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4 Dagens behov for arbeidskraft og kompetanse

4.4 Fiskeindustri

Em 14 de novembro de 1941, Arendt assina seu primeiro artigo para o ―Aufbau‖, um jornal da emigração judaica alemã publicado em Nova York, com o título: ―O exército judeu, o início de uma política judaica?‖, no qual ela sustenta a criação de uma brigada judaica no interior das forças antinazistas. Ela acredita serem necessários soldados judeus, em unidades judaicas e com a bandeira judaica, para reunir os judeus de todo o país contra Adolf Hitler e sua guerra antissemita, a par da ameaça que pesa sobre a existência econômica dos judeus, forçada pelo boicote, e do perigo da formação de guetos para o qual tendem os acontecimentos.

Desde 1941 a referida autora escreve que Adolf Hitler conduz, antes de tudo, uma guerra contra um povo, o povo judeu. Afirma que não se pode se enganar de adversário nem de combate. Não é enquanto judeu alemão, francês ou inglês que cada homem dever lutar, mas enquanto judeu. E pede para que judeus de todos os países unam-se.172 E ainda, parafraseando Georges Clemenceau, ela escreve: ―A existência de um povo é uma coisa séria demais para que fique na mão de homens ricos‖.173 Hannah Arendt faz um chamado a uma verdadeira política judaica

conduzida não por homens influentes no segredo das cabines e das negociações, mas por milhares de homens do povo prontos a lutar, com as armas na mão, pela liberdade e pelo direito de viver.174

Esse já é o início da idéia que posteriormente Arendt sustentará por ocasião do processo de Adolf Eichmann em Jerusalém, que também será tratado em outro momento desse estudo: ―[...] ser judeu é ser livre, e ser livre é morrer com as armas na mão‖.175 Ser judeu para a referida pensadora é não aceitar nenhum compromisso

com as autoridades, nem com as autoridades nazistas nem com os conselhos judeus, muito menos consigo mesmo, apagando sua própria identidade pela assimilação. Com isso já surgem sinais de sua revolta contra os poderosos, os ricos, os influentes, sejam eles judeus ou não, assim como a certeza de que o combate pela Palestina passa antes de tudo por um combate pela liberdade do povo judeu: ―Só se o povo judeu estiver pronto a se entregar a esse combate poderemos também defender a Palestina‖.176 Ela quer que os judeus combatam, mas não indica

como poderiam fazê-lo numa Europa dominada pelas leis nazistas.

Os judeus da Palestina tentarão criar o seu próprio exército, o que levará três anos para acontecer. Depois da derrota da França, a Jewish Agency for Israel177 e

Arendt fazem acordos com o alto comando britânico e assim constituem unidades

172ADLER, Laure. Nos passos de Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 202. 173Ibid., p. 203.

174Ibid., p. 203. 175Ibid., p. 204. 176Ibid., p. 205.

177A Agência Judaica para a Palestina assumiu a partir da Comissão Sionista em 1923 para representar e administrar a comunidade judaica durante o período do Mandato Britânico da Palestina, que durou entre 1921 e 1948. Ele recebeu o reconhecimento oficial em 1922. Durante o período do mandato, a Agência Judaica para a Palestina era uma organização quase governamental que servia às necessidades administrativas da comunidade judaica. Sua liderança foi eleita pelos judeus de todo o mundo por representação proporcional. Wikipedia, a enciclopédia livre. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Jewish_Agency_for_Israel>. Acesso em: 21 mar. 2010 (Tradução livre do autor).

palestinas de voluntários. Mas não há um comando único e os voluntários estão disseminados. Será preciso esperar setembro de 1944 e a decisão de Winston Churchill para que a Jewish Brigade Groupe seja reconhecida como uma única formação militar.178

Hannah Arendt frequenta, além dos círculos sionistas, o grupo de exilados socialistas alemães. Com todas as suas forças, esses exilados antifascistas tentam alertar a opinião pública americana da ameaça de Adolf Hitler. Arendt se torna uma europeia convicta. Ainda acredita na possibilidade da vitória, na força da dignidade humana. E não é a única, pois outros refugiados alemães como ela ainda acreditam não ser tarde demais. Assim, testemunham as alocuções radiofônicas de Thomas Mann que, nos Estados Unidos, se endereçam aos ouvintes:

