O objetivo inscrito neste ponto leva-nos a refletir sobre uma primeira questão: quem é o outro, ou, numa linguagem mais evangélica, quem é o próximo? Esta mesma questão terá sido colocada a Jesus por um doutor da Lei, a propósito do mandamento «amarás ao próximo como a ti mesmo» e terá suscitado, como resposta, a parábola do «bom samaritano» (Lc 10, 25-37). Através desta parábola Jesus torna claro que o próximo é alguém que não se limita às pessoas do nosso círculo de proximidade ou de identidade, mas a todas as pessoas, a todos os que, de uma forma ou de outra, necessitem da nossa ajuda, da nossa proximidade e da nossa compaixão. Ele quer que renunciemos à nossa comodidade que nos mantem distantes da realidade e das necessidades dos outros e quer que os aceitemos com solidariedade, “quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros”223. Através desta parábola, Jesus universaliza o conceito de próximo estendendo-o a todos os seres humanos, e propõe a caridade como um amor concreto, comprometedor, um amor de ação efetiva e de dádiva, um amor que leva à identidade e à proximidade sobretudo para com os mais frágeis e necessitados224. Um amor como Ele próprio praticou e como é retratado ao longo dos Evangelhos, que ajuda todo o cristão a olhar o outro não com as nossas limitações, receios e conveniências, mas com a abertura e a transcendência por Ele propostas. Para os crentes, este amor ao próximo está intimamente ligado ao amor a Deus e é um caminho para O encontrar225.
A centralidade do homem no pensamento social cristão leva a que esta reflexão sobre o próximo surja com frequência nos vários documentos pontifícios, demonstrando uma preocupação da Igreja, em cada
221 João Paulo II (1979), “Redemptor Hominis”, n.º 16, em Peter Stilwell (coord.), Caminhos da Justiça e da Paz, Doutrina Social da Igreja, Documentos de 1891 a 1991, Lisboa, Rei dos Livros, p.520.
222 Bento XVI (2009), op. cit., n.º 25, p.37. 223 Francisco (2013), op. cit., n.º 270, p.178. 224 Bento XVI (2005), op. cit., n.º 15, p.29. 225 Idem, n.º 16-18, pp. 31-34.
tempo, de atualizar e adequar a sua mensagem aos problemas reais da questão social contemporânea. Dos graves problemas sociais e dos direitos dos trabalhadores da Revolução Industrial, no discurso de Leão XIII, às questões atuais dos marginalizados e descartados da sociedade e à necessidade de cuidar da casa comum, referidos por Francisco, a DSI acompanha as problemáticas de cada tempo, denuncia as injustiças e propõe soluções à humanidade e, sobretudo, caminhos concretos à Igreja, na perspetiva do encontro e serviço ao próximo, o qual não é visto apenas como um ser humano, pleno de direitos e igual aos demais, mas visto, pelos crentes, como imagem viva de Deus Pai226.
O amor ao próximo, a caridade, a par da celebração dos Sacramentos e do anúncio da Palavra, é missão e um dever da Igreja na sua globalidade e deverá expressar-se na ação concreta das comunidades e de cada cristão na sua vida. O «amor preferencial pelos pobres», que referimos anteriormente, é a expressão concreta da caridade cristã e diz respeito à vida e à atitude de cada cristão, de cada comunidade, às responsabilidades sociais de cada um e de todos e às opções sobre a forma como gerimos os bens, na perspetiva individual e comunitária. Cuidar do outro implica a sensibilidade e a atenção relativamente à questão social, quer na sua dimensão mundial quer na realidade mais próxima e imediata227.
Francisco, dirigindo-se à Igreja, através da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, aprofunda esta questão da opção pelos pobres e refere que eles são o centro do caminho da Igreja. Cuidar do outro é acolher e ouvir o pobre, compreender as suas necessidades e ser a sua voz, aprender com a sabedoria que Deus quer comunicar através dele. Não é apenas um conjunto de programas ou projetos de assistência tecnicamente bem elaborados, mas sobretudo a capacidade de estar no lugar do outro e a partir dele e com ele, traçar soluções para a sua promoção, procurando efetivamente e exclusivamente o seu bem. Na continuidade dos seus antecessores, Francisco chama a atenção para o facto de que na Igreja “ninguém pode sentir-se demitido da preocupação pelos pobres e pela justiça social”228. De uma forma bastante clara, Bento XVI, em Deus Caritas Est229, caracterizou o que deverá ser a atividade caritativa da Igreja, dando destaque ao que a diferencia da organização assistencial comum. Esta diferenciação não tem qualquer intenção de menosprezar o trabalho que é feito pelas muitas instituições no terreno, com as quais a Igreja colabora em parceria e em rede e que são referenciadas pelos seus princípios humanistas e solidários pelos próprios pontífices, mas procura apenas afirmar a identidade do trabalho da Igreja através das suas organizações caritativas.
