Indescritível a surpresa e emoção quando, em busca de fontes para esse trabalho, em uma tarde chuvosa de 2014, deparei-me com um dos “meninos do caminhão”. Testemunha ocular dos acontecimentos nas matas do Utinga, ali à minha frente estava o Sr. Adolpho Cléodon Ribeiro Frazão. Até aquele instante não se havia conseguido identificar aqueles dois garotos que, na faixa de seus sete e dez anos, acompanhavam o grupo de pintores em suas peregrinações artísticas e que tão bem tinham ficado registrados nas fotografias realizadas por Arthur Frazão.
No decorrer de uma conversa, que começou informal, com algumas imagens nas mãos nas quais tentávamos identificar os personagens, nos chega a conhecida fotografia do caminhão de Ruy Meira, onde posam os artistas e as crianças. Nessa ocasião o Sr. Adolpho aponta para o menor dos garotos na boleia e diz: “Esse sou eu”. A partir daí, ele com uma memória prodigiosa, e a entrevistadora quase em
290 A Galeria Loureiro, que funcionou como a primeira galeria comercial da cidade entre os anos 1951 e 1954, merecerá maior atenção nas próximas páginas deste trabalho.
prantos seguimos, conduzidos por ele, para aquelas manhãs domingueiras da década de 1940 onde, ele menino, partia em companhia do pai para o Utinga para empurrar um trenzinho e jogar pedras no lago, em brincadeiras com seu amigo Rubens Pinho, o outro garoto do caminhão. Totalmente alheios ao que se passava a sua volta, como normal para garotos da sua idade, o Sr. Adolpho declara, entre sorrisos: “Eu nem olhava pros quadros. Ficava por lá brincando”. (Maravilhoso)
Nos domingos pela manhã, Ruy Meira colocava a funcionar seu velho caminhão e, de casa em casa, percorria as ruas recolhendo os amigos que, carregados com seus pincéis, telas, tintas, cavaletes e banquinhos, seguiam para as cercanias da cidade em busca de sítios aprazíveis para suas atividades artísticas. Através do relato do Sr. Adolpho Frazão, estas idas do grupo de pintores ao Utinga ganharam vida pois, quando perguntado se se recordava daqueles tempos, respondeu de pronto: “Lembro perfeitamente”. E passou a rememorar os acontecimentos:
Inicialmente eles tinham um ponto de encontro lá no atelier do Frazão, nos altos do Café Santos. [...] aí, tenho impressão que eles faziam os contatos lá durante a semana e marcavam para o domingo. Então o Ruy Meira, com sua caminhonete conduzia, nos conduzia (ele tinha acesso no Utinga). A gente ia pra lá. Chegavam por lá, se espalhavam e eu ficava por lá empurrando um trenzinho, brincando com o Rubens Pinho. Tinha uns sete anos nessas fotos. Era o menorzinho.
[Eles] foram várias vezes ao Utinga e eu sempre acompanhava. Menos uma vez que eu quebrei o equipamento, o tripé do Frazão (risos). Quebrei e não falei nada. Na hora que ele foi sair não tinha. Muito zangado não foi porque não tinha como. Ficou muito chateado. Era um tripé de fotografia, daqueles que estica que ele fabricava [pois] também fazia artes manuais. Em madeira com duas tábuas e duas varetas ligadas por parafusos, transformava o tripé em um cavalete de pintura. Aí ele levava esse material pro Utinga. Cada um levava suas coisas. Seu banquinho……
Eu ficava à toa por lá. Jogava pedra nas águas (risos). Nós voltávamos pra almoçar. Não levávamos lanche. Íamos de manhã e voltávamos na hora do almoço291.
O pintor João Pinto, em entrevista concedida a Rosana Bitar na década de 1980, também relembrou saudoso aqueles momentos:
O velho e sacolejante ‘Camião’ de Ruy Meira, naquelas idas para o Utinga, nos conduzia a uma verdadeira porfia artística, onde o desejo de criar fazia esquecer a fome, pois o pão era apenas o do espírito. Mas, valia pela alegria daqueles momentos de afirmação de um
291 FRAZÃO, Adolpho Cléodon Ribeiro. Entrevista concedida a Maria Angélica Meira. Belém, 22 fev.
objetivo que era disputado com os maiores sacrifícios [...] com a força de um ideal292.
