5. DOCUMENT ANALYSIS AND FINDINGS
5.2 F INDINGS
5.2.2 Finding 1: Attention to Gifted Children in Particular
no limiar do século XVIII
e a escrita
da história*
As abordagens históricas do cristianismo foram modeladas na escrita pelo cosmos da providência divina, na sedimentação de uma metanar- rativa da salvação, na variante de uma historiografia revelada por Deus. Combinam-se aceções variadas de história, tratado, crónica, anais, na construção de narrativas edificantes dos «atores do sagrado», na expressão de Michel de Certeau (2006, 266), como são notórias as referências na historiografia dos primeiros séculos da idade moderna em Portugal. O livro de frei Agostinho de Santa Maria, Historia da Fundação [...],1pu-
blicado em 1699, é mais uma obra que oferece uma narrativa no formato encomiástico de um convento de mulheres, com a novidade de tratar de religiosas enclausuradas em Goa, metrópole do Estado da Índia do impé- rio português. A modalidade de uma escrituração elogiosa da espiritua- lidade feminina disseminou-se nos mundos lusos no Seiscentos, inter- conectando homens e mulheres nas experiências devocionais, como se
* Uma versão de parte deste artigo encontra-se em Gonçalves (no prelo).
1O título integral do livro de Santa Maria (1699) é Historia da Fundação do Real Con-
vento de Santa Monica da Cidade de Goa, Corte do Estado da India & do Imperio Lusitano do Oriente, publicado no formato in-quarto de 819 páginas. Cabe assinalar que o título em- prega o termo «convento», mais usual na denominação das casas religiosas masculinas, no lugar de mosteiro, termo recorrente na nomeação dos espaços religiosos femininos, de reclusão mais severa e apartada da sociedade, como entre as Mónicas em Goa. Neste artigo, usaremos o vocábulo «convento», preferido por frei Agostinho de Santa Maria. Um levantamento dos impressos classificados como de «literatura de espiritualidade» e publicados entre os séculos XVIe XVIIIencontra-se em Carvalho (1988), que acrescido da ampla produção no formato manuscrito, como a Biblioteca Lusitana de Diogo Barbosa Machado (1682-1772) demonstra, confirma a expansão do género em Portugal.
o sagrado se revelasse no feminino.2Este artigo tem por objetivo colocar
em relevo as aceções diversas de escrita sobre o passado exploradas no livro de Santa Maria voltadas à fixação de um texto laudatório acerca do templo sagrado de mulheres vocacionadas a Deus em Goa.
Frei Agostinho de Santa Maria, nome religioso de Manuel Gomes Freire, nasceu em 28 de agosto de 1642, na região alentejana de Estremoz. Morreu aos 86 anos, em 2 de abril de 1728, no convento da Boa Hora de Lisboa.3Já na conjuntura da dinastia de Bragança, recebera o hábito na
recém-criada Congregação dos Agostinhos Descalços, na igreja do con- vento de religiosas de Nossa Senhora da Conceição do Monte Olivete, em 18 de dezembro de 1665. Os agostinhos descalços fixaram-se em uma quinta doada pelo conde da Ponte (1610-1667) à rainha D. Luísa Francisca de Gusmão (1613-1666), patrona da nova congregação (Branco 1888, 286- -287; Alonso 2003, 128). Os religiosos ficaram conhecidos pelo nome de «grilos», em decorrência de o primeiro convento se localizar no monte Olivete, no lugar do Grilo, nos arredores de Lisboa, distinguindo-se assim dos «gracianos», termo originário do culto a Nossa Senhora da Graça, orago da maioria dos conventos da ordem dos eremitas agostinhos da pro- víncia de Portugal. Ao confessor da rainha, frei Manuel da Conceição (1627-1682), do convento da Graça de Lisboa, é atribuída a introdução dos recoletos nos espaços lusos. A rainha viúva, de origem da casa de Es- panha dos Medina Sidónia, recolhera-se ao novo claustro do Grilo, per- petuando a tradição de uma religiosidade feminina de intensa influência mística e de isolamento conventual de cariz borgonhês-castelhano (Lou- renço 2003, 56). D. Luísa de Gusmão assistiu à ordenação do estremocense Manuel Gomes Freire, em mais um dos casos de demonstração da proxi- midade entre mulheres de estirpe real e religiosos nos mundos ibéricos.
