Improving LSHADE-EpSin Differential Evolution
7.1 LSHADE-EpSin
7.1.1 First half of search: Sinusoidal ensemble
Os procedimentos semânticos para análise do discurso produzido pelo enunciador, o figurinista Alceu Penna instala-se na totalidade de uma dada enunciação com os seus desenhos ou figurinos, produzidos e criados conforme seu crivo de leitura do mundo em que estava inserido, constituído de figuras e temas que concretizam seus valores assumidos como sujeito do discurso.
Estas figuras e temas são construídos, concomitantemente, entre o discurso e a narrativa com os quais nos deparamos. No espaço de mediação da enunciação, pelo qual
enunciação (1974, p. 10).
Na imagem da figura 25, na qual o figurinista Alceu Penna aborda o tema do casamento, são manifestados diferentes modelos de vestidos de noiva que se homologam na relação entre os dois planos de linguagem: conteúdo e expressão. É na enunciação que estes planos se constroem e por suas escolhas e arranjos Alceu Penna mostra ao analista os seus modos de construção autoral e sua relação com outros estilistas, que também possuem sua própria constituição autoral. Ocorre, portanto, um processo de intertextualidade, que enreda um texto matriz em outro texto que com ees interage dialogicamente. Precisamos compreender como se dá a criação de Alceu Penna tendo por base criações de outros estilistas.
A intertextualidade é um modo de funcionamento do texto, que acontece no terreno da enunciação, no dialogismo entre o eu da enunciação e o outro de outra enunciação de um enunciado. Na manifestação textual de Alceu Penna visualiza-se um diálogo entre este figurinista que assume um eu de sua enunciação com o eu enunciador de outros estilistas como Pierre Balmain, Hubert Givenchy, Jacques Heim, Jacques Fath, Carven, Christian Dior. Por meio dos desenhos dos figurinos como podemos observar nos enunciados é possível a depreensão dessa dialogia enunciativa. Os estilos da moda européia são mostrados não somente nos traços dos desenhos, mas também nas palavras de Alceu Penna, manifestando as outridades presentes na diversidade da manifestação textual. Ele não as esconde, ao contrário, as nomeia e, particulariza esses
1 Ver também em COURTÉS, Joseph e GREIMAS, Algirdas Julien. Dicionário de Semiótica. Tomo I.
vários textos, conscientemente ou não, já que as operações na matéria significante são, por definição, intertextuais” (VERÓN apud KOCH, 2000, p. 48).
Alceu Penna inspira-se na moda européia para utilizar-se dos estilos dos seus criadores de moda em seus figurinos desenhados. Desta forma mostra que dialoga com outros estilos, mantendo as características do seu traço como o tipo de corpo magro, o quadril em evidência, a noção de jogos de olhares ora em devaneios, ora confrontantes, ora em cumplicidade, ora em sedução; o movimento nos corpos e gestos, as posturas, o portar-se diante dos outros que as olham marcado por uma intencionalidade do “não querer não ser visto” e os detalhes nos acessórios e adornos. Estes são os elementos complexos na sua trama que contribuem para a construção do estilo do fazer criativo de Alceu nos figurinos do vestuário em si. Seu estilo construído a partir de outros estilos traz nele a sua visão de mundo, crenças e valores próprios mas também esses dos outros. A questão do estilo, Norma Discini reitera, é compreendida na construção de um estilo por outro:
[...] um estilo, construído sobre o outro, mostra esse outro e, ao fazê-lo, mostra o próprio direito, ou seja, o mundo de crenças que o constitui enquanto eu, e o próprio avesso, ou seja, as crenças do outro, enfrentamento sem o qual o eu não se constitui [...] (2009, p. 224).
Figura 25: “Noivas” - desenhos de Alceu Penna da coluna Figurinos, na revista O Cruzeiro, 1954, vol. 29 e pg. 78/79.
Para as belas noivas de maio, Paris nos envia suas últimas criações através de desenhos de Alceu Penna.
Na página ao lado: 1.o ) – Um vestido em organdi com bordados de renda valenciana na blusa e na saia formando um avental. Uma larga faixa de tafetá drapeada completa. PIERRE BALMAIN.
2.o) – Um modêlo em brocado, criação de Hubert
Givenchy – a saia pregueada na frente prolonga dos lados uma prega que cruza e forma um cinturão. A blusa é simples e de corte severo.
3.o) – JACQUES HEIM – Escolheu um organdi com
desenhos aveludados para o vestido e um organdi liso para a gola e bordados de frente da saia.
4.o) – JACQUES FATH –– Realizou em renda grossa
rebordada de “soutache” um vestido de saia sòmente “evasé” com bolero que oculta um vestido de baile para depois de dia do casamento.