Um total de seis imagens, datando as primeiras do ano de 1944, compõem a documentação fotográfica referente ao registro das atividades dos pintores nas matas do Utinga, e se constituem como fonte primária de pesquisa para este trabalho. À três delas, pertencentes ao acervo do pintor Ruy Meira e já anteriormente apresentadas pela autora, no ano de 2008293, somam-se agora mais três registros fotográficos,
provenientes do espólio do pintor Arthur Frazão. Ressaltamos a importância de, nesse momento, retomar às primeiras imagens, que aqui voltam à tona acrescidas de novas informações e novos significados, estabelecendo diálogo e se complementando com os registros agora apresentados, compondo com estes um conjunto único e indissociável. Estas imagens, cuidadosamente posadas e com primor capturadas, que até então não tinham autoria, sabe-se agora se constituírem em mais um dos meticulosos trabalhos do fotógrafo Arthur Frazão. O Sr. Adolpho Frazão, enquanto rememora suas idas ao Utinga, declara: “Essa foto quem tirou foi o Frazão com aquela máquina de tempo. Aquela que programava o tempo. Hoje em dia é eletrônica, mas naquele tempo era mecânica, mas já existia. Essa bolsinha aqui é a máquina”294, diz ele, referindo-se à pequena bolsa pendurada no pescoço do pintor Arthur Frazão, que pode ser vista nas imagens.
Após uma análise mais acurada e para efeito de estudo consideraremos, a princípio, que esta série de registros possa se constituir em dois grupos de imagens. Ao primeiro, associamos três fotografias (Figura 54) (Figura 55) (Figura 56) que, ao que se pode deduzir a partir das indumentárias dos retratados e das características comuns dos registros, foram realizados em um mesmo dia. Qualquer domingo no ano de 1944, como afirmava Ruy Meira. Nestas os pintores se preocupam ao posar para as lentes de Frazão, formando um grupo equilibrado, de modo a eternizar aqueles momentos. O segundo grupo de imagens, menos homogêneo do que o primeiro, constitui-se também de três registros fotográficos (Figura 57) (Figura 58) (Figura 59). O primeiro deles (Figura 57) trata-se de uma tomada informal, onde os pintores aparecem dispersos, entretidos em suas atividades, sem preocupação com a
292 PINTO, João apud BITAR, Rosana. Arte e transcendência. Op. cit., p. 80. 293 Em: MEIRA, Maria Angélica. Op. cit., p. 88-91.
294 FRAZÃO, Adolpho Cléodon Ribeiro. Entrevista concedida a Maria Angélica Meira. Belém, 22 fev. 2014.
fotografia ou sequer se apercebendo dela. As duas outras imagens (Figura 58) (Figura 59), instantâneos realizados, ao que parece, com pouco tempo de intervalo entre um e outro e cuidadosamente concebidos por Frazão, trazem o mesmo ambiente da imagem anterior, a partir de um outro ângulo e aproximação. Pode-se supor que, os documentos deste segundo grupo de imagens, assim como sucedido no primeiro caso, também tenham sido realizados em uma mesma ocasião.
Figura 54: Caminhão de Ruy Meira. Matas do Utinga. Sentado sobre o capô, à esquerda,
Ruy Meira. De pé, no estribo do lado do motorista, Arthur Frazão, e na carroceria da esquerda para a direita, Joaquim Pinto, o garoto Adolpho Frazão, filho de Arthur, Benedicto Mello, o garoto Rubens
Pinho, filho de Oswaldo Pinho, que se encontra a seu lado, e João Pinto. Belém, 1944.
Fotografia: Arthur Frazão. Fonte: Arquivo RM
A primeira imagem (Figura 54), a mais icónica da série e a mais conhecida, traz o grupo de pintores e os dois meninos, distribuídos no caminhão de Ruy Meira, que os conduzia até lá. Nas duas que lhe seguem (Figura 55) (Figura 56), os mesmos pintores, agora com seus materiais de trabalho, cavaletes e banquinhos, exibem as obras acabadas de executar. Os pintores Ruy Meira, Arthur Frazão, Joaquim Pinto, Benedicto Mello, Oswaldo Pinho e João Pinto compõem esse grupo, que se faz acompanhar dos meninos Adolpho Frazão e Rubens Pinho, que para ali seguiam em busca de entretenimento.
