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Finnfjord sett i forhold til risikodiskusjoneû i medisinen

O comércio fechara, permanecendo também sem funcionar as fábricas e as repartições. Os sinos não cessavam de emitir gemidos pungentes pelo ar. [...] A banda de música do Regimento Policial tomara posição à porta de entrada e no coro já se encontravam a orquestra «Carlos Gomes» e os componentes do Círculo Musical Religioso «Dom Antônio de Macedo Costa», ambos sob a regência do maestro Joaquim Franco. [...] À porta [da Catedral de Manaus], a banda de música rompeu em comovente marcha fúnebre e no coro, a seguir, a «mezzo-soprano» senhora Schiavinatto entoou a «Ária de Igreja» de Stradella, com acompanhamento de órgão e violoncelo. Prosseguiram os rituais da encomendação, e, em momento exato, a orquestra «Carlos Gomes» executou a «Marcha Fúnebre», de Petrella. Mais logo, foi o coro do Círculo Musical que ergueu o «Libera-me» de Cagliero, acompanhado pela orquestra, que finalizou a cerimônia com outra comovente marcha fúnebre (Genesino Braga).371

Época de florescimento do belo, de transformações, avanços e paz entre o território francês e demais países europeus. Assim, pode ser entendida a trajetória histórica francesa daquele

momento. “Por apresentar uma visão otimista do presente e do futuro, o final do século XIX e

início do XX foram caracterizados – seguindo a moda europeia – como sendo uma Belle Époque.372 A Belle Époque teve seu início por volta de 1871 e se estendeu até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, período de grandes obras públicas, com destaque para a construção de ferrovias, melhoria dos serviços de transporte, de ampliação dos espaços urbanos e da economia da borracha que tem na construção do Teatro Amazonas (1881), em Manaus, um dos seus símbolos. Obras e reformas que geravam milhares de empregos, incentivando o crescimento das cidades [...] “e multiplicando o mercado consumidor de

produtos industriais, como o de calçados, vestuário, bebidas etc.”373

Nascido na França exatamente após o término da Guerra Franco-prussiana em 1871, ele significou para os europeus – franceses especialmente – um período de esperança de paz duradoura, o surgimento da art nouveau, inovações tecnológicas e desenvolvimento da

371

BRAGA, Genesino. Missa ao Grande Morto. Crônicas, p. 49, s/d. Disponível em: <www.portalentretextos.com.br>. Acesso em: 30 maio 2012. Genesino Braga (Santarém/PA, 1906-1988), poeta paraense, escreveu essa crônica inspirado nas cerimônias fúnebres de Eduardo Ribeiro, que governara o estado do Amazonas entre 1892 e julho de 1896. Nota-se no repertório e entre os intérpretes a forte presença de italianos.

372

Del PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato. Uma breve história do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010, p. 219.

373

indústria. Paris tornou-se o lugar predileto dos artistas brasileiros que procuravam buscar aperfeiçoamento.

Há os que consideram que a Belle Époque brasileira teve seu início em 1889, com a Proclamação da República, e se estendeu até 1922, com a realização da Semana de Arte Moderna na cidade de São Paulo. No entanto, os reflexos dos acontecimentos ocorridos na Europa já se faziam sentir no Brasil pouco antes do período republicano. Aqui, bem no começo da República, nem tudo foi tão belo, pois os brasileiros conviveram com crises econômicas, marcadas por inflação, desemprego e descontrole na produção de grãos, como a supersafra de café e a Abolição da Escravatura. “Tal situação, aliada à concentração de terras e à ausência de um sistema escolar abrangente, fez com que a maioria dos escravos recém-

libertos passasse a viver em estado de quase completo abandono”.374

Nesse momento, o gênero marcha fúnebre atingiu o ápice, o ponto alto da sua produção e difusão na jovem República. Ansiosos em construir uma imagem positiva da República, instalada depois de um golpe militar, os chefes políticos viram na exaltação da imagem de lideranças da época um reforço importante para seu intento e exploraram os funerais de grandes brasileiros para essa finalidade.