Uma primeira característica que é referida, surge na linha imediata da interpretação da parábola do Bom Samaritano - a caridade cristã como resposta imediata às situações de emergência da sociedade. Trata-se de uma intervenção de assistência na linha evangélica (Mateus 25, 31-46) de dar de comer e beber a quem tem fome e sede, vestir os nus, visitar os doentes e os presos, que na realidade atual será complementada com o cuidar dos sem-abrigo e dos toxicodependentes, visitar os idosos em
226 João Paulo II (1988), op. cit., n.º 40, p.95. 227 Idem, n.º 42, p.102.
228 Francisco (2013), op. cit., n.ºs 197-201, pp.137-140. 229 Bento XVI (2005), op. cit., n.ºs 31-35, pp.59-67.
situação de isolamento, acolher as vítimas da violência doméstica e as adolescentes grávidas, recolher roupas e agasalhos para os refugiados da Síria, etc. Trata-se de cuidar dos mais frágeis da Terra, como refere Francisco, daqueles que ficam à margem da sociedade do êxito e do individualismo230. É necessário que este cuidado seja feito com as competências profissionais que se exigem aos serviços prestados, mas Bento XVI realça a necessidade de uma outra componente fundamental, a humanidade, a atitude de dedicação e entrega ao outro, o amor ao próximo231.
Uma segunda característica da atividade caritativa da Igreja é a de que deve ser independente de partidos e ideologias. O programa que a Igreja propõe, como referimos, é o do Bom Samaritano, mas em que “à espontaneidade do indivíduo é preciso também acrescentar a programação, a previdência, a colaboração com outras instituições idênticas”232. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, quando clarifica a função da Igreja no mundo, refere que a sua missão não é de ordem política, económica ou social233, ou seja, como reafirma mais tarde João Paulo II, “ela não propõe sistemas ou programas económicos e políticos, nem manifesta preferências por uns ou por outros, contanto que a dignidade do homem seja devidamente respeitada e promovida e a ela própria seja deixado o espaço necessário para desempenhar o seu ministério no mundo”234.
Uma outra característica do amor cristão, que terá de estar presente na ação da Igreja, é a sua gratuitidade, ou seja, não se procuram outros fins senão promover o bem do próximo. Embora na ação da Igreja esteja subjacente Cristo, ainda que implícito na forma de servir, no testemunho, nas motivações, na doação e entrega dos cristãos, a fé não se impõe nem é moeda de troca235. O serviço cristão é prestado a todo o homem e mulher, independentemente da sua cultura, raça ou credo e, precisamente, no respeito pela sua própria identidade.
Cuidar do outro, segundo Francisco, não é algo adicional ou apenas um momento nas nossas vidas. “É preciso considerarmo-nos como que marcados a fogo por esta missão de iluminar, abençoar, vivificar, levantar, curar, libertar”. É uma missão em que é necessário assumir “no mais íntimo do seu ser, estar com os outros e ser para os outros”236. Como referimos, cuidar do outro, como expressão do amor pelo próximo, realiza-se através da ação individual de cada cristão, mas deverá ser assumida de forma coletiva através da «ação social da Igreja», referida numa Instrução Pastoral emitida pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) em 1997, como “o conjunto de atividades realizadas no âmbito da justiça e da caridade”237.
A Igreja Católica em Portugal, através da CEP, tem publicado um conjunto de documentos de reflexão e orientação sobre esta questão, interpelando as comunidades cristãs e os cristãos individualmente, “a
230 Francisco (2013), op. cit., n.ºs 209-216, pp.144-148. 231 Bento XVI (2005), op. cit., n.º 31, p.61.
232 Idem.
233 Vaticano II (1965), op. cit, n.º 42, p.320. 234 João Paulo II (1988), op. cit., n.º 41, p.99. 235 Bento XVI (2005), op. cit., n.º 31, p.62. 236 Francisco (2013), op. cit., n.º 273, p.181.
intensificarem os seus esforços e compromissos nesta tão importante área pastoral”238. Destes documentos destacamos, por serem os mais atuais, a referida “Instrução Pastoral sobre a Ação Social da Igreja” e os “Princípios e Orientações da Ação Social e Caritativa da Igreja”239, um documento mais recente que reafirma os princípios estruturantes da DSI que abordámos neste capítulo, atualiza o tema referindo as relações entre a Igreja e o Estado à luz do que está estabelecido na Concordata de 2004 e clarifica sobre o papel e autonomia da Igreja na área social. Este documento, refere, nomeadamente, a possibilidade de intervenção sob a figura dos acordos de cooperação existentes para o sector social, que são normalmente negociados com as estruturas, Uniões e Confederações, representativas das IPSS.
238 Idem.
239 Conferência Episcopal Portuguesa (2005), Princípios e Orientações da Ação Social e Caritativa da Igreja,