Santa Maria aliou a permanente posição de cronista oficial ao exercício de atividades na hierarquia eclesiástica dos observantes de Portugal: prior do Convento de Évora, secretário, definidor e vigário-geral da congrega- ção (Machado 1741, 69-71; Inocêncio Silva 1878, 18). A «lição dos livros» organizara a prática escriturária, que se espalhou por diversas publicações de doutrina religiosa, amalgamando as características enaltecedoras de
2Destacam-se obras variadas de espiritualidade dedicadas a mulheres, grandes senho-
ras, casadas ou viúvas, como indicado em Fernandes (1994). Uma análise do sagrado e do feminino é exposta em Clément e Kristeva (2001).
3As informações sobre frei Agostinho de Santa Maria utilizadas neste artigo constam
em: Machado (1741, 69-71; Inocêncio Silva (1878, 18). Quanto à data de falecimento, manteve-se a de 2 de abril, indicada por Barbosa Machado, e não a de 3 do mesmo mês, do verbete de Inocêncio.
A sacralização da vida conventual de mulheres na Ásia portuguesa homem letrado que Machado Barbosa ressalta, acrescidas de elogios ao hercúleo vigor do longevo religioso, que, em idade provecta, dispensava o uso de óculos. Foi laborioso e fecundo escritor, conforme os adjetivos valorativos incluídos no verbete biográfico de Inocêncio Francisco da Silva (1878, 18).
Na época moderna, atente-se ao enquadramento das acepções de ars historica aos dispositivos da retórica grega e latina, encontrados na cir - culação de Aristóteles, Cícero e Quintiliano. O retorno aos antigos rein- troduzira os estudos de filologia, como também a importância da fonte e a autoridade da crítica documental formaram os atributos da pesquisa antiquária. Por sua vez, os eruditos dos séculos XVIIe XVIIIrecorreram a Marcus Terentius Varro (116-27 a. C.) na definição dos métodos de pes- quisa sistemática (Momigliano 2004, 91). Considere-se a analogia entre a erudição antiquária e a organização sistemática da história eclesiástica a partir do Seiscentos.
A referência à origem é um dos componentes da estrutura narrativa da história sagrada, baseada nos textos bíblicos, como também da história eclesiástica,4comprometida com a noção de verdade considerada eterna,
relacionada à história da salvação. A menção a uma causalidade da pre- cedência manifesta não apenas um efeito de intertextualidade, inerente à escrita religiosa, como destaca a relevância da citação erudita dos textos de fundação da Bíblia e da patrística. Desse modo, acontecimentos locais são alinhavados à perspetiva geral da história do cristianismo. A história eclesiástica inclui a cronologia por mecanismo de organização, operando com a noção de sucessão temporal pela centralidade da dimensão histó- rica na apreensão do tempo pretérito. Porém, unicamente a cronologia – a relação de um antes e de um depois – não implica em significado histórico, o qual depende, por sua vez, de uma «estruturação».5
Embora seja percetível a relevância da evidência, do arrolamento sis- temático de fontes ou do uso do termo «história», deslocando a narrativa dos modelos medievais da hagiografia e das crónicas religiosas, perma- nece, porém, a subordinação do relato à teologia de acentuado cariz mo- ralista. Em Portugal, o século XVII correspondeu à «época de ouro» da historiografia eclesiástica. Proliferaram obras que destacam a origem de
4Segundo Vallin (2013, 185-186) «[...] encontra-se no Ocidente a noção de uma história
sacra – herança de Santo Agostinho. [...] A ‘história sagrada’ é a história constituída pela Scriptura Sacra, o Antigo e o Novo Testamentos, como Escrituras. A essa historia sacra sucede, segundo a teologia agostiniana, a historia ecclesiastica, que relata as obras dos santos, mas sem que a interpretação desses, Acta Sancta, seja garantida por uma inspiração profética».