Queremos que a Alemanha se torne européia. Hitler quer tornar a Europa alemã. Mantenham inabaláveis a firmeza e a paciência de vocês. São vocês mesmos que criarão a verdadeira Europa, que será uma federação européia no quadro mais vasto da colaboração econômica entre os povos civilizados do mundo.179

O redator-chefe de ―Aufbau‖, jornal da comunidade, Manfred George, a contrata para fazer uma crônica bimestral que ela intitula ―É com você‖. ―Aufbau‖, no início um simples boletim de ligação da comunidade judaico-alemã, se torna de fato um jornal semanal de opinião, lido por todos os emigrantes judeus alemães politizados de Nova York. George descobre nela ―uma potência e uma firmeza de homem‖.180 Assim Arendt torna-se colaboradora regular do jornal, com a liberdade

de intervir no domínio político e criticar a atitude das instâncias oficiais do sionismo. Para ela, a urgência não é de se gabar das ações já passadas, mas de encontrar uma resposta política ao antissemitismo pois, a seu ver, desde 1941 a Palestina não deu uma resposta certa. O fato de encontrar uma parcela pequena de terra onde nos sentimentos em paz é apenas um perigoso sonho, posto que para ela a solução da questão judaica não passa pela terra prometida. Se o sionismo é o presente que a Europa deu aos judeus, é preciso, estima ela, que a política da Palestina seja feita por judeus europeus, e não que a política palestina determine a política geral judaica. A Palestina não foi nada. Ela é merecida pela autoemancipação. Para

178ADLER, Laure. Nos passos de Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 202-203. 179MANN, Thomas. Appels aux allemands

: messages radiodiffusés addresses aux allemandes d‘ octobre 1940 à juin 1945. Tradução de Pierre Jundt. Paris: Balland, Martin Flinker, 1985.

180BRUEHL, Elisabeth Young. Hannah Arendt: por amor ao mundo. Tradução de Joel Roman; Etienne Tassin. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1997. p. 11.

Hannah Arendt, a Palestina é uma história de futuro para o povo judeu, a massa do povo judeu, e não para os privilegiados, judeus da corte, judeus do dinheiro.181

Alguns artigos escritos por Arendt merecem destaque posto que evidenciam sua luta para salvar o povo judeu que se encontra sob a égide do nazismo.

Em abril de 1942, num artigo intitulado ―Papel e realidade‖, ela interpela a opinião pública sobre o silêncio que recobre a sorte reservada aos judeus da Europa, enviados à morte, aos judeus presos atrás do arame farpado nos campos franceses, aos judeus da Palestina ainda sem um exército autônomo. Mostra sua indignação com o clima de derrota que tomou conta das instituições judaicas, como Jewish Labor Committee182, American Jewish183 e Agoudath Israel184, por não apresentarem medidas concretas de luta para salvar o povo judeu.185

Em maio de 1942, num texto cujo título é ―A eloqüência do diabo‖, ela se inquieta de novo com a conspiração do silêncio relativo aos judeus, e designa o extermínio como razão essencial, principal, da guerra de Adolf Hitler. Arendt afirma que apenas dois povos estão embarcados na guerra: os alemães e os judeus, ―sendo que os alemães têm um governo reconhecido, enquanto o dos judeus é oculto. Todos os povos, salvo o povo alemão, seriam governados pelos judeus‖. Só a ―igualdade original e incondicional de todos os humanos‖ pode servir de arma para calar a eloquência do diabo.186

181ADLER, Laure. Nos passos de Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 204.

182O Jewish Labor Committee é uma organização secular judaica dedicada a promover interesses das comunidades judaicas e os interesses judaicos dentro dos sindicatos. Foi fundada em 1934 em resposta ao aumento do nazismo na Europa. Wikipedia, a enciclopédia livre. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Jewish_Labor_Committee>. Acesso em: 21 mar. 2010 (Tradução livre

do autor).

183A American Jewish Historical Society, fundada em 1892, é a mais antiga organização nacional histórica étnica da nação. Oferece acesso a mais de 20 milhões de documentos e 50.000 livros, fotografias, arte e artefatos que refletem a história da presença judaica nos Estados Unidos a partir de 1654 até o presente. Disponível em: <http://ajhs.org/about/>. Acesso em: 21 mar. 2010 (Tradução livre do autor).

