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Biological Data

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2 Northeast Atlantic Mackerel

2.4 Biological Data

Diversas vezes, durante os oito dias em que me hospedei em sua morada, Genézio concluiu que a sua vida de vaqueiro estava na memória. Embora homenageado com troféus e toadas, em missas e vaquejadas, dizia: “Da vida de vaqueiro só levei o nome de bom vaqueiro e nada mais”. Isto parece indicar que, para ele, como também para Claudio Correia, a vida de vaqueiro é uma “vida de doido e sem futuro”. Por outro lado, o seu entusiasmo e a sua emoção ao falar do passado eram irrefutáveis. Várias vezes mencionou quando ficou frente à frente com a morte ao dar algumas carreiras, revelando o paradoxo entre dois polos, o da necessidade e o da loucura. Ambas atribuídas aos vaqueiros de

antigamente por fazerem de suas atividades uma profissão. E não uma brincadeira, uma

festa, uma tradição, uma aventura.

Costelas quebradas, dentes arrancados, cabeça machucada, rasgos e arranhões são consequências do risco e da periculosidade na luta do mato. Na atividade de caçar uma rês, em meio a espinhos e desvios, a vida de vaqueiro, embora parecesse sem futuro, também se apresentava pelos sentimentos, pelos desejos e pelos conhecimentos que só o verdadeiro homem do campo detém, por ser eficaz no combate aos imprevistos e aos riscos permanentes na associação com os animais e o território. Uma mistura de sentimentos e vontades, de afetos e percepções, que posicionam os saberes e os corpos segundo a veridicção alheia. Por exemplo, não era incomum Genézio de Nato, no momento em que narrava as suas histórias, levantar-se para mostrar suas cicatrizes, dando ênfase aos perigos e às consequências que a vida no campo lhe trouxe, às lembranças que as marcas do corpo lhe remetiam e ao saudosismo que por vezes surgia em seu olhar. Assim, sua atitude indica uma correlação entre memória e corpo. Por sua vez, não pretendo debater a temática do corpo, um dos grandes debates da antropologia (Mauss, 2003 [1934]; Viertler, 1979; Goldman, 1996), nem a tornar central nesta etnografia.

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Gostaria apenas de alertar ao leitor que, no caso de meus interlocutores, a memória se produzia também por meio do e no corpo. Com o corpo, os vaqueiros descreviam as suas aventuras. E nele faziam transparecer o que as palavras às vezes não conseguiam explicar. Acionando-o, os vaqueiros são capazes de rememorar imagens e lugares. Para tanto, é preciso mobilizar histórias e palavras na devida tonalidade enunciativa.

Logo, entre invenções e permanências, estratégias contornáveis e obstáculos insuperáveis, o sofrimento e a luta refletida no corpo dos vaqueiros dão outras nuances, matizes e tons da categoria ser vaqueiro. A partir das narrativas, percebe-se que é na relação da vida com o sofrimento e na relação deste com o passado que há a satisfação completa de um nome, e, não menos, a contemporaneidade de ser vaqueiro desde um jogo permanente de perspectivas. O vaqueiro apresenta os perigos, os imprevistos e as marcas corporais como provas irrefutáveis de sua coragem, além disso, sugere que a

coragem que tanto valorizam só é o atributo primordial de qualquer vaqueiro bom face ao destaque histórico de alguma rês (principalmente de um boi), de algum cavalo bom e das caatingas. O que indica, portanto, uma intencionalidade territorial e interespecífica.

Mais uma vez, o território, suas características e a mobilidade do vaqueiro se tornam os referenciais mais importantes da vida no campo. Se uma caatinga for mais

braba do que outras, o seu gado será mais brabo e melhor terá que ser o vaqueiro. Mais

corajoso, mais catingueiro, mais estragado de mato. Assim, o gradiente qualificativo e conceitual nunca se esgota diante dos possíveis contextos de atuação. Neste caso, ao lado de um vaqueiro de verdade, vemos “operações de caracterização” (Stengers, 2015) ultrapassarem a própria oscilação entre ser e não ser vaqueiro. Genézio de Nato apresenta não só as variabilidades de ser vaqueiro (de ser mais vaqueiro que outros), mas também o estatuto de sua verdade como o vaqueiro ou o rei dos vaqueiros. Alguém que sabe da

luta no mato mais do que ninguém. Que é estragado, catingueiro e de maior prestígio. Ele não parte de si mesmo e de suas realizações passadas para nos dizer quem é vaqueiro ou não. Ele o faz para nos dizer o que é, afinal de contas, o vaqueiro de verdade e como foi sê-lo um dia. Para isso, deve-se compreender os agenciamentos com os animais, com o território e consigo mesmo. Mas também os agenciamentos com o corpo, com a memória e com as lembranças. No mínimo, é preciso que o sujeito que fala tenha vivido o que há de mais glorioso na verdade histórica – tal como destacamos na seção 2.1 deste capítulo.