Nesta página, temos:
5.o) – Um vestido com tiras de bordados suíço muito rico,
entremeados com barras de organdi liso. Criação de CARVEN, e afinal um vestido em “moirré” branco e prata, de JACQUES FATH, de corte severo quebrado pelo original, véu longo guarnecido de um bordado em renda “chantelly”. Na cabeça um tocado formado de pequenos laços do tecido do vestido.
6o modelo a lá Jacques Fath 3o modelo a lá Jacques Heim 4o modelo a lá Jacques Fath
A configuração topológica que abrange o sincretismo nestas páginas da coluna apresenta - nos estes seis modelos de figurinos de moda do segmento noivas. Engloba o movimento dos corpos que estão levemente inclinados para a esquerda, inclui também o movimento das roupas, em seus babados e no acessório específico do véu da noiva que se movem para direita. Há também o movimento que está presente no verbo visual da expressão do título
Noivas em itálico, que segue o movimento das
outras figuras da expressão, como o vestido, o véu e os gestos dos braços e das mãos. A pose se diversifica para dar evidência ao ventre como se pode ver no primeiro modelo, evidência ao quadril em quase todos os modelos. No terceiro modelo em primeiro plano, posa de lado colocando em destaque os seios e o ventre. E no quinto modelo podemos observar a formação de losango que põem em ênfase os ombros e braços que dão suporte ao buquê de flores. Existe um conjunto de elementos complexos que proporcionam forma aos modos de presença estabelecidos nesta estrutura textual e também dão força aos regimes de interação e visibilidade que se instalam na estrutura deste texto sincrético.
desta imagem que se compõe de sobreposições distintas de linguagem, ora uma linguagem verbal escrita, ora uma linguagem verbo-visual, selecionamos nosso ponto de partida das marcas de um sujeito pressuposto neste todo. Observando que na totalidade deste texto e na sua sincretização operam uma relação de comunicação interativa, tentaremos descrever o que o texto diz e como ele opera para dizer o que diz. Do nível discursivo operamos a passagem para o nível narrativo, considerando a primeira parte do enunciado: “Para as belas noivas de maio, Paris nos envia suas últimas criações através de desenhos de Alceu Penna”. Constitui-se a primeira forma de uma “estrutura actancial” segundo Greimas (1974, p. 10) pois está implícita a relação sujeito/objeto, a relação destinador/destinatário e a relação adjuvantes/oponentes. O programa narrativo que se estabelece pelas posições actanciais é: PN = F[S1 → (S2 ∩ Ov
)]2. Ele modaliza numa função o papel criativo de que a revista O Cruzeiro - destinador dotado do seu fazer fazer de um saber e poder fazer, põe a circular aos leitores, entregando-lhes as últimas criações nos desenhos de Alceu Penna, na sua coluna Figurinos, que assum ser um destinador julgador do programa narrativo que é valorizado e sancionado positivamente. Dentro de um contexto comunicativo em que se
2 De acordo com a teoria da semiótica discursiva do plano do conteúdo no nível narrativo da sintaxe do
texto. E segundo Denis Bertrand o programa narrativo “é a estrutura sintáxica elementar que vem “musicar” o paradigma actancial, pela relação entre o sujeito e objeto, instaurados como hiperactantes” (2003, p. 290). PN = programa narrativo F = função → = transformação S1 = sujeito do fazer S2 = sujeito do estado ∩ = conjunção Ov = objeto-valor
noivas de maio) ∩ Ov (seguir as últimas criações de Paris = estar no grito da moda, vestir-se com o novo, aquele ditado por Paris)].
Os demais modelos do programa narrativo indicam os programas de uso subseqüentes.
Vemos ainda que os modelos, destas estruturas actanciais da construção do sentido em uma sintaxe narrativa, seguem as etapas de um enunciado elementar para um programa narrativo, depois para um percurso narrativo e, por fim, para um esquema narrativo que faz parte da organização da narrativa. Atemo-nos na segunda parte do enunciado, em que se caracteriza a passagem de estilo dos criadores franceses de moda citados no próprio enunciado, configurados no plano do conteúdo, como programas narrativos de uso, para os modelos dos desenhos de figurinos criados por Alceu Penna, no plano da expressão, a manifestação plástica dos elementos que se integram, a qual difundia a moda internacional para o público brasileiro.