Surgiram, na segunda metade do século XIX, ilustres compositores brasileiros interessados na composição de marchas fúnebres notadamente destinadas a homenagear seus pares falecidos. Algumas merecem consideração, pois envolvem homens e mulheres de destaque na sociedade brasileira. É o caso do diplomata e músico paranaense Brasílio Itiberê da Cunha. Havia acabado o ano letivo de 1869, a julgar pelo anúncio publicado pelo Correio Paulistano a 4 de março de 1870, Brasílio Itiberê escreveu sua “Marcha Fúnebre, em homenagem ao pianista estadunidense Louis Moreau Gottschalk, que havia falecido no Rio de Janeiro”, poucos dias antes, em 5/12/1869.375

O costume das derradeiras homenagens se estendeu por vários Estados brasileiros. O poeta Castro Alves quando morreu as recebeu e a notícia foi dada pelos periódicos brasileiros, a exemplo do Jornal da Bahia, que enalteceu a figura do jovem estudante: “Faleceu ontem às 4h da tarde o nosso jovem comprovinciano Antônio de Castro Alves, 4º ano de direito, autor do drama Gonzaga ou a Revolução de Minas, e do festejado livro de poesias Espumas

374

Del PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato. Uma breve história do Brasil, p. 219. 375

NEVES, José Maria. Brasílio Itiberê: vida e obra. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1996, p. 30. A música foi composta em Montevidéu, lugar escolhido pelo compositor para passar suas férias.

Flutuantes”.376

Sucederam-se honras ao poeta romântico que começara a delinear-se como ilustre. Uma “marcha fúnebre, composta por Cardoso de Menezes especialmente para aquela ocasião, foi executada ao piano pelo autor para enorme plateia que ocupou o vasto salão da Faculdade de Direito, em São Paulo, a 12 de agosto de 1871”,377 onde o poeta foi aluno. Enterros de pessoas importantes impelirem os compositores a criarem novas partituras, às vezes estreadas durante os velórios, para serem tocadas em ambiente fechado, como ocorreu com Castro Alves.

Chiquinha Gonzaga – considerada mulher de espírito elevado e caso pouco comum de compositora para aquela época – se entregou ao movimento de exaltação dos ilustres mortos e, em 1879, dedicou uma partitura para piano À memória da sempre chorada morte do General Osório do Marquês de Herval.378 Para a peça, Chiquinha Gonzaga, aos 35 anos de idade, recorreu ao motivo vivo e marcial já bastante difundido entre os músicos. A peça foi elaborada com bom número de compassos, ao modelo das marchas compostas por importantes compositores naquele momento, como Franz Lizst (1811-1886), que também se dedicou ao gênero em seu país.379

Naquele tempo, início do último quartel do século XIX, a participação de bandas de música em enterros ainda era modesta. Boa parte do repertório composto, notadamente para piano e orquestra, estava destinada ao espaço fechado. No entanto, após a Proclamação da República, nota-se uma substancial mudança nos costumes, quando então se intensificou a realização de grandes cortejos fúnebres no país, acompanhados de bandas de música tocando repertório específico para aquele momento.

Consideramos a morte de Carlos Gomes, compositor natural de Campinas (SP) e reconhecido internacionalmente pelas óperas que compôs tanto no Brasil quanto na Itália, como um marco

376

MATOS, Edilene. Castro Alves: imagens fragmentadas de um mito. São Paulo: EDUC/Fapesp, 2001, p. 58. 377

MATOS, Edilene. Castro Alves, p. 58. Oito anos mais tarde, Cardoso de Meneses acrescentou à partitura uma

homenagem: “À Memória do inclyto General Osório, Marquez do Herval”, morto em 4/10/1879, como consta no

exemplar disponível no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. 378

Marechal-de-exército Manuel Luís Osório (1808-1879). Natural de Conceição do Arroio, atual Osório (RS), general vitorioso na Guerra da Tríplice Aliança, faleceu na cidade do Rio de Janeiro. Quanto a Chiquinha Gonzaga, diferente de Cardoso de Menezes, a música foi composta originalmente em sua memória.

379

Compositor, pianista, professor húngaro e amigo de Chopin. Excelente pianista, criou marchas fúnebres sobre temas de outros compositores. Bom exemplo são Marche Funebre et Cavatine de Lucie de Lammermoor Opus S 398 (1839); Marche funèbre de Dom Sébastien (1844); Del l‟opéra de Gaetano Donizetti, Opus S 402; Marche funèbre, En mémoire de Maximilian I, Empereur Du Mexique; Dom Carlos – Coro e Marcha Fúnebre/Opus S 435 (de Giuseppe Verdi) (1867-1868) ou Funéirailles (O Enterro), obra citada pela pianista brasileira Magdalena Tagliaferro em seu livro Quase tudo. Cf. TAGLIAFERRO, Magdalena. Quase tudo; memórias. Tradução Maria Lúcia Pinho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979, p. 170.

significativo para esses eventos. Decorridos seis anos da Proclamação da República, faleceu o grande compositor em Belém do Pará no dia 16/9/1896, para onde havia se mudado em maio do mesmo ano. A morte do herói romântico, pranteada em toda a nação, seguiu modelo da panteonização de Victor Hugo, ocorrida em 1885 na França. Para ele, reproduziram-se as cerimônias fúnebres encenadas, em 1895, no Rio de Janeiro, que solenizaram a morte de Floriano Peixoto, o segundo presidente da República, que faleceu em 29 de junho.