ordens religiosas, das dioceses, de figuras significativas da história religiosa em Portugal. No entanto, predominaram também os conhecidos falsos cronicões (Rosa 2000, 327; 2013), que sucumbem à legenda ou ao mito do relato ficcional presentes em lendas episcopais, como no exemplo de São Pedro de Rates por primeiro bispo de Braga, erro repetido por Dom Rodrigo da Cunha (1577-1643) na História Eclesiástica dos Arcebispos de Braga [...] (1634-1635). O recurso à fraude e o uso de documentos falsos foram constantes no campo da história eclesiástica como percetível entre os pais do género, no exemplo de Eusébio de Cesareia (c. 265-c. 339). Entretanto, com a fundação da Academia Real da História Portuguesa, em 1720, o recurso aos cronicões como fonte seria proibido, sinalizando a adequação aos parâmetros da crítica documental dos eruditos.
Plenamente doutrinária e teológica é de facto a definição de história de Santa Maria em HF devido, sobretudo, à filiação à perspetiva finalista e es- catológica do tempo de Santo Agostinho. A chave metodológica da obra é preceituada no prólogo. Se, de início, tivera por «desvelo» escrever «h
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a inteira história», escolheu, por fim, relatar ao mundo a santidade, as virtudes e exempla da casa de Deus. Santa Maria enuncia a expectativa a respeito da propagação da obra: fazer circular na Europa um livro acerca de um uni- verso de pureza e virtude que «se julgou por muito impossivel em a Asia» (HF, s. n.).6O autor faz uso do termo «história» no título, embora optepela construção discursiva do tratado com teor de doutrina cristã e da ha- giografia nos relatos de vidas de religiosas, subordinando a tessitura da es- crita à dimensão moral do fluxo narrativo. Os cuidados que adota na ex- plicação do género de escrita em HF, expõe que Santa Maria controlava os dispositivos de verdade dos factos que crescentemente subordinavam o re- lato hagiográfico à crítica documental dos eruditos na apreensão do falso.7
Santa Maria, ao incluir o vocábulo «história» ao título do livro, ins- creve o objetivo de garantir o estatuto de autenticidade à narrativa, afas- tando--a das acusações de erro e fraude. Em ocasiões diversas da escrita, Santa Maria, na posição do eu referencial, aguça a distinção entre fábula e história: «desejava caminhar nesta historia com toda aquella bem ave-
6As referências de citações do livro Historia da Fundação [...] serão indicadas no corpo
do artigo pelas iniciais HF e o número de página.
7Segundo Certeau (2006, 266-267), a hagiografia conforma o corpus de uma diferença
com relação ao seu oposto, o discurso historiográfico, com quem possui entretanto uma vizinhança. À época moderna, a hagiografia esteve subordinada à crítica histórica dos eruditos, que ao clamar um retorno às fontes, tendeu a reduzir a narrativa hagiográfica ao lugar do falso, do erro e do arcaico. Para o historiador, submeteu-se o género às regras de um outro, a historiografia, o método histórico.
A sacralização da vida conventual de mulheres na Ásia portuguesa riguada; porque o mais não he historia, he fabula & patranha» (HF, 74). A distinção entre fábula e história realça a intenção do autor de reforçar o fundamento de verdade da obra, afastado-a da invenção, do fabuloso. O curioso na obra de Santa Maria é a tensão entre parâmetros de ver- dade, providos pela interpretação teológica e secular do mundo. Como se o esgaçamento da história divina fosse um indicador da sua crescente subordinação à historicização da experiência do tempo já secular.
A escrita do estremocense forja a oportunidade para a reflexão de sua obra como de combinação entre dois sistemas de escrita religiosa sobre o passado. Articula procedimentos da tradição das crónicas, dos tratados doutrinários do cristianismo, das relações de vidas no padrão hagiográfi - co do medievo aos dispositivos documentais de escrituração sobre a his- tória da Igreja na crescente importância atribuída ao documento, ao tes- temunho. A aceção de história é aqui o das histórias particulares que forjam uma história universal do cristianismo.
