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First- and Second- Order Reliability Methods (FORM/SORM)

O amadorismo das primeiras décadas no futebol brasileiro permitia que uma manutenção de classe fosse feita, ou seja, além dos requisitos extremamente restritivos para fazer parte dos clubes e associações desportivas, o não pagamento de salários para jogadores fazia com que o esporte ficasse limitado a quem tinha reais condições financeiras de praticá-lo. Entretanto, percebendo o impressionante desempenho de jogadores provenientes de classes mais baixas, alguns clubes brasileiros encontraram formas de burlar as barreiras impostas pelo amadorismo vigente. A aceitação desses atletas passou a ocorrer em ritmo lento no final dos anos 20, acompanhada de uma prática que se tornaria frequente, o pagamento de “bichos”, “manobra” que ficou conhecida como o amadorismo marrom. Os jogadores recebiam um “cachorro”, “galo”, “vaca”, “coelho”, quantias que variavam de 5 mil a 100 mil-réis.

Como não podiam receber salários dos clubes, por serem amadores, os jogadores recebiam prêmios por cada jogo disputado. Os prêmios variavam de acordo com o resultado da partida. Quantias maiores nas vitórias e menores nas derrotas. Quanto melhor o jogador ou quanto maior a importância do jogo, maior era o bicho pago pela diretoria. (SILVA; SANTOS, 2006, p. 115).

A criação de empregos fictícios para comprovar uma atividade amadorística pura era outra artimanha da época,

Muitos homens de cor, de antemão desencorajados pela dificuldade de ascensão, tornados anteriormente incapazes de enfrentar as exigências da vida, vira sua hora chegar. Daí a seriedade com que jogavam, com que punham tudo no jogo: este tornou- se, como a embriaguez do álcool e da dança, um caminho de fuga, certamente um caminho que parecia ir para cima. Apenas poucas décadas antes havia sido abolido o sistema de escravidão. (...) Dar pontapés numa bola era um ato de emancipação. (ROSENFELD, 1993, p. 85).

Mesmo com essa prática, os clubes do país não conseguiam impedir a saída de jogadores que eram assediados por clubes internacionais, principalmente aqueles atletas com sobrenomes italianos, já que esses tinham a entrada facilitada na Itália, um dos mais promissores mercados

do futebol no período. Somado a essa situação, como o amadorismo marrom já era uma artimanha de conhecimento público e praticada pela maioria dos clubes, a ideia de inserir trabalhadores de forma oficial nos clubes já não soava tão absurda. O próprio presidente Getúlio Vargas utilizava dos discursos que promoviam a classe de trabalhadores, o “homem trabalhador” era uma das bandeiras nacionais.

O futebol carioca foi responsável por conduzir as discussões que culminariam na profissionalização do esporte no país. Apesar do contexto político propício a essas significativas alterações, o processo de profissionalizar o futebol foi cercado por tensões e opiniões divididas. De um lado, as classes altas em busca do que era refinado e exclusivo, de outro as classes operárias que surgiam no contexto de urbanização dos grandes centros do país.

O amadorismo, como uma ideologia elitista, produtor e promotor do fair play, seria esgarçado com a disseminação e popularização dos esportes. Os bairros populares vislumbravam a possibilidade de os clubes de futebol se converterem em uma forma de sociabilidade e de pertencimento, além de aproximação entre iguais e de um centro estratégico para a manutenção de vínculos sociais. Com isso, passaria a vigorar, no plano das ideologias, dois modelos distintos de adesão à esportivização. (ABRAHAO, 2010, p.79) .

A Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), entidade filiada à Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e responsável pelos campeonatos, serviu como palco de disputas e interesses no campo desportivo. Quando por orientação da CBD a decisão foi por manter o caráter amador da modalidade, os clubes que queriam profissionalização decidiram romper com a AMEA. Em janeiro de 1933, é então fundada a Liga Carioca de Futebol (LCF) com os cinco times que não aceitavam mais o amadorismo: Vasco, Bangu, Fluminense, América e Bonsucesso. Na sequência, o Flamengo aderiu a liga. Ainda em 1933, em março, a LCF consegue um elemento de peso no debate sobre a profissionalização, a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA) institui o profissionalismo no estado de São Paulo, nela integraram: Santos, São Paulo, Corinthians, Portuguesa de Desportos, Palestra Itália e São Bento.

Contrários as ideias da CBD, LCF e APEA organizaram uma federação independente para administrar as competições dos clubes em regime profissional, a Federação Brasileira de Futebol (FBF) foi criada, porém ainda sem reconhecimento da FIFA. A profissionalização do futebol representou um marco, era a inserção de populares no espaço dominado pela elite.

O futebol ainda estava se estruturando no Brasil quando, em 1933, aquela atividade amadora oficialmente se converteu em profissão. Naquele contexto, o Brasil vivia a consolidação do trabalho livre oriundo da consolidação do capitalismo pós- escravidão. A implantação dessa nova ordem gerou uma concorrência entre os cidadãos brasileiros. Vivendo o período pós-abolição e a Nova República os cidadãos brasileiros passaram a respirar os ares da igualdade. A partir daquele momento, passaram a ser reconhecidos como iguais perante a lei. Isso demandou uma nova organização das relações de poder. O futebol parecia ter se apresentado ao negro, diante das mudanças estruturais, como um palco de visibilidade e contestação dos estereótipos impregnados na cultura, um meio de expressão positiva de identidade e um espaço que contribuiria para a mobilidade econômica e social em tempos de preconceito mais explícito. (ABRAHAO, 2010, p.9).

Venceu a profissionalização. Mais do que lazer, os principais dirigentes do futebol entenderam que o esporte era um negócio rentável, capaz de produzir lucrativas receitas aos clubes, sendo assim, a abertura e o investimento em jogadores talentosos, que na maioria das vezes se encontravam nas classes mais baixas, fortaleceu a necessidade de tornar a profissionalização unanimidade (SILVA, 2008).

Entretanto, pondera Abrahao (2010, p.86) sobre uma ressalva em relação à participação dos negros, mulatos e brancos pobres, “ainda era negada a possibilidade de se tornarem sócios dos clubes. Esses atletas eram admitidos como empregados pagos, sem nenhum direito à vida social dos clubes”. Ainda assim, o preconceito racial não impediu a aproximação dos negros com o esporte, em poucos anos, o futebol foi convertido na prática esportiva número um como destaca Freyre (2004, p.25) sobre o desenvolvimento do futebol transformado "não num esporte igual aos outros, mas numa verdadeira instituição brasileira, tornou possível a sublimação de vários daqueles elementos irracionais da nossa formação social e de cultura”.