relações de vizinhança asseguravam a representação social desta população. As centenas de veredas existentes nos arredores do rio possibilitavam o cultivo em extensas áreas e o rodízio da terra para produção, fornecendo-lhes o auto-sustento alimentar nos territórios coletivos, complementado pela pesca e a venda do excedente produzido.

Senhor Messias, morador de Capão Celado, relatou parte de sua história de vida: a chegada com o pai e onze irmãos e a luta que travou com a justiça para conseguir a propriedade da terra pela lei de Uso Capião. Sua família conseguiu permanecer em seu território, ao contrário da grande maioria de famílias que deixaram suas terras devido à pressão realizada pelas empresas e a polícia local para expulsá-los:

Aqui tinha umas 80 famílias que morava aqui. A Plantar, que tinha mais de 50 mil hectares de terra, chegou em 1974 e começou a pressionar as famílias para irem embora, falando que tinha a escritura, que tinha comprado a terra. Tinha outras empresas: a Pinusplan, a Bradesplan (54 mil ha, hoje é dos Petcov), Liasa, Rima. Teve uma vez que o delegado João Queiroz, a mando da Liasa, veio aqui e queimou tudo: curral, plantação e casa, para espantar a gente. Mas eu entrei na justiça e fiquei, consegui a escritura por liminar da justiça. Tive sorte, era um juiz que tinha raiva dos militares, ele foi exilado na ditadura. A Ruralminas é que tomava a terra do povo. (Sr. Messias Veloso, Capão Celado, em 04/2005).

Apesar de conseguir permanecer neste espaço, a família Veloso teve sua vida modificada pelas agroindústrias que impediram a organização pré-existente permeada por relações de solidariedade e vizinhança. Além disso, se encontrarem impedidos de continuarem pescando devido à alta taxa de agrotóxicos despejados no rio comprometendo a saúde dos peixes e periodicamente causando a sua mortandade.

Estas famílias encontram-se isoladas, cercadas pelos vazios humanos refletidos nas monótonas paisagens homogêneas das plantações que os cercam.

A expropriação do camponês e as degradações sofridas no ambiente daqueles que conseguiram permanecer têm como conseqüências a migração, a proletarização e a ascendência da categoria do trabalhador volante. As classes operárias agora também vivem no campo ou do campo, são os operários itinerantes, os operários bóias-frias, os operários da terra.

Quando as empresas começaram a se instalar nas imediações da comunidade na década de 1970, havia cerca de 80 famílias veredeiras que habitavam as cabeceiras do rio Formoso, como relata o Sr. Messias. Quase todas elas foram expulsas pelas empresas e pela polícia60, uma vez que habitavam terras que foram consideradas devolutas pelo Estado. Muitos dos antigos camponeses retornaram como trabalhadores assalariados.

60 Informação fornecida por Dona Zelu, moradora de Capão Celado, em 04/2005. Sua origem e vida

vinculam-se a esta comunidade. Ela cita, também, a atuação do DOPS, Departamento de Ordem Política e Social, dos delegados do município e dos capatazes das empresas, que utilizavam armas de fogo e ameaçavam os moradores, para que se retirassem da área que lhes fora cedida pelo governo para explorar suas atividades.

3.2.2 Barra do Pacuí: dos territórios coletivos aos cercamentos das gentes vazanteiras

Ali todo mundo era unido, se divertia, pois todo mundo era irmão era cumpade, eraalegre e feliz, tinha dificuldade tamém e os reparo de veis em quando mais depoistodos se acertava, o trabaio era coisa que todo mundo fazia, aquela lida do dia adia, era do trabaio pra casa e da casa pras rezas e de veis em quando umabrincadeirinha, e ninguém se reclamava, ali saia até casamento, intão ficava alimesmo que já era da famia61.

FOTO 03: Mulher carregando bacia na cabeça com roupas lavadas nas