De facto, a história sacra, a história eclesiástica e as narrativas hagio- gráficas enveredam por uma ideia de investigação do passado pautada pela dimensão moral da doutrina e da teologia cristã, avigoradas no me- dievo, com ampla reflexão em obras produzidas dentro e fora das uni- versidades. Esses legados foram retomados no complexo ambiente do Renascimento e das reformas dissolventes do telos cristão medieval. Os efeitos da rutura protestante nas consciências europeias e a reação do hu- manismo à escolástica, nas primeiras décadas do século XVI, obtiveram resposta nos desdobramentos dos efeitos disciplinadores do Concílio de Trento. Nos mundos ibéricos, do ponto de vista da teologia política, a segunda escolástica de Salamanca serviu de âncora às noções de governo cristão. Por sua vez, figurou-se uma espiritualidade com tópicas de in- fluência da mística renana medieval e da devotio moderna. A disseminação dos modelos de imitação de Cristo de uma religiosidade claustral irradiara entusiasmo às práticas religiosas fora dos muros conventuais.
HF desvela a oportunidade de celebrar o lugar dos agostinhos na edi- ficação da cristandade. Santa Maria afirma que respeita a separação entre áreas de uma escrita eclesiástica, segundo as denominações das ordens regulares. Esse aspeto conforma um traço da produção de obras religiosas que realça uma memória edificante e propagandística das instituições re- ligiosas em Portugal.8A função de cronista da ordem modela a escrita
8Recorro por empréstimo à expressão de Benedict Anderson (2008) acerca da repre-
sentação das identidades nacionais, deslocando-a ao sentido de pertencimento a um modus operandi edificador da ordem religiosa.
de Santa Maria no caminho da fabricação de uma «comunidade imagi- nada» dos agostinhos de Portugal. Desta forma, adquire sentido a persis- tência do pertencimento religioso na demarcação de uma cartografia es- criturária entre as ordens religiosas. Evitava-se meter a «foice nas searas alheias», seguindo o argumento de Santa Maria (Mota 2003, 145). Cir- cunscreve-se, portanto, o trabalho de escrita à divulgação da empresa re- ligiosa da ordem. Porém, como os diversos títulos da diversificada mi- ríade de publicações de Santa Maria demonstram, a sua produção não se limitou a questões dos agostinhos de Portugal. Pelo contrário, é rele- vante uma produção de cunho doutrinário e teológico de feição da mís- tica. Um padrão de escrita que marcaria o conjunto da obra de Agostinho de Santa Maria, conforme em Adeodato Contemplativo, e Universidade da Oração [...],9 uma publicação no formato dos «livros devotos e espiri-
tuais», segundo expressão do autor, para divulgação dos modelos de exer- cícios espirituais, combinando oração mental e mística para uma ampla audiência. Faz uso de artifícios da parábola na composição de um per- sonagem, Adeodato, nome do filho do bispo de Hipona, nas vezes de um estudante postulante ao hábito agostinho, e do alter ego do próprio escritor, na posição de anjo da guarda.10Embora a redação de Adeotado
contemplativo [...] fosse contemporânea à HF¸ as dispensas receberam a marca do «pode correr» três lustros após a segunda vir a lume, em 1714.11
Nas advertências de HF, reproduz-se a filiação ao formato da crónica que combina a narrativa edificante na construção de uma memória reli- giosa de fundação sagrada do convento de freiras na linha do tempo do cristianismo. Uma modalidade de escrita que destaca a subordinação à cro- nologia e aos retratos de vidas santificadas de mulheres e homens «ilustres em virtude», género de extensa disseminação na alta idade moderna em Portugal, uma sociedade fortemente movida pelo imaginário teológico po-
9 A obra (Santa Maria 1713) teve, como de hábito, um longo título: Adeodato Con-
templativo, e Universidade da Oraçam, Dividida em Três Classes Pelas Tres Vias Purgativa, Illu- minativa, & Unitiva, em Estylo de Parabola, Fácil, Claro, e Intelligivel, para Todos os Estados de Pessoas, que Desejaõ Servir, & Amar a Deos: com Exemplos dos Santos, que na Oraçaõ Foraõ mais Eminentes, Não Só dos Antigos Padres, mas dos Modernos Santos, & Santas: Com Dou- trinas Muyto Uteis aos Directores das Almas.
10«Finjo apparecer a este estudante o seu Anjo da Guarda, que com desejos de que
seja santo se lhe offereceo por guia nesta jornada, mostrando-lhe as vias por donde a alma chega a se unir com Deos, fim, & complemento della» (Santa Maria 1713, s. n.).
