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8. Discussion

8.1 Fjord morphology

A mulher brasileira se inseriu no mercado de trabalho há mais de 150 anos, no entanto foram ocupações desvalorizadas, dificultando seu avanço em lugares de poder.

Segundo dados do Recenseamento da População do Império do Brazil, em 1872 as mulheres representavam 49% e os homens 51% da força de trabalho do País. No entanto, a mão de obra feminina, que tem sua origem no trabalho escravo, transpôs o escravagismo para inserir-se no mercado de trabalho remunerado como lavadeiras, domésticas, ajudantes de costura, etc., todas, profissões de baixa renda e consideradas femininas. Em 1872, elas encontravam-se na lavoura (43,5%), nos serviços domésticos (33,23%), na costura (10,9%), como criadoras e jornaleiras (5,54%), como operárias em tecelagens (3,57%) e como comerciantes (0,26%) (FENSTERSEIFER, 2001).

A permanência da mulher nessas profissões menos valorizadas se justificava também pelo baixo nível de escolaridade. O avanço da mulher brasileira quanto à escolaridade é uma conquista recente. Durante o período colonial, as mulheres brasileiras foram simplesmente excluídas da escassa oportunidade de educação formal existente no País. Foi apenas a partir da primeira metade do século XIX que começaram a surgir as primeiras instituições destinadas, especificamente, à educação feminina, em um quadro de ensino dual, com claras especializações de gênero. Ao sexo feminino coube, em geral, a educação primária, com forte conteúdo moral e social, dirigido para o fortalecimento dos papéis de mãe e esposa. A educação secundária feminina ficava restrita, em grande medida, ao magistério, isto é, à formação de professoras para os cursos primários. As mulheres continuaram excluídas dos graus mais elevados de instrução durante o século XIX (BELTRÃO; ALVES, 2004).

Segundo Romaneli (2001), a educação superior era predominantemente masculina, ficando as mulheres excluídas dos primeiros cursos de Medicina (1808), Engenharia (1810) e Direito (1827) surgidos no País. O decreto imperial que permitiu à mulher a matrícula em curso superior data de 1881. Ressalta-se que durante o século XIX e a primeira metade do século XX a exclusão das mulheres dos cursos secundários inviabilizou a entrada delas nos cursos superiores, mantendo-as com menores taxas de alfabetização e acesso restrito dos graus mais elevados de instrução.

Apenas depois da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), promulgada em 1961, equiparando os cursos de nível médio (Normal, Clássico e Científico), que as mulheres que tinham seguido o curso Normal (até então um curso terminal) puderam concorrer nos vestibulares às carreiras de ensino superior. Na visão de Trigo (1994, p. 95):

[...] ainda que só depois dos anos 60 tenha surgido com maior expressão a figura da mulher profissional exercendo carreiras liberais ou acadêmicas, fruto de uma formação universitária, mudanças no universo das relações de gênero e no imaginário familiar com respeito ao lugar social da mulher já podem ser percebidas desde a década de 30 com a criação da USP e da faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, fato determinante para o acesso das mulheres aos estudos superiores.

Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou o início da “Década da Mulher”, provocando o aparecimento de muitos grupos organizados. No Brasil, a partir de 1975 começaram a surgir os primeiros grupos feministas comprometidos com a luta pela igualdade das mulheres, pela anistia e pela abertura democrática. A inserção crescente da mulher no mercado de trabalho brasileiro a partir dos anos de 1970 é apontada por Bruschini (1994) como “uma das mais marcantes transformações sociais ocorridas no país”. A militância feminista chega aos sindicatos, mas sob a forma de departamentos femininos, apontados por Pinto (1994) como uma das formas de inserção e de construção de espaços de poder.

A partir da promulgação da Constituição de 1988, foram ratificados importantes tratados internacionais e foram elaboradas diversas leis. Dentre essas, destacaram-se: a legislação que estipula o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo; e a reformulação do Código Civil. Mais recentemente, foram criadas a Secretaria de Estado dos direitos da mulher, em 2002, transformada, em 2003, na Secretaria Especial de Políticas para as mulheres (SPM), sinalizando avanços institucionais importantes, pois mostraram um compromisso das políticas do Estado com as questões de gênero (FALÚ, 2006).

Nos últimos anos, a participação das mulheres subiu de 33,89%, em 1988, para 40,00% do total dos trabalhadores brasileiros, em 2004, segundo dados do Relatório Anual de Informações Sociais do Ministério do Trabalho e Emprego (RAIS/MTE, 1988-2004). Todavia, essa receptividade ao gênero feminino, segundo Souza e Guimarães (2000), não acontece em todos os postos. Essas autoras identificaram que, em verdade, a entrada do contingente feminino no ambiente organizacional tem sido sujeita a algumas limitações quanto ao acesso a cargos que exigem maior qualificação ou que apresentam maiores possibilidades de ascensão na carreira.