Muitos animais e muitos lugares não se apresentam mais como realidade. Mas permanecem completamente claros na memória. Verifica-se, dessa forma, a singularidade

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humana se complementando através da individualidade histórica de bois, cavalos e caatingas. E é justamente o estatuto das relações entre humanos e animais, pela chave da virtualidade e da oralidade, que tentarei analisar no capítulo posterior, duas relações que parecem centrais nas histórias que serão analisadas: 1) a relação entre imagens, lugares e lembranças e 2) a relação entre corpo, memória e sofrimento – principalmente quando os vaqueiros dizem o que significa ser vaqueiro pelas verdades transmitidas nas narrações. Tudo isso configura o quadro analítico que virá no capítulo seguinte e que será o tema central das histórias de vaqueiro. Ao mesmo tempo, será o matiz em que se basearão a minha análise, no mesmo capítulo, de vaqueiros de vaquejada e de vaqueirinhos (portanto, os que não são vaqueiros de fato e de direito) dando carreiras nas festas de

pega de boi no mato. Nos momentos de celebração à tradição.

Por fim, esmiuçar os tons discursivos, ouvir as histórias e deixar de lado o laboro foram os referenciais criados por Genézio de Nato. Seu laboro estava na produção e na manutenção dos roçados, mas suas marcas e provas como vaqueiro não estavam detidas, como em Luiz Cordeiro, no ato de laborar. Elas estavam, na verdade, registradas no corpo, destacados nas imagens que compunham as paredes de sua casa e nas lembranças transmitidas pelos objetos. Na ocasião de minha visita, a prova maior de seu prestígio era o diploma, a grande imagem que a qualquer um transmitia de imediato a sua reputação. Como se pôde constatar, em sua casa prevalecia, além dos arreios e da indumentária, uma estética da fé e da família. Mas prevalecia também uma estética de si. Nesse sentido, o que as imagens e os objetos transmitiam em conjunto era a enunciação do que o vaqueiro foi um dia. Imagem e objetos reafirmavam a posição de bom vaqueiro. E as histórias não apenas preservavam o mundo, como também o transformavam.

Um dos resultados de minha visita, foi justamente o desejo do vaqueiro pela imagem. O seu desejo se conjugou, em certo sentido, com os meus propósitos etnográficos. Eu também torno imagético, nesta etnografia, parte do material que recolhi com a minha câmera fotográfica. Em síntese, o que pretendi com as fotos, ao longo deste texto, foi trazer “o tempo do outro” para a descrição etnográfica, como evoca Fabian (2013 [1983]), isto é, trazer o fluxo da temporalidade nativa e compartilhá-la analiticamente. Segundo o autor, ao nos inserimos na temporalidade do “outro” e conjugá-la a favor do nosso “presente etnográfico”, o antropólogo deve evitar o distanciamento temporal tradicionalmente assegurado pela antropologia: de posicionar o autor no presente narrativo e o “outro” no passado narrado (idem, 100).

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Assim, na tentativa de analisar as relações de dois vaqueiros com o tempo (o vaqueiro-professor otimizando e superando suas relações espaço-temporais, e o vaqueiro

véio reformulando sua esperança em superar os obstáculos da seca), a minha intenção foi trazer uma aproximação enunciativa entre a pesquisa de campo e a escrita etnográfica, de modo a conjugar as temporalidades pesquisadas. Além disso, o uso das imagens serve para dar os contornos das reflexões dos interlocutores e da contemporaneidade de seus corpos em meus quadros analíticos. No entanto, de que modo o fazer? Isto é, de que forma enquadrá-los?

Essas foram as questões que vieram à tona dias depois, quando deixei a morada do vaqueiro véio, para quem a câmera fotográfica se relevou funcional à medida que me pedia uma imagem, um registro, um recorte do tempo. Quando Genézio me pediu para que o fotografasse e levasse comigo a sua imagem para São Paulo, talvez o seu desejo fosse o de guardar para si mais uma história, mais algumas parcelas de sua temporalidade. Meses depois, retornei para dar-lhe como agradecimento um retrato. Se o resultado foi como o vaqueiro gostaria (de ser enquadrado da forma como realmente desejava), não sei. Mas a imagem abaixo se encontra doravante pendurada em sua parede. Ora, se o vaqueiro fizera de sua casa um templo à memória, desta etnografia o vaqueiro fizera, certamente, um momento de reverência à própria imagem.

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Capítulo III

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