Segundo Almeida (2012), desde o surgimento dos documentos oficiais de educação (e.g. PCN; OCEM), professores discutem sobre o ensino de LI no Brasil. Para os professores que aceitaram e elogiaram o foco na habilidade de leitura nos documentos oficiais há uma discussão sobre como incluir as outras habilidades (e.g. escrita; escuta; fala) nos documentos, assim como em suas práticas.
Em uma detalhada discussão sobre modelos de ensino de LI que são almejados no Brasil, Almeida (2012) faz um breve percurso histórico sobre o ensino deste no país em escolas regulares. Na década de 1970, a popularidade e a fama do método audiolingual para aprender uma língua estrangeira foi o motivo principal para ser adotado nas escolas
25 e 26 de outubro de 2018
regulares. Entretanto, um método que parecia ser eficaz nos institutos de idiomas não apresentava a mesma eficácia nas escolas pelo simples fato de haver diferenças significantes quanto ao número de alunos e suas motivações, ao tempo das aulas, e aos recursos disponíveis nas salas de aulas.
Diante da falha da implementação do método audiolingual nas escolas regulares, voltou-se o olhar para o que estava sendo discutido na década seguinte: a abordagem comunicativa e o ensino de inglês para fins específicos (ESP). Segundo Almeida (2012), percebeu-se uma necessidade de mudar o foco e a forma de ensinar inglês, e devido a toda disciplina precisar apresentar uma justificativa educacional e social para ser aceita no currículo escolar, a habilidade de leitura foi elencada como foco no ensino de inglês nas escolas regulares. O referido autor afirma que o ensino da leitura em LI representava uma possibilidade real de uso da mesma fora da sala de aula, além de influenciar positivamente na leitura em língua portuguesa.
Com a divulgação dos Parâmetros Curriculares Nacionais na década de 1990, oficializou-se o ensino de leitura na disciplina de língua inglesa, dentro de um conceito de língua como discurso. Almeida (2012) comenta que o ensino de outras habilidades era considerável, desde que fosse possível e relevante no contexto de ensino. Uma característica importante dos PCN é a ênfase na autonomia do professor, uma vez que não é imposto métodos ou conteúdos para os professores. Ao invés disso, são encontradas nos Parâmetros sugestões e informações relevantes para auxiliar nas escolhas dos professores. No que concerne à leitura, “os Parâmetros não forçam professor algum a limitar seu foco no ensino da leitura, caso eles acreditem que possam ir além disso” (ALMEIDA, 2012, p. 334). Apesar disso, ainda é possível perceber uma resistência por parte dos professores a ensinar apenas a leitura nas aulas de LI.
Para aqueles professores que são contra o foco na leitura nas aulas de inglês, Almeida (2012) afirma que só o ensino desta habilidade não é suficiente. Segundo o referido autor, tais professores argumentam que, ao afunilar o ensino de inglês à leitura, o professor estaria negando seus alunos a oportunidade de aprender outras habilidades,
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principalmente a fala, que é, de fato, “considerado o real objetivo do ensino de Inglês como Língua Estrangeira (ILE)”22. (ALMEIDA, 2012, p. 335).
Entretanto, é constatado, segundo Almeida (2012), que a inclusão das quatro habilidades no ensino de inglês na escola regular no Brasil só ocorreu em situações exclusivas em que poucas escolas se igualaram aos institutos de idiomas. Isto é, estas escolas realizaram reformas quanto às condições de trabalho dos professores de inglês, como a quantidade de alunos na sala, os recursos utilizados e o tempo de aula. Desta forma, Almeida (2012) reforça a importância do professor da escola regular exigir e reivindicar melhores condições de trabalho, a fim de que possa incluir outras habilidades em suas aulas.
O referido autor também detalha uma discussão sobre os motivos descritos nos PCN sobre a escolha da habilidade oral no ensino de inglês. Aspectos sociais, educacionais e práticos foram considerados, e os argumentos apresentados pelo documento é sustentável, principalmente no que se refere à função da LI no Brasil, uma vez que esta é considerada uma língua estrangeira, ou seja, de pouco uso oral fora da sala de aula.
Por fim, Almeida (2012) discute acerca de um documento criado posteriormente aos PCN intitulado Orientações Curriculares do Ensino Médio (OCEM). Este documento, ao contrário dos Parâmetros, foi criado por uma equipe de profissionais menor. O foco deste documento é questionar e refletir sobre os objetivos do ensino de inglês no Brasil, de acordo com os PCN. Segundo Almeida (2012),
o foco deste documento é no letramento e no multi-letramento, com uma ênfase especial no papel exercido pelos gêneros da Internet, multimodalidade e hipertexto. O conceito de letramento como uma prática sociocultural e a necessidade de desenvolver a capacidade de lidar com práticas da língua em contextos, apontam para o reconhecimento de que para participar ativamente e criticamente na sociedade contemporânea, é preciso desenvolver o letramento em diferentes “línguas” para falar.23 (ALMEIDA, 2012, p. 343)
22 “assumed to be the real goal of teaching English as a Foreign Language (EFL).” (ALMEIDA, 2012, p.
335, tradução nossa)
23 As far as the theories supporting the pedagogical orientations are concerned, the focus of this document
is on literacy and multiliteracy, with a special emphasis on the role played by Internet genres, multimodality and hypertext. The conception of literacy as socio-cultural practice and the need to develop one’s capacity
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Assim, trabalhar a leitura em LI nas escolas deixa de ser algo apenas relacionado a decodificação de palavras e passa por uma ressignificação de que é preciso outras habilidades para “ler” o mundo em volta.