184Agoudath ou Agudat de Israel – movimento sionista-socialista e corrente religiosa ortodoxa da Polônia e países vizinhos que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, apesar da perseguição de Hitler e continuou atuando organicamente, tanto em Israel como nos EUA, em menor medida. Museum of the History of Polish Jews. Disponível em: <http://www.jewishmuseum.org.pl/index.php?miId=2&lang=en> Acesso em: 21 mar. 2010 (Texto de Howard Sochar, publicado na Revista Morashá, n. 66, dez. 2009).

185ARENDT, Hannah. Papier e réalité (10 avril 1942). In: ______. Auschwitz et Jérusalem. Paris: Deux Temps Tierce, 1991. p. 32.

186ARENDT, Hannah. L'éloquence du diable (8 mai 1942).In: ______. Auschwitz et Jérusalem. Paris: Deux Temps Tierce, 1991. p. 34.

Em maio de 1942, no artigo ―O pretendido exército judeu‖, ela suplica que a opinião pública abra os olhos e pare de se resguardar por trás das mentiras. Gritando seu desespero, chorando os mortos, clama sua angústia diante de uma exterminação completa. Apela a toda a comunidade judaica para que não acredite mais em um milagre:

Se pudéssemos combater esse inimigo sem lutar, se os milhões de judeus dos campos de concentração e dos guetos pudessem morrer apenas nos documentos de estatísticas, se tivéssemos a milagrosa garantia de que a Palestina não se encontra na costa mediterrânea, mas na lua e que está fora de alvo de qualquer ataque, se os mortos do Struma187 pudessem ressuscitar, resumindo, se minha avó tivesse rodas e fosse um ônibus, então nós, loucos e homens do povo, começaríamos talvez a nos interessar pela questão de saber se esse ônibus vai virar à direita ou à esquerda.188 (Grifo da autora).

Hannah Arendt continua a mostrar sua indignação quanto à causa dos judeus e suas consequências. Em 19 de junho de 1942, no jornal ―Aufbau‖, escreve um artigo, seis meses após a Conferência de Wannsee, onde quinze dignatários nazistas decidiram secretamente a ―solução final para a questão judaica‖, explicando que a partir de 1941 a política antissemita do regime nazista mudou de natureza. Depois de tentar expulsar os judeus, ela agora consiste em matá-los, praticando o assassinato em massa. Arendt é uma das poucas pessoas a levar a sério e ao pé da letra o que diz Paul Joseph Goebbels189, o protagonista do Reich: ―O extermínio dos judeus da Europa, e talvez dos que estão fora da Europa, começou‖.190 Arendt

escreve: ―O destino dos judeus se tornou ainda mais claro, agora se sabe para onde vai a viagem‖.191 No entanto, toda sua consciência se nutre de uma esperança ativa

de uma humanidade mais humana, declarando:

187Struma: nome de um navio de refugiados desaparecido no mar Negro em fevereiro de 1942, tendo a bordo 769 judeus que queriam emigrar para a Palestina. O navio fora rechaçado pelo governo turco. Wikipedia, a enciclopédia livre. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Struma_(ship)>. Acesso em: 21 mar. 2010 (Tradução livre do autor).

188ARENDT, Hannah. La prétendue armée juive (22 mai 1942). In: ______. Auschwitz et Jérusalem. Paris: Deux Temps Tierce, 1991. p. 35.

189Paul Joseph Goebbels (Mönchengladbach, 29 de outubro de 1897 - Berlim, 1º de maio de 1945) foi o ministro do Povo e da Propaganda de Adolf Hitler (Propagandaminister) na Alemanha Nazista, exercendo severo controle sobre as instituições educacionais e os meios de comunicação. Wikipedia, a enciclopédia livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Goebbels>. Acesso em: 21 mar. 2010.

190ARENDT, Hannah. On ne prononcera pas le kaddish (19 juin 1942). In: ______. Auschwitz et

Jérusalem. Paris: Deux Temps Tierce, 1991. p. 39.