As celebrações duraram dias: “os solenes funerais do compositor, o mitologizado gênio da música brasileira, revelariam, por meio dos seus simbolismos, uma construção que combinaria atitudes românticas e positivas diante da morte”.380 Não faltaram bandas de música e marchas fúnebres por onde passou em cortejo o corpo do maestro, e as pompas fúnebres ocorridas até o dia 8 de outubro, durante 22 dias, marcaram a sociedade local. Segundo a Folha do Norte de 20 de setembro de 1896, acompanhando o caminhar do cortejo ou postadas ao longo do seu roteiro, bandas de música executavam, “em surdina, sentidas marchas fúnebres”, tudo concorrendo para tornar mais graves as liturgias fúnebres do herói

cujo nome “estava gravado eternamente no mármore da história [...] como uma das glórias mais fúlgidas da pátria”.381

Atos fúnebres para Carlos Gomes tiveram lugar no Cemitério da Soledade, aberto em 1850 na cidade de Belém e que possuía certas características dos congêneres franceses do início do romantismo: era ajardinado e arborizado. Por solicitação de Campos Salles, que falou em nome da Câmara Municipal de Campinas, o governador Lauro Sodré do Pará consentiu que os restos mortais do autor de Il Guarany, Lo Schivo e Fosca, entre outras óperas, fossem trasladados para São Paulo, a fim de ser enterrado em sua terra natal. Mas impôs a condição de que o corpo fosse embarcado em um navio de guerra brasileiro.382

No dia 20 de setembro, o corpo foi levado para a Sé de Belém. Antes de entrar na igreja, “o

séquito passou em meio a bandas de música que executavam marchas fúnebres”.383

As exéquias foram celebradas pelo cônego Caetano Ribeiro, auxiliado por vários sacerdotes; a música ficou a cargo do maestro Roberto Barros – o mesmo que se incumbira da música nas diversas cerimônias fúnebres –, quando se pôde ouvir, entre tantas obras, “os compassos da

380

COELHO, Geraldo Mártires. O brilho da supernova, p. 36. 381

COELHO, Geraldo Mártires. O brilho da supernova, p. 145. 382

Por decisão da Presidência da República, o corpo veio no navio de guerra Itaipu, que deixou Belém no dia 8 de outubro em direção ao porto de Santos.

383

COELHO, Geraldo Mártires. O brilho da supernova, p. 161. Apesar de noticiada, a partitura de Carlos Gomes encontra-se desaparecida.

marcha fúnebre que Carlos Gomes havia composto em Lisboa”.384

Por onde passou o esquife, compareceu número incalculável de nacionais, de todas as classes sociais, entre eles a

“consternadíssima Chiquinha Gonzaga”, amiga e admiradora do mestre.385

O modelo francês de panteonização trazido para o Brasil revelou-se acontecimento de grande visibilidade desde fins da República Velha, tendo na morte os melhores exemplos dessa forma de se despedir dos filhos ilustres da pátria. As mortes belas de homens notadamente influentes revelaram-se acontecimentos de grande repercussão nacional. Ministros, escritores e artistas foram trasladados solenemente pelas avenidas das maiores cidades brasileiras para aclamação pública, sinal vivo de patriotismo. Benjamim Constant (1891), Floriano Peixoto (1895), Joaquim Nabuco (1910), Brasílio Itiberê Cunha (1913) e Rui Barbosa (1923) são nomes de figuras notórias, diga-se de passagem, tratadas como heróis nacionais e cujos enterros deveriam comover os nacionais para os quais não faltariam necrológios e bandas de música a lhes tocar marchas lúgubres.

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo – memorialista, político, orador e poeta membro da Academia Brasileira de Letras – suscitou, no Rio de Janeiro, então capital federal, três dias de luto, que foi palco de um solene funeral sem enterro. Ele era embaixador brasileiro nos EUA quando morreu na capital federal daquele país, onde houve cortejo solene do corpo até o cemitério local. As honrarias que lhe prestaram não foram despropositadas. “Amplamente reconhecida, a trajetória pública de Nabuco servia à jovem República brasileira que estava em busca de legitimação. O regime pretendia colocá-lo definitivamente no panteão dos heróis nacionais”.386 O traslado do corpo para o Brasil, a bordo do North Caroline, permitiu à jovem República, em busca de legitimidade, procurar criar um panteão cívico de heróis nacionais por meio de cerimônias fúnebres grandiosas com ampla participação popular.