A partir do seu traço que constrói um tipo de corpo, de roupa, de gesto e de olhar, cada categoria desta manifesta-se no plano da expressão ou no plano do conteúdo e homologam-se entre si. Por meio destas categorias, vamos identificar com as recorrências e as diferenças, se elas organizam uma dinâmica que se distribui no todo das páginas. Por exemplo: o tipo de corpo que podemos ver em todos os modelos, magro e de cintura bem marcada, bem como as silhuetas, os detalhese os olhares. No tipo roupa, os figurinos de noiva, cada qual com seu modelo à la Pierre Balmain, à la Hubert Givenchy, à la Jacques Heim, à la Jacques Fath e à la Carven. Surgem as diferenças nos tipos de mangas, de punhos e decotes. Além dos diferentes tecidos,
explicativo:
Quadro 23: Categorias de expressão e conteúdo do figurino de noivas.
Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3 Modelo 4 Modelo 5 Modelo
6
Estilos À la Pierre
Balmain À la Hubert Givenchy À la Jacques Heim À la Jacques Fath À la Carven À la Jacques Fath
Corpos Magro, longilíneo,
silhueta ampulheta Magro, silhueta ampulheta Magro, longilíneo, silhueta ampulheta Magro, silhueta ampulheta Magro, silhueta ampulheta Magro, silhueta ampu- lheta
Peças Vestido longo Saia e blusa Vestido
longo e sobre saia Vestido longo, saia e bolero Vestido longo Vestido longo
Mangas Compridas com
punho francês Compridas Compridas Compridas Curtas, tipo capa Compri-das
Decotes Gola com
colarinho Redondo Gola com colarinho Em V Em V Em V
Tecidos Organdi liso Brocado Organdi liso
e estampado Não referido no texto Organdi liso Moirré
Bordados Renda valenciana Não referido
no texto Não referido no texto Renda grossa
soutache Tiras de bordado suíço Renda chante- lly
Acessórios Faixa e véu longo Véu curto,
tocado e brincos Véu curto, tocado, brincos e luvas Véu longo, tocado e brincos Véu longo, tocado, luvas e buquê Véu longo, tocado, laços, faixa, luvas e brincos
Os programas de uso que se formulam, a seguir, referem-se aos modelos que imitam uma moda internacional, da qual Alceu Penna desenvolve a criação do figurino de moda para o segmento de noivas, imprimindo seu modo identitário deste fazer criativo.
3 Este quadro teve como referência para formular as categorias listadas o livro “Fashion Design: manual
do enunciador que inclui a criação do estilo de Alceu Penna inspirado na moda internacional de outros criadores.
PRIMEIRO MODELO
PN = F[S1 (revista O Cruzeiro) → (S2 (desenhos à la Pierre Balmain de noivas de Alceu Penna) ∩ Ov (vestido em organdi)].
Neste primeiro modelo, o programa narrativo da visualidade no desenho desta figura feminina trata do que faz ver esse corpo portado de maneira que se mostra por meio da cabeça inclinada para cima, está para um alhures, o penteado se faz pelos cabelos castanhos presos juntamente com o véu que faz mover o corpo para traz. O olhar em devaneio, os seios e os quadris em evidência, a cintura demarcada pela faixa em organdi e as mãos fazem ver os detalhes da renda valenciana que está no baixo ventre.
TERCEIRO MODELO
PN = F[S1 (revista O Cruzeiro) → (S2 (desenhos à la Jacques Heim de noivas de Alceu Penna) ∩ Ov (vestido em organdi com desenhos aveludados e um organdi liso para a gola)].
A figura do corpo feminino desenhado de perfil trata de uma verticalidade dada ao corpo. A cabeça está inclinada para um alhures, e ainda coberta por um casquete que dá lugar ao penteado, o olhar está numa posição de altivez, sua postura ereta retoma o seu papel temático do casamento juntamente com seus valores de elegância, conservadorismo e recato. O contraste entre o liso e os desenhos aveludados produz efeitos de sentidos voltados para texturização dos materiais utilizados para a confecção deste figurino, além do cromatismo em rosa claro que manifesta as formas circulares dos desenhos no tecido. Os seios são destacados pelo tecido e o seu corte e os babados em organdi liso dão ênfase ao baixo ventre. O conjunto dos acessórios tipicamente de noiva constituem-se do véu curto, casquete e luvas brancas.
para baixo para um alhures. O penteado preso mais uma vez com o véu está correlacionado ao loiro dos cabelos, sendo estes, destaque no cromatismo do figurino. O olhar também se dirige para baixo, os seios e os quadris mais uma vez estão em evidência, além da cintura, o que tornar-se uma constante, as mãos posicionadas pra traz reforçam o volume do vestido dando ênfase nos seios e no baixo ventre. O estar vestido para o lugar e o tempo dos sonhos do sujeito, este sujeito que é um simulacro feminino que almeja o casamento.