Não rezaremos a missa, não pronunciaremos o Kaddish.192 Os mortos não deixam para trás nenhum testamento escrito. Deixam apenas um nome, não podemos lhes prestar as últimas homenagens, consolar suas viúvas ou seus órfãos. Eles são as vítimas de um sacrifício que não existia desde a época de Cartago e a destruição do Moloque193. A única coisa que podemos fazer é sonhar seus sonhos até o final.194

E Hannah Arendt continua sua luta procurando agir enquanto há tempo. Ela tenta convencer as instituições judaicas americanas da amplitude da catástrofe em curso e as incita a pressionar o governo americano para formar esse exército judeu, que ela apela por seu voto, e que ainda poderia salvar os judeus na Europa. Mas o American Jewish Congress e as outras coordenações judaicas se negam a enfrentar a administração. Os judeus americanos, na época, são profundamente devotos de Franklin Roosevelt, que empregou na equipe colaboradores de origem judaica. Os antissemitas chamam seu governo de ―Jew Deal‖.

Essa resistência por parte dos judeus americanos revela o quanto Arendt está isolada em sua luta, posto que seu combate incessante, obstinado, pelo salvamento dos judeus europeus não constitui uma prioridade absoluta para as organizações judaico-americanas. Surpreende a ignorância sobre a amplitude dos massacres, quando na realidade estes eram reivindicados pelas próprias autoridades nazistas. As organizações judaicas, informadas das atrocidades nazistas, sublimam que elas dizem respeito não só aos judeus, mas também aos protestantes, católicos, tchecos, poloneses, russos. Arendt é a única a acentuar primeira e unicamente os judeus. Aliás, na mesma época, o redator-chefe de seu jornal escreve: ―O sofrimento dos judeus, por mais fora do comum e agravante que seja, é apenas um aspecto do sofrimento de todas as vítimas da selvageria atual‖. No mesmo número, um rabino russo acrescenta: ―Os judeus se tornaram vítimas porque são os protagonistas inflexíveis da liberdade, da fé e da democracia‖. Enquanto Arendt diz o contrário: ―Os judeus se tornaram vítimas porque são judeus‖.195

192Kaddish (do aramaico sagrado) é o nome dado à prece especial dita regularmente nas rezas cotidianas e em enterros em memória aos entes falecidos, onde se dá ênfase à glorificação e santificação do nome de Deus. Geralmente é realizado pelos filhos ou parentes próximos do falecido. Wikipedia, a enciclopédia livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Kadish>. Acesso em: 21 mar. 2010.

193Moloque é o nome de um antigo deus adorado pelos povos presentes na península e na região do Oriente Médio. Wikipedia, a enciclopédia livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Moloque>. Acesso em: 21 mar. 2010.

194ADLER, Laure. Nos passos de Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 207. 195Ibid., p. 207.

Mesmo assim, a referida autora não desiste de sua luta e, juntamente com o marido, tentam diversos procedimentos para ajudar exilados alemães encurralados na França, mas os vistos são liberados a conta-gotas e os americanos só admitem em seu solo quem já tem família no país. Hannah Arendt fica sabendo então que o combate que ela evoca por um exército judeu também é pregado em Nova York por emissários de um partido revisionista da Palestina que luta pela independência de Israel e que ela considera extremista e aventureiro. Como ela não quer envolvimento com esses militantes, decide com um novo amigo, também colaborador do jornal ―Aufbau‖, constituir um novo grupo, o Grupo da Juventude Judaica. Em março de 1942 organiza a primeira reunião, conclamando a todos que, convictos da derrocada das ideologias do passado, queiram lutar pela sobrevivência de seu próprio povo. Nessa reunião, dirigida por ela, prepara um texto para fundar teoricamente o que entende por apelo a uma nova política judaica.196

Arendt trabalha simultaneamente sobre a história do antissemitismo, a filosofia política e as condições de nascimento de uma nação. Se é uma militante obstinada pelo combate imediato pelo salvamento dos judeus, também deseja, no mesmo movimento, teorizar o que acontece: pensar o acontecimento, extrair-lhe suas consequências, inscrevê-lo em reflexões mais gerais, não se dobrar diante do real, mas tentar ordená-lo intelectualmente para permitir ação. Essa orientação de sua filosofia já está plenamente afirmada, até mesmo reivindicada. Em meio a grandes questões teóricas que apresenta nessa primeira reunião, ela lança eixos de reflexão que são reencontrados bem mais tarde em suas obras ―Origens do totalitarismo‖ e ―A condição do homem moderno‖. Inspirada pelas teses filosóficas de Walter Benjamin, convida a um pensamento novo desligado de qualquer hipótese sobre o futuro.197 Para ela, construir um projeto inscrevendo-o no tempo é uma contradição, até mesmo um erro: só a liberdade e a justiça, que devem ser reconquistadas o tempo todo, num presente em suspenso, podem constituir os princípios da política. Evocando o sofrimento do judaísmo, recusa o conceito de ―povo eleito‖ que para ela é sinônimo de derrotismo, de aceitação do sofrimento eterno, de sobrevivência a todo custo, de religiosidade absurda da vida.198

196ADLER, Laure. Nos passos de Hannah Arendt. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 208. 197Ibid., p. 208.