11 A demora da publicação de Adeodato Contemplativo [...] merece uma consideração
acerca da relevância dos mecanismos de controle de obras com conteúdos de ascese e da mística, na projeção de sua extensão à massa de fiéis fora dos muros monacais. Os riscos heréticos do quietismo colocavam de sobreaviso os foros inquisitoriais.
A sacralização da vida conventual de mulheres na Ásia portuguesa lítico do catolicismo pós-tridentino, de ascese e intensa devoção pietista. HF entrecruza uma variedade de subgéneros historiográficos: crónica, me- mória, tratado de doutrina moral e relações de vida. A narrativa deslinda o cuidado com a fixação de memória e a história; o livro constitui um es- paço retórico de transmissão de valores morais de orientação pedagógica. Resulta um formato historiográfico autorreferente e celebrante.
O termo «história» aplicado por Santa Maria ao título do livro assenta a configuração de uma escrita de gabinete, em que o autor não exerceu a posição de testemunha ocular dos episódios narrados. HF foi a primeira publicação associada ao nome de frei Agostinho de Santa Maria, em uma vasta reunião de títulos impressos no período de três décadas de vida, entre 1699 e 1728. A tessitura da escrita religiosa acerca do convento de freiras agostinhas remete a um conjunto de documentos e escritos agos- tinhos de referência. Santa Maria valeu-se de fontes manuscritas, entre as quais os corpora que compuseram os escritos no formato apologético do graciano frei Diogo de Santa Anna (1571-1644), confessor geral e admi- nistrador do convento de monjas em Goa por mais de quatro décadas.12
A edição de HF exalta a difusão da imagem de uma cristandade de mulheres no Oriente, no exemplo do convento de freiras de Goa, num cenário de final do Seiscentos, quando do fortalecimento da restauração bragantina em Portugal. O claustro goês descrito por Santa Maria emerge por lugar santo que reunia as «esposas de Cristo» na fabricação de uma cristandade lusófona universal.
HF expõe uma «história da santidade feminina» do Estado da Índia, no bojo de uma obra em que os acontecimentos de conflito do convento nas décadas que sucederam à sua fundação se integram na metanarrativa cristã de satanizar o oponente. Integra os géneros de história eclesiástica do Seiscentos numa modalidade de escrita que articula a hagiografia e as aceções do tempo nos modelos da Sagrada Escritura aos estilos de me- mórias e histórias da Igreja e das ordens religiosas. É procedente assinalar que, mais adiante, com a criação da Academia Real da História Portu- guesa, a segmentação da história eclesiástica, apartada da história secular de Portugal, municiara-se das práticas de escrita religiosa acumuladas nas
12 O conjunto de manuscritos de Santa Anna constitui uma peça de defesa do con-
vento frente ao conflito deflagrado por denúncias impetradas pelo Senado da Câmara de Goa por meio da «queixa da cidade» de 10 de fevereiro de 1632, endereçada ao então vice-rei do Estado da India, Dom Miguel de Noronha (1585-1647), conde de Linhares. No arquivo da Torre do Tombo, localizam-se três versões do relato de Diogo de Santa Anna sobre a contenda entre o convento e a jurisdição camarária de Goa – veja-se Gon- çalves (2012, 2013).
livrarias de ordens religiosas no projeto inconcluso de fabricação da Lu- sitana Sacra.
Todavia, a obra de maior notoriedade do estremocense permanece o sempre citado Santuário Mariano, e historia das imagens milagrosas de Nossa Senhora [...], editado em 10 tomos, entre 1707 e 1723, em que já traba- lhava quando da escrita de HF, segundo afirma no prólogo. Santuário Mariano [...] destacara-se à época de Agostinho de Santa Maria por obra relevante, como realçado na Academia Real da História Portuguesa após sua morte, em 1737. Salienta-se a contribuição à história do reino, o que sublinha o reconhecimento, entre os historiadores régios, da força do culto mariano no império português:13
Muito se illustrava hum Reyno dedicado a Nossa Senhora com a Histo- ria, e Descripçaõ das suas Cathedraes, que todas saõ consagradas à sua glo-