Isso confirma dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2004) sobre a desigualdade salarial entre mulheres e homens. Em 2003, no Brasil, a média salarial das mulheres representava 69,6% da média dos homens. Em relação ao rendimento mensal, famílias com homens como pessoa de referência obtiveram um rendimento mensal 21% maior do que aquelas com mulheres na mesma condição de responsáveis. Apesar do avanço dos empregos formais entre as mulheres, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) chama a atenção para o fato de que cerca de 60% dos trabalhadores que vivem em famílias com renda inferior a US$ 1 por pessoa por dia continuam sendo mulheres.

Nas famílias formadas por apenas um responsável, as mulheres têm assumido cada vez mais a administração financeira do lar. O número de mulheres consideradas “chefes” de família no Brasil, segundo dados do IBGE (2007), teve um aumento de 8,2 milhões em dez anos (de 1996 a 2006). Em 1996, o número de mulheres indicadas como a pessoa de referência da família era de 10,3 milhões. No ano de 2006, o número subiu para 18,5 milhões. Essas mulheres tinham entre 25 e 39 anos ou 60 anos ou mais de idade. As famílias chefiadas por mulheres também tinham a maior taxa de ocupação dos filhos: 44,1%, contra 40,3% nas famílias que tinham o homem como pessoa de referência.

De acordo com Farah (2003), as desigualdades entre homens e mulheres ainda podem ser notadas em relação à difícil inserção da mulher em cargos de chefia e na sobrecarga de trabalho na esfera doméstica. Isso mostra que mesmo tendo uma profissão e trabalhando fora de casa ainda são atribuídas à mulher as responsabilidades do lar e o cuidado com os filhos.

Por isso, a compatibilização entre maternidade e participação no mercado de trabalho é um dos aspectos mais observados quando se fala sobre o trabalho feminino (FARIA, 2002). Tal compatibilização pode envolver mudanças no âmbito familiar; por exemplo, maior participação masculina em tarefas domésticas, ou seja, uma revisão dos papéis socialmente construídos.

De acordo com França (1999), as mulheres que se casam, trabalham e decidem se tornar mães continuam enfrentando a tripla jornada: uma para o trabalho, uma para casa e outra para o cuidado com marido e filhos.

Apesar das barreiras ainda enfrentadas pela mulher, observam-se algumas mudanças nas organizações – por exemplo, maior inserção em cargos de gestão – e nas relações sociais, nas quais já são negociadas com os homens as atribuições do âmbito doméstico. Diante disso, as relações sociais no âmbito público e também no âmbito privado se transformam (LOURO, 1997; BRITO, 1998; MELO, 2001), impactando as subjetividades de homens e mulheres em interação em ambos os espaços (DAVEL; MELO; VERGARA, 2001; LEVY, 2001).

De acordo com Belle (1993), escolas e universidades demonstram a equivalência entre homens e mulheres no domínio intelectual, enquanto a contestação de modelos de famílias ligados à ruptura da célula conjugal tradicional e leis mais favoráveis ao estatuto jurídico da mulher que trabalha vêm em nossos dias reforçar os investimentos profissionais da mulher. Além de serem numerosas no mercado de trabalho, as mulheres aumentaram sua representatividade em categorias socioprofissionais mais elevadas, desempenhando profissões liberais e atuando como executivas de nível médio e superior.

Ainda que lentamente, as mulheres brasileiras enfrentam essas adversidades e começam a ingressar em profissões consideradas de prestígio e a ocupar cargos de comando. Seu perfil também vem mudando. As trabalhadoras, que até o final dos anos de 1970 eram, em sua maioria, jovens, solteiras e sem filhos passaram a ser mais velhas, casadas e mães (FALÚ, 2006).

A reestruturação produtiva fez com que as organizações procurassem por diversidade entre seus empregados, favorecendo uma intensa participação das mulheres no mercado (SOUZA; GUIMARÃES, 2000). De acordo com Belle (1993), tem havido uma redução no nível de segregação de gênero pelas organizações com visão voltada para o futuro. Percebe-se que a mulher brasileira tem superado as consequências de uma herança fortemente patriarcal e os atrasos ao seu pleno desenvolvimento profissional e pessoal. Ela tem buscado cada vez mais se impor nas organizações, ocupando cargos importantes, e também nas relações pessoais e familiares, negociando a redistribuição das tarefas domésticas.

O próximo tópico apresenta a situação da mulher na gerência, as grandes barreiras para sua realização profissional e as recompensas alcançadas por elas na função gerencial.