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6 Contaminants in Soil

6.4 Contaminants under study

O ano de 50 tem um peso muito grande na história do futebol brasileiro. O mundo criou inúmeras expectativas sobre o campeonato, afinal foi a primeira competição relevante que ocorrereu depois do término da Segunda Guerra Mundial, e o Brasil havia adquirido um status importante junto a FIFA pela participação anterior em três copas (POLI; CARMONA, 2006). Enquanto os europeus reconstruiam cidades, moral e economicamente num pós guerra que deixou cicratizes, o país era tido como uma nova nação, em desenvolvimento e possível potencial.

No Brasil, a industrialização e consequentemente a entrada do país entre as nações do Primeiro Mundo fortaleceram os debates sobre os discursos raciais vigentes nos anos 50, discurso esses que tinham como principal característica encontrar soluções para a integração do negro nessa sociedade que passava por modernização, “a saída possível era fortalecer a noção de que existia uma defasagem entre brancos e negros que o processo de miscigenação não tinha sido capaz de suplantar e, assim, era preciso entender que havia diferenças históricas entre brancos e negros”, conforme Silva (2008, p. 122).

Entretanto, de acordo com Monteiro (2003), o discurso racial entrou em confronto com o mainstream da intelectualidade brasileira da época que, em sua maioria, acreditava na

miscigenação racial como uma saída para os problemas inerentes ao “tipo nacional”. Surgiram no campo intelectual e político os discursos “pró-negro”, bem como simultaneamente a intensificação do que Monteiro definiu como a “cisão racial”, diferença intransponível entre brancos e negros.

Apesar disso, a sociedade de 50 tentava mobilizações para o que o discurso de integrações social entre as raças fosse verdadeiramente possível. Em 1951, a Lei Afonso Arinos foi aprovada para coibir ações discriminatórias contra os negros. No início também dos anos 50, um projeto Unesco realizado por pesquisadores de diversas áreas do conhecimento observava as relações raciais no Brasil, estudos principalmente motivados pós Segunda Guerra Mundial e os debates sobre raça que ficaram como herança negativa do período. O que

acontecia em solo brasileiro era, de certa forma, um exemplo a ser seguido, já que a nação não vivia aparentemente experiências de conflitos raciais tão fortes quanto as que ocorriam no continente europeu naquele tempo.

Alguns sociólogos da época entendiam que as desigualdades raciais eram fruto de uma sociedade de classes em formação e que para que os negros fossem de fato inseridos na sociedade brasileira era necessário alterar as relações patrimonialistas desenvolvidas desde o colonialismo. Junto a essas vertentes havia ainda a crença de alguns na mestiçagem como a saída possível para tais desigualdades, como o escritor Gilberto Freyre, o jornalista Mario Filho e outros, que defendiam que o “complexo atávico” devia ser superado para que ele fosse inserido na modernidade (SILVA, 2008). O contexto social encontrou os recortes de uma derrota arrasadora e, portanto, elementos para que a questão racial fosse colocada em prova. Daí então explica Mario Filho, por exemplo, que o ano de 50 pode ter representado um recrudescimento do racismo.

A base do time Brasil era formada por jogadores que integravam o plantel do Vasco da Gama, equipe campeã sul-americana em 1948 e que durante o decorrer da Copa do Mundo demonstrou que tinha mesmo o DNA de vencedor aplicando nas duas partidas que antecederam a final igoleadas (7x1 contra a Suécia e 6x1 contra a Espanha). O primeiro placar elástico fazia com que a expectativa entre os brasileiros crescesse, conforme o registro de um jornal da época: Como fugir do assunto do dia? O casal Quadros faz sete anos de casados e é no estádio que eles vão comemorar. A minha cozinheira vai levar o filinho de 6 anos para que “não esqueça nunca mais” ... O prefeito prometeu outro discurso de incentivo. E os espanhóis que no início do campeonato declararam que só tinham medo da Suécia? O Uruguai já mostrou que eles não são sopa. Que faremos nós? Se perdermos Flávio Costa vai ter que abandonar a sua já iniciada campanha para vereador, se vencermos será o mais votado do mundo. Até a minha avó está com vontade de ir ao jogo...Muita gente dormiu na rua e amanheceu no campo. Aumentou grandemente, segundo informou o senhor Rosa da Farmácia Jacy, a venda de calmantes de ontem para hoje. A Associação Atlética do Senado Federal pede ao público que cante o hino nacional. Para facilitar o pedido, os jornais andam publicando a letra de “ouviram do Ipiranga”. O presidente Dutra ontem deu seu palpite (particular) Brasil 3x2 Espanha... Vamos Ademir, meu nego. (DIÁRIO CARIOCA- 6.762: 13/07/1950, p.6).

