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Fishery-independent Indices

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2 Northeast Atlantic Mackerel

2.5 Fishery-independent Indices

Antes de começarem qualquer narrativa, os interlocutores decifravam a natureza dos animais e expunham o seu conhecimento sobre eles, com o intuito de refletir que suas atividades são consequências do trabalho e da necessidade, mas também do que os animais são e significam, e do que se pode fazer junto deles, para e com eles. Em síntese, para se posicionarem como vaqueiros de verdade, levavam em conta as diferenças entre espécies animais que, paralelamente, diziam respeito à própria diferenciação entre os homens.

Não quero dizer que se trataria de um “sistema totêmico”, como quer Lévi-Strauss (2003 [1962]), a partir do qual metáforas e metonímias extraídas da vida animal seria o reflexo simbólico da formalização da vida humana em sociedade. Neste caso etnográfico, trata-se de uma discussão relativa à noção de domesticidade. Portanto, dedicarei-me ao tema nas páginas seguintes, principalmente no que concerne ao gado bovino, visando compreender, mais à frente, a centralidade do boi nas histórias.

No sertão de Pernambuco, Vasques (2016) define que o gado caprino, por exemplo, é simultaneamente selvagem e domesticado. No que lhe diz respeito, os meus dados demonstram que ao gado bovino não se aplica essa dupla natureza que se dá aos bodes e às cabras. Bois e vacas não são vistos pelos interlocutores como simultaneamente selvagens e domesticados. No caso aqui observado, a regulação e a aproximação entre os dois atributos dependem, como vimos na introdução do subcapítulo, de uma transformação, sobretudo da ação dos homens sobre eles. Por exemplo, em tornar o brabo

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em manso (em retirá-lo do campo e cercá-lo) ou, então, em tornar o touro um boi e a novilha uma vaca. Tais transformações atestam que o território e suas circunscrições, o uso de domínios e de objetos por parte dos homens e os seus métodos de domesticação segmentam a natureza do gado bovino, e, ao fazê-lo, potencializam determinada natureza humana, no mínimo, potencializam uma posição social disputada: ser vaqueiro. Isso quer dizer que o gado não expressa oposições por ser a priori uma espécie unificada que se segmenta, a depender dos contextos e dos domínios, em atribuições variadas (bovino boi/vaca//manso/brabo), mas sim complementações com outras espécies, principalmente com os humanos.

Por exemplo, o vaqueiro geralmente cuida da criação de bode e do criatório de gado. Porém, só recebe o nome de vaqueiro aquele que se destaca no contexto da lida

com o gado brabo. É válido notar que quem recebe o complemento “de bode” no nome

“vaqueiro”, recebe-o porque – não o sendo de verdade – necessita de uma especificação, permitida pela espécie caprina: vaqueiro-de bode. Em contrapartida, o vaqueiro de gado é a quem se pode reverenciar apenas pelo nome de vaqueiro, sem especificações e variações semânticas. Mas as coisas não são tão simples quanto parecem.

Sabemos que, no jogo dialético entre ser ou não vaqueiro, a verdade histórica reside particularmente na espécie bovina (cf. 2.1). Assim, ora ou outra o vaqueiro também exigirá para si mesmo a nomenclatura “de gado”. Como vaqueiros de gado, estes procuram a sua diferenciação quanto aos demais, a partir das técnicas, dos saberes e das habilidades conquistadas por eles, mas também de uma série de austeridades, sacrifícios e perigos que os qualificam como vaqueiros de verdade à medida que se relacionem com o gado bravio. É dessa forma que, entre o vaqueiro de bode e o de gado, este último é o sujeito que ganha mais nome, tornando-se inclusive o personagem que, na maioria das vezes, também é o narrador das histórias.

Nelas, não faz muito sentido narrar peripécias com o gado manso, criado próximo e sob frequentes cuidados. A conclusão que procuro chegar é a de que o gado manso, diferentemente dos caprinos (selvagens e domésticos), são animais de natureza unicamente domesticada, enquanto o gado brabo tem a distinção de ser unicamente selvagem. No seio de uma profissão perigosa, a selvageria animal é, portanto, a natureza sobre a qual se investirá maior energia, rumo em direção ao inédito, mas não ao desconhecido.

Os proprietários sempre souberam reconhecer os seus animais bravios. Filhos de que touro e vaca são, bem como as suas características prévias, se valentes ou não, por

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exemplo. Sabem definir a cor e a tonalidade de seus pelos, o tamanho das pontas (chifres), o seu caráter, seus atributos mais gerais ou específicos, sua personalidade. E, cada vez que vão à sua procura, passam então a conhecê-los ainda melhor. Nas narrativas, veremos que os vaqueiros conhecem o território onde o gado brabo circula, o limite do seu habitat, o pasto do qual sobrevive e se alimenta. Pois, em geral, onde tem um rebanho, tem um touro. Onde tem uma vaca enchocalhada, tem um boi. Assim, este nunca estará só.

