Temos que em Uberabinha, o ideal de progresso apresentou-se de tal maneira que se fez necessária a construção de um novo prédio para o
Gymnasio, não para mudar o seu currículo, mas porque o antigo prédio não
condizia mais com a expressão de modernidade que a cidade permeava.
Uma cidade quão prodigiosa seria digna de um prédio que representasse o progresso e não o atraso. Um novo prédio para o Ginásio foi uma necessidade vital para os “olhos” da população de uberabinhense.
O processo de construção histórica da República, enquanto memória é mostrado num percurso de criações simbólicas do fato, do mito, da coisa em si e dos símbolos oficiais. (RIBEIRO, 2006, p. 04.)
Outros prédios, que não se enquadravam mais num determinado padrão de estética, foram criticados e demolidos e muitas vezes nem mesmo reconstruídos. É o caso do Prédio da Igreja do Rosário destacada num recorte do jornal A Tribuna de 07 de Setembro de 1919, contemporânea a constituição da Sociedade. Notaremos um discurso bem semelhante ao conduzido ao novo prédio do Ginásio quando o jornal diz que, apesar da Praça Ruy Barbosa estar recebendo melhoramentos, o exdruxulo casebre (Igreja do Rosário) deveria ser demolido a título de saneamento, e caso fosse novamente erguido, que fosse em outro local, com recurso da própria Santa e seguindo todos os parâmetros moderno da archictetura.:
Com estes melhoramentos aqueles logradouros ficarão muito valorisados, pois, segundo nos consta, a Camara quer também arborisar e Grammar o centro da Praça Ruy Barbosa. Ficará, entretanto, no centro desta, como um attentado ao nosso bom gosto o exdruxulo casebre que acode pelo rótulo da Egreja do Rosário, o qual, como obra de saneamento, deverá ser demolido, erguendo-se em outro local, com os recursos da Santa, um templo pequeno, mas moderno e de accordo com a nova archictetura. (A Tribuna, 07 setembro 1919. Ano I. n.º 01.)
O ideal progressista, ao atingir até mesmo os templos religiosos, demonstrando que não era monopólio da educação. Outro recorte, de janeiro de 1920, o mesmo Semanário Independente e Noticioso ataca desta vez o prédio de outra Igreja, o da Matriz e mais uma vez classificando-o como antigo e inadequado para a progressista cidade de Uberabinha. Note a agressividade do discurso:
É tempo de se pensar na construção de uma boa egreja, em nossa cidade. A Matriz, velha, pequena e antiquada, não está mais convindo ao nosso desenvolvimento e ao progresso que, ininterruptamente, nos anima. Da pequena egreja do rosário nem devemos falar. Está fora de todo e qualquer commentario. Parece uma humílima egrejinha de aldeira transportada para a praça Ruy Barbosa. (A Tribuna, 18 janeiro 1920. Ano I. n.º 19.)
Não só a Igreja do Rosário, mas a própria Igreja Matriz foi alvo de críticas com relação a sua antiga construção e a consequência deste ato levou posteriormente, a construção de uma nova Igreja Matriz, maior e mais moderna do que a anterior, situada hoje, na Praça Tubal Vilela.
Outros fatos neste mesmo contexto são constantes em Uberabinha. Abaixo, desta vez, A Tribuna não faz referência a um prédio antigo, mas um elogio ao novo edifício onde será instalada a nova sede da Cia Força e Luz na cidade:
Entre as construcções mais importantes desta cidade para o anno próximo, vamos ter a do predio da Companhia Força e Luz à Praça da Liberdade. É um lindo predio assoalhado e que ficará em mais de cem contos. Será uma das primeiras construcções de Uberabinha, quer em tamanho, quer em esthetica. Mas, o que esse edifício vem preencher, como se sabe, é também, a última data vaga do largo do cemitério
Em seguida, extraímos das Atas da Câmara Municipal, um discurso referenciando o padrão progressista da cidade ao registrar a construção do Paço Municipal como sendo o primeiro grande marco republicano em Uberabinha.