Nesse clima festivo e de “já ganhou”, a disputa pela taça contra o time uruguaio no Maracanã foi muito aguardada pelos torcedores brasileiros, mas transformou-se na “tragédia” histórica do Maracanazo (Brasil 1x2 Uruguai). O Brasil abriu o placar da partida no primeiro

tempo, o Uruguai empatou e aos 34 minutos do segundo tempo saiu o gol da vitória uruguaia com Ghiggia. Na falha do goleiro Barbosa, o Uruguai marcou e a equipe brasileira sem poder de reação perdeu o mundial. Os jornais da época destacaram uma certa apatia dos jogadores em campo:

48 horas transcorridas, ainda ninguém conseguiu explicar como o fato aconteceu. O Brasil perdeu o campeonato mundial quando tudo parecia preparado para a vitória. Resiste apenas enquanto o tempo não passa uma impressão amarga de alguma coisa que faltou aos brasileiros e que sobrou aos uruguaios. Decisão, Bravura, Espírito de luta e principalmente a capacidade de vencer. (DIÁRIO CARIOCA- 6.766: 18/07/1950, p. 8).

Entretanto, do sentimento de derrota foi necessário encontrar um responsável para o que tinha acontecido no Maracanã, pela falha no momento do gol da virada uruguaia, o goleiro Barbosa ficou marcado como o grande vilão da história. Em tese de dissertação, Costa (2008) discute sobre essa classificação entre herói e vilão e traz elementos relevantes para explicar a “culpabilização” que ocorre depois de uma derrota. As narrativas que foram construídas a partir da Copa de 50 foram fruto de uma tentativa de explicar o que havia acontecido, já que antes do jogo criou-se uma atmosfera que dava um peso imenso a disputa e trasformava a partida em uma oportunidade que não poderia ter sido disperdiçada. Diante de 200 mil espectadores no Maracanã, seria a maior tragédia até então vivida pelo esporte brasileiro:

Apesar de terem sido os responsáveis por levarem a seleção brasileira para uma inédita final de campeonato mundial, projetando o futebol nacional para quase todo planeta, os jogadores que compunham o selecionado brasileiro na Copa de 1950 deixaram sua condição de heróis que eles ostentavam antes do jogo Brasil X Uruguai, ao não conquistarem a Taça desejada e sobre a qual se havia depositado tanta expectativa. O vice-campeonato os transformara em simples mortais. A perda do título mundial deixava claro que apenas a vitória poderia ter conduzido algum jogador ou o selecionado como um todo ao trono do futebol nacional. Da derrota nasceu uma outra tipologia de jogador: o vilão. (COSTA, 2008, p. 12).

O vilão, Barbosa, até o fim da vida carregou a frustração e o peso de uma responsabilidade que, obviamente, num esporte coletivo, não era exclusiva dele. O trecho abaixo mostra como a imprensa esportiva interepretou o que aconteceu no Maracanã, considerando preponderante para a derrota a forma como além de Barbosa, Bigode atuou em campo na final:

(...) Quando Bigode, duro, dando aqueles botes de cobra, começou a dominar Gighia, Obdulio Varela primeiro foi para cima de Gighia. Deu-lhe uns gritos, uns empurrões. Para Gighia deixar de ser covarde. Depois, logo em seguida, Obdulio Varela agarrou Bigode pelo pescoço. Não lhe meteu a mão na cara. Mas que o balançou em safanões, balançou... se Bigode reagisse seria aí expulso, o Brasil ficaria com dez... Bigode obedecera às ordens terminantes: não podia reagir. Bigode e todos os outros jogadores... com as faces ardendo de vergonha, contendo-se, Bigode não dominou mais Gighia. Os dois gols uruguaios saíram dos pés de Gighia [...] Poucos eram os que não choravam, deixavam-se ficar numa cadeira numerada, num degrau da arquibancada, num canto da geral, a cabeça sobre o peito, largados. Ou então esbravejavam, batendo no peito, apontando para o campo. Uns acusavam Flavio Costa. Mas quase todos se viravam era contra os pretos do escrete: – o culpado foi Bigode! – O culpado foi Barbosa! (FILHO, 2003, p.287-289).

Apesar da responsabilidade “compartilhada” com o companheiro de equipe, foi principalmente Barbosa que ficou marcado como vilão, conceito que impregnou no imaginário

popular e prejudicou Barbosa que não conseguiu ao longo da carreira (mesmo que tenha sido vitoriosa no Vasco, por exemplo) apagar esse rótulo.

Quando se fala em 50, ninguém pensa num colapso geral, numa pane coletiva. Não. O sujeito pensa em Barbosa. O sujeito descarrega em Barbosa a responsabilidade maciça, compacta da derrota. O gol de Gigghia ficou gravado na memória nacional, como um frango eterno (...) o que ele não esquece, nem a tiro, é o frango de Barbosa. Qualquer um estaria morto, enterrado, om o seguinte epitáfio ‘aqui jaz fulando, assassinado por um frango’. Então concluí de mim para mim: ‘esse camarada não morre mais’. (NELSON RODRIGUES, 30/05/1959, citado em O Extra, de 11/4/00). Quando a imagem do vilão é consolidada, tudo que acontece antes ou depois parece não valer mais. Mesmo que Barbosa tenha sido fundamental em todos os jogos que antecederam a final, e mesmo nas defesas que fez durante o jogo contra os uruguaios, o que ficou mesmo foi o gol marcado pela seleção do Uruguai, o “frango” de Ghiggia.