Todavia, encontrá-los e identificá-los pelo campo é resultado também de afecção, pois com os animais se criam afetos, desejos, reflexões e dilemas (cf. 2.2.6). Por isso, o

gado brabo é objeto de (re)conhecimento por ser, antes de tudo, propriedade de alguém, mas por ser também um ser enigmático. Quer dizer, se o manso fica sempre pertinho (“vem para a roça, vem para o bebedouro, se abaixa no pátio, a gente faz carinho e bota no curral”), o brabo não vem de forma alguma. Ele vive longe, e os homens têm que se dedicar à sua procura. Nas palavras de Cláudio Correia, “o vaqueiro tem que saber caçar”. De acordo com ele, saber caçar dá as nuances de uma profissão perigosa e cheia de mistérios. Levando em conta essas considerações, a relação do vaqueiro com o boi, no plano místico da caatinga, torna-se o solo épico das narrativas.

Quanto a isso, um grande vaqueiro, conhecido como Padeiro, elencou três coisas necessárias ao vaqueiro do campo: “Para correr na caatinga, é preciso coragem, coragem e coragem!”. Outro interlocutor, Antônio Izidório, 99 anos, elencou o que para ele seriam, além da bravura e da audácia, as três coisas mais essenciais. Segundo ele, frente aos perigos e segredos, ao cavaleiro “é preciso coragem”, mas também “cavalo bom e saber botar cavalo em gado”. As perspectivas de ambos demonstram que, no seio do que há de mais habitual no ofício do vaqueiro, e levando em conta os seus critérios mais essenciais, sempre surgirá uma motivação ao inédito: “Tal dia quero o boi ‘x’ pra vender!”. Para eles, querer o “boi ‘x’ para vender” significa não só levar em conta a natureza animal, mas a probabilidade de o cavaleiro obter êxito num quadro ecológico onde se repercute uma diferença histórica: boi versus homem (relação interespecífica). Com frequência, chama- se um companheiro. Isso significa que querer “o boi ‘x’ para vender!” leva em conta não só a relação com o boi, mas o comprometimento ou a disputa dos homens entre si (relação intraespecífica). Em síntese, trata-se de convencionar o que pode ser executado, em conjunto, de maneira mais eficiente.

Não obstante, mesmo compartilhando os perigos coletivamente, no campo sempre haverá um único vencedor. Vence a presa que foge de seu predador-vaqueiro ou então um dos cavaleiros que a capturou. De tal modo que, só ou acompanhado, é preciso fé,

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estar devidamente encourado e sob o ritmo de um bom animal. Cada cavaleiro tem o seu próprio cavalo em quem supostamente confia. Cada vaqueiro crê na divindade a quem frequentemente pede e agradece. E cada cavaleiro tem a sua armadura para se proteger dos espinhos. Cuidar de si mesmo, de seus cavalos e estar com a fé em dia sugere uma economia do corpo, da religiosidade e do tempo.

O dia de sábado era sagrado, porque era o melhor dia para campear. Você sabia disso? É porque é dia de Nossa Senhora. É o dia consagrado pra campo. Eu, na minha opinião, gostava muito. Todo campo que eu fazia em dia de sábado era feliz. Porque em dia de sábado nunca fui pra não dar certo. Domingo era pra zelar os cavalos, dar banho, montar na sombra. Mas sábado era o dia mais feliz do vaqueiro.

As palavras de Cláudio Correia sugerem que couro, Deus e cavalo ajudam os homens em seu destino. E não é exagero elencá-los, dar-lhes a sua devida importância. Ora, se a proteção divina, o vestuário e a montaria fossem irrelevantes, o que justificaria a existência da Missa do Vaqueiro de Floresta há 58 anos? O que justificaria a presença de vários artesãos que dominam a arte de fabricar a indumentária do cavaleiro e as vestes de seus animais – prática herdada de seus ancestrais? Enfim, o que explicaria o valor dado ao cavalo – corpo que possibilita os domínios do vaqueiro sobre o boi?

Dentre as três questões, é da última que iremos tratar nas páginas que se seguem. De saída, basta termos em mente esse prévio quadro imagético do que os animais são e significam, como é a pega de boi, quais os seus propósitos e os papeis dos agentes envolvidos. Até aqui, é preciso compreender que, para haver a relação homem versus boi, o vaqueiro precisa estar ciente dos sacrifícios e em sintonia com o seu animal.

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