Paço Municipal - Locado no centro da Praça da Liberdade, com 4 fachadas , o Paço Municipal levanta-se distinctamente , destacando-se de todas as construcções da cidade , de todos os outros edifícios do mesmo gênero que adiantado [...], acabado, será um dos melhores da cidade e o primeiro do Triangulo (CÂMARA MUNICIPAL, Uberabinha, Minas Gerais. Acta da sessão ordinária realizada no dia 3 março 1917. pg 26/verso.)
Nota-se que o mesmo ideal que motiva a construção de um prédio adequado para o Ginásio de Uberabinha, é também, o mesmo ideal que denigre a Igreja do Rosário e a Igreja Matriz; que elogia grandes prédios referenciando-se no Paço Municipal e que dita diversas outras ações nesta mesma direção. É importante salientar que templos religiosos carregam simbolismos muito bem definidos19. O simbolismo que um templo religioso representa é algo realmente considerável20. Mesmo assim, o movimento que paira sobre a cidade de Uberabinha condiz com a ideia de que é possível alcançar o “progresso” de alguma maneira. E o progresso se faz em todas as partes e lugares, mesmo que para isso, tenhamos que derrubar a Igreja Matriz.
Foi dentro deste contexto que se inseriu a Sociedade Anonyma
Progresso de Uberabinha, ou seja, no contexto local de Uberabinha e não fora
dele.
Igual motivação também recebeu a construção do novo prédio do Fórum, do campo de futebol da Associação Esportiva de Uberabinha, do novo prédio do Banco de Crédito Real21, etc. O que se passa dentro dos novos
edifícios são consequências e não motivações. Assim, a preocupação com a construção do novo prédio do Colégio ou da nova Igreja Matriz, está mais relacionada, por exemplo, a uma estética arquitetônica municipal (contexto
19 Em diferentes contextos sócio-espaciais o fato religioso imprime marcas no espaço. São
formas simbólicas, imagens, símbolos e outras portadoras de significados religiosos.
(ROSENDAHL, 2009, p. 01)
20 Assim a compreensão plena dos símbolos é impossível fora do contexto litúrgico, pois
mesmo que as outras ciências tentem estudá-los só é possível ter uma experiência simbólica concreta dentro do contexto de fé a que ela pertence. (MATOS, 2009, p. 05)
local) do que propriamente a um movimento educacional ou religioso brasileiro, a exemplo do recorte abaixo apresentado, onde o periódico A Tribuna, de novembro de 1919, condena as edificações construídas em desacordo com o planejamento urbano da cidade. E apesar de ainda não existirem ali, um fluxo contínuo de veículos, o jornal explicita que futuramente haverá e assim, é preciso tomar providências o mais rápido possível. O jornal fala do bairro Patrimônio:
Vamos ter, por deliberação da Câmara, a reforma do bairro – o Patrimônio d‟Abbadia.
Não se fará mais edificações naquelle parte da cidade em que se procedam o alinhamento e a organisação geral que se vae dar ás ruas, ali. Há tempo de se por em execução essa medida. Apezar de não ser muito preferido para habitação, o bairro d‟Abbadia precisa desde já obedecer certas regras em suas construções para, futuramente, não constituir embaraços ao arranjo das vias públicas. (A Tribuna, 23 novembro 1919. Ano 01. n.º 11.)
Nesta mesma direção, GUIMARÃES coloca que não é possível analisar qualquer ação dentro do território do Triangulo Mineiro sem considerar as especificidades históricas em sua diversidade. O que nos remete a compreender que não há somente um ponto de análise, mas diversos pontos que vão constituindo o universo histórico-local em torno dos contextos uberabinhenses.
[...] qualquer plano ou ação sobre o território triangulino deve levar em consideração suas especificidades históricas, sua amplitude geográfica e sua diversidade [...] (GUIMARÃES, 2004, p. 18.)