• No results found

Fiskeriinspektørene

In document Fiskeriene 1937 (sider 40-56)

Como foi visto anteriormente, as denúncias contra o deputado Ibsen Pinheiro já não eram publicadas na revista de forma isolada. Outros políticos passaram a ser alvos dentro das investigações da CPI do Orçamento, ou a CPI do Orçamento dos Anões, do qual Ibsen estava envolvido, como será visto mais adiante, sem qualquer culpa no ‗cartório‘.

O que havia até agora contra o deputado do PMDB era o cheque de Genebaldo Correia – explicado pelo deputado e que seria da compra de um veículo F-1000 e ainda uma foto em que Ibsen aparece na Grécia ao lado de acusados de fazer parte da máfia dos anões. E só. As duas denúncias tentavam sustentar a versão de corrupto.

Na edição de 26 de janeiro de 1994, mais de dois meses após a reportagem de capa ―Até tu Ibsen?‖, Veja mostrava que a CPI havia realizado naquela semana uma sessão histórica para aprovar uma lista em que a comissão propôs a cassação de 18 de deputados, entre eles Ibsen. A CPI pressionada incluíra o nome do deputado na lista. Para Veja, ―o Congresso expunha sua podridão‖. O título da reportagem ―O Congresso dá volta por cima‖ e a linha fina ―... o legislativo corta na própria carne e faz as pazes com a opinião pública‖ – mostrava que a lista já estava sendo divulgada.

Ao publicar essa reportagem, a mídia se coloca como representante da opinião pública261. O editor-fundador da revista Roberto Civita afirma: ―o leitor sabe de que lado

261 Três autores parecem mais apropriados, a meu ver, para conceituar opinião pública. Nas ideias de Stuart Mill,

em seu clássico Sobre a Liberdade, ele debate o tema opinião pública e diz que: ―[...] a opinião de semelhante maioria, imposto como lei à minoria, em questões de conduta estritamente individual, tanto pode ser certa como errada. Nesses casos, a opinião pública, na melhor hipótese, significa a opinião de algumas pessoas sobre o que é bom ou mau para outras pessoas‖. (MILL, John Stuart. Sobre a Liberdade. 2ª ed. Petrópoles: Vozes, 1991, p.149). Portanto, estudando por esse ângulo de abordagem podemos dizer que tanto Veja, como a grande imprensa, não podem representar a opinião pública, mesmo porque ela não é a maioria. Significa um seleto

lutamos ao longo desses anos agitados, controvertidos mas certamente estimulantes anos de vida. E sabe, também, onde nos encontrará amanhã‖ 262.

Pode-se discordar de Civita, uma vez que a mídia, assim como Veja, também tem interesse mercantilista. A revista deixa, a meu ver, equívoco ao dizer que a exposição da podridão do Legislativo, o Congresso faz as pazes com a opinião pública. Que opinião pública? Os leitores ‗seletos‘ de Veja. Aliás, a revista inclui nesse rol, de corruptos o deputado Ibsen.

A revista se coloca na função de ―cobrir‖ o que seria de interesse da opinião pública (essa opinião pública, no entanto, selecionada apenas a um grupo da sociedade). Na verdade, a revista é uma empresa privada em busca de capital. Ao dizer que investiga tendo em vista os interesses da sociedade, no caso específico analisado, ela incorre em contradições. Hoje, se tem total liberdade de um lado, ela move-se por total ausência de responsabilidade de outro.

A discussão em torno do significado de opinião pública foi observada por Francisco Fonseca.

Em um dos capítulos de seu artigo, ele relata o papel privado da mídia versus sua atuação pública.

Para além do caráter mercantil da notícia, em perspectiva teórica a distinção entre a esfera pública e a esfera privada – conceitos por excelência controversos – encontrou um verdadeiro divisor de águas com as revoluções burguesas, sobretudo a Revolução Francesa, pois inaugurou um novo conceito de liberdade, agora identificado, com o mundo privado – por meio , inicialmente, do mercado – e politologicamente definido como pertencente ao caráter negativo da ideia de liberdade263.

grupo de pessoas para quem a grande mídia vai atender. Gramsci falando sobre a história da opinião pública afirma que: ―naturalmente, os elementos da opinião pública, sempre existiram, mesmo nas satrapias asiáticas. Mas, a opinião pública, como a entendemos hoje, surgiu às vésperas da queda do Estado absoluto, isto é, no período da nova classe burguesa por hegemonia política e conquista do poder. A opinião pública é o conteúdo político da vontade política pública, que poderia ser discordante. Essa é a razão pela qual existe a luta pelo monopólio dos órgãos de opinião pública: jornais, partidos, parlamento, de modo a que uma única força modele a opinião e desse modo a vontade política nacional, dispensando os desacordos numa poeira individual e desorganizada (citado por Portelli, 1987). – Hugues Portelli, Gramsci e o bloco histórico. São Paulo, Paz e Terra, 1987. Para Alexis de Tocqueville, nas sociedades igualitárias ocorre um processo de homogeneização da opinião pública, descrito por Frey (2000) como ―uma tirania uniformizadora que se estenderia à vida psicossocial, intelectual e cultural, suprimindo a diversidade social. As respectivas ideias e sentimentos democráticos, por sua vez, influenciam o funcionamento e as características da sociedade política‖. Em ― A Democracia na América‖, Tocqueville afirma: ―Uma lei geral, que tem o nome de justiça, foi feita e sancionada, não apenas pela maioria deste ou daquele povo, mas, pela maioria da espécie humana. Os direitos de todos é justo. A nação pode ser considerada o júri dotado de poderes para representante a sociedade, em geral, e para aplicar a justiça, que é a sua lei. Tomada coletivamente, maioria é apenas um indivíduo cujas opiniões e, frequentemente, interesses são opostos aos de outro indivíduo, intitulado minoria. Se admite que um homem possuindo poder absoluto pode usar, erradamente, esse poder fazendo mal a seus adversários, por que não será a maioria passível da mesma censura? (TOCQUEVILLE, Aléxis. A Democracia na América. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1966).

262VEJA, Edição especial de 40 anos. 14 de setembro de 2008, p. 14. 263 FONSECA, 2004.

In document Fiskeriene 1937 (sider 40-56)