As homenagens ao finado, iniciadas nos Estados Unidos da América, foram concluídas quase três meses depois quando o corpo finalmente chegou à capital brasileira no início do mês de abril. O enterro seria no Recife, onde nasceu, mas o navio fez um desvio, ancorando no Rio de Janeiro para dar sequência às fêtes funeraires. Não faltaram pelas ruas da capital federal numeroso público no dia 9 de abril e banda de música militar sob uma fina chuva de verão

384

COELHO, Geraldo Mártires. O brilho da supernova, p. 165. 385

SANTOS, Maria Luiza de Queiroz Amâncio. Origem e evolução da música em Portugal e sua influência no Brasil, p. 226.

386

BONAFÉ, Luigi. No templo dos heróis. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, n. 52, jan. 2011.

que completou o clima de luto. No dia 11, embarcou o caixão no antigo navio de guerra Itaipu (rebatizado Carlos Gomes) – o mesmo que transportou os restos mortais do maestro entre Belém e o porto de Santos – para Recife, para conclusão do “funeral cívico”.

Sem demora organizou-se, então, a descida da urna mortuária para o batelão encarregado de transportá-la até o cais. Vinha rebocado pelo Audaz, e devidamente paramentado de luto. À medida que o estojo fúnebre descia até o batelão, a artilharia do North Carolina dava os 19 tiros protocolares, e a banda tocava uma marcha fúnebre.387

Brasílio Itiberê da Cunha, diplomata-músico brasileiro, natural de Paranaguá (PR), também faleceu no exterior em 11 de agosto de 1913 depois de assistir, em Berlim, a uma longuíssima parada militar antes da deflagração da Primeira Guerra Mundial. Escreveu José Maria Neves

que, “para atender a seu último desejo – e talvez por ser costume entre os diplomatas

brasileiros –, o corpo de Brasílio Itiberê da Cunha foi embalsamado, para ser conduzido ao Brasil com todas as honras de Ministro, inclusive o acompanhamento de Hussardos da Morte

do Kaiser”.388

Ruy Barbosa de Oliveira – ilustre jornalista, senador, jurista, diplomata brasileiro, natural de Salvador (BA) –, falecido no dia 1º de março de 1923, na cidade de Petrópolis (RJ), já era tratado como uma pessoa das mais briosas, um herói nacional. Seu enterro chamou a atenção do povo brasileiro e envolveu políticos, militares e alto clero, que fizeram das cerimônias fúnebres um grande acontecimento. “Foi um desfile portentoso da elite para o povo, que lotou as calçadas do trajeto. [...] À chegada do cortejo, às 18h15, duas bandas militares tocaram a marcha fúnebre de Chopin”.389

Muitos costumes surgidos na era romântica permaneceram e atingiram a segunda metade do século XX; enterros majestosos continuaram sendo realizados A descrição de Antônio Callado sobre o enterro do pintor Cândido Portinari atesta essa afirmação:

Quando o esquife de Portinari saiu do Ministério, na manhã do dia 8 [fevereiro de 1962], em carreta do Corpo de Bombeiros, dos edifícios envidraçados, do pátio do Palácio da Educação, das bancas de jornais, dos cafés em súbito

387

BONAFÉ, Luigi. Os Funerais de Joaquim Nabuco na Capital da República (1910). In: Usos do Passado. XII Encontro Regional de História. ANPUH-RJ, 2006, p. 4 (grifo nosso).

388

NEVES, José Maria. Brasílio Itiberê, p. 50. Hussardo é mesmo que “soldado de cavalaria ligeira” na França e na Alemanha. Significa também cavaleiro húngaro e gentil-homem polaco na Idade Média. Cf. HOLANDA, Aurélio Buarque de. Dicionário da Língua Portuguesa, p. 909.

389

GONÇALVES, João Felipe. Enterrando Rui Barbosa: um estudo de caso da construção fúnebre de heróis nacionais na Primeira República. Rio de Janeiro: 1999, p. 1-34. (a citação encontra-se na página 4). Cf. em: <http://www.casaruibarbosa.gov.br>. Acesso em: 29 maio 2012.

silêncio diante da Marcha Fúnebre e do Hino Nacional, voltaram-se para o cortejo milhares de caras irmãs das que aparecem nos Morros, nos Músicos nos Retirantes de Portinari. Milhares de anônimas criaturas suas disseram adeus ao pintor, miraram uma última vez o claro e sutil feiticeiro que para sempre se aprisionou em losangos de luz e feixes de cor. Como se no espelho apagado da vida do artista ardesse num último lampejo tudo aquilo que refletira durante a vida (Antônio Callado).390