QUINTO MODELO
PN = F[S1 (revista O Cruzeiro) → (S2(desenhos à la Carven de noivas de Alceu Penna) ∩ Ov (vestido com tiras de bordado suíço muito rico)].
como o olhar se dirige diretamente para o leitor no aqui e agora. A face rubro insinua um sorriso, apresentando alguns indícios de um fazer maquiar-se. O vestido em renda francesa de soutache promove a texturização do material têxtil, mostrando o recorte abaixo dos seios e salientando-os, mostra a cintura sendo demarcada novamente e o recato no decote em “v”.
O efeito de sentido na forma triangular está presente no todo deste figurino desenhado. Há um sincretismo que inclui as linguagens do corpo, do gesto e da roupa. O corporal abrange o olhar que se dirige para o alhures de um lado e a inclinação do tronco para o outro lado oposto, produzindo a sensação de movimento. Os braços flexionados ligam-se para servir de suporte ao buquê e configuram um losango, dando ênfase aos ombros. A continuidade das formas triangulares percorre a saia, na parte superior e inferior da mesma, assim o efeito de bordado suíço se dá pelo cromatismo rosa com a ruptura do branco.
Os modelos propostos pelo destinador significam a delegação das competências cognitivas de um dever fazer e um querer para as leitoras, se manter na atualidade da moda no seu casamento. Dessa forma, o modelo é uma fórmula de programa de competência ao qual a leitora pode ou não seguir, mas que lhe é posto como um argumento de autoridade de quem sabe e pode lhe convencer de que aderindo a sua escolha à sugestão é estar na moda.
O percurso do destinador, e também do co-adjuvante figurinista Alceu Penna, constitui-se do programa de competência de um fazer poder e saber-criar, tendo como resultado da performance a criação de novos modelos dos figurinos de moda de noivas.
Passando para o percurso do destinador-manipulador, deparamo-nos com a instauração do contrato para o convencimento do destinatário a cumpri-lo e surgem dois papéis actanciais do fazer-persuasivo ou fazer-crer que vai de encontro ao fazer-
com o leitor, olho no olho e aqui e agora. A cabeça está adornada com um casquete com um laço frontalmente fixado que acompanha um longo véu. Outro laço adorna a marcação da cintura, estando este para parte das costas. A cor azul reitera-se no laço da cintura e nos bordados franceses moirré. Nos acessórios, o branco do par de brincos reitera-se nas luvas brancas. Os seios estão destacados a partir do recorte da parte superior do vestido. E na parte inferior sobrepõem-se duas saias, a superior bordada produzindo mais volume e a inferior complementando o comprimento do vestido.
referências da moda internacional, especialmente da moda parisiense. Ele adota um estereótipo de mulher ocidental, européia, do primeiro mundo, de um corpo magro e esguio e com papéis sociais exercidos em determinado grupo social que se distingue dos de mais, que são figurativizados em seus desenhos para seduzir a sua leitora a querer ser um sujeito da moda.
Quadro 3: Percurso narrativo I.
Forma de manipulação Competência do
destinador- manipulador Fazer-persuasivo Fazer-crer Competência do destinatário Fazer-interpretativo Crer
Sedução saber e poder
dever e querer
querer-fazer querer-ser saber e/ou poder-fazer
saber e/ou poder-ser
O sujeito assumindo o contrato com o destinador, este o recebe uma recompensa, caso contrário ele recebe uma punição. No caso desta narrativa não ocorrem explicitamente estas sanções, elas são pressupostas. É uma narrativa de natureza prescritiva e descritiva, tem um papel informativo e indutivo. Mas ainda sim ocorrem estas relações pressupostas entre sujeito e objeto de valor.
Quadro 4: Esquema narrativo I.
4 Esta ação é fundamentada no nível da sintaxe narrativa do texto que prevê quatro classes de
manipulação no percurso narrativo: a provocação, a sedução, a tentação e a intimidação. Ver em Diana Pessoa L. de Barros, “Teoria Semiótica do Texto” e Denis Bertrand, “Caminhos da Semiótica Literária”.
criações de Paris desenhadas por Alceu Penna.
As estratégias que a moda aplica e explora, em síntese configuram-se numa ação de manipulação, implicando um percurso persuasivo e prescritivo de regras a serem seguidas. Os meios disponíveis e as condições favoráveis concretizam o alcance de objetivos específicos. Neste sentido a moda depende da interação entre o corpo e a roupa, dos meios de comunicação e da produção de discursos, de objetos e de valores. E os textos que permeiam este mundo da moda, encontram-se, segundo Ana Claudia de Oliveira “[...] as orientações volitivas que animam o estado desejante dos consumidores. Mas a exposição desses a tantas manipulações para produzir o querer, acaba restringindo as ocasiões para se gozar o sentimento de satisfação dos desejos realizados e o prazer de plenitude” (2002, p. 129).