O estigma de Barbosa só fez ganhar força com o passar dos anos e sua carreira pareceu-nos ficar reduzida àquele momento, sem antes e sem depois. Eternamente marcado como o grande culpado pela derrota brasileira, sua carreira continuou por mais doze anos, mas a sombra da tragédia de 50 lhe acompanhou pelo resto dos seus dias. Barbosa chegou a ser convertido em um símbolo de azar, a ponto de em 1993 ter sido proibido de entrar na concentração da Seleção Brasileira de Futebol com a justificativa de que sua presença significava “mau agouro”. (COSTA, 2008, p. 84). Após o mundial de 50, Barbosa não teve a oportunidade de participar de conquistas com a seleção. Em 1952, no Pan-americano no Chile, O Brasil saiu campeão, mas apenas quatro jogadores da campanha de 1950 foram convocados: Bauer, Bigode, Ademir e Friaça. Em 1953, Barbosa chegou a jogar o campeonato Sul-Americano sem êxitos. No ano seguinte, foi convocado para a Copa de 54 na Suíça, mas acabou vetado por conta de uma lesão.

A principal pergunta que veio após 16 de julho de 1950 foi “Por que perdemos?”, desse questionamento emergiram teorias, e os jornais tiveram contribuição na construção dessa resposta. Até a Copa de 50, as derrotas da seleção brasileira eram justificadas por fatores externos, mesmo um terceiro lugar como em 1938, foi celebrado com euforia e aceito pela população, mas para a derrota em casa não havia justificativas. Por isso a força em centralizar a atenção num “vilão”, já que essa era a forma de tentar encontrar as respostas para o vice- campeonato. Alguns pesquisadores defenderam a teoria que Barbosa teria sido escolhido como principal responsável por ser negro. Outros historiadores, além do cronista Mario Filho como já citamos, acreditam que além do goleiro, mais dois jogadores também foram responsabilizados pelo fracasso: Juvenal (zagueiro) e Bigode (meio), os dois outros atletas negros do time. Segundo Lopes (1998 b), como muitas das críticas eram baseadas nas teorias raciais evolucionistas, os discursos dos intelectuais brasileiros fortaleciam a interpretação de que a mestiçagem comprometia a formação da raça, que seria necessário um

“embranquecimento” da população por meio de políticas públicas; Barbosa, Juvenal e Bigode são uma espécie de bode expiatórios para tais argumentos.

Autor da obra O Negro no Futebol Brasileiro, lançada em 1947, Mario Filho, usa do fato de 1950 para dar continuidade ao livro lançado três anos antes (abordaremos o assunto mais detalhadamente nos próximos capítulos) e reeditada em 1964 a versão inicial. Filho (2003), entre outros argumentos, narra episódios da Copa para contextualização de que um clima de racismo teria sido despertado no Brasil. Embora o futebol tenha se tornado um meio de mobilidade social e econômica para os negros na década de 50, Filho afirma que as tensões raciais foram novamente ativadas com a derrota para o Uruguai, assim, atribuindo aos três jogadores, segundo a própria população brasileira, a responsabilidade pelo êxito dos estrangeiros no Maracanã. Acontecimentos que contrariavam a tese inicial de Filho do futebol como terreno de integração de classes.

Os argumentos de Mario Filho seguem sendo constantemente revisitados por acadêmicos interessados em construir reflexões sobre o futebol e os impactos sociais. Entre esses trabalhos está o artigo de Santos; Capraro; Lise (2010), na produção acadêmica que analisa jornais da época e a obra de Mario Filho, eles destacam que Bigode e Barbosa aparecem como personagens centrais na derrota, mas que não há uma clareza que essa responsabilidade estaria associada a questão do preconceito racial, porque outros negros apareceram nos textos como atuação considerada satisfatória. Santos; Capraro; Lise (2010, p. 204) destacam:

As contradições que Mario Filho estabeleceu em sua própria fala, ao afirmar, por exemplo, que alguns negros da equipe ficaram alheios à Copa pela derrota, o que não aconteceria se o discurso contra Bigode e Barbosa realmente fossem de cunho racista. Tais contradições eram necessárias para corroborar a tese de que a brasilidade estava na miscegenação racial, presente na primeira edição de o NFB, agregando reconhecimento da existência do racismo. Nesse sentido, Mario Filho se utiliza do sentimento de inferioridade que o brasileiro apresentava diante do estrangeiro. Dessa forma, interessa-nos destacar que houve a relação do episódio da derrota com a questão racial e, principalmente, o quanto a Copa de 50 foi uma passagem marcante na história do futebol brasileiro e na própria construção do imaginário do torcedor no país.