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2.4 Fish market trends and constraints

2.4.3. Financial institutions

O terceiro tipo especial são das mulheres submetidas à escravidão sexual., eram as denominadas jûgun ianfu. Essa é uma expressão japonesa que pode ser traduzida para o português como “mulheres para o conforto de militares”, porém trata-se de um eufemismo cunhado no período do expansionismo japonês para designar as mulheres submetidas à escravidão sexual pelos militares daquele país durante a Segunda Guerra Mundial.310 Segundo Nishino,311 as mulheres submetidas a essa escravidão não eram chamadas pelos militares por esse pomposo termo, mas pela palavra pi, cujo significado é variável, podendo fazer remissão a “bens” ou “artigos”, como também de forma vulgar, ao órgão sexual feminino.

Não há um número exato de mulheres que foram escravizadas. Há autores que estimam em torno de 30.000 mulheres e outros, em torno de 410.000.312 Tais divergências têm suas razões no debate político em torno do assunto. A estimativa mais aceita pela maioria da historiografia assenta os números entre 100.000 a 200.000 escravas sexuais.

Autores revisionistas, tais como Hata,313 advogam que a maioria das mulheres que serviram como prostitutas foram regularmente contratadas e negam a escravidão forçada. Outros autores mais céticos, como Hirofumi,314 criticam a postura revisionista que nega a escravidão sexual pelas forças armadas japonesas durante a guerra. A descoberta de documentos feita por Yoshiaki315 fez com que o autor considerasse essa prostituição um sistema de exploração racionalmente planejado e que, em tal administração burocratizada, as mulheres foram coisificadas, não passando de meros objetos para se alcançarem as metas estipuladas.

310 SOH, Chunghee Sarah. From imperial gifts to sex slave: theorizing symbolic representations of the “comfort women”. Social science Japan journal,Tokyo, v. 3, n. 1, p. 59-76, 2000.

311 NISHINO, Rumiko. Jûgun ianfu no hanashi. Tokyo: Akashi Shoten, 1993.

312 ROSE, Caroline. Sino-japanese relations: facing the past, looking to the future? New York: Routledge, 2009. p. 88.

313 HATA, Ikuhiko. Ianfu to senjô no sei. Tokyo: Shinchosha, 1999.

314 HIROFUMI, Hayashi. Kyôdô kenkyû: Nippon jûgun ianfu. Tokyo: Otsuki shoten, 1995.

315 YOSHIAKI, Yoshimi. Comfort women: sexual slavery in the japanese military during World War II. New York: Columbia University Press, 2000.

Nas fontes foram encontrados indícios do sistema jûgun ianfu. Das 356 referências de abusos sexuais, 23 entradas detalham claramente um tipo específico de “exploração sexual”. A gravidade dessa exploração sexual supera a da prostituição, isso porque as mulheres submetidas à condição de escravas sexuais sofriam um grau maior de violência.

O número total obtido foi de 105 mulheres, porém, após cruzarmos os dados das fontes esse número sofreu alteração. Isso porque foi necessário suprimir a duplicidade de casos, o que fez baixar esse para 91. Há, entretanto, outra ressalva a ser feita: o número de vítimas listado nas fontes é incerto, pois muitas vezes foram feitas anotações que não informavam a quantidade de mulheres submetidas ao trabalho no sistema de bordéis militares. Noutras palavras, das 23 entradas 12 não listam o número de mulheres, correspondendo a 47,8% do total de referências. Ou seja, foram apenas das 11 referências detalhando a quantidade de vítimas que se obtiveram essas 91 vítimas. Podemos presumir, então, que o número de mulheres submetidas à escravidão sexual foi superior às 91 vítimas identificadas.

Essa hipótese toma maior destaque quando se contabilizam apenas os casos que informam os locais do rapto. O número obtido, tendo em mente os locais, foi de 33 vítimas, representando, assim, 36,3% do total. Isso reforça a suposição de que esse número seria muito superior ao de mulheres submetidas a “serviços sexuais”, pois as informações obtidas das fontes salientam que uma parcela significativa dos casos ocorreu em lugares desconhecidos. Os casos sem essas indicações representam 39,1% dos eventos e 59,8% das vítimas totais.

Em meio a esses números há a situação de fragilidade social e as representações de gênero relacionadas com os comportamentos sexuais. Os valores e representações que imputavam aos homens a “natureza sexual ativa” justificavam e legitimavam a prostituição. Por sua vez, a prostituição não era avaliada como essencialmente a exploração do masculino sobre o feminino, mas, sim, como um instrumento para preservar a virgindade das mulheres honestas.

Essa situação pode ser percebido já na primeira anotação, feita por Minnie Vautrin, em 24 de dezembro de 1937. Dando voz à fonte:

Eles têm a sensação de que se inaugurarem um local regularizado para os soldados, estes últimos não irão molestar mulheres inocentes e decentes. Após prometerem que não levariam mulheres inocentes e decentes, permitimos que eles começassem suas buscas, com o oficial sentado em meu escritório enquanto procuravam. Após muito tempo, eles finalmente conseguiram vinte e uma mulheres.316

John Rabe fez alguns comentários sobre esse ocorrido em seu diário. Ele escreveu, em 26 de dezembro de 1937.

Agora as autoridades japonesas tiveram a fabulosa idéia de erguer um bordel militar, e com as mãos contraídas em terror, Minnie é obrigada a observar enquanto os subalternos autorizados entram à força na Sala de Reuniões para Garotas, repleta de centenas de gungyangs. Ela não irá entregar voluntariamente uma garota sequer. Ela preferiria morrer ali mesmo; contudo, algo inesperado acontece. Um respeitável membro da Sociedade da Suástica Vermelha, uma pessoa familiar a todos nós, mas que nunca suspeitaríamos que tivesse qualquer conhecimento sobre o submundo, profere umas poucas palavras amigáveis ao salão – e eis o que acontece! Um número considerável de jovens refugiadas dá um passo à frente. Evidentemente, eram garotas que haviam sido prostitutas anteriormente e não estavam nada tristes em encontrar trabalho em um novo bordel. Minnie ficou sem fala!317

As anotações transcritas acima nos possibilitaram visualiar as congruências e contradições dos relatos quando analisadas em conjunto. O principal aspecto em comum refere-se às assimetrias do masculino e do feminino em relação à sexualidade, em outras palavras, a prática reconhecidamente legítima da exploração comercial do sexo nas sociedades patriarcais, pois a prostituição era avaliada como um instrumento válido para suprir as necessidades sexuais dos homens. Minnie Vautrin, em suas anotações parece concordar com a prostituição, avaliando-a como uma forma de preservar as mulheres honestas daquelas destituídas de honra. Essa visão fica clara quando ela define a prostituta pela sua antítese as “mulheres inocentes e decentes”. John Rabe igualmente demonstra certa aceitação da prostituição. Mesmo que no início de sua anotação use um tom irônico para menosprezar ou reprovar o estabelecimento do bordel militar, ao fim ele salienta a “feliz oportunidade” de as antigas prostitutas encontrarem empregos.

As contradições contidas nas fontes, quando confrontadas foram algo que não permitiu a reconstrução do evento. Quando observadas simultaneamente são

316 VAUTRIN, 2008, p. 92-93. 317 RABE, 2000, p. 99.

constatados dois aspectos. O primeiro refere-se às pessoas envolvidas. Minnie Vautrin comenta que o oficial japonês estava acompanhado apenas de “um velho intérprete da Embaixada” e John Rabe salienta a presença de “um respeitável membro da Sociedade da Suástica Vermelha”.318

O segundo remete à autorização dos militares japoneses em proceder a vistoria no campo de refugiados. Minnie Vautrin deixa claro em sua anotação que autorizou a procura de prostitutas no Colégio Ginling mediante a promessa do oficial japonês de que não levaria “mulheres inocentes ou decentes”. John Rabe, ainda que faça remissão a entrada autorizada dos subalternos nas dependências do Colégio Ginling, diz explicitamente que Minnie Vautrin foi obrigada pelos soldados japoneses, pois ela não entregaria voluntariamente nenhuma mulher sob sua tutela.

O segundo caso contido nas fontes data de 1º. de janeiro de 1938. As anotações foram feitas por John Rabe, nas quais ele comenta que na noite daquele dia, por volta das 21 horas, um caminhão parou em frente à sua residência. Vários soldados desembarcaram da caçamba e exigiram que lhes entregassem garotas. John Rabe manteve o portão fechado fazendo os soldados desistirem. Os soldados, então, retornaram para o caminhão e se dirigiram para a Escola de Ensino Médio da Universidade de Nanking que se localizava próxima à sua casa.319

John Rabe informou o ocorrido à CIZSN e esta registrou o fato no relatório entregue às autoridades japonesas no dia 2 de janeiro de 1938.320

A última anotação identificada encontra-se na carta de John G. Magee datada de 2 de abril de 1938. Na carta, ele relata a história de uma garota de 15 anos, mantida no bordel militar contra sua vontade por mais de 40 dias. Ela somente foi libertada pelos seus captores após adoecer, pois os soldados ficaram receosos de contraírem a doença que a fatigava.321

A partir dos dados disponibilizados pelas fontes, foi possível que desenvolvessemos algumas ponderações sobre a distribuição espacial. Os locais onde ocorreram os

318 A Sociedade da Suástica Vermelha era um ramo da Sociedade da Cruz Vermelha que atuava no continente asiático, principalmente na China e na Índia. A suástica é um símbolo comumente associado ao budismo e em outras culturas asiáticas representa boa sorte ou riqueza. Formalmente ela não era reconhecida internacionalmente como símbolo para representar a Cruz Vermelha, mas era usualmente utilizada para esse fim.

319 RABE, 2000, p. 109.

320 CIZSN, apud BROOK, 2003, p. 62-3. 321 MAGEE, apud, LU, 2004, p. 119.

eventos eram vários. Como já dito anteriormente, em 39,1% deles e 59,8% das vítimas foram levadas de locais desconhecidos. Desconsiderando esses locais, foi desenvolvido um estudo buscando verificar a distribuição dos eventos. A Universidade de Nanking ocupava a primeira posição, com cinco relatos (21,7% do total geral) e era seguida pelo Colégio Ginling (13,0%) e pela residência situada na alameda Chien Ying (13,0%), cada um destes com três relatos. Ao todo três relatos remanecentes (13,2% do total geral), estavam distribuídos em três locais diferentes: a residência de John Rabe, a Escola de Ensino Médio da Universidade de Nanking, e o Edifício de Sericultura, correspondendo cada qual a 4,4% do total.

Ao refazermos os cálculos baseando-nos no número de vítimas, essa ordem de classificação foi alterada. O primeiro colocado foi o Colégio Ginling, com 21 vítimas (23,1% do total geral). Empatados no segundo lugar estavam a Escola de Ensino Médio da Universidade de Nanking e o Edifício de Sericultura, cada um desses estabelecimentos contabilizando seis mulheres raptadas (12,4% do total geral). O quarto colocado foi a casa de John Rabe e a Universidade de Nanking, pois ambos não listam o número de vítimas, representado, portanto, por 0,0%. A Tabela 10 permite observar o quadro geral apresentado.

Tabela 10

Lista de locais e vítimas de exploração sexual e sua porcentagem (%)

LOCAL INCIDÊNCIA