198BRUEHL, Elisabeth Young. Hannah Arendt: por amor ao mundo. Tradução de Joel Roman; Etienne Tassin. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1997. p. 232.

Seu grupo passa por tensões internas e as discussões sobre o futuro da Palestina se multiplicam. Hannah Arendt, que se diz sionista, ataca o sionismo oficial, que considera que a Palestina é o ponto de ―cristalização judaica‖.199 Entre os

sionistas de redenção e os sionistas de salvação, ela escolhe o seu campo. Para ela Israel não é a terra prometida, e a visão nacionalista que se desenvolve no movimento sionista e encara a terra de Israel como solução contra o antissemitismo não lhe parece a resposta adequada. Internacionalista, Arendt recusa a ideia de fazer a guerra com todos os meios, inclusive o terrorismo, para conquistar um território e obter independência. Fustiga violentamente o comportamento de certos grupos extremistas judeus, dentre os quais os militantes de Irgoun, que ela acusa no artigo de 6 de março de 1942 de ―judeus fascistas‖.200

Todo esse comportamento de Arendt em defesa dos judeus europeus, bem como sua posição com relação aos judeus extremistas na Palestina, revela não apenas o quanto ela se dedicou à questão do povo judeu, mas o seu objetivo de construir a paz em meio a uma situação de tantos desencontros em termos de atitudes para uma mesma causa, também eivada de violência extrema.

Para ela, ser judeu não é o suplemento da alma, uma singularidade, nem mesmo um fardo, mas um dever moral, uma afirmação da dignidade, uma consciência de vigilância superior, uma obrigação de viver como cidadão do mundo. Ela recusa a própria idéia de representatividade do ser judeu e ataca, cada vez mais frontalmente, a política dos sionistas oficiais, ―[...] os plutocratas e os filantropos por quem nos deixamos persuadir há dois séculos de que a sobrevivência consistia em passar por morto‖.201 E Arendt lhes pergunta: ―Nós, judeus, ainda estamos vivos ou

já estamos mortos?‖. Ela experimenta essa sensação física e psíquica de não saber mais se é ela ou seu fantasma que fala, pensa e age em seu lugar. O mundo no qual estamos obrigados a viver é um mundo de mentiras e aparências. Escrever sua verdade a condena à vingança de seus camaradas e a isola. O Grupo da Juventude Judaica se dissolverá no final de junho de 1942.202

199BRUEHL, Elisabeth Young. Hannah Arendt: por amor ao mundo. Tradução de Joel Roman; Etienne Tassin. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1997. p. 232.

200Ibid., p. 233.

201ARENDT, Hannah. Le dos au mur (03 juillet 1942). In: ______. Auschwitz et Jérusalem. Paris: Deux Temps Tierce, 1991. p. 44.

Hannah Arendt conserva sua crônica no jornal ―Aufbau‖, o que lhe permite continuar a tomar posição publicamente na crise que o sionismo atravessa. Ela se desespera com a política em geral, que não pode mais organizar um mundo democrático, face ao nazismo que domina a Europa, e se levanta contra os políticos judeus que fizeram de tudo para que seu povo se desinteressasse pela política judaica. Fica indignada ao ver as organizações judaicas enterrarem a idéia do exército judeu e caírem na apatia. Alguns dirigentes, como Nahum Goldmann, emitem a hipótese de criação de um Estado conduzido por uma justiça mais elevada que a dos homens. Mas Arendt não acredita nessa ideia, pois não pode entender por que esse Estado seria uma exceção e em que condições o povo judeu pode formular direitos sobre a Palestina. A pergunta que não lhe cala: como ter a força e a possibilidade, quando a comunidade judaica européia desaparece fisicamente, cotidianamente, sem que os judeus americanos se deem conta da amplitude do extermínio? Ela está atormentada com o silêncio e a inatividade de seus irmãos sionistas americanos.203

Arendt tem razão de sublinhar a passividade da comunidade. Os arquivos do