A presença da tecnologia e da informática na educação em diferentes âmbitos é um fenômeno irrefutável. Segundo Moran, Masetto e Behrens (2013), alguns exemplos dessa presença variam desde a instalação de computadores nas escolas até cursos online profissionalizantes. Essa presença gera expectativas em que “as novas tecnologias nos trarão soluções rápidas para mudar a educação.” (MORAN; MASETTO; BEHRENS, 2013, p. 8). Entretanto, no que concerne a realidade da sala de aula, a virtualidade pode ser nada mais do que uma duplicação da realidade. Isto é, “os conceitos de mutualismo, competição e vandalismo existentes na ecologia da natureza podem também ser encontrados nas redes sociais.” (ARAÚJO; LEFFA, 2016, p. 16).
Segundo Rojo (2013), o surgimento do letramento digital ou novos letramentos não é simplesmente devido a avanços tecnológicos, e sim, a um tipo de mentalidade que pode exercer-se através de tecnologias digitais. A referida autora acrescenta que:
é preciso que a instituição escolar prepare a população para um funcionamento da sociedade cada vez mais digital e também para buscar no ciberespaço um lugar para se encontrar, de maneira crítica, com diferenças e identidades múltiplas. (ROJO, 2013, p. 7)
A necessidade de preparação da população sobre o letramento digital que Rojo (2013) destaca está diretamente relacionada com a sala de aula e os atuais alunos que os professores se deparam na escola, também chamados pela autora como “nativo digital”. A autora sustenta seu argumento no fato de que os suportes de leitura que temos hoje são diferentes daqueles de anos atrás, e muitos deles estão apoiados em mídias digitais. Rojo (2013) afirma que, se “os textos da contemporaneidade mudaram, as competências/capacidades de leitura e produção de textos exigidas para participar de
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práticas de letramento atuais não podem ser as mesmas.” (p. 8). Para compreender os textos da hipermídia, é preciso incorporar esses novos letramentos.
3 Metodologia
O projeto em estudo foi realizado em uma escola estadual de ensino fundamental na cidade de Campina Grande, na Paraíba. As turmas nas quais trabalhamos eram do 6º ao 9º ano no período da manhã. Os alunos dessas turmas tinham faixa etária entre 10 e 16 anos. O perfil socioeconômico da comunidade escolar está em sua maioria incluído na classe média baixa. Tais informações nos foram passadas pelo professor regente da escola.
Este projeto, que foi uma parceria entre o NucLi da Universidade Federal de Campina Grande e a escola em questão, envolveu: 1) os quatro instrutores bolsistas do Nucli da UFCG; 2) o professor regente de LI da escola; 3) dois bolsistas nativo- americanos da Comissão Fulbright (English Teaching Assistants, ou ETAs); e 4) o coordenador pedagógico do NucLi.
As aulas foram ministradas em doze turmas do Ensino Fundamental II, sendo três turmas de 6º ano, duas turmas de 7º ano, três turmas de 8º ano e quatro turmas de 9º ano. O período de regência foi entre o dia 10 de Setembro a 31 de Outubro de 2018, nas segundas-feiras, quartas-feiras e sextas-feiras pela manhã, sendo uma aula ministrada por semana para cada turma, exceto para o 9ºB, o 7ºC e o 8ºC, que, de acordo com seus horários, possuíam duas aulas seguidas no mesmo dia.
O planejamento das aulas era feito semanalmente durante uma reunião entre o coordenador do Nucli, o professor regente da escola, os ETAs e os instrutores do NucLi. O mesmo plano de aula adaptado para em todas as turmas. Os temas abrangidos durante o projeto tinham como objetivo promover uma visão mais cultural e de contexto de uso da LI, e ao mesmo tempo precisavam se encaixar na proposta apresentada no Projeto Político e Pedagógico (PPP) da escola. Como proposto pelo BNCC (BRASIL, 2017), as aulas eram baseadas no eixo de conhecimento linguísticos; por esse motivo, a Língua
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Inglesa era sempre apresentada de modo contextualizado e as atividades propostas sempre envolviam a oralidade, a leitura e a escrita.
A primeira semana de aula foi uma ambientação entre os ETAs e os instrutores do NucLi com os alunos da escola. Para isso, os ETAs se apresentaram e tiraram dúvidas sobre seu país, os Estados Unidos, com o objetivo de promover um intercâmbio cultural entre alunos e professores. Além disso, foram ensinadas algumas expressões relacionadas à apresentações em inglês, como what’s your name?, where are you from?, how old are
you?24.
Nas duas semanas posteriores (do dia 10 de Setembro ao dia 26 de Setembro), o tópico trabalhado foi reciclagem. Esse tema foi originalmente proposto pela escola e contemplado pelo projeto para todas as turmas. As aulas incluíam vocabulário sobre o que é reciclável ou não (scarf, water bottle, food, cardboard, piece of paper, can25) – para exercício da produção oral –, além de um texto sobre reciclagem intitulado “Reduce Reuse
Recycle”26 para a atividade de compreensão escrita.
