Além dos Salões Oficias do Governo do Estado, reconhecidamente o principal espaço de sociabilidade para os círculos artísticos da época, alguns outros sítios na cidade de Belém constituíram-se também em locais de circulação, tanto de artistas como de intelectuais ligados às artes, onde se discutia, produzia e, principalmente, se
302 SALLES, Vicente. Op. cit. Por sua vez, sabe-se que Antonio José Landi foi um dos maiores
proprietários de terras no Pará e, embora tentasse alguns empreendimentos agrícolas, neles não prosperou.
estimulava o fazer artístico. Dentre tantos já citados, por sua relevância, no momento me ocuparei especificamente de três deles.
3.5.1 O atelier do Mestre Frazão
Como já mencionado no capítulo anterior deste trabalho, lá pelos idos de 1940, o fotógrafo e pintor Arthur Frazão se instalaria em uma das salas no pavimento superior de um prédio, em estilo colonial, situado à Tv. Pe. Eutíquio, 132, antiga Tv. de São Mateus, no bairro do Comércio, que pode ser mais facilmente reconhecido caso se refira: nos altos do Café Santos. Casa aviadora de grande prestígio entre a sociedade local, distribuidora de produtos importados da melhor qualidade, além de servir, em seu salão, os mais saborosos sanduiches de “queijo cuia” encontrados em Belém. De pés, encostados no balcão, ou nas pequenas mesas e cadeiras de ferro, sobriamente distribuídas sobre um belíssimo piso de ladrilho hidráulico, trabalhadores, políticos, jornalistas, intelectuais, sempre por lá passavam para um cafezinho.
Como era comum à época, por uma entrada independente ao lado do Café se ascendia ao piso superior, local de várias salas, arrendadas para as mais diversas atividades profissionais. O Sr. Adolpho Frazão assim descreve o atelier de seu pai, onde criança por muitas vezes esteve:
...encima tinham vários escritórios. Tinham escritórios na frente. O dele não era na frente. Atrás tinham três escritórios. Dois escritórios e o atelier do Frazão. Tinha um quarto escuro para revelar as fotos, para ampliar. Muitos livros, revistas antigas que tinham lá que dava uma poeirada danada. E eu vivia mexendo lá. Uma revista antiga chamada
A careta. Revista tradicional303.
Meira Filho, sempre interessado pelas atividades artísticas em geral e amigo pessoal de Arthur Frazão, em uma de suas tantas crônicas também se refere carinhosamente ao atelier do pintor, local que muitas vezes frequentou:
Quando entrei em maior contato com o notável artista paraense, vivia, ainda, naquele seu “atelier” nos altos do “Café Santos” na travessa de São Mateus. Tudo ali vivia em agradável desalinho. Móveis rasos, paleta ……., cavaletes e telas, objetos variados que o artista utilizava em sua arte, misturavam-se em delicioso abandono, onde a poeira dominava e a calma do pintor traduzia em leve sorriso achando que
303 FRAZÃO, Adolpho Cléodon Ribeiro. Entrevista concedida a Maria Angélica Meira. Belém, 22 fev.
“tudo ia muito bem” e que aquele alvoroço era o grande sentido de sua vida de artista304.
Para aquele atelier “empoeirado” também convergiam os pintores da época que lá encontravam o local ideal para seus colóquios, discussões e fazeres artísticos. Situado a poucas quadras do prédio da Biblioteca e Arquivo Público, dentre outras atividades, surpreendentemente e informalmente o espaço também funcionou como uma espécie de “academia”, pode-se dizer mesmo que bem aos moldes tradicionais, quando o Sr. Frazão descreve, uma curiosa sessão de pintura com modelo vivo, que lá se realizou:
Nesse local onde ele [Frazão] trabalhava na fotografia eles se reuniam, era o local de contato, era um dos, não sei se tinham outros. Os colegas iam pra lá, os pintores iam para lá. Uma vez teve uma sessão de ……….. Levaram uma senhora, não sei quem era, não sei se era de fora, e aí todos eles fizeram um esboço dela305.
O local, que funcionava como um misto de estúdio, laboratório fotográfico e atelier de artes, onde desenvolvia suas atividades profissionais Arthur Frazão, e espaço aberto para bate-papo, troca de ideias e de livre trânsito para o círculo artístico local, constituiu-se como importante espaço de aprendizado e troca de experiências entre antigos e novos artistas.