Figura 55: Matas do Utinga. Da esquerda para a direita, Joaquim Pinto, Ruy Meira, João Pinto,
Oswaldo Pinho, Benedicto Mello e Arthur Frazão. Á frente, os garotos Rubens Pinho e Adolpho Frazão. Em segundo plano, e quase imperceptível por trás da vegetação, o caminhão de Ruy Meira.
Belém, 1944.
Fotografia: Arthur Frazão. Fonte: Arquivo RM.
Figura 56: Matas do Utinga. Da esquerda para a direita, João Pinto, Joaquim Pinto, Oswaldo Pinho, Benedicto Mello, Arthur Frazão e Ruy Meira. Sentados no alto, os garotos Adolpho Frazão e Rubens
Pinho. Belém, 1944.
Figura 57: Artistas pintam as ruínas do Murucutu. Matas do Utinga. À esquerda, sentado pintando,
Ruy Meira e à direita, também sentado, Arthur Frazão. Ao centro, à frente de Frazão, sentada em um banco, a pintora que se acredita ser Irene Teixeira. Em um segundo plano, à esquerda, as ruínas do
Engenho Murucutu. Belém, s/d.
Fotografia: Arthur Frazão. Fonte: Arquivo RM
O segundo grupo de imagens traz, em um primeiro momento, o registro de um grupo de pintores que, diferentemente do anterior, agora é formado por sete personagens. Seis pintores que, com seus tripés e banquinhos desmontáveis (Figura 57), encontram-se em plena atividade artística, dispostos como melhor lhes convinha pelo terreno e uma pintora que, ao que se pode perceber, trabalha sentada em uma espécie de banco de pedra, executando a obra que mantém sobre as pernas. Em um segundo plano, as ruínas do Engenho Murucutu. Deste grupo, até o momento, só nos foi possível identificar dois pintores: Ruy Meira, pintando sentado à esquerda da fotografia e Arthur Frazão, também pintando, o último à direita da imagem. Quanto à pintora, acredita-se ser Irene Dias Teixeira pois podem ser encontrados, no acervo do Museu de Arte de Belém – MABE, três trabalhos de sua autoria, ao que tudo indica realizados por ocasião daquelas porfias artísticas: um óleo sobre tela, Ruínas do
Engenho Murucutu, datado de 1952 e dois trabalhos a bico de pena Capela – Ruínas
do Murucutu I (fragmentos), Capela – Ruínas do Murucutu II (fragmentos), de 1951.
Caso essa hipótese venha a se confirmar, a este segundo grupo de imagens, até o momento sem data, se poderá atribuir os anos de 1951 ou 1952.
Figura 58: Arthur Frazão a pintar nas matas do Utinga. Ao fundo, as ruínas do Engenho
Murucutu. Belém, s.d.
Fotografia: Arthur Frazão. Fonte: Arquivo ACRF
Figura 59: Arthur Frazão a pintar nas matas do Utinga. Ao fundo, as ruínas do Engenho
Murucutu. Belém, s.d.
Os dois últimos registros fotográficos (Figura 58) (Figura 59) tratam-se de imagens meticulosamente produzidas por Arthur Frazão com o intuito de documentar seu trabalho de pintura. Com a câmera posicionada por trás de sua cabeça, naquele momento o fotógrafo Frazão ajusta-a de tal forma para que capte a sua imagem – a do pintor -, o quadro que está a fazer e o que lhe serve de motivo. Assim as imagens revelam, em um primeiro plano, o pintor Frazão de costas, sentado a pintar, a tela em execução suspensa em um cavalete e, ao fundo, as ruínas do Murucutu. Com uma pequena variação no posicionamento do artista, as duas fotografias guardam as mesmas características. Faz-se importante alertar que, ao observar o quadro em execução, nos chama a atenção o fato de Frazão se utilizar do modelo à sua frente, porém não o reproduzir fidedignamente. O pintor traça as edificações do engenho Murucutu, mas as livra da abundante vegetação que as encobria parcialmente. Também uma palmeira, que não é possível ver na fotografia, é acrescida à tela para melhor compor a obra. O que nos leva a vincular estas duas últimas imagens à anteriormente comentada, deve-se ao posicionamento de Arthur Frazão em relação ao grupo de artistas e ao monumento que estão a pintar. Acreditamos que, deslocando-se a câmera fotográfica do local da primeira tomada para trás do pintor, seria possível ter, em um segundo momento, exatamente as imagens capturas e aqui reproduzidas.