Como discutido anteriormente, Rojo (2013) atenta para a evolução da tecnologia que demanda que o sujeito, nesse caso o aluno, lide com textos multimodais. Partindo dessa premissa, notamos a urgência de trabalhar aplicativos que envolvem essas multimodalidades para promover o letramento digital, que é parte do dia-a-dia dos alunos.
Para isso, desenvolvemos aulas que abrangessem redes sociais, com enfoque no
Instagram, que foram ministradas do dia 28 de Setembro ao dia 17 de Outubro. Propomos
uma atividade na qual os alunos completaram lacunas em uma ficha que imitava uma página da rede social com informações como nome e idade, e criavam hashtags que melhor os descreviam.
Por causa do período que ministramos as aulas, decidimos abordar o feriado do Halloween, parte importante da cultura norte-americana. Na primeira aula sobre Halloween, apresentamos um texto breve intitulado Halloween, sobre a tradição do "trick or treat" e após a leitura deste, elaboramos questões de compreensão para serem
24 Como é o seu nome?, De onde você é?, Quantos anos você tem?, respectivamente. 25 Cachecol, garrafa de água, comida, papelão, pedaço de papel, lata, respectivamente. 26 Reduza, reutilize, recicle, respectivamente.
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respondidas após a leitura. Antes de pedirmos para que lessem o texto individualmente, listamos no quadro algum vocabulário referente a data comemorativa (e.g. costumes,
pumpkin, Jack o'Lantern, skeleton, candies, trick or treat27).
Planejamos, para o segundo encontro sobre esse tema, um momento de confraternização com os alunos, em que informamos que estes poderiam comparecer à aula fantasiados. Na turma do 8ºC, por exemplo, alguns alunos vestiram fantasias, evidenciando, por sua vez, o caráter da interculturalidade abordado nas aulas. Nesta aula, dois jogos foram utilizados para que os alunos, assim, praticassem o vocabulário visto no encontro anterior: bingo e forca.
Durante o período de aulas do projeto, um blog foi criado com o objetivo de compartilhar essa experiência em uma plataforma digital, para que fosse possível: 1) dar visibilidade ao projeto; 2) discutir o papel da interculturalidade nas aulas de LI; e, 3) disponibilizar um espaço para que o professor da escola, os instrutores do NucLi e os assistentes de professores pudessem fazer relatos sobre o projeto. O blog foi escolhido por ser uma ferramenta gratuita e acessível.
4 Discussão e reflexão sobre a experiência
Nas reuniões que precederam a ida dos instrutores e dos bolsistas para a escola, foi informado pelo professor regente que o uso do celular inapropriadamente nas salas de aula era constante. Além disso, o não cumprimento das atividades de casa era um hábito comum. Segundo o professor regente, havia pouca participação dos alunos durante as aulas do ano letivo: poucos faziam leituras e produções de texto além do que era sugerido pelos professores. A fim de responder nossos objetivos elencados na introdução deste relato de experiência, esta seção será dividida de acordo com o que cada um destes busca.
Quanto à caracterização dos papéis sociais dos sujeitos envolvidos na
experiência, percebemos ao longo da parceria do NucLi com a escola em questão que os
diferentes grupos exerceram funções sociais diferentes. A única função social exercida
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pelos três grupos de participantes consistiu no planejamento das aulas. Isto é, o professor regente, os instrutores do NucLi e os bolsistas exerciam o mesmo papel social, sem distinção ou hierarquia ao apontar sugestões de atividades e de ferramentas de ensino.
Em relação aos papéis sociais que se diferenciavam de acordo com o grupo, podemos caracterizar as funções dos participantes da seguinte forma: as aulas eram ministradas pelos ETAs, que não possuíam formação docente em seus currículos. Durante as aulas, os instrutores eram auxiliados pelos instrutores bolsistas caso ocorresse problema de compreensão de alguma palavra ou expressão, ou até mesmo durante as atividades propostas, oferecendo ajuda aos alunos. Quanto ao professor regente, sua presença durante as aulas funcionava como uma figura disciplinadora, principalmente em casos em que o mau comportamento dos alunos se elevava e fugia do controle dos ETAs e dos instrutores do NucLi.
Quanto ao impacto desses papéis sociais durante a experiência, percebemos que ao longo do projeto, dentro e fora da sala de aula, houve uma rede de compartilhamento de saberes, tal como Tardiff (2007) explica e defende. Esta rede foi mais perceptível durante o planejamento das aulas, o qual considerou diversas fontes de saber dos participantes, como atividades, métodos de ensino, material didático, material científico. O fato de termos dois participantes cuja formação não é fruto da docência reforça o argumento de Tardiff (2007) de que há saberes que podem vir de experiências pessoais de diversas naturezas.
Como descrito na Metodologia, algumas atividades planejadas envolveram a leitura e compreensão de textos escritos, tal como sugerem os PCN. Na aula sobre o
Halloween, por exemplo, utilizamos a multimodalidade (ROJO, 2013) como fio condutor
de algumas atividades, principalmente no jogo de forca. Na mesma aula, assim como na aula sobre reciclagem, foram feitas algumas abordagens à luz do letramento e do multiletramento (OCEM) sobre o conteúdo dos textos trabalhados em sala de aula. Perguntas pré-leitura como “O que vocês sabem sobre este assunto?” assim como perguntas pós-texto como “Vocês costumam se fantasiar no Halloween?”; “Vocês vão a festas de Halloween?”; “Quais materiais vocês reciclam?” foram feitas durante as aulas, a fim de provocar reflexões nos alunos.
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Outro impacto que utilizamos em uma das aulas foi a confecção de fichas de preenchimento que imitavam perfis no instagram. Como foi descrito na Metodologia, os alunos deveriam preencher essas fichas com informações pessoais sobre seus gostos, assim como suas personalidades. Além disso, eles deveriam desenhar algumas dessas características como se fossem fotos do perfil da rede social, e utilizar hashtags propostas durante as aulas por eles e auxiliados pelos ETAs.
A sugestão de uso de redes sociais nas aulas de LI era uma proposta no PPP da escola, apresentado pelo professor regente. Entretanto, devido aos seus relatos de usos inapropriados do celular nas aulas por parte dos alunos, os participantes planejaram manter o uso das redes sociais, porém de uma forma ressignificada, que resultou na confecção das fichas inspiradas em perfis do instagram. Decidimos manter as redes sociais como instrumento para abordar o conteúdo gramatical por acreditarmos no amplo uso das redes sociais fora da escola, e também para aproximar a virtualidade destes ambientes comumente utilizados pelos alunos com a realidade de aprendizagem destes, muitas vezes vistas como distintas pelos mesmos, tal como Araújo e Leffa (2016) afirmam.
Quanto à culminância de uma plataforma digital, consideramos o que Rojo (2013) discute sobre novas práticas de letramento, de acordo com a disseminação e da integralização de redes sociais no ambiente escolar. Desta forma, com o decorrer das aulas e com o crescimento do envolvimento dos participantes com a experiência desde os planejamentos das aulas aos registros feitos durante as aulas, sugerimos a criação de um blog sobre tudo que envolveu esta parceria.
A plataforma nucliufcg.wordpress.com reúne informações como o que significa o projeto de parceria, quem são os participantes, e os seus respectivos relatos pessoais sobre a experiência. Além disso, alguns registros em imagens das aulas ministradas são expostos em formato de posts com suas devidas descrições do que se planejou para estas aulas, assim como quais atividades foram realizadas com os alunos. O objetivo da criação desta plataforma é divulgar a experiência fruto da parceria do NucLi da UFCG com a escola pública em questão não só para outros NucLi de outras instituições, mas também para outras escolas, sejam públicas ou privadas, da nossa cidade. Algumas capturas da interface do blog se encontram no anexo deste relato.
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5 Considerações finais
Ao longo desta experiência de ensino, percebemos que os participantes da parceria entre o NucLi da UFCG e a escola em questão exerceram papéis sociais diferentes daqueles naturalmente designados. Os ETAs, cuja formação acadêmica não envolve docência, exerceram um papel social de professores durante as aulas, enquanto o professor regente e os instrutores do NucLi exerceram um papel de auxílio para os nativos. Os impactos dessa caracterização desses papéis sociais se resumem, basicamente, ao trabalho cooperativo e da rede de compartilhamento de saberes por parte dos integrantes durante o planejamento das aulas.
Como fruto dessa experiência, um blog foi criado a fim de divulgar as atividades realizadas através de registro de fotos, assim como informações acerca da parceria em si e dos participantes desta. Esperamos que a divulgação do blog inspire outros NucLi das demais instituições do Brasil a realizarem parcerias semelhantes, pois, como foi observado e discutido ao longo das reuniões, ensinar LI através da interculturalidade teve um impacto positivo significativo nos alunos. Percebemos que a motivação, assim como a disciplina e o envolvimento ao longo das aulas mudou em relação ao que era relatado pelo professor ao longo do ano letivo.
Referências
ALMEIDA, Ricardo Luiz Teixeira de. The teaching of English as a foreign language in the context of Brazilian regular schools: a retrospective and prospective view of policies and practices. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, Belo Horizonte, v. 12, n. 2, p.331-348, 2012.
ARAÚJO, Júlio; LEFFA, Vilson. (orgs.) Redes sociais e ensino de línguas: o que temos de aprender?. São Paulo: Parábola Editorial, 2016.
MORAN, José Manuel; MASETTO, Marcos T.; BEHRENS, Marilda Aparecida. (orgs.) Novas tecnologias e mediação pedagógica.21. ed. Campinas: Papirus, 2013.
ROJO, Roxane. Escol@ conect@d@: os multiletramentos e as TICs. São Paulo: Parábola, 2013.
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TARDIFF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. 8. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2007.
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ANEXO - INTERFACES DO BLOG
Legenda: Homepage do blog com o registro das aulas. (Disponível em https://nucliufcg.wordpress.com)
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RELATO DE OBSERVAÇÃO DO ESTÁGIO DOCENTE NA EDUCACÃO DE