3.5.2 O Café Manduca
Aos fins de tarde, discussões calorosas tomavam conta do salão do Café
Manduca. Localizado na esquina da Tv. Campos Sales com a Rua 13 de maio,
próximo à sede de A Província do Pará, foi o local eleito pelo jornalista e crítico Frederico Barata para seus colóquios à saída dos trabalhos diários no jornal, onde proferia verdadeiras aulas sobre as artes em geral e debatia temas polêmicos do momento. Antes de Barata, e depois também junto com ele, os pintores Ângelus Nascimento e Leônidas Monte, cada um à sua maneira, também no Manduca faziam suas preleções. Conforme relata Ricci (1984),
304MEIRA FILHO, Augusto. O pintor Frazão. A Província do Pará, Belém, 14 jan. 1967. Arquivo: ACRF. 305 FRAZÃO, Adolpho Cléodon Ribeiro. Entrevista concedida a Maria Angélica Meira. Belém, 22 fev.
Ângelus Nascimento fazia suas doutrinações no Café Manduca, mas, apesar de ouvido em respeito, suas ideias não surtiam efeito, num ambiente impregnado de academicismo....
Monte, pelo contrário, desenvolvia uma luta mais agressiva e as vezes contundente, para tentar fazer-se compreender pelos artistas, intelectuais e o público306.
Inaugurado em abril de 1906, “o Café Manduca foi o favorito dos paraenses durante décadas. Intelectuais, jornalistas, políticos, todos passavam ali pelo menos alguns minutos por dia, para ‘bater o ponto’, saber das últimas novidades, participar das discussões políticas e esportivas e cultivar as amizades”307. Propriedade do português Manuel Correa da Silva, além da excelente qualidade de seus produtos, o estabelecimento trouxe muitas inovações para a época, como o café servido com uma pitada de chocolate e a entrega em domicílio. A partir de Caldeira (2004)308, um episódio curioso vale ser registrado: certa ocasião, ao anunciar à sua clientela a disponibilidade de leite de vaca fresco, seu proprietário montou um pequeno curral junto ao estabelecimento, para onde levou uma vaca que era ordenhada à vista do freguês. Passando pelas mãos de diversos proprietários, o café permaneceu em funcionamento até o ano de 1962, quando fechou suas portas.
3.5.3 A Galeria Loureiro
Local de circulação e convívio de artistas, a Galeria Loureiro constituiu-se como a primeira galeria comercial de Belém. De vida efêmera, funcionando durante o período de 1951 a 1954, nasceu da iniciativa do Sr. Wladirson Penna que a ela destinou amplo espaço na Casa Loureiro, loja de sua propriedade especializada no comércio de espelhos, molduras e materiais para pintura. Instalada no térreo de um casarão de dois pavimentos, na esquina da Tv. Campos Salles com a Rua Manoel Barata, naquele local se realizaram várias exposições como as de Andrelino Cotta, em 1951, Leônidas Monte, em 1952, João Pinto e Ruy Meira, coletiva de esculturas e pinturas, em 1954, do pintor pernambucano Baltazar da Câmara, no mesmo ano e também do pintor japonês Tadashi Kaminagai. A partir das palavras de seu proprietário, em entrevista concedida ao também pintor e colunista de arte Dionorte
306 RICCI, Paolo. As artes plásticas no Estado do Pará. xerox. 1984. p. 217.
307 CALDEIRA, Oswaldo, 2004 apud MEIRA, Maria Angélica. Op. cit., p. 82.
Drummond Nogueira, é possível melhor perceber o contexto do surgimento, funcionamento e importância daquele espaço:
Comecei a me interessar pela arte desde 1948. Dois anos depois ingressei como sócio na Casa Loureiro. Logo em seguida conheci e passei a manter relações de amizade com Frederico Barata, velho jornalista que para cá veio por ocasião da reabertura de “A Província do Pará”. Se já tinha inclinação pela arte, com o conhecimento de Frederico Barata, que era um apaixonado pela pintura, passei a me interessar mais ainda. Assim foi que no ano de 1951 instalei a Galeria Loureiro, a primeira de Belém, com uma exposição de Andrelino Cotta. Dali em diante as exposições se sucederam. Qualquer pintor, nacional ou estrangeiro, que viesse a Belém, vinha me procurar. Enquanto a Galeria Loureiro existiu por ela passaram nomes famosos da pintura nacional e estrangeira. A Galeria Loureiro era um recanto de arte frequentada por artistas do pincel e pelos literatos da terra, um dos quais, dos maiores entusiastas, era o famoso poeta Bruno de Menezes309.
O Sr. Penna, na mesma entrevista, comenta também a apatia do mercado de arte de Belém à época, reportando-se à exposição de Kaminagai que, mesmo contanto com a propaganda de Frederico Barata, não haveria alcançado o sucesso almejado. Passando por dificuldades para se manter, teve que fechar a Casa Loureiro e, junto com ela, a Galeria. Em um quarto de aluguel, nos altos do prédio da loja comercial, habitou Tadashi Kaminagai